A semana finalmente havia terminado e a próxima estava começando ansiosamente, então estávamos oficialmente na última semana de aula. Quer dizer, isso pra quem não estava de prova final.

Débora ficou de recuperação por apenas um ponto e xingou metade das pessoas existentes no planeta, mas depois de um tempo se conformou. Claro, isso depois de eu ter dito um milhão de vezes que a ajudaria a estudar (DE GRAÇA!) e que ela iria passar.

Meus pais me levaram na quarta-feira à noite para jantar, porque era meu aniversário, finalmente. Além disso, eles me parabenizaram pelas minhas notas perfeitas – Acho inclusive que minha mãe desejava secretamente que eu não arrumasse um namorado nunca — e até se ofereceram para comprar os pratos novos para a minha bateria. É ÓBVIO que eu não ia reclamar.

O que eu não imaginava é que o jantar acabaria sendo bem importante. Para qualquer um seria um jantar simples com os pais, onde você se empanturraria de comida e conversaria até o assunto acabar (o que não demoraria muito, tendo em vista que os acontecimentos recentes não seriam muito apropriados).

O fato é: eles convidaram Marcelo e até a Débora para virem conosco. Débora não pode vir, o que eu já imaginava, porque sua mãe estava desesperada e com medo dela repetir (como se fosse o fim do mundo ir para a prova final, mas enfim...).

Quando Marcelo chegou, ele estava completamente arrumado, como se tivesse acabado de sair de uma conferência. Incrivelmente, eu nem liguei para isso tendo em vista o GATO que veio com ele. Quando o vi, todos os filmes da Disney – De forma mágica, é claro – passaram a fazer TODO sentido, principalmente quando aqueles olhos cor de mel encontraram os meus e... Parei.

- O que é isso? – Perguntei a Marcelo.

- Ah, é que eu acabei de voltar de uma festa com meus pais e... – O cortei.

- Isso não, idiota – Falei, balançando a cabeça.

- Ah, ele? – Marcelo perguntou, como se não entendesse – É meu primo, André. Não lembra dele?

- Eu o conheço por acaso?

- Claro que sim! – Ele disse, como se eu fosse burra – Daquela minha festa!

- Marcelo – Eu tentei dizer, calmamente. – Você não faz uma festa há mais de 4 anos!

- Só por isso você não pode lembrar? – Ele continuou – eu lembraria.

- Claro que lembraria – Revirei os olhos e nem fiz questão de discutir com ele.

- Acha que pode dar certo? – Ele me perguntou, instantes depois.

- O que? – Perguntei, perdida.

- Você e ele.

- Eu e seu primo?

- É.

- Dar certo? – Perguntei – DAR CERTO?

- Fiz algo errado...?

- ERRADO? – Exclamei enquanto cochichava – Eu estou me segurando pra não me jogar em cima dele!

- Rawr – Ele brincou, sem graça.

- O que você tem, Marcelo? – Perguntei, diante da estranheza dele.

- Como assim?

- Você está estranho – Eu disse, levantando as sobrancelhas. – Não adianta tentar me esconder.

- Tudo bem, é o seguinte.

- Sim.

- Vou contar hoje.

- Vai o que?

- Vou contar aos seus pais hoje.

- Não vai não – Eu disse, agarrando o braço dele.

- Vou sim.

- Não, não vai.

- Vou.

- Não vai.

- Vou.

- Não vai não!

- Aline? – Meu pai se meteu, de repente.

- O que é? – Eu respondi, meio grossa.

- Que amor – Meu pai disse, meio irônico. – Só ia te perguntar se não queria dar uma volta com seus amigos depois. Eu te pego depois.

- Sério pai? – Eu perguntei, meus olhos quase brilhavam.

- Claro que sim – Ele sorriu.

Eu levantei e abracei o meu pai, apesar de ainda estar com a cabeça em outro lugar. Ele e minha mãe conversavam agora com o tal primo do Marcelo, tentando distraí-lo enquanto eu e ele discutíamos.

- Por favor, Marcelo, não conte hoje a eles – Eu continuei dizendo, baixinho.

- Eu preciso. Tomei minha decisão – Ele ficou sério. – E já fiz o Igor esperar tempo demais pra isso, Aline. Tenta entender.

- Por favor, Marcelo! – Implorei a ele – E se eles não me deixarem sair?

- Por que não deixariam?

- Eu não sei como eles vão reagir a isso!

- Vai dar tudo certo – Ele tentou me tranquilizar, enquanto pegava meu rosto e me dava um beijo de leve.

Filha da puta, se eu não tivesse derretido naquele momento eu juro que...

- Tio Henrique? Tio Laura? – Ele os chamou – Preciso conversar com vocês.

- Sim, querido? – Minha mãe olhava para ele, sorrindo, com aquela aprovação que ela sempre lhe deu.

- Já faz algum tempo que eu escondo algo de vocês... – Ele continuou.

Comecei a suar frio e o chão de repente parecia ter sumido. Eu não sabia o que ia acontecer e sabe de uma coisa? Eu detestava não saber o que ia acontecer, e esse era o pior sentimento pra mim.

- Inclusive escondi isso da Aline por um tempo, mas agora que ela sabe, quero contar a verdade, em respeito ao tempo que nós nos conhecemos e que vocês me apoiaram.

Será que minha mãe vai me proibir de vê-lo, com medo de que eu mude minha sexualidade? Será que não vão mais deixá-lo me visitar ou algo assim? Será que nunca mais vão deixá-lo ir àquelas reuniões familiares irritantes que eu sempre fico mofando?

- E sinceramente espero que nada mude daqui pra frente.

- Nossa, Marcelo, aconteceu alguma coisa? – Minha mãe perguntou, até meio preocupada – Pode dizer.

Ah meu Deus, é agora. É isso. Perdi meu melhor amigo. Como ele pode fazer isso? Era muito melhor ter deixado isso quieto. Como vou ficar sem meu melhor amigo agora? Com quem vou pode contar meus problemas ou mesmo rir sem motivo nenhum? Vou demorar anos pra achar um amigo como ele. Se é que vou achar algum assim.

- Eu sou... – Agarrei o braço dele, tentando fazê-lo parar uma última vez. Ele balançou a cabeça em tom negativo – Eu sou gay.