No fim das aulas apercebi-me como tinha poucas coisas com que me ocupar. Terminei os deveres de casa e já não tinha nada para fazer. Podia tentar falar com Lucy mas ela provavelmente estaria ocupada a ler um livro qualquer, e ultimamente Edmund raramente saía do quarto e Peter, bem Peter, mal nos falávamos depois daquela troca acesa de palavras após o meu desmaio, ele achava-se o dono da casa e que conseguia controlar tudo e todos e eu simplesmente odiava o facto de ele pensar que tinha sempre razão, o que não era verdade. Bem, poderia sempre ajudar a minha mãe com o jantar. Pareceu-me a decisão mais sensata, já que nestes últimos tempos me tinha desleixado na ajuda das tarefas domésticas. Ela devia ver-me como um falhanço enquanto filha.

Acabado o jantar, tive uma ideia brilhante. Uma ideia de algo que me poderia ocupar tempo e trazer-me memórias boas, embora dolorosas.

Aproximei-me cautelosamente de Len, mas ela apercebera-se da minha presença e já estava com uma expressão interrogatória no rosto. Pela expressão dela, Len já sabia que eu lhe ia pedir alguma coisa.

-Mãe …

-Sim Susan.

-Eu queria-lhe pedir algo. — Ela ia falar, mas eu interrompi-a e prossegui com a minha explicação. — Eu ultimamente tenho tido alguns problemas em me conseguir manter ocupada. Por isso acho que queria começar a praticar um desporto, eu … — a minha mãe interrompeu-me.

-Mas, minha querida, tu já praticas um desporto, natação. Algo que tu aprecias muito.

Um arrepio percorreu-me a espinha. Não praticara natação desde aquele dia, aquele dia em que me senti aprisionada naquele lugar que antes me conferira tanta liberdade. Tentei recuperar a coragem e manter a voz firme, mas em vez disso, a minha voz saiu trémula.

-Mãe, piscina já foi do meu agrado, mas agora quero algo diferente… Pensei talvez, na prática com o arco de flechas.

A minha mãe ficou ali, especada a olhar para mim. Estava espantada e talvez pensasse que eu tinha perdido o juízo de vez.

-Filha. Esse parece-me mais um desporto de homens, não apropriado para uma rapariga. Podias tentar aprender a bordar, ou a cantar, ou aprendar a tocar piano.

Olhei para ela com a loucura nos olhos. Foi tudo o que bastou. A espera pelo regresso de Sirama era no mínimo, perturbante, precisava de toda a minha energia para conseguir aguentar, por isso, um desporto familiar era um passatempo bastante agradável.

Voltei ao meu quarto, feliz por sentir uma esperança, mesmo que fosse pequena, era minha.

Sentei-me na minha poltrona branca. A minha mão entrou no decote e retirou com cuidado o medalhão. Agarrei-o com força, fechando os olhos. Sentia que ao estar com o medalhão, estava, de uma maneira estranha, mais perto de Caspian.

Sabia que a altura de tomar decisões aproximava-se. Pressentia-o, estava cada vez mais perto. Decisões que podiam mudar tudo. E eu não podia fugir.

Apesar de estar mergulhada nos meus pensamentos, continuava extremamente aborrecida. Não podia ler, porque já tinha acabado de ler o tal livro sobre Rob e Elly, como o previsto, acabavam juntos, contra tudo e todos. Decidi ir ter com Lucy, talvez ela tivesse algo para me ocupar o tempo. Entrei no quarto de Lu e ela encontrava-se no meio de uma pilha de livros, na sua secretária. Não reparara em mim, por isso, quando o fez, a minha presença provocou-lhe um pequeno salto.

-Ah, Susan, assustaste-me, não tinha reparado em ti. – tinha a mão em cima do peito, como para acalmar o coração.

-Desculpa Lu, não era a minha intenção assustar-te.

-Deixa estar. O que me querias Su?

-Estou aborrecida, não tenho nada para fazer.

-Ah, e como não tens nada para fazer vens ter comigo, que irmã desnaturada. – dizia ela num tom trocista.

-Que estás a fazer Lu?

-O que te parece? — pus a língua de fora, e logo depois Lucy imitou-me o gesto.

-Lucy, tens de me ajudar, vou morrer de aborrecimento.

-Tenho uma ideia de uma coisa que talvez te vá divertir.

-O quê? – perguntei entusiasmada.

-Peter andou o dia todo a fazer troça de Edmund porque tem uma pretendente. Se escutares com atenção ainda os podes ouvir lá em baixo.

Eu encontrava-me sentada em cima da cama de Lucy, afastei-me e coloquei-me com a orelha encostada à parede, de modo a ouvir o que se passava lá em baixo (o quarto de Lucy era o mais próximo das escadas). Ouvia umas vozes, ao longe, e comecei a ouvir cada vez mais nitidamente.

-Já chega Peter, és um chato.

-Edmund, eu amo-te. – Peter fez uma imitação de uma voz de rapariga seguida pelo som de beijinhos.

-Cala-te Peter! – a voz de Edmund subiu de tom.

-Mas Edmund, eu amo-te, vamos viver os dois juntos num palácio à beira-mar, anda lá Edzinho. — Agora Edmund estava a falar muito alto, parecia quase um rugido.

-Peter, é a última vez que te digo isto, cala-te!

-Mas Edzinho, não me podes fazer isto. – Peter continuava a imitar a voz de rapariga.

Peter tinha passado os limites, seguiu-se um silêncio e eu imaginei a cara de Edmund, espelhada com fúria. Durante alguns segundos não ouvi nada. Até ouvir deslocação de ar. Edmund começou luta corpo a corpo com Peter. Len já estava a dormir e não iria intervir, só mesmo se tivesse sido acordada por causa da conversa deles. Desci as escadas rapidamente e entrei na sala. Peter estava a sangrar do nariz e Edmund tinha o lábio cortado. Eles nem repararam na minha presença, e se repararam, não lhe deram atenção.

-Peter, Edmund, parem!

Eles ignoraram-me. Havia ali uma descomunal troca de insultos. Edmund estava agarrado ao colarinho de Peter, mas no momento seguinte já era o contrário. Estavam sempre a trocar, ficando Edmund na liderança ou Peter. Precisava de ser rápida, por aquele andar iam-se matar um ao outro. Segui um impulso e atirei-me para o meio deles. O momento seguinte para mim foi muito confuso, só sei que acabei no chão e via sangue.

Tinha levado um soco de Peter e fluía bastante sangue do meu nariz. Estava ali no chão, estendida.

Pensei que eles iam continuar aquilo, mas ao verem-me naquele estado, entraram em pânico. Aquela reação surpreendeu-me. Edmund saiu da sala a correr, talvez fosse acordar Len. Peter olhava para mim com os olhos repletos de desespero. Parecia que iam cair lágrimas a qualquer momento.

-Su, su, estás bem? Desculpa, oh, desculpa, eu ... Eu não queria magoar-te, eu não tinha intenção. Fui tão parvo, desculpa.

-Não faz mal Peter.

-Faz sim Susan, oh, desculpa, desculpa.

Eu continuava no mesmo local, estava bem, apenas tinha uma dor terrível na face. A sala foi se enchendo, primeiro por Len, que me parou a hemorragia, seguida por Lucy e mais tarde Edmund.

Fui levada para o meu quarto. Depois de deitada, conseguia ouvir a minha mãe a dar um sermão aos meus irmãos. Eu tivera muita sorte, não tinha partido a cana do nariz e quanto aos ferimentos de Peter e Edmund também eram ligeiros.

Notas finais
bem qualquer coisa que queiram saber não hesitem em postar eheh xx