Semideuses: A descoberta
7 Capítulo 7
Parecia que a sala havia virado uma mata: surgiram plantas de diversos tipos, cipós e até algumas arvores de pequeno e médio porte. E, além disso, essa mata era habitada por centauros.
– Quantos Philips existem por aí? – Théo perguntou, embasbacado.
– De Philip só eu. – respondeu o primeiro centauro que o trio conheceu, sorrindo. – estes são meus companheiros, que aceitaram vir me ajudar a cuidar desses novos soldados. É óbvio que vocês não vão conseguir decorar o nome de todos, então nem vou apresentar.
– Mas por que eles estão aqui? – perguntou Blanca, que parecia não ter assimilado nada.
– Estamos aqui para ajudar vocês a cuidar dessa escola e de cada aluno que vive nela. Estamos aqui para treiná-los, supervisioná-los e protegê-los. – esclareceu Philip. – e isso inclui vocês três também.
– Muito obrigado, Philip – disse Mia – e obrigado a todos vocês que se dispuseram a ajudar. Mas isso aqui não está parecendo muito um campo de treinamento, não é?
– Ah, não, é claro que não! – disse Philip, enquanto todos os centauros riam. – Nós achamos que essa sala era muito pequena para os treinamentos, principalmente porque depois de um certo tempo vamos treinar os poderes de cada um. Aqui é uma outra sala... Mas isso eu falo depois. Acho que alguns alunos estão chegando, e acho que é melhor vocês esclarecerem quem nós somos antes de entrarmos. Isso deixaria todos meio...
– Assustados. – completou Blanca, sorrindo. – É, eu sei bem como é isso.
O trio agradeceu novamente e saiu para enfrentar o maior perigo de todos até agora: uma massa de alunos descontrolados, que não tem reação prevista.
Quando saíram da sala, se depararam com quase todos os alunos da escola.
– Estranho – disse Mia – normalmente eles se atrasam para as aulas.
– Eles se atrasam para aulas chatas – corrigiu Théo -, não para aulas que eles acham que vão ser divertidas e sanguinolentas.
– Ainda estou impressionada de como você entende tanto dessas coisas – disse Blanca, encabulada.
– Somos duas, então. – completou Mia.
– Bom, acho que já está todo mundo aqui. Vamos começar? – perguntou Théo, ansioso por acabar logo com tudo.
– Peraí – disse Mia – tá faltando gente.
Outra coisa da Mikaela: ela tinha uma ótima memória. Conseguia lembrar-se de todos os rostos, de todas as matérias dadas e livros lidos, e infelizmente para seus dois amigos, de todas as tarefas de casa.
Resolveram esperar mais alguns minutos, e conforme o tempo foi passando, os que estavam faltando foram chegando. Após alguns minutos, percebendo que todos já estavam presentes, Mikaela chamou:
– Gente, por favor, façam silencio e prestem atenção, temos recados para dar.
A maioria ficou quieta, mas haviam cinco ou dez teimosos, que ousavam falar.
– Ô gente, querem fazer o favor de calar a boca? – ordenou Blanca.
O silencio foi total. Todos se viraram e colocaram sua atenção no trio parado à frente deles, como se estivessem em um transe. Assim que obedeceram à ordem de Blanca, o transe passou, mas ninguém ousou voltar a desobedecer à ordem de Blanca.
– Para começar, hoje nós vamos continuar com o plano de fazer o teste e dividi-los em turmas. Mas antes, queremos esclarecer uma coisa: teremos companhia, e essa companhia vai nos ajudar a cuidar da escola e manter tudo em ordem, além de nos dar a oportunidade de aumentar os cursos preparatórios e coisas do gênero. – Mikaela declarou.
Os cochichos começaram, e o burburinho foi aumentando cada vez mais. O trio achou melhor não interromper afinal, já estiveram no lugar deles e sabiam como se sentiam. Finalmente o burburinho cessou, todos se acalmaram e uma voz perguntou:
– Quem é essa companhia, e como vamos saber se não são perigosos como a Narcisa e aqueles professores que iam nos ensinar a lutar? Aliás, como vamos saber se vocês – disse ele enquanto apontava para os três – não estão tentando nos encurralar, como os outros? Como saberemos se estamos seguros?
– Não saberão – falou uma voz extremamente familiar pra Mikaela, Théo e Blanca – e é isso que queremos acentuar em vocês, o maior poder que vocês têm, e que todos vocês tem: a desconfiança. Vocês não podem confiar em todos que aparecerem na sua frente, pois qualquer um pode ser o inimigo.
– E como você quer que nós descubramos se você é o inimigo, se nem podemos te ver?
– Na maioria das vezes, você não vai ver o inimigo de verdade, pois ele estará disfarçado, como sua professora Narcisa estava. Já eu, apesar de ser uma criatura mágica, não posso me disfarçar, pelo menos não me transformar em um humano normal. – disse ele, saindo das sombras.
O silencio reinou. Ninguém falou. Uns pensavam no que o centauro desconhecido acabara de falar, outros estavam impressionados com o ser que era meio homem, meio cavalo. Os que já o haviam visto estranharam que ele ainda estava na escola. Os outros estavam impressionados com sua forma e seu jeito. Todos estavam incapazes de formar qualquer frase ou sentença que possuísse um sentido. Théo aproveitou a oportunidade para terminar a explicação começada por Mia.
– Esta é a nossa companhia. Seu nome é Philip. Outros centauros estão lá dentro, esperando a apresentação. Eles se dispuseram a nos ajudar, pois... Bom, eu não sei ao certo por que, mas alguma coisa de bom, ou em potencial, nós devemos ter, não é mesmo? Aceitamos a ajuda porque eles parecem simpáticos e do bem, e porque precisamos muito de ajuda.
Todos sorriram, uns deram risada. Théo tinha finalmente ganhado a confiança senão de todos, pelo menos da maioria das crianças daquela escola. E isso era bom.
– Nós, os centauros, fomos sempre considerados como bons professores, tanto é que auxiliamos 90% dos heróis hoje conhecidos a chegarem a algum lugar. Apesar de existirem muitos de nós que são meio carrancudos, acho que posso dizer assim, eu consegui alguns voluntários para me ajudarem. Afinal, esses três aqui também precisam de aulas, não é? – disse Philip, piscando. – Vamos nos dirigir ao campo, é lá onde teremos aulas de luta. Eu e meus irmãos concordamos que aqui é meio... pequeno demais.
A mesma voz que havia feito a pergunta anterior se levantou novamente.
– Mas como vocês vão fazer um teste da gente, se está de noite? Não está meio escuro para lutarmos?
– Garoto, você é bem curioso, ein? Como é seu nome? – disse Philip, aparentemente divertindo-se com o menino.
– Miguel, senhor Philip.
– Hum... Nome ousado. Descreve você muito bem. Cauteloso, temperamental, e com um jeitinho que generaliza bastante as características dos deuses. Sabia do significado do seu nome?
– Não... não senhor.
– Curioso... Mas, respondendo à sua pergunta, menino: hoje nós vamos dar uma aulinha básica, já que eu não confio nos professores anteriores que vocês tiveram. E sim, Miguel, de noite. Quer horário melhor para aguçar os sentidos? – disse ele, entrando na sala.
– Certo pessoal – disse Blanca – vamos indo. Acho que eles têm coisinhas para resolver, e também acho que vão chegar lá antes da gente.
Todos começaram a dirigir-se ao campo. Mas não pareciam um grupo de alunos numa expedição: não estavam andando organizados, ou sequer respeitando uns aos outros. Pareciam um grupo de mamutes correndo de tigres dente-de-sabre famintos. O trio ficou preocupado com isso.
– Acho que temos que ensinar boas maneiras para eles primeiro, não acham? – perguntou Philip, aparecendo do nada. Estava com um sorriso maroto.
– E eu acho que você já suspeitava que isso iria ocorrer, não é? Por isso mandou-os tão longe, queria ver como eles sairiam. – disse Théo.
– Na verdade não, pequeno garoto. Eu já sabia que eles agiriam assim. Quando eu falei de espaço, estava sendo sincero. Alem do mais, lá é mais fácil para colocar obstáculos e desafios...
– Algo me diz que eu devo ter medo dessa sua expressão sonhadora, não devo? – perguntou Blanca, cautelosa.
– Garota filha de Afrodite, você deveria saber que as pessoas nunca devem temer nada: nem coisas que conhecem, nem coisas desconhecidas. O medo de algo faz com que você fracasse; a coragem faz com que você enfrente tudo com bravura, e quase sempre tenha sucesso. Lembre-se disso sempre.
– Bem profundo – disse Mia – e eu concordo. Se você tem medo de coisas que ainda não conheceu, você criará imagens disso que poderão superar as imagens verdadeiras.
– Acho que se eu fingir que entendi vai ser mais lucrativo, não é? – perguntou Théo, meio indeciso.
– Às vezes demoramos um pouco para entender as coisas, e outras só entendemos quando necessitamos disso para sobreviver. – Mia declarou.
– Bem animador – declarou Théo.
– Num tempo de guerras, não devemos esperar palavras reconfortantes ou momentos animadores, garoto. Momentos de guerras não são momentos para serem pensados, ou esperados; somente vividos. – Philip declarou.
Terminaram o percurso em silêncio. Eles tiveram que dar a volta no colégio, pois não havia corredores que cortavam a escola sem centauros trabalhando. Após algum tempo, chegaram ao campo. Todos sentaram, arfando e exaustos.
– Andem campeões. Já se cansaram? Com uma mera caminhada neste colégio? E se acham capazes de aprender a lutar? Acham-se dignos de saber e de partilhar os conhecimentos de centauros guerreiros? Pensam que são capazes de manejar espadas e escudos, arcos e flechas, e não sucumbirem sob seus pesos? Não são capazes nem de andar se respeitando, fazerem qualquer tipo de organização, por mais precária que seja, e acham que podem aprender a lutar? – o rosto de Philip aparentava uma expressão indefinida: não se podia dizer se ele estava encolerizado ou apenas se divertindo perante a cena.
– Nós tivemos bom desempenho da ultima vez. Quer dizer, quando aqueles professores estranhos nos ensinaram, disseram que éramos bons lutadores. – disse uma voz, perdida no meio da multidão.
– Será mesmo que eles prestaram atenção em vocês? Nunca pensei que monstros precisariam de óculos... Mas se vocês querem a verdadeira razão das mentiras... Eles não acharam vocês bons. Eles simplesmente agradaram vocês. É isso que difere um lado e outro na guerra: um lado é tomado de ódio e orgulho, e o outro de simples humildade e compaixão. Eles tentaram exaltar vocês, fazendo seus egos explodirem de satisfação, fazendo com que ficassem do lado deles. Eles não se importam com talentos, somente com números.
O silencio pairou. Parecia que cada mente, cada ser presente naquele pátio estava pensando nas palavras daquele centauro, tentando processar os fatos. O que pareceu uma tarefa realmente difícil. O trio estava junto com os outros alunos. Estavam próximos da floresta, atrás de todos, e de pé. Eles estavam acostumados com corridas, lutas e pressão física. Não se entregaram tão fácil. Quando os olhos de Philip perscrutaram a multidão, se detiveram por um instante naquelas três crianças, e seus olhos cintilaram.
– Vejo que minha tentativa de cansar a todos falhou – disse ele, com os olhos ainda focados nos três. Todos os olhares se voltaram para eles, procurando os sobreviventes daquele tortuoso passeio pela escola.
– Aproximem-se, filhos dos deuses e de mortais. Acho que preciso ver quanto poderão agüentar.
– Esse olhar não me anima nem um pouco. E o que ele disse... Xii... Acho que estamos muito encrencados. – Théo disse. Pela primeira vez parecia preocupado em ter que lutar.
Enquanto os três se encaminhavam para perto de Philip, outros centauros foram surgindo: uns da escola, outros da floresta atrás do campo, e outros que se supunha que tivessem dado a volta na escola.
– Acendam as luzes, irmãos. – mandou Philip.
Luzes surgiram, iluminando todo o campo. Mas ele havia sido transformado: havia virado um campo de treinamento, com bonecos, alvos, trincheiras, obstáculos e todo tipo de acessórios que um campo poderia ter. Havia uma arena de batalha, um arsenal de armamentos, mapas de territórios e miradouro, onde se encontrava uma mesa e dois bancos, todos de pedra.
– Uau! – foi a única exclamação ouvida pelo pátio inteiro.
– Bom, acho que conseguimos impressionar vocês, apesar de não termos conseguido fazer o que planejávamos. Mas ainda tem coisas em construção, e temos coisas a fazer... Mas isso fica para depois, acho. – Philip declarou, com a feição pensativa.
– Coisas em construção? Não fizeram o que planejaram? Poxa, vocês construíram isso aqui em algumas horas e queriam que saísse melhor? Eu tô impressionado que tenha chegado a isso! – disse Miguel.
– Oras, obrigado garoto. Vou considerar isso como um elogio à minha raça. Mas, vamos ao que interessa. Acho que primeiro vou avaliar a senhorita aqui, acho que é Blanca. Pronta, garota?
– Ãh, pra falar a verdade... – disse Blanca, indecisa.
– Que ótimo! Fico feliz que tenha se voluntariado assim, tão rapidamente!
– Mas eu não... Quer dizer...
– Não precisa ter medo, garotinha. Só vou te colocar um pouquinho à prova. Vamos ver se você é boa em tiro ao alvo. Todos para as arquibancadas! Blanca, você irá junto conosco, mas ficará na arena. Você lutará.
– Lu...lu...Lutarei?
– Sim, garota. Mas não se preocupe. É só um teste. – Philip levou todos à parte posterior da escola.
Ninguém havia notado aquele mini Coliseu porque quando foram atravessar a escola, deram a volta pela parte da frente. Mas lá estava ele: apesar de pequeno, cabiam confortavelmente todos os alunos, e ainda sobrava espaço. Havia quatros portas de madeira, grandes e trabalhadas. Era uma arena muito amedrontadora e deslumbrante.
Todos começaram a procurar lugares para sentar-se. Os mais corajosos sentavam nos bancos mais baixos. Mikaela ficou perto de Blanca o tempo todo, encorajando-a.
– Vamos, garota. Você sabe que vai conseguir. Você é forte, é rápida, e é boa com arco e flecha. E Philip disse que seria tiro ao alvo. Não acho que ele vá pegar tão pesado assim. Afinal, é nosso primeiro dia. Promete que vai ser corajosa?
– Prometo que vou tentar, Mia. Prometo que vou tentar. – e ela se foi, caminhando insegura até a arena. Théo acenou, e ela esboçou um sorriso, que se esvaiu assim que Philip começou a falar.
– Senhores e senhoritas, estamos aqui para ver até onde vai a bravura de vocês. A maioria não passou de uma caminhada, mas esta garota está entre uma das sobreviventes deste trabalho árduo...
Blanca não ouvia mais nada. O primeiro pensamento dela foi “nossa, a acústica daqui é realmente boa”, mas depois seus pensamentos começaram a piorar “não sei se vou conseguir”, “o que está a minha espera?” e outros pensamentos que de longe encorajariam alguém que estivesse prestes a enfrentar algo desconhecido.
–... Está pronta, pequena guerreira? – Philip perguntou.
– Na medida do possível – murmurou. – Eu preciso de uma arma! – falou, aumentando o tom de voz.
– Ah, sim! É claro! Lolita, leve à ela seu arco e suas flechas!
Uma centauro encaminhou-se trotando até Blanca e entregou-lhe um lindo arco, com flechas de ponta de bronze. Mas não era um bronze qualquer. Ela sentiu, assim que o tocou, que aquilo poderia matar seja lá o que estivesse atrás daquela porta.
– É, hã... obrigada, Lolita. Acho.
Lolita só sorriu e saiu trotando novamente.
– Bom, agora eu acho que você está pronta. E que comece o desafio!
As portas se abriram. Blanca estava com o arco e a flecha prontos, mas suas mãos tremiam de nervosismo e medo. Das portas saíram três aves gigantes, com asas, cabeça e bico de ferro. Blanca não parava de tremer. As aves não pareciam ter visto-a; sobrevoavam o anfiteatro, calmas e harmonizadas. Blanca ainda se recuperava da visão e tentava se acalmar quando uma trombeta soou. O som era quase inaudível, porém pareceu irritar bastante as aves, que finalmente pareceram perceber a presença de Blanca. Ela só teve tempo de gritar e se abaixar, pois a primeira deu uma rasante que pegou seu braço de raspão. Seus instintos de sobrevivência pareciam ter acordado, pois ela rolou e escapou das duas primeiras aves. A terceira ainda estava lá em cima, se preparando para atacar.
“Putz – Blanca pensou – como posso atacar esses bichos se eles têm uma armadura natural?” Ela estava pensando nas possibilidades, enquanto todos na arena gritavam. De repente, ela ouviu a voz nítida de Mikaela:
– Sua flecha tem veneno e bronze celestial! Atire nos flancos e não se preocupe!
“Atire nos flancos e não se preocupe! Como se fosse fácil mirar em um alvo móvel! Eu sou filha de Afrodite, não de Ártemis nem de Apolo!” Mas mesmo assim ela seguiu o conselho de Mia. Ou pelo menos tentou seguir. Após Mia ter falado, pareceu que as aves ficaram mais agitadas e desesperadas. Começaram a atacar cegamente, sem parar um minuto. Blanca mal tinha tempo de se esquivar de ataques seguidos, quem dirá acertar uma flecha em uma das aves. Depois de seus qüinquagésimo rolamento evasivo, ela bateu em algo. Mas não parecia a parede do anfiteatro, pois ela não tinha batido em uma pedra. Ela arriscou olhar para trás, e viu um muro de madeira, que possuía um buraco, parecido com o buraco de uma janela.
“Perfeito” – ela pensou e pulou pro outro lado. Colocou uma flecha em seu arco e mirou na primeira ave, mas não acertou. Tentou novamente, com o mesmo resultado.
– Blanca! Concentre-se! Você vai desperdiçar flechas! Você consegue!
“Vou ficar falando quando for a vez dela: você consegue, vai desperdiçar, concentre! Vai catar coquinho!” E lançou outra flecha. Desta vez ela acertou, apesar de não ser do jeito que ela esperava. Ela tentou acertar uma ave, mas a outra passou por baixo dela no exato momento que a flecha iria passar por aquela trajetória, acertando as duas com uma flechada só.
“Então tá. Só falta um.” Pensou Blanca. Mirou na outra, e acertou. Ouviu um monte de pessoas gritando. Mas os gritos passaram de encorajadores para alertadores. Blanca entendeu o significado tarde demais. A última ave parecia ter se dado conta do perigo iminente. Procurou sua atacante e a achou. Atacou o bloqueio de madeira, e acertou-a. Apesar de ser uma parede de madeira, era muito pesada, pois era alta. E a parede caiu em cima de Blanca, logo após ela ter sido bicada pela última sobrevivente.
– Blanca! – Théo e Mia gritaram juntos.
– Professor Philip, você tem que ajudá-la! – falou Mia, desesperada.
– Vocês têm que aprender a lidar com os perigos sozinhos. – Philip disse, friamente.
– Mas você ainda nem nos ensinou nada! – Mikaela retrucou.
– Vocês têm sorte de terem sido colocados aqui quando ainda eram pequenos. Muitos semideuses são perseguidos por monstros a vida inteira. Vocês nasceram com instintos que fazem vocês sobreviverem. Só precisam aprimorar as técnicas. – Philip ainda estava firme na decisão. Mikaela percebeu que de nada ajudaria enfrentá-lo. Voltou sua atenção à luta.
Blanca estava se livrando do enorme pedaço de madeira. Estava gravemente ferida. Mas não poderia dar-se ao luxo de reclamar agora. Ainda restava uma ave. Ela estava pairando no alto, provavelmente pensando que o perigo havia sumido, que Blanca estava fora de combate. Blanca aproveitou a situação e atirou. Sua flecha fez um arco perfeito, indo direto ao coração da ave. Ela caiu, no começo lentamente, mas depois foi se acelerando, enquanto ia se desfazendo. Só agora Blanca percebia. Nenhuma das três aves estava mais lá. Só havia pó onde elas haviam caído, e seus bicos haviam ficado. Blanca recolheu os bicos instintivamente, e ergueu-os para a multidão que aplaudia animada.
Mikaela e Théo saíram da arquibancada e correram até Blanca.
– Parabéns Blanca! – disse Mia, animada.
– Nossa! Você foi incrível! – disse Théo, abobado.
– Obrigada. E obrigada pelas dicas, Mia. – agradeceu Blanca.
– Não foi nada. Acho que nem ajudaram... Se você não tivesse seguido seus instintos... – Mia começou, consternada.
– Não, imagina. Não ajudou em nada, só... Salvou a minha vida! Você e essa mania de humildade...
– Blanca tem razão, Mikaela – disse Philip, aproximando-se – às vezes, só instinto não resolve. Precisamos ter um conhecimento mínimo do que enfrentaremos, senão o fracasso é óbvio na maioria das vezes.
– Ou seja, estou ferrado. – declarou Théo, convicto.
– Ele disse na maioria das vezes – disse Mia, zombeteira – ainda podemos ter esperanças, Théo.
– Há-há – disse ele – muito engraçadinha você, ein?
– Bom... Acho que você é o próximo, Théo. – disse Philip, meio sem jeito.
– Boa sorte Théo. – disse Blanca – você vai precisar.
– Hã... Obrigado, acho. – disse Théo, inseguro.
– Philip, ainda acho errado isso. – disse Mia, tão insegura quanto Théo. – Quer dizer, deveríamos aprender primeiro, não é?
– Já expliquei-lhe o meu motivo. Se você compreendeu ou não... Não posso fazer nada a respeito disso.
– Não pode, é? Certo. Bom, boa sorte então, Théo. – disse Mia.
– Senhor, posso falar um instante com ela a sós, antes de entrar na arena? – perguntou Théo.
– Sim. Não vejo nenhum problema nisso. – disse Philip, enquanto encarava Mia.
– Ele não é muito bom em dar indiretas, não é mesmo? – perguntou Mia a Théo, enquanto ambos se afastavam do centauro.
– Hum... Não muito. Mas não foi por isso que eu te chamei. Você está com uma cara estranha...
– Estranha? – perguntou ela, divertindo-se. – Estranha como?
– Não sei explicar, mas eu conheço essa cara. É a cara que você usa quando está pretendendo aprontar.
– Eu? Aprontar? Nossa Théo, até parece que você não me conhece! – ela falou, distanciando-se, ainda com um sorriso maroto.
– Esse é o problema. Eu te conheço até demais. – balbuciou ele para si mesmo, enquanto dirigia-se para o centro da arena.
Ele estacou quando se deparou com uma imagem, que mais tarde ele classificaria como horrenda. Ele viu, com espanto, que o meio da arena não estava mais deserto, e sim ocupado por um gigante. “Bom, pelo menos eu não vou ficar nervoso enquanto espero as portas se abrirem.” O gigante o encarou. “Gente, que cara de bravo!”
– Hã... Oi, tudo bom? – tentou Théo. Mas não funcionou. O gigante avançou com seu porrete para cima dele. – Hum, acho você não é muito bom de papo, não é?
Théo começou a correr, à procura de alguma coisa que ele pudesse usar como arma. Viu Philip segurando uma espada.
– Não dava pra você me dar a espada antes de soltar o monstro? – perguntou Théo, quando passou correndo por Philip e pegou a espada. Philip limitou-se a dar de ombros.
– MIA! – ele gritou – Como é o nome desse bicho?
– Um gigante! – respondeu ela.
– Isso eu já tinha notado! – rebateu ele – eu disse nome mesmo! Ele não tem nome, nem apelido carinhoso, nem nada?!
– Ah! Desculpe! Tem sim! É Amico!
– E o que esse Amico faz? – perguntou ele, pensando na ironia do nome.
– Te mata! – respondeu Mia.
– E eu? – perguntou ele, exasperado.
– Você tem duas opções: ou corre até morrer de cansaço, ou mata ele!
– E... COMO EU FAÇO ISSO?
– Acerta na parte de trás do joelho!
– AH! Obrigada pela mensagem direta!
Mikaela não teve tempo de responder, pois o gigante estava alcançando Théo, e ele pôs-se a correr novamente. De repente, ele teve uma idéia. Diminuiu sua velocidade, e mal ouviu quando Blanca gritou:
– O que você está fazendo? Você quer se matar?
Quando percebeu que o gigante estava próximo, e mantendo uma velocidade constante, parou bruscamente, e o gigante passou por ele. Théo começou a correr novamente, mas desta vez ele estava atrás do gigante. Aumentou a velocidade e chegou perto das pernas de Amico, que ainda estava meio confuso. Théo aproveitou e golpeou sua perna no local indicado por Mia. O gigante pareceu começar a entender o que havia acontecido, porém já era tarde demais. Ele estava se desfazendo em pó. Soltou um ultimo grito de dor e frustração e desapareceu.
– Parabéns, Théo – congratulou-o Philip – apesar de que você, assim como Blanca, não teria conseguido sem a ajuda de Mia, que se mostrou muito... impertinente nesses dois testes. Mas agora chegou a sua vez garota, e quero ver quem vai te ajudar.
– E qual será minha prova, professor Philip? – perguntou Mia, enfurecida.
– Ela não tá abusando um pouco? – sussurrou Théo para Blanca.
– Um pouco? – redargüiu ela – Tá abusando demais.
Mikaela fuzilou-os com o olhar, e eles entenderam o recado.
– Você, Mikaela – disse ele, aumentando a voz, para que todos pudessem ouvi-lo – lutará comigo.
Todos olharam de Philip para Mikaela, boquiabertos. Mikaela ficou estática. Por mais que ela fosse talentosa nas lutas, era praticamente impossível ganhar de alguém que tivesse muitos anos, talvez até séculos a mais de experiência do que ela.
Théo e Blanca estavam petrificados. Era muito mais que injusto o que Philip estava fazendo. Nem mesmo os três professores-monstros exigiram tanto assim do trio, ainda mais da primeira vez.
– Hã... Senhor? Você acha que ela está tão preparada assim? Quer dizer, o senhor tem séculos de experiência de técnicas de guerra, e ela... – tentou Blanca.
– Ela tem experiência o suficiente para lutar comigo. Quanto a ganhar a luta, vejamos se ela é capaz o suficiente.
– Professor... Você não vai... Machucá-la muito, não é? – perguntou Théo, preocupado.
– Ah... Obrigada pela confiança em mim, Théo. – reclamou Mia.
– Hã... Ops. Eu quis dizer, se você perder. Eu estou preocupado com ela e ela ainda reclama... – bufou Théo.
– Vocês dois, querem parar? – brigou Blanca. – Mia, você tem que se concentrar. Escolha bem sua arma. E tenha cuidado.
– Concordo com a Blanca. Desculpe, Mia. Não duvido da sua capacidade. Só estou preocupado. Quer dizer, é o Philip. Mas você vai conseguir. Eu confio em você.
Ela abraçou os dois amigos, chorando de emoção. “Vou conseguir e não porque eu sou boa, mas sim porque tenho amigos que confiam em mim, e me dão forças” pensou ela enquanto se encaminhava para o centro na arena, onde Philip já a aguardava.
– Então, garota... Que arma você escolherá? – perguntou Philip, zombeteiro.
– Posso escolher algo sem ser uma arma? – Mia perguntou, cautelosa.
Philip a encarou, tentando descobrir o que aquele cérebro estava maquinando, mas não teve muito sucesso. Vencido, disse:
– Não vejo nada de errado nisso, mocinha, apesar de não saber em que um objeto comum pode lhe ser útil.
– Todos os objetos chamados vulgarmente de comuns podem se tornar armas letais se forem usados com sabedoria, ou com impulsividade.
Philip refletiu, e concordou, meneando a cabeça. “Até que a garota é esperta”, pensou ele.
– E o que a senhorita deseja?
– Patins. – ela respondeu, com um sorriso no rosto.
– Patins? – ele repetiu, inseguro.
– Sim. – respondeu ela. – Algum problema?
– Não, só não vejo como... Ah, deixa pra lá. Vamos à luta, então. Tragam um par de patins para a garota!
– Número trinta e sete! – ela gritou.
Em poucos minutos de espera, um garoto voltou com o par de patins, arrancados da mão dele por Théo, que foi calçar nos pés de Mia.
– Espero que saiba o que está fazendo. – falou Théo.
– Eu sempre sei o que estou fazendo. Só não sei se vai funcionar. – ela redargüiu, sorrindo.
– E é isso que vai acabar me matando um dia. – reclamou ele.
Então, aconteceu o inesperado. Bom, mais ou menos. Ela não o beijou. Pelo menos não na boca. Foi um beijo na bochecha, mas foi mais demorado que o normal, como se ela tivesse errado o alvo. Depois de um tempo, sabe-se lá quanto, pois ninguém tinha um cronometro nem um relógio naquele momento, ela afastou-se do rosto de Théo, que estava vermelho como um pimentão.
– Confia em mim, ok? – disse ela, enquanto saía, patinando.
Ele não conseguiu articular nenhuma frase com sentido. Estava tão abobado que demorou um bom tempo até achar seu lugar, ao lado de Blanca, que estava com um sorriso divertido no rosto.
– E aí, garotão? Até parece que foi beijado de verdade...
“Não foi? – ele pensou – Gente, preciso me controlar! Calma aí garoto!”
– Pelo menos finge que está prestando atenção na luta. – sussurrou Blanca no ouvido de Théo.
– Que? Mas a luta ainda nem começou! – exclamou ele.
– Ah é? E o que eles dois estão fazendo lá? Brincando de pega-pega?
Théo olhou para a arena e se surpreendeu. Não sabia que Mia era tão talentosa em andar de patins. “Ela é boa em tudo? Pelo amor dos deuses!” E foi então que ele percebeu uma outra coisa: ela não estava desarmada. Estava com as duas mãos ocupadas por um tipo de espada estranha, diferente. Elas eram meio curvadas, e o cabo delas era mais fino do que o normal. De um lado o cabo era chato, e do outro possuía a forma de cabos normais.
– O que é isso na mão dela e como ela conseguiu? – perguntou Théo, encabulado.
– É uma espada dupla, anta. Até parece que nunca viu uma dessas. Você sabe que a Mia sempre adorou essa espada. E quanto à como ela conseguiu, foi simples: a bolsa dela providenciou.
– A bolsa...? – então ele se lembrou da bolsa que Mikaela havia ganhado no dia da “revolta escolar”, como eles passaram a chamar o incidente. – Ah, sim. Tinha me esquecido dela.
– Percebi. Mas agora deixe-me prestar atenção na luta. Eu estou tentando torcer pela Mia.
Ele se calou e tentou prestar atenção na luta. Tentou, mas ficou preocupado. Mas depois de um tempo se obrigou a parar e prestar atenção.
▪▪▪
Mikaela saiu patinando até a arena, de encontro a Philip. Ele estava com uma cara confusa.
– Então isso é um patins? – perguntou ele.
– Não professor. Isso são dois patins, ou um par de patins.
– Ah, sim... E isso é para...?
– Não posso contar professor. Você vai lutar contra mim, então se eu contar vou vender minha batalha, e isso não vai ser bom pra mim, não é? – disse ela, piscando para Philip.
– Hum... Faz sentido... Bom... Então que a batalha comece! – anunciou ele.
Philip avançou para Mia. Ou tentou. Ela se esquivou rapidamente, e conseguiu uma boa distancia de Philip, graças aos patins. Mas Philip também tinha um truque: ele era metade cavalo, então tinha quatro “pernas”, o que o deixava mais ágil e rápido. “Menina esperta, ela. Mas ela não tem arma, não vai conseguir fugir por muito tempo.”
Mikaela aproveitou o pouco tempo que tinha antes de Philip alcançá-la novamente, e pediu: “Uma espada dupla, por favor...”. E a conhecida luz apareceu, acompanhada de uma espada dupla. “Mais um ponto para Mikaela!” e com esse pensamento a verdadeira batalha começou.
Philip ainda avançava em direção de Mikaela quando viu a luz. “Não é possível – ele pensou – um presente dos deuses? Sendo que ela nem os conhece?” Depois de passar o susto inicial, ele continuou a avançar, e ergueu a sua espada, e chocou-a em algo. Mas não foi ao corpo de Mikaela, como ele esperava. Foi a uma espada. Uma espada dupla.
– Surpreso professor? – perguntou Mia, sarcástica.
– Pra falar a verdade, estou sim. Nunca pensei que teria uma aluna tão perspicaz.
– Pois é. Às vezes podemos nos surpreender facilmente... – ela disse, com um sorriso irônico.
A batalha continuou. Philip golpeava Mikaela, mas ela aparava seus golpes com destreza. Mikaela também tentou acertá-lo, porém ele era bom. A luta estava acirrada e difícil de prever. Após uma longa seqüência de golpes e contragolpes, defesas e recuos, Mikaela estava ficando cansada e fraca. “Consegui uma agilidade semelhante à de Philip com os patins, porém não a mesma energia. Não tenho tanto preparo físico assim.”
Théo e Blanca haviam notado o cansaço de Mia, apesar de suas tentativas de esconder. Blanca estava desesperada, tentando pensar em algo que pudesse ajudar Mikaela, mas nada lhe vinha à cabeça. Théo também estava se esforçando, mas só lhe vinham na memória imagens de Mia ensinando-o a patinar, e treinando danças com ele para um concurso que os alunos organizaram. “É isso!”
– Mia, dance! – Théo ordenou.
– Isso é hora? Não vê que estou ocupada? – Mia retrucou, furiosa.
– Confia em mim!
Mikaela, embora relutante, começou a se mover mais com os patins, fazendo círculos, giros e às vezes saltando. Percebeu que Philip não conseguia acompanhá-la, e que estava deixando seus pontos mais vulneráveis à mostra. Mas ela também estava, e esse seria o risco que ela teria que correr para dar um fim naquela batalha longa e exaustiva. Acertou-o uma, duas, três vezes. Na quarta tentativa, Mikaela se descuidou e acabou sendo ferida, porém ela continuou. A luta continuou equilibrada: apesar de Mia conseguir acertar Philip, ele também conseguia. Foi então que teve uma idéia. “Espero que não o mate.”
Philip teve um pensamento, quando Mia atacou-o: “Como ela...” e foi só. Ele não teve tempo de pensar em mais nada, apenas na dor da espada acertando suas pernas dianteiras, depois suas pernas traseiras. Mikaela fez cortes leves, pois apesar de estar zangada com o professor, não queria machucá-lo gravemente, apesar de ele não ter sido tão condescendente como ela: ela tinha poucos cortes, porém todos eram bem profundos. Mas Philip, depois de acertado, não conseguiu ficar nem mais um instante em pé. Caiu, impotente. Depois de controlar sua respiração, falou, relutante e com uma voz que demonstrava dor:
– Pelo visto... temos uma vencedora... Mikaela, você conseguiu ganhar a luta!
Todos deram vivas, impressionados com a sagacidade e habilidade de Mia.
– Bom, estão todos alegres e felizes... Agora, será que alguém pode me arranjar um médico?
Um centauro entrou rapidamente, e começou a tratar de Philip, começando pelas patas, é claro. Um outro veio e começou a cuidar de Mikaela, que não reclamou. Ela estava se esforçando tanto em conter caretas de dor, que nem percebeu a aproximação de Théo e Blanca.
– Nossa, os ferimentos devem ter sido feios, pra você deixar outra pessoa cuidar de você. – disse Théo, brincalhão.
– Engraçadinho você... Ei, obrigada por me ajudarem. Se não fosse por vocês, acho que ou eu ainda estaria lutando, ou já teria perdido a batalha há muito tempo.
– Nós só dançamos conforme a música – respondeu Théo, sorrindo. – Afinal, a idéia dos patins foi sua.
– E eu não ajudei em nada... – disse Blanca, tristonha.
– É claro que me ajudou! – exclamou Mia, indignada. – E a força que você me deu antes da luta começar?
– Isso de apartar briga, eu faço o tempo todo. Quer dizer, tirando quando eu mesma arranjo confusão... – disse Blanca, fazendo careta de culpa.
O efeito foi instantâneo. O trio caiu na risada.
– Blanca, presta atenção. – disse Mia, tornando-se séria. – Se não fosse pela confiança que você pôs em mim, que vocês dois puseram em mim, acho que não teria tido coragem de andar até a arena.
Mikaela fitou Blanca, e viu uma lágrima solitária percorrendo seu rosto, e sorriu.
– É... – falou Théo, meio sem jeito. – Mas e agora, o que acontece?
– Acho que o professor Philip vai precisar se ausentar por um tempo, não é? – disse Blanca, divertindo-se.
– Quem? Philip? – disse o centauro que estava cuidando dos ferimentos de Mia. – Xii... Aquele lá é durão. Aposto que depois de amanhã, no mais tardar, ele estará de volta.
– Então Mia, nosso plano de ficar sem aula foi por água a baixo. – disse Théo, rindo.
– Pois é, Théo. Acho que o jeito é matar, mesmo. – disse Mia, entrando na dele.
– Eu acho que se você quisesse, conseguiria fácil. – declarou o centauro. – Em séculos, nunca ninguém conseguiu derrubar Philip, nem mesmo os da nossa própria raça. Mas, em compensação, eles não usavam, é... como é o nome disso mesmo? Ah, sim! Patins.
– É, senhor... Nós não estávamos falando sério. – disse Mia, cautelosa.
– Oras, eu sei que não. Deu pra perceber pelo tom de voz. Apesar de não convivermos com humanos, garotinha, não quer dizer que não os entendemos. E a propósito, meu nome é Amadeus.
– Prazer, e me desculpe por subestimá-lo. – disse Mia, desculpando-se.
– Não foi nada. – disse ele, sorrindo gentilmente. – Hã, sempre que precisarem de mim, eu estarei na enfermaria.
Com essa ultima sentença, afastou-se trotando.
– Gente boa ele, não? – perguntou Théo.
– Não é gente, é centauro. Mas agora eu tô com sono... Que tal irmos dormir, amanhã nós nos falamos? – disse Mia, bocejando.
– Concordo – disse Théo, de repente percebendo-se sonolento também.
– Então vamos dormir. – disse Blanca.
Encaminharam-se para a escola. Quando chegaram no corredor que dividia os dormitórios em feminino e masculino, Blanca e Mia despediram-se de Théo e encaminharam-se para o quarto dividido entre as duas.
– E então? Vai falar agora ou depois sobre o beijo? – perguntou Blanca, com seu sorriso maroto.
– Que beijo? – indagou Mia, inocentemente.
– Aquele que você deu no Théo!- exclamou Blanca.
– Ah! Aquele! – disse Mia. – Ué, foi só um beijinho na bochecha, nada demais.
– Hum, sei. Um mero beijinho na bochecha, do qual os dois saíram vermelhinhos... – Blanca riu.
– Ai Blanca, deixa de invenção!
– Invenção pra você, que não teve que guiar um Théo louquinho da silva até o banco!
– Do que você está falando?
Blanca contou-lhe tudo que ela não viu, porque estava batalhando.
– Mas... – começou Mikaela.
– Quero ver que desculpa você vai arranjar agora! – disse Blanca, curiosa.
– Não sei... – Mia estava pensativa – Mas e se eu sem querer fiz alguma coisa, sei lá, com os poderes de ninfa que eu tenho, e causei isso para o Théo sem querer?
– Como sempre, arranjando um jeitinho de escapar. – Blanca concordou, contrariada – É uma possibilidade, tenho que admitir. Mas como você também disse, nós estamos cansadas, e não faremos nada de produtivo com tanto sono assim.
Elas já estavam na porta do quarto, e Blanca a destrancava, com sua chave. Elas dirigiram-se ao armário, olharam uma para a outra e nem trocaram as roupas, nem se deram ao trabalho de tomar banho. Caíram na cama e adormeceram na hora.
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