Sempre Irmãos...
13 Transformado.
Notas iniciais
Ah! Já avisando que esse capítulo envolve muito diálogo mental, demonstrando propositalmente o quanto um vampiro pode ser confuso. (Principalmente se esse vampiro for Samuel Kirkland, conhecido carinhosamente por Ks)
Enjoy... ^^
Ks Pov
Dor. Dor, dor, dor e mais dor. Cada fibra do meu corpo queimava. Nunca estive atado preso em meio a uma pira chamejante, mas acho que a sensação é a mesma. Em algum momento em minha imaginação achei que fosse sentir o cheiro de carne queimada. Estúpido eu sei, mas, sei lá...
Era difícil ocupar minha mente de uma forma eficiente para esquecer a dor, então decidi ficar a ouvir os sons ao redor. Ouvi um grito interminável, e me concentrando nele, percebi que era meu próprio. Eu estava confinado em meu corpo, tendo como companhia só eu mesmo. É, se eu não estivesse morrendo, provavelmente me mataria.
Para me distrair da dor, deixei minha mente vagar para longe do meu corpo, recitando Shakespeare mentalmente.
Ser ou não ser... Eis a questão! O que é mais nobre para a alma? Sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra um mar de calamidades para por-lhes fim, resistindo?
Era como estar em meio a um fogo que consumisse cada centímetro quadrado de pele.
Morrer... Dormir! Nada mais! Em com sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos que constituem a herança da carne!
Era mais fácil ignorar meus próprios gritos e perceber outros sons ao redor.
Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis a dificuldade!
Notei um ritmo compassado e deixei que ele ditasse o tempo do monólogo.
Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida.
Se teoricamente eu estava morrendo, por que é que eu me sentia cada vez mais forte?
Aí está a reflexão que dá à desventura uma vida assim tão longa!
A intensidade do fogo estava começando a diminuir, ou talvez fosse só minha impressão.
Pois, senão, quem suportaria os insultos e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar repouso com um simples estilete?
Eu já podia pensar racionalmente, o fogo nada mais era do que um ardor que percorria minha pele.
Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou...
Meu coração batia cada vez mais devagar, e eu já não sentia o fogo sobre meu peito. Era como se ele estivesse saindo do meu corpo pela ponta dos dedos dos pés e das mãos.
Confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligem, em vez de nos lançarmos a outro que desconhecemos?
O fogo já tinha deixado meus cotovelos e joelhos. A dor era suportável. Ou talvez fosse meu corpo que estivesse mais forte.
E é assim que a consciência nos transforma em covardes, é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se debilita na pálida sombra do pensamento...
Agora era apenas um leve ardor, deixando a ponta de meus dedos. Então, com uma última batida, meu coração se silenciou e eu me levantei.
E é assim que as empreitadas de maior alento e importância, com semelhantes reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação.
***
De repente, ao abrir os olhos, fui atingido de rompante, por um perfume e um som incrivelmente harmoniosos. O perfume me trazia a sensação de familiaridade, e ao mesmo tempo dava um ardor em minha garganta, como se eu tivesse corrido a maratona do Saara, e ao mesmo tempo fazia minha boca se encher de o que eu supus ser saliva, como um banquete exposto na noite de natal. Meus irmãos estavam ali, sentados e relaxados, aparentemente adormecidos. Kl estava com a cabeça tombada para o lado, deixando uma veia saltar em sua jugular, e parte daquele perfume vinha de lá. Me aproximei pé ante pé até a poltrona onde ele estava jogado sem nunca perder sua veia de foco. A pulsação me chamava, o som da batida rítmica e compassada me atraía como um canto de sereia. Quando dei por mim, estava com os dentes cravados naquela veia e senti o líquido quente descer por minha garganta. O sabor era indescritível. E quanto mais eu bebia, mais pulsava.
- K... Ks... Sam... — Foi o murmúrio que ouvi, ao longe. Mas não me importei com ele.
- SAMUEL DARIUS KIRKLAND! O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SEU IMBECIL? VAI MATAR O KL.
Aquelas duas iniciais e aquela voz berrando comigo me eram muito familiares. Kl... Kl... KL! Leo! Dentro de minha mente um conflito explodia. Uma parte de mim queria terminar de beber esse líquido e a outra parte estava me mandando parar e ir conferir o que estava acontecendo. No fim, a outra parte ganhou, e eu abri os olhos, só para me deparar com a camiseta branca de Kl toda ensangüentada. Meio segundo depois, eu estava do outro lado do quarto com as costas contra a parede, Kl estava começando a gritar e Kn estava gritando também, mas era comigo.
- SEU IDIOTA! MALUCO! O QUE FOI QUE DEU EM VOCÊ? VOCÊ PULOU NA JUGULAR DO SEU PRÓPRIO IRMÃO E BEBEU DO SANGUE DELE!!! E...
- CALA A DROGA DA BOCA, NATHAN!!! — Fazia muito tempo desde a última vez que alguém chamara Kn de Nathan, sem contar o fato de que eu só berrava desse jeito quando estava muito pau da vida, e isso serviu para que ele ficasse quieto. — Não me pergunte o que aconteceu, porque eu também não sei. EU AINDA... — O cortei quando percebi que ele fazia menção de me interromper. – Eu ainda estou tentando digerir os últimos minutos, e... — Naquele instante passou um mosquito na minha frente e eu me interrompi ao notar que o pegara.
- Terra chamando Ks... O que houve com seus olhos? E como você consegue se mover tão rápido? — Perguntou Kn com uma pontada de apreensão em seu olhar. Se nem eu estava ME entendendo, como é que ELE queria tentar entender alguma coisa? De qualquer maneira, eu não estava gostando do jeito que ele estava me olhando. Tudo bem que teve o fator dos 3 minutos atrás, mas eu ainda era irmão dele, certo? Essa era a minha linha de raciocínio enquanto me dirigia ao projeto de banheiro de posto de gasolina que tinha naquele quarto, mas essa linha foi pro espaço quando eu olhei para meu rosto refletido pelo espelho.
Por mais que eu ainda reconhecesse o rosto que me encarava, aqueles olhos rubros e vívidos me eram desconhecidos. Ergui um dedo e o desconhecido fez o mesmo. Era clichê fazer o movimento de encontrar o dedo do meu reflexo, mas foi involuntário. Enquanto eu tentava entender o que havia acontecido comigo, Kl ainda gritava e o interessante era que a sua pulsação e a de Kn eram semelhantemente rápidas, mas algo me dizia que Kn não estava sentindo o mesmo que Kl. Espera um pouco... Kl e Kn estão no outro cômodo, com Kl gritando e eu consigo ouvir a pulsação de ambos? Respirei fundo. Aquilo tudo era muito confuso.
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