Sendo Aline
12 Capítulo 12
- Não, Débora – Eu tentava -, o trabalho escravo no Brasil ainda existe até hoje, só que de diferentes formas.
- Mas ele não é proibido?
- Claro que é! Mas isso não quer dizer que não aconteça.
- Mas se é proibido, não deveria, não é?
- Sim, mas acontece assim mesmo. Não vivemos num país perfeito.
- Nos outros lugares ainda acontece?
- Sim, em muitos ainda acontece.
- Do mesmo jeito que aqui? – Ela insistiu.
- Não, todo lugar deve ter uma forma diferente – Continuei.
- Você não sabe?
- Não sei de que forma acontece em cada país. E não importa, não vai cair na prova.
- Tudo bem...
Era difícil. Eu não levava o menor jeito e me estressava a cada vírgula. Quem inventou essa droga de estudo em grupo e colocou essa bosta na cabeça das pessoas dizendo que era a melhor forma COM CERTEZA não pensou em pessoas como eu.
Minha mãe ficou feliz da vida quando avisei que demoraria a chegar em casa porque ficaria na escola. Não que ela achasse que eu precisava estudar, mas aí ela acreditaria que eu estaria distraindo a minha cabeça. O que de certa forma estou, pra falar a verdade.
O fato é: Estou fazendo isso pelo Marcelo. Um pouquinho também pela Débora, mas bem mais pelo Marcelo. Não que eu não tenha ido com a cara do Igor, porque eu fui, mas não estou gostando nada dessas aparições misteriosas dele por aqui.
Eu sei que deveria me sentir bem só fazendo uma coisa boa pela minha amiga, mas definitivamente não me sinto. Só sinto raiva por gostar tanto do Marcelo a ponto de fazer isso.
- Então, você sabe algo do Igor? – Perguntei, em meio ao nosso estudo.
- Na verdade não, mas depois que você me contou da história dele e do Marcelo fiquei meio desconfiada por vê-lo todos os dias aqui no corredor.
Eu não havia contado nada a ela sobre estar desconfiada, mas se não dei a entender, ela realmente tem uma percepção incrível.
- Eu também fiquei bastante.
- Imaginei que você estivesse preocupada.
- Por quê?
- Por nada, você só parece... – Ela fez uma pausa, como se procurasse a palavra certa.
- Parece? – Tentei forçar.
- Bom, vocês são amigos há bastante tempo. Você tem um carinho gigantesco por ele, e acho que não quer vê-lo sofrer – Ela disse, olhando para a folha. – E também tem o fato de que você está dando muito na cara quando olha o Igor fixamente enquanto ele passa.
- Sério? – Perguntei, meio aturdida por não ter notado.
- Sério.
- Obrigada, espero que mais ninguém tenha notado.
- Não se preocupe, acho que ninguém notou – Ela continuou. – E se notou, no máximo acham que você quer pegar ele, o que não é um problema já que... Você sabe...
- Sim – Ri, meio triste.
- Posso te fazer uma pergunta? – Ela disse, agora olhando para mim.
- Pode, pode sim – Eu respondi.
- Você gostava do Marcelo? – Ela perguntou, me pegando de surpresa – Não digo agora talvez, mas já gostou dele de outra forma alguma vez?
- Eu... – Não conseguia mentir, de tão legal que ela havia sido comigo esses dias – Eu o amo.
- Agora?
- Sim.
- Quando ele te contou que é gay.
- Sim.
- Quando ele te contou que está namorando o Igor.
- Sim. Mais alguma dúvida?
- Não – Ela disse, se acalmando – Desculpa.
- Tudo bem. Me desculpa também. Não tinha contado a ninguém sobre isso ainda.
- Puxa...
- O que foi? – Perguntei, diante da surpresa dela.
- É que não achei que você confiasse em mim dessa forma.
- Como assim?
- Achei que eu fosse só sua amiga de escola, que te distrai durante o dia, conta as novidades e fim.
- Não costumo ter muitos amigos ou me abrir facilmente.
- Eu sei que não. Você só fala comigo, praticamente.
- É – Eu disse, pensando no Marcelo por causa do “praticamente” -, pois é.
- Desculpe – Ela disse de novo. – Pode contar comigo, se precisar.
- Eu sei disso.
- Eu normalmente não te ligo todos os dias porque não quero incomodar, mas eu te adoro, Aline.
- Eu também te adoro – Começava a chorar. – Desculpa, eu sou uma imbecil!
- Claro que não, Aline! – Débora me abraçou – Por que você tá falando isso?
- Porque eu não fui sua amiga.
- Claro que foi.
- Não, não fui. Não te dei o crédito merecido e você tá me ajudando tanto ultimamente – As lágrimas corriam, mesmo quando tentei me esconder deitando sobre meus braços em cima da mesa.
- Claro que não, Aline! – Débora dizia – Tá tudo bem.
- Não tá não, eu sou uma pessoa horrível... – Eu continuava – Eu nem queria te ajudar com o estudo hoje.
- Ah, não esquenta não, eu não teria me ajudado. Estudar comigo é um porre. Por que você acha que eu não faço?
Não consegui parar de rir até o final daquele dia.
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