Sempre Ao Teu Lado
4 Café
Notas iniciais
O meu telefone não parava de tocar, mas não queria saber.
Precisava de estar sozinha, precisava de pensar naquilo que se tinha passado. Onde é que eu tinha errado enquanto amiga e enquanto namorada?
Recebi uma mensagem. Era da minha mãe.
“Já soube o que aconteceu entre ti e o Martim. Devias tê-lo perdoado, não é todos os dias que se encontram rapazes como ele”
Como foi a minha mãe capaz de me dizer uma coisa daquelas? Devia tê-lo desculpado? Cada vez ela me desiludia mais…
O telefone voltou a apitar. Desta vez era o Rodrigo, o que me acalmou.
“Liguei-te mais de 5 vezes! Por favor liga-me!! Não suporto ver-te a sofrer sozinha, ainda pra mais longe de tudo e de todos…”
Fiz-lhe a vontade. Atendeu logo ao primeiro toque.
–Então, como vão as coisas? Ele já aí foi buscar as malas?
–Olá. Sim, já cá veio. Não lhe dei tempo para nada, apenas para pegar nas coisas dele e sair.
–Oh Inês…Custa-me tanto estar aqui e pensar que não estás feliz…
–Não estou mas vou ficar. Isto vai passar. Só preciso de tempo. Não dizem que ele cura tudo? – Respondi-lhe com mais segurança do que aquela que sentia.
–Não vens mesmo para Portugal, pois não?
–Não posso… Ainda para mais, não posso, não quero ver a Carolina e o Martim.
Ele suspirou um “Tá Bem”.
–Fica bem mãe. Quando te voltar a ver, ai de ti que estejas mais magra! Come, ok?
Não pude deixar de rir.
–Beijinhos Rodrigo e obrigado. Por tudo.
–Não fiques trancada em casa. Vai sair! Beijinhos.
Desliguei o telefone e enfiei-me debaixo do chuveiro. Tomei um duche rápido e vesti uma roupa simples.
Deixei o telemóvel em casa e saí apenas com umas moedas dentro do bolso das calças.
Doía-me a cabeça do esforço que fazia para não chorar. Mas tinha de ser forte. Durante o resto da manhã, sentei-me num muro junto ao rio e aí fiquei.
Passaram-se quase duas horas quando me dirigi a um café e pedi uma água.
Sentei-me e a senhora com os seus 40 anos trouxe-me a garrafa de água. Bebi um gole e fechei os olhos. A dor de cabeça era tão grande que não consegui conter uma lágrima. Depressa a sequei, mas mais e maiores a seguiram.
Não solucei, mas vi que alguém reparou em mim e estava em pé à minha frente. Eu tinha os olhos cheios de lágrimas, não me apercebi quem era, mas fiz-lhe um gesto para se sentar.
Ele largou toda a comida que tinha nas mãos e ficou ali, a ver-me chorar.
–Não te vou fazer aquelas perguntas que todas as pessoas fazem como”Está tudo bem?”, ou “O que é que se passa?”. São desnecessárias. Apenas te pergunto: queres falar? Sim, porque sei que precisas, e um estranho não te pode julgar.
Olhei para ele, mas não via nada, a não ser lágrimas.
Ele pegou-me na mão e com a outra começou a limpar-me a cara. A dor de cabeça começou a desaparecer e eu comecei a acalmar-me.
–Obrigado – disse ao rapaz que estava à minha frente, mas sempre de cabeça baixa.
–O meu namorado traiu-me com a minha melhor amiga. Eles nunca tencionavam contar-me. – A voz começou a tremer-me e como se ele adivinhasse que eu ia chorar, apertou-me mais a mão, num gesto de força.
–Se ele te fez isso, foi porque não viu aquilo que estava prestes a perder. É normal que fiques assim, mas tens amigos e família que te vão ajudar a ultrapassar esta fase.
–Não sou de cá. Eu e a minha família nunca nos ligamos muito. Amigos, só têm um de verdade, e nem sequer está aqui.
–Então onde está? – Perguntou-me confuso.
–Em Portugal. – Respondi. – Ele foi quem me contou e a única pessoa com quem tenho falado. Precisava tanto de um abraço dele…
O rapaz levantou-se e foi então que encarei aquele estranho com quem tinha desabafado.
Abri a boca e logo a voltei a fechar. Pisquei os olhos várias vezes.
–O que foi? Pensava que já tinhas visto que era eu. – Quando viu que eu ia gritar… – Por favor. Não grites. Por favor.
Ele pediu-me para me levantar e deu-me um abraço. Retribuí e quando e quando me soltou disse:
–Posso não ser o teu amigo de Portugal, mas nestas alturas, um abraço é sempre um abraço, desde que seja sentido.
–Obrigado. Mais uma vez. – Disse-lhe.
Olhou para o relógio e viu que estava atrasado.
–Desculpa, mas o Niall está à espera que eu lhe leve a comida. Tenho de ir. Amanhã encontro-te aqui à mesma hora?
–OK, não faz mal. Encontramo-nos à mesma hora. – Respondi-lhe com um sorriso que logo desapareceu.
Ele mandou-me um beijo e saiu a correr. Fiquei sem saber o que pensar do que tinha acontecido. Eu tinha acabado de falar com o Zayn? O Zayn Malik? Não podia ser. Era um sonho.
–Posso levar a sua água? – A empregada apanhou-me de surpresa, o que me fez mandar um salto.
–Sim, sim. Leve. – Foi a minha resposta.
–Então… o Zayn hein? Quem diria? – A senhora não se ia embora.
–Pois… O Zayn. – Resposta minha que não a satisfazia.
–Bem, tenho de ir andando. – Disse, antes que voltasse à carga sobre o assunto.
Esperei até chegar a casa para pensar em tudo o que tinha acontecido. Quando entrei em casa, mandei os sapatos pelo ar e fui fazer uma sandes. Depois, sentei-me no sofá a ver televisão até à noite.
Fiz o jantar e, no fim de comer, deitei-me no chão a ouvir “Moments”.
A noite estava linda. Fui até à janela e vi o céu estrelado. Sorri ao pensar que o Rodrigo estava a fazer o mesmo que eu, só que noutro lugar.
Embora todas as desilusões que tinha apanhado naqueles últimos dias, aquela hora de almoço tinha sido a melhor de sempre.
Queria contar ao Rodrigo, mas continuava sem querer falar com ninguém, nem mesmo com ele.
Depois daquele dia, não me podia esquecer que tinha de ir trabalhar na manhã seguinte. Ao almoço iria ter com o Zayn ao café.
Fui até ao quarto e vesti o meu pijama. Mal caí na cama, adormeci e só acordei com o barulho do meu maior inimigo: o despertador.
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