Sempre ao Seu Lado

1 Adeus mais uma vez?


A esbranquiçada luz solar compenetrava o calmo ambiente através do límpido janelão coberto por macias cortinas de seda branca. O vento invadia sutilmente o quarto descobrindo um dos corpos que ocupavam a cama de casal. A mulher de pele alva e curtos fios negros despertou de seu sono profundo com a luz que iluminava seu rosto. Sentia-se calma e confortável ao acordar aconchegada nos braços de seu amado e sentindo sua respiração. As coradas mãos envolviam as delicadas cinturas compostas pela sedosa pele da morena. O lençol branco unia o casal como um só e o calor pairava entre os dois corpos.

Posicionou-se ao sentar-se na cama e espreguiçou-se. Encarou o sono profundo do ruivo e acariciou os revoltosos fios alaranjados. De repente sentiu o punho do rapaz pressionar seu pulso.

- Aonde vai?

- Eu vou descer, as crianças devem estar precisando de mim.

- Nem pensar! A Yura já é grandinha demais e a Tae-san pode cuidar da Masaki e do Kaien. — disse abraçando a esposa pela cintura.

Rukia soltou uma leve risada tentando soltar-se dos afagos de Ichigo.

- Por favor, Ichigo. — disse tentando conter-se perante aos beijos e carícias do rapaz.

Violentas batidas na porta foram ecoadas, acabando com o clima romântico do casal.

- Mamãe! Mamãe! — disse a fina voz chorosa.

- Ichigo, é o Kaien. — disse conseguindo livrar-se dos braços de Ichigo.

- Mamãe! Abre aqui! — bateu ainda mais na porta.

Rukia rapidamente vestiu o leve roupão de seda rosa claro e dirigiu-se rapidamente até a porta.

- O que houve querido? — carregou o pequeno no colo.

- A Saki-chan socou minha cabeça e jogou meu chappy pela janela. — reclamou.

-Mentira! — disse a pequena de curtos cabelos alaranjados que entrava no quarto de braços cruzados.

- Teremos uma longa conversa mais tarde, mocinha. — disse Rukia saindo do quarto com o filho no colo.

Embora soubesse que iria escutar um belo sermão dos pais, Masaki adorava infernizar a vida de seu tímido irmão gêmeo.

Ao avistar o profundo sono do pai de longe, a pequena abre um sorriso maléfico. Ichigo trabalhava muito e merecia um descanso, estava exausto. A garota anda de fininho e sobe na cama, onde se ajoelha ao lado do “cadáver” de Ichigo. Analisou-o. Estava deitado de bruços e parecia tão cansado a ponto de roncar. Masaki solta uma pequena risada ao vislumbrar de perto uma jarra de porcelana contida com água.

-X-

- Bom dia, flor do dia. – disse Rukia descendo as escadas com o pequeno Kaien nos braços.

- E o que tem de bom? — respondeu Yura.

Yura já estava com 12 anos. Cursava a 7ª série e era grande motivo para as dores de cabeça de Ichigo, com suas rebeldias e personalidade difícil. O fato de ter que acordar cedo para ir à escola já era um grande motivo para a garota amanhecer com um profundo mau humor.

- Que é isso, Yura? Eu prometo que assim que voltar do trabalho, nós vamos fazer uma torta de morango. Combinado? – disse Rukia com seu típico jeito doce a fim de agradar a filha.

- Sério, mãe? – animou-se.

- Claro! Mas só se você endireitar essa cara.

- Ok! – disse a pequena sentando-se direito na cadeira e esfregando os olhos a fim de acordar.

Rukia dirigiu-se até a mesa e pousou o filho em uma das cadeiras. Ajoelhou-se e encarou os orbes violáceos do pequeno.

- Não chore, viu? Eu vou falar com sua irmã e tudo ficará bem. – acariciou os finos fios alaranjados.

A morena ficara encantada com o sorriso que o pequeno Kaien lhe direcionava. Incrível como ele transmitia a mesma segurança que os olhos de Ichigo lhe passavam. Sim, Kaien e Ichigo eram incrivelmente parecidos.

Rukia sentia-se em paz. Viver com Ichigo e os três filhos trazia uma grande calma ao seu coração. Iria melhorar, já que estava esperando o quarto filho. Só faltava divulgar a notícia. Não podia esperar a reação de Ichigo.

- WAAAGH!!!!!! – o silêncio foi tomado.

- O que foi isso?! — levantou-se Yura.

- Ichigo?! — exclamou Rukia ao levantar-se rapidamente e direcionar-se até a escada. — O que aconteceu?!

A risada de Masaki foi ecoada diretamente do quarto do casal.

- SUA PESTINHA!! — exclamou Ichigo.

De repente Masaki desce a escada de forma que conseguisse se agarrar na cintura de Rukia antes de Ichigo lhe alcançar.

- Ichigo! O que aconteceu?!

O ruivo apareceu com o pijama gravemente encharcado e uma feição de poucos amigos. Rukia não pôde evitar uma grande risada, tratava-se realmente de uma cena cômica. Logo atrás de Rukia veio Yura e Kaien só para zombar do quase zumbi ensopado.

- Hahahahaha!! Papai! Você andou tomando banho na cama, é? — disse Yura.

- Essa sem vergonha despejou todo o jarro de água na minha cabeça! — disse o raivoso pai de família apontando o indicador para a filha mais nova.

Rukia ainda ria, o que fez Ichigo esquecer totalmente do que havia acontecido ignorando cada trecho que Yura dizia só para admirar a beleza de Rukia. Sua pequena estava linda. Os cabelos bagunçados e presos em um pequeno rabo-de-cavalo realçavam seu alvo e esculpido rosto pouco maltratado pela sonolência da manhã.

- Tira essa blusa, vai acabar pegando um resfriado. — ordenou Rukia ao virar as costas e pegar Masaki no colo.

- Sim. Um dia essa garota me paga! — ameaçou Ichigo.

A morena sentou a filha no balcão da cozinha e pegou alguns ingredientes para o café-da-manhã das crianças.

Ichigo tirou parte do pijama deixando àmostra o belo busto e dirigiu-se até a esposa, abraçando-a por trás e depositando beijos no pescoço da amada.

- Dá pra me deixar fazer o leite das crianças?

- A Saki não tá merecendo. — respondeu ainda acariciando Rukia.

- É claro que sim. — Yura dirige a palavra. — Você que não passa de um dorminhoco. — cruza os braços.

- E você não passa de uma bebêzinha rebelde.

- Ô mãe!

- Eu não tenho nada a ver com isso. — disse a calma Rukia ao desfazer-se de Ichigo e levar a pequena panela ao fogão. — A propósito Yura, você não está atrasada?

Ao olhar 7:30 no relógio de pulso, a garota assustou-se.

- Droga! Tudo culpa sua, seu idiota! — respondeu dirigindo-se ao pai.

- Me respeite! E TIRE ESSA MAQUIAGEM!! — respondeu o ruivo reparando o rosto pouco maquiado da filha.

- Ah qual é?!

- Isso é uma ordem!

Demonstrando um pouco de sua rebeldia, a pequena rapidamente pega a mochila e corre até a porta.

- Você não me pega!

- Volte aqui! — disse tentando alcançar a filha.

Rukia não desviou sua atenção. A briguinha entre os dois tornara-se rotina. O jeito super protetor de Ichigo contra a rebeldia de Yura. Tal conflito era inevitável.

- Temos que dar um jeito nessa garota. — disse o ruivo com sua típica feição rabugenta encarando a porta.

- Ichigo.

- Hã? O que foi? — sentou-se na cabeceira ao lado da esposa.

- Eu andei pensando. O que você acha de, sei lá, termos outro filho?

- COMO ASSIM?! Que pergunta é essa, Rukia?! É claro que não!

- Hã?! Você não iria gostar?! – entristeceu-se.

- É claro que sim. Eu iria amar! Mas a situação tá apertada. Lembra que eu larguei o hospital?!

Rukia ficou calada por um instante e passou a encarar as próprias mãos que estavam repousadas nas pernas.

- Rukia. Você não tá... – tentou encará-la.

- SIM ICHIGO! EU TO GRÁVIDA SIM! – botou pra fora.

O Kurosaki sentiu seu mundo virar. Sim, estava feliz, mas de onde diabos ele iria arranjar dinheiro para sustentar 4 filhos?! E se viessem gêmeos de novo?! Já estava desestimulado com a atual situação da família, mas os sorrisos das crianças e de Rukia o fazia esquecer-se das inúmeras dívidas pendentes. Deixou a razão falar mais alto.

- ISSO NÃO PODE, RUKIA! – levantou-se. – EU DISSE PRA VOCÊ SE CUIDAR! POR QUE NÃO ME ESCUTOU?!

A morena sentiu-se ofendida. Em menos de um segundo Ichigo conseguira destruir seu coração completamente. Seu desejo de ter mais um filho a deixara em situação delicada. Não podia deixar Ichigo falar mais alto. Bateu na mesa e levantou-se.

- PORQUE MEU DESEJO DE TER UM FILHO FALOU MAIS ALTO! ACHEI QUE O AMOR SUPERAVA QUALQUER DIFICULDADE! ONDE ESTÁ ESSE DILEMA AGORA?!

- Rukia, não me faça perder a cabeça! Você mesma me fez desistir do hospital! Você não está mais na alta sociedade da Soul Society! Eu não tenho uma árvore de dinheiro igual a do Byakuya! Porque só pode ser isso, nunca o vi trabalhando!

O ambiente estava altamente desagradável. Masaki e Kaien aos prantos e um forte tapa ecoado, predominando um silêncio insuportável. As lágrimas de Rukia encharcaram suas esbranquiçadas bochechas e Ichigo massageava o local de sua dor: seu rosto.

- Nunca mais me dirija a palavra! Achei que ficaria feliz! Eu imaginava qualquer coisa vindo de você, menos isso. – disse derramando a “centésima” lágrima.

Ichigo estava estático. Repensou sua atitude, mas já era tarde demais. Havia rejeitado um filho, algo nada característico seu.

- Eu vou embora, não agüento mais. – disse ela ao “eternamente” calado Ichigo.

A morena pegou algo do bolso. Era seu antigo gikongan de chappy. Mesmo casados, ela e Ichigo ainda trabalhavam como shinigamis protetores de Karakura, mas os filhos não sabiam.

As vestes negras descreviam sua segunda profissão. A shinigami empunhou a espada e abriu o portão sekai. Ichigo não reagiu, apenas vislumbrou a amada a caminho de outro mundo, para bem longe de suas asas. Mais uma vez.

- Rukia, espera.

- CALADO!

A gikongan chappy ajoelhou-se perante a ama.

- Cuide deles por mim. Distanciarei-me por um tempo.

- Sim, Rukia-sama.

- Não, Rukia! Por favor! – segurou o pulso da amada.

- Tá afim de perder a mão? – disse friamente ao segurar o cabo da espada com a outra mão.

Não adiantou. Ichigo não estava com o emblema de shinigami substituto em mãos. Como humano ele possuía uma força menor, portanto, foi obrigado a soltar. Seu mundo estava destruído, estava perdendo-a mais uma vez?

Masaki e Kaien conseguiam ver tudo, mas não entendiam nada. Mal eles sabiam que alguém estava presenciando tudo aquilo na porta de entrada da casa, a qual estava aberta.

CONTINUA...