Acordei de certa forma renovada naquele final de semana. Não era como se tudo tivesse desaparecido, e como se fosse fácil demais agora que haviam comprovações — Como se não houvesse implicações óbvias anteriormente, claro — de que nada aconteceria.

Eu tinha sonhado com André aquela noite. Lembrei que sem querer aparentemente tinha feito alguém sofrer por alguma lembrança. Eu acho que de qualquer forma, se ele não ligou, ele precisava de um tempo pra pensar. O problema é que esse tempo já tinha durado tempo demais. Mesmo que eu não fosse ficar com ele, acho que eu precisava de alguma satisfação. Precisava entender o que ele sentia pra poder ajudá-lo de alguma forma.

– Alô? — Eu disse, quando alguém falou do outro lado da linha após eu ter discado os números corretos.

– Sim?

– André, é você? — Perguntei, como se não soubesse.

– Sim, sou eu — Ele respondeu. — Quem é?

– Sou eu, Aline — Eu tentei parecer um pouco empolgada -, tudo bem com você?

– Ah, oi, Aline — Ele disse, de forma meio estranha. — Tudo sim, e contigo?

– Tudo bem também. Você sumiu.

– É, eu sei — Ele disse, ainda desanimado. — Escuta, você tem algum tempo? Preciso conversar com você.

– Claro, quando você pode?

– Eu saio da loja hoje umas 19 horas — Ele disse;

– Te encontro lá de damos uma volta no shopping?

– Demais.

Eu estava ansiosa. Não exatamente porque íamos sair, mas porque eu estava morrendo pra saber o que tinha acontecido com ele. Não sabia se era bom ou ruim, mas minha cabeça realmente não estava me focando nessa parte. Não faço ideia do porque.

Fiquei no computador à tarde inteira no Tumblr para conseguir não pensar naquilo. Pensei ainda mais.

Quando a hora finalmente chegou, me arrumei rapidamente e corri para pegar o ônibus. Pus os fones de ouvido e os minutos passaram rapidamente pela janela. As nuvens juntavam-se numa massa negra no céu praticamente no dobro da velocidade.

Chegando lá, vejo André terminando de fechar a loja. Ele sorri pra mim levemente, e até parece mais bonito.

– Oi, Aline! — Ele disse, parecendo mais empolgado do que mais cedo.

– André! — Exclamei — Que saudade!

Ficamos nos cumprimentos formais enquanto procurávamos algum lugar para sentar e conversar. Normalmente ofereceria para irmos ao teatro ou ao cinema, mas não teríamos muito tempo para conversar e ficaríamos na mesma.

Sentamos numa lanchonete que tinha por ali, pedimos o que queríamos comer — Eu estava morta de fome, quase não almocei direito por causa da ansiedade — e então, depois de jogar muita conversa fora, tomei certa coragem pra falar.

– Então, André.

– O que foi?

– Está muito legal ficar aqui conversando com você. De verdade — Balancei a cabeça. — Mas você não acha que precisamos conversar sobre o que aconteceu?

– E o que aconteceu mesmo?

– Bom, estávamos indo bem, aí eu acho que falei alguma coisa e você simplesmente sumiu.

– Eu não sumi — Ele tentou se defender.

– André — Fiz cara de cética.

– Tudo bem, olha — Ele apoiou os braços na mesa pela primeira vez. Vi no grande relógio preto em seu pulso que a comida estava demorando, então fiquei um pouco irritada. — O fato é que você não é garota pra ficar.

– Como é, André? — Fiquei mais irritada.

– Desculpa, me expressei mal — Ele limpou a garganta. — Você não é garota pra simplesmente ficar, entende? Você não fica passando de um cara pro outro sem se preocupar com o que vem depois.

– Não que eu esteja procurando de fato pelo meu futuro marido, mas eu não fico numa coisa que não vai a lugar nenhum.

– Exatamente — Ele concordou.

– Tudo bem, o que tem de errado nisso? Não estou te acompanhando.

– Não tem nada de errado nisso — Ele continuou. — Na verdade é perfeito.

– Então por que isso tudo?

– O caso é que, há pouco tempo atrás, eu namorava uma pessoa.

– Sim? — Tentei não demonstrar que o fato dele ter dito "pessoa" ao invés de "garota" me incomodou profundamente devido às circunstâncias.

– Bom, muitos dos meus amigos achavam ela muito bonita e ela...

– Ela te traiu?

– A história é um pouco mais longa do que isso.

– Então me conte.

– Você tem certeza que quer ouvir?

– Eu não perguntaria se não quisesse, não é?

– Tá beleza. Escuta. Essa menina que eu namorei há um tempo era meio...

– Piranha. — Completei.

– Sim. E ela...

– Te traiu com seus ditos amigos — Completei de novo.

– Sim, só que...

– Ela prometeu a você que era uma pessoa diferente cada vez que você descobria que ela te traía — Completei outra vez.

– Você quer contar a história?

– Sinto muito, eu...

– Tudo bem, desculpa, eu é que fui grosso.

– Continua, por favor? — Pedi.

– Bom, fiquei muito tempo com ela e não consegui mais engatar em um relacionamento depois daquilo, porque eu não consigo confiar nas garotas.

– Nenhuma garota?

– Bom, não as bonitas.

– Com bonita você quis dizer gostosa? — Brinquei.

– Se você preferir o termo — Ele riu.

– Na verdade não, mas eu tenho um melhor amigo que...

– Ele entende relativamente bem os dois lados e te contou muita coisa — Ele me completou.

– Por aí. Sua vez de me completar?

– Por aí.

O momento passou e nossa comida chegou, então ficamos um tempo quietos e absortos em nossos próprios pensamentos.

– André, você pensava em ter algo comigo?

– Bom, eu...

– Sim?

– É que eu tinha uma quedinha por você.

– Tinha?

– Você realmente vai forçar a barra, né? — Ele falou e riu.

– A gente fala de outra coisa, então.

– NÃO! – ele exclamou – Quer dizer, não, Aline.

– Então para de ficar fugindo do assunto, André.

– Eu não estou fugindo!

– Claro que está! — Continuei — Você não fala comigo há semanas porque não queria me contar isso.

– É diferente!

– Não é não, André. Você não confiou em mim e se eu não ligasse sabe-se lá se eu te veria novamente.

– Eu sinto muito, eu só precisava de um tempo pra mim.

– É, eu entendo isso, mas você podia ter me avisado! Sabe o quão preocupada eu fiquei?

– Ficou preocupada comigo?

– Liguei pro Marcelo e tentei forçar ele a te perguntar coisas. Só não te liguei porque...

– Porque eu fui um bundão e fiz você achar que eu não queria me ver nunca mais, não é?

– Você não foi exatamente um bundão...

– Fui sim. E agora eu estraguei algo que podia ser ótimo.

– Não estragou.

– Por que eu sempre faço isso?

– Não faz.

– Por que eu sempre tenho que estragar todas as coisas boas que acontecem comigo?

– Não estragou.

– E eu ainda conheço você desde criança. Não é como se eu tivesse te conhecido ontem e já quisesse te namorar.

– ANDRÉ! — Gritei.

– O que foi?

– Você não estragou nada.

– Só fui cabeça dura com algo que não tem nada a ver contigo.

– Isso é verdade, mas não importa.

– Você pode me perdoar?

– André, eu já te perdoei.

– Tem certeza?

– Você quer que eu volte a pensar? — Levantei uma sobrancelha, brincando.

– Ta bom, vai — Ele disse, e riu comigo.

– Então, qual era a história do "quisesse namorar"? — Eu ri.

– Deixa pra lá! — Ele disse, e levantou correndo pra pagar a conta.