Notas iniciais
espero que gostem xx

Era fim-de-semana e decidi sair de casa para espairecer. Fui até um jardim que havia numa rua perto da minha casa. Atrás do jardim havia uma floresta bastante densa.

Sentei-me num banco virado para ela, com o olhar fixado no vazio. No céu, não havia uma nuvem, mas o ambiente era frio.
Senti algo movimentar-se na floresta, virei a cabeça na sua direcção e vi, por instantes, uma pelagem, Aslan. Bastou um piscar de olhos para a floresta ficar outra vez ali sem nada, imaculada.

Se não estivesse lúcida, se eu não tivesse visto aquilo ali tão nitidamente, diria que sonhara. Era impossível. Como podia ali estar Aslan?

Encontrava-me bastante embrenhada em pensamentos, até que fui interrompida por um chilrear de um estranho pássaro.

Tentei colocar-me de pé, mas mal dei o primeiro passo apercebi-me que estava tonta e sem forças. Agarrei-me ao banco de modo a tentar recuperar o equilíbrio.

Durante os primeiros passos tive de relembrar-me como se andava "direita, esquerda, direita, esquerda…". Estava sem forças e muito confusa. Ver Aslan deixara-me assim.

Fui cambaleando pelas ruas fora até chegar à porta de minha casa. Estava cansada, física e mentalmente. Coloquei a mão na maçaneta, e , inspirei uma golfada de ar. Entrei, e novamente, foi como adormecer.

Quando abri os olhos já estava deitada na minha cama. Estavam todos à minha volta. Peter estava na ponta do quarto, absorvido pelos seus pensamentos, Lucy encontrava-se ao meu lado, olhando para mim com um olhar que mostrava inquietação, Edmund estava também ao meu lado, mas estava calmo. Len tinha uma cara de desassossego. Foi ela a primeira a falar:

- Susan, minha querida, estás bem? – Acenei com a cabeça.

- O que aconteceu Su? – Desta vez tinha sido Edmund a interrogar-me.

-Eu, eu, acho que caminhei demais e fiquei sem forças. — Olhei para Edmund com esperança que ele tivesse acreditado, mas a expressão dele não parecia nada convencida.

- Queres que te vá buscar chá? – Disse Len.

-Pode ser Len. — A minha mãe levantou-me, lançou-me um último olhar e abandonou o quarto.

- Susan, há alguma coisa que possa fazer por ti? – Perguntou Lucy.

- Não Lu, obrigada. – Sorri-lhe.

Edmund despediu-se de mim, e saiu do quarto.

-Não achas coincidência estes teus desmaios? Será que não têm algo a ver com o teu amado? — Peter cuspiu aquilo com uma certa repugnância.

- Peter! – Repreendeu Lucy.

- Deixa estar Lu. — A minha expressão mudou e fiquei com um olhar acusador no olhar. – Tu não és o pai Peter, nem nunca vais ser. – Sabia que tinha tocado num nervo, Peter virou costas e saiu, Lucy foi atrás dele.

Logo após entrou Len.

-Susan, querida, o que se passou? – Mas antes de eu responder ela voltou a falar — Nem quero saber, tens aqui o teu chá e algumas coisas para comeres. Se precisares de algo não hesites em chamar-me, sim?

Assenti com a cabeça. A minha mãe saiu e ficou tudo sossegado. Ouvia Lucy a falar com Edmund, mas era só, e mal percebia o que diziam.

Estiquei-me para desligar a luz e fechei os olhos. Uma lágrima escapou-me. Depois dessa não consegui parar.

No meio de tanta mágoa e sofrimento comecei a chamar silenciosamente pela pessoa mais importante para mim naquele momento. "Preciso de ti agora. Caspian, não me deixes. Caspian." Mas ninguém respondeu.

O que é que se passava comigo? Eu não era assim. Eu era tão independente, nunca implorara nada a ninguém. Caspian mudara-me, mas agora ele não estava mais aqui. Eu precisava dele como nunca precisara de ninguém, queria-o ali. Necessitava-o ao pé de mim para me certificar de que ele não tinha sido um sonho. Mas eu nunca mais o veria, talvez eu tivesse de avançar com a minha vida, talvez Peter teria razão, eu não podia continuar presa a ele. Mas porque é que eu ainda não tinha conseguido avançar? Será que havia algo de errado comigo? A falta de uma capacidade qualquer?

"Caspian, Caspian, necessito de estar perto de ti" No meio do meu chamamento voltaram as lágrimas.

Decidi enxaguá-las e refletir sobre os acontecimentos dessa tarde. Como é que Aslan poderia estar ali? Seria apenas uma partida feita pelas sombras da floresta? Não, não podia, era demasiado real.

Era dia de aulas novamente e estávamos todos na sala de convívio. Via Lucy numa ponta da sala, encontrava-se com a amiga Jane. Ela sempre me parecera bonita, tinha uma pele leitosa, um cabelo imaculadamente liso castanho-escuro e uns olhos verdes-claros.

Podia parecer incrível, em Nárnia, Edmund e Peter eram inseparáveis, mas na escola cada um estava com o seu grupo. Apesar de estar rodeado por um monte de pessoas, Peter estava novamente perdido nos seus pensamentos. Reparei num grupo de raparigas que estavam a olhar para ele, soltando risinhos e segredando umas com as outras. Era estranho, ele era um rapaz tão bonito e não tinha namorada, embora pretendentes eram o que não lhe faltava.

Ao lado de Peter encontrava-se Will. O grupo de raparigas também olhava para ele, no meio dos murmúrios e da risota.

No momento seguinte fui empurrada para a realidade.

-Susan, Susan? – era Miriam.

-Sim Mir? – disse eu.

-Não me respondeste – disse ela com um sorriso amável.

-Desculpa, não ouvi, estava distraída.

-Não faz mal. Estávamos a perguntar-te se amanhã vens conosco comprar fitas para o cabelo.

-Sim, claro. No fim das aulas?

-Sim.

-Vou comprar uma verde-escura. – desta vez era Elizabeth que falara. Ostentava um grande sorriso. Ela adorava fitas, principalmente se fossem verdes, porque verde era a sua cor favorita. Ela já possuía umas quantas dessa cor.

-Eu vou comprar um cérebro para a Elizabeth. – Claire falou com um tom muito sério, mas no momento seguinte já estava a rir-se às gargalhadas. Elizabeth deu-lhe um penicão de brincadeira.

- Lá também vendem disso? – disse eu em tom de brincadeira.

-Oh calem-se, vocês só têm inveja do meu cabelo que é perfeito para usar fitas. – Disse Elizabeth carrancuda.

-Claro, claro. – trocei eu, Claire e Miriam ao mesmo tempo.

Elizabeth murmurou umas pragas entre dentes e logo a seguir já estávamos a falar de outra coisa.