Sempre te amei.
48 Sangue e um trato.
Notas iniciais
Por João Lucas.
Há um homem caído ao lado dos meus pés. Ele está morto. Foi um dos capangas do meu pai que atirou nele.
O silêncio reina no galpão, até que o Comendador começa a gritar: "Isso não podia ter acontecido" "Não combinamos assim.." E sei lá mais o que. Não consigo prestar atenção. Meus olhos estão fixados em Eduarda.
Minha mulher está caída do chão, sangrando... Parece morta!
Não consigo me mexer, minhas pernas não se movem. Estou em estado de choque. Fico ali paralisado, encarando Du, procurando algum sinal de vida, até que vejo Josué entrando no galpão e correndo para socorrer minha esposa.
O que estou fazendo? Meu Deus, eu tenho que reagir!
Corro pra perto de Eduarda e me abaixo para escutar seu coração. Ele ainda bate. Ela está viva!
JL: Eu pensei que ela tivesse... — Corto minha frase no meio. Não suporto nem falar isso.
Pego Du no colo, com ela ainda desmaiada, e corro pro carro.
J: Você não pode dirigir assim, tá transtornado... — Diz Josué.
Nem me dou o trabalho de responder. Coloco Eduarda deitada no banco de trás e corro para me sentar na frente, no lugar do motorista!
Não consigo pensar em mais nada. A única coisa que quero é chegar no hospital o quanto antes.
Ligo o carro e antes que eu arrancasse, escuto a porta de trás de abrindo.
J: O Comendador ia querer que eu fosse com vocês! — Diz Josué. — Mas anda logo. Pisa fundo nesse acelerador!
Arranco com o carro e dirijo numa velocidade nunca alcançada antes. Nem sei como estou conseguindo manter meu automóvel na pista certa.
Infelizmente, estamos longe da cidade, consequentemente, longe de um hospital.
Olho pro banco de trás e vejo Josué rasgando a blusa de Du, deixando-a só de sutiã.
JL: Que isso cara? — Pergunto.
J: Ela ta perdendo muito sangue. Vou tentar estancar!
Meus olhos estão marejados, as lágrimas insistem em descer e eu sempre as enxugo. Não posso chorar, isso atrapalha minha visão. E eu não vou me dar ao luxo de sofrer um acidente. Isso seria fatal pra todos nós.
JL: Ela ta respirando? — Pergunto. — Por que não acorda?!
J: A Du ta viva! Calma, só dirige...
JL: Mas por que ela não acorda? — Digo, quase gritando.
J: Ela bateu a cabeça muito forte quando caiu! É melhor assim, estaria sofrendo agora. Desse jeito, ela não sente dor...
O caminho que fiz com Du, para chegar até o galpão, durou cerca de uma hora e meia. Já a volta, estou fazendo em menos de 40 minutos.
Felizmente Josué conseguiu estancar o sangue. Mas mesmo assim, Du já tinha perdido muito.
Quando chegamos estaciono o carro, ou melhor, o deixo no meio da rua, e pego Du no colo. Entro correndo no hospital e Eduarda é logo socorrida pelos médicos.
Eles já nos esperavam, graças a ideia de Josué de ligar avisando da nossa chegada.
Vejo os enfermeiros levando minha esposa corredor adentro, e finalmente me sento em um sofá, e me permito chorar.
Choro como nunca chorei antes. Lágrimas de medo, tristeza, de desespero...
Josué se senta ao meu lado e fica me olhando em silêncio. Nunca pensei que o braço direito do meu pai seria tão importante agora.
JL: Muito obrigada, cara... Se não fosse você, eu nem sei!
J: Eu te vi crescer guri, você pode sempre contar comigo! Além disso, tenho certeza que seu pai me pediria isso. Só não teve tempo...
JL: Cadê ele? — Digo, tentando parar de chorar.
J: Ele ficou lá. Vai interrogar os bandidos. Tentar saber quem está por trás deles... E claro, vai cuidar dos seus filhos!
JL: Meus Deus! — Digo me levantando do banco. — Meus filhos, eu não...
J: Calma! Eles devem estar bem. Teu pai vai dar um jeito de traze-los aqui.
Me sento novamente, e colocando meus cotovelos sobre a coxa, tento me acalmar.
Eu preciso da minha mãe, da minha família aqui! Pego meu celular e ligo para Maria Marta.
O telefone chama algumas vezes, até que escuto a voz dela, muito sonolenta.
MM: Você me ligando a essa hora meu filho... Aconteceu alguma coisa?
JL: Mãe... — Digo, chorando. — Eu preciso se você, a Du, ela ta morrendo... Eu não sei, ninguém fala nada!
MM: Como assim Lucas, onde você tá?
Passo o endereço do hospital e minha mãe diz que virá o mais rápido possível. Pela hora que é, certamente virá com algum de meus irmão. Seu motorista não está mais em casa.
Em menos de 30 minutos, escuto a voz de Marta me chamando. Corro pros seus braços e ela me abraça apertado.
MM: Me explica o que aconteceu meu filho...
JL: Agora não mãe, por favor!
MM: Tudo bem! — Diz passando a mão em minha cabeça.
Olho pro lado e vejo que todos os meus irmãos vieram. Até mesmo Cristina... Ela vem me abraçar, e diz em meu ouvido.
C: Nosso pai me ligou contando tudo, vim o mais rápido possível. — Cris se afasta de mim, e pergunta: — E a Eduarda, como está?
JL: Eu não sei. Não vieram falar nada... Mas to com medo! Ela chegou aqui desacordada. Perdeu sangue, e a gente tinha doado hoje cedo... — Digo chorando.
MC: Vai ficar tudo bem maninho, a Du é forte! Você vai ver...
JP: Onde foi o tiro Lucas?
JL: Perto do coração...
JP: Mas por que? Foi uma tentativa de assalto, ela reagiu?
JL: Mas que saco! — Grito. — Dá pra parar de fazer perguntas?! Não estão vendo que eu não estou em condição de responder? Só quero um abraço, e que me digam que vai ficar tudo bem!
Meus irmãos ficam em silêncio, e minha mãe vem me abraçar novamente. Me sento ao lado de Josué, e Marta fica o encarando.
MM: O que você ta fazendo aqui? — Diz olhando a blusa dele, suja de sangue. — Tu estava com eles?
J: É como seu filho disse Dona Marta, perguntas agora não...
Todo mundo se senta, e ficamos em silêncio aguardando notícias. Quando o meu choro fica um pouco mais barulhento, meus irmãos dizem algumas coisas, daquelas bem clichês: "Notícia ruim chega rápido, ela deve estar bem..."
Alguns minutos se passam, até que o celular de Cristina toca e ela sai pra atender.
MC: Podia pelo menos ter desligado o telefone... — Clara diz, a repreendendo.
Fico calado, olhando para minhas mãos, até que escuto um grito de pavor vindo da boca de minha mãe.
Levanto meus olhos, e vejo o motivo: Meu pai.
Ele está com Alfredinho no colo e Cristina encontra-se a seu lado, segurando Martinha.
Meus irmãos estão de boca aberta. Olho Maria Clara e ela está começando a chorar.
Eles correm para abraçar meu pai, mas ele se esquiva e diz:
JA: Meus netos, eles não acordam...
Ao ouvir isso, corro para perto de meus filhos e me lembro do que os bandidos disseram: "Demos calmantes a eles..."
JL: Pai, eles estão vi...
JA: Estão! — Diz cortando minha frase. — Mas não acordam! — O Comendador está chorando.- Eu ia deixa-los em sua casa, mas eles não acordam...
Chamo as enfermeiras e logo meus filhos são levados para fazerem exames.
As três pessoas mais importantes da minha vida estão dentro desse hospital. Sem o meu olhar protetor! Sem eu saber notícias deles...
Quando os bebes foram levados, uma enxurrada de perguntas começou. Meus irmãos queriam saber como meu pai podia estar vivo e minha mãe chorava descompassadamente.
JA: Hoje não. Quando Eduarda estiver bem, eu explico... — Diz a eles.
O Comendador se senta a meu lado, e me dá um abraço apertado.
JA: Como você tá meu filho?
JL: Com medo, pai...
JA: Me desculpe. Não era pra ser assim! O plano era vocês pegarem os bebes, saírem e depois meus homens entravam e prendiam todos. Perdão...
JL: A culpa não foi sua!
J: Comendador, você não devia estar aqui... — Diz Josué.
JA: Eu sei, mas não pude deixar de vir. Tudo isso é culpa minha. Precisava dar um abraço em meu filho!
Todos estavam prestando atenção na conversa, na tentativa de começar a entender o que está acontecendo aqui.
Um médico vem em nossa direção e eu corro para falar com ele.
JL: A minha mulher, como está?
Dr: Felizmente a bala não perfurou nenhum orgão e...
Um coro com a frase: "Graças a Deus..." surge na recepção. Porém nossa alegria dura pouco, já que o médico continua a falar.
Dr: Mas o estado é grave! Ela bateu a cabeça muito forte no chão, ainda está desacordada. E precisa de sangue urgentemente.
JA: E o que vocês estão esperando? Façam a transfusão o quanto antes! — Diz meu pai.
Dr: Infelizmente não podemos. Não há o tipo sanguíneo dela aqui no hospital!
JL: Como assim, que droga de hospital é esse? — Grito.
Dr: Você não vê TV? Ouve uma tragédia, milhares de pessoas precisaram de sangue! Recebemos vários pacientes, a maioria precisou de transfusão!
JA: Mas vocês não podem ligar pra outro hospital, pedir sangue?
Dr: Todos estão enfrentando a mesma situação. O ideal é que alguém da família doe!
MM: Ótimo! A gente doa, qual o tipo sanguíneo dela? — Pergunta minha mãe.
JL: É O-... — Respondo. — Meus Deus... Só recebe de O-, né?
Dr: Infelizmente sim. Pessoas com esse tipo de sangue, podem doar pra todos e, só recebem de O-...
MM: Mas que azar! — Diz minha mãe. — E agora?
JL: Eu já sei... — Ao falar isso, saiu correndo rumo a saída.
Vou até meu carro e dirijo em alta velocidade. Preciso chegar o quanto antes na casa do meu sogro. Ele tem o mesmo tipo sanguíneo da Du. Preciso da ajuda dele.
Me lembro do nosso último encontro, ele jurou que nunca nos ajudaria.
Talvez tudo o que aconteceu seja culpa dele. Praga pega, estou começando a acreditar nisso...
Eu sei que vai ser difícil, mas irei convence-lo a me ajudar... A ajudar a Du! Não medirei esforços pra fazer isso!
Quando finalmente estaciono meu carro na frente da antiga casa de Eduarda, observo que todas as luzes estão pagadas. Olho no relógio e vejo que já passa das 4 da manha. Eles estão dormindo.
Desço do meu automóvel e começo a gritar o nome de meu sogro.
O chamo milhares de vezes, até que vejo um vidro se abrindo e uma mulher me olhando. É a mãe de Eduarda.
S: Ta louco? Isso é hora de vir na casa dos outros?!
JL: O seu marido? Cadê ele? Por favor...
Vejo uma porta se abrindo, e observo Fábio saindo de casa e vindo em minha direção.
Ele usava apenas um shorts bem largo e aparentava estar bravo.
F: Qual é? Ta maluco cara?!
JL: Seu sangue é O-?
F: Que pergunta é essa garoto! Tava se drogando? — Diz me encarando. — Se for, eu tenho uma das boas aqui em casa, posso pegar pra você...
JL: O que? Não... — Digo assustado. — Você vende drogas?
F: Você não quis me ajudar, tive que arranjar um jeito de levantar uma grana! Mas então, vai querer ou não?
JL: Não! — Grito. — To aqui porque preciso da sua ajuda. Sua filha ta internada, ela precisa de sangue urgente. Por favor...
F: Ta falando sério?
JL: Estou! Nunca brincaria com isso...
F: Você lembra do que eu disse quando vocês recusaram a me ajudar?
JL: Lembro.. — Digo abaixando a cabeça, para que ele não veja minhas lágrimas. — Você disse que um dia iriamos precisar de você, e que tu teria o maior prazer do mundo em dizer não.
Olho para ele e Fábio sorri.
F: Pensei que esse dia não ia chegar nunca... — Diz soltando uma gargalhada. — NÃO! — Grita. — EU NÃO VOU DOAR SANGUE PARA AQUELA INGRATA. — Eu vi o prazer que ele sentia em dizer aquilo, só por seu olhar. — Agora vaza daqui!
Fábio se vira, indo em direção a sua casa e eu vou correndo segurar seu braço.
JL: Você vai sim! Nem que eu tenha que te amarrar, mas tu vai!
F: Vou o cacete moleque. Me solta! — Diz me empurrando.
JL: É a sua filha cara. Meu Deus, você não pode ser tão ruim assim...
F: Ela já me disse que nunca me considerou como pai. Pois bem, eu também nunca considerei ela como filha!
JL: Por favor... — Falo me ajoelhando. — Eu te imploro!
F: Para de boiolisse cara! — Diz, rindo. — Boa noite pra você, eu vou voltar a dormir...
JL: Eu te dou o que você quiser! Tu ainda precisa de grana? Eu faço um cheque! Não importa quanto você queira! — Ele que estava andando em direção a porta, para pra me escutar. — Do que adianta você se vingar da gente e continuar pobre, em? Te dou 1 milhão, que tal? Podemos negociar...
Ele se vira pra mim e me encarando diz:
F: Dois milhões... Esse é meu preço! Dois milhões e a sua casa! Eu gostei dela...
JL: A minha casa? — Digo me levantando do chão. — Eu posso comprar outra pra você e...
F: Não! Quero a sua casa!
JL: Ok! — Digo respirando fundo. — A minha casa... Agora vamos!
F: Tem mais uma coisa!
JL: O que? Quer minhas ações na empresa também?- Pergunto bravo.
F: Até que não é uma má ideia... Mas eu to querendo outra coisa!
JL: Então fala logo. A Eduarda ta morrendo lá! — Digo, extremamente bravo.
F: Eu ainda quero me vingar dela... Só que eu não vou ficar o resto da vida pobre por causa disso.
JL: E o que você pretende?
F: A Du te ama... — Diz sorrindo. — Então, assim que ela melhorar, tu vai se separar dela. Dá um pé da bunda! E nem pense em me enganar, dizer que aceita o trato e depois se recusar a cumprir. Agora, com esse meu "novo emprego", arranjei muitos amigos. Posso fazer a vida de vocês dois um inferno!
Fico o encarando, tentando assimilar as palavras, e Fábio me diz:
F: Anda logo, responde! Tu aceita o trato, sim ou não?
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