– O que foi, Mia? Por que você foi até a janela? – Théo perguntou, visivelmente preocupado.

– Achei que tinha visto uma sombra...

– E...? Se enganou? – Blanca perguntou, esperançosa.

– Queria poder dizer que sim. Mas...

– Tinha realmente alguém aí, não é?

– Sim, Théo, tinha.

– Você conseguiu ver o rosto? Roupa? Qualquer coisa?

– Não. Eu tentei fazer com que ele não desconfiasse que eu o vi. Acho que consegui. Mas eu tenho coisas mais importantes para falar com vocês agora.

Mikaela pegou o caderno em cima da escrivaninha, mas rejeitou o lápis.

– Agora é a parte que você fica arranhando o caderno com o lápis, e nós ficamos parados, olhando? – Blanca perguntou, zombeteira.

– Não, Blanca. Eu já organizei tudo, enquanto você teve o ataque, o Théo foi te procurar, e depois que eu saí. – Mia falou, dando uma piscadela. – Eu sei o quanto vocês não gostam disso, então tentei aproveitar o máximo de tempo possível. Ah, se vocês não se importam, pedi para uma alma boa trazer nossa comida aqui, para que não perdêssemos tempo. Algum problema pra vocês?

– Não. – Blanca disse.

– Eu também não tenho nenhum problema. Só não vou poder ficar paquerando as gatinhas que tem lá. Mas não tem problema. – disse Théo, se divertindo.

– Quem vê, pensa que você fica olhando muitas garotas... – Blanca falou, tirando sarro dele.

– Não comecem de novo, vocês dois. – Mia falou.

Mas não era porque não queria que eles brigassem, pois sabia que essa conversa não se tornaria uma briga. Era porque sabia de quem Blanca iria falar: dela. E não queria que a conversa tomasse esse rumo, não depois da briga recente entre elas duas.

– Sim senhora. Vamos direto aos pontos, madame. – Théo falou.

Mikaela começou a mostrar suas anotações, e eles começaram a discutir as possibilidades. Pareciam três adolescentes discutindo uma questão de vestibular.

– O fato é: precisamos descobrir quem nós somos. É o básico. – Théo falou, depois de um tempo de reflexão e silêncio do trio.

– O segundo fato é que eu preciso comer, porque de barriga vazia eu não penso. – Blanca falou, tentando distrair um pouco os dois. Sabia que ficar focada muito tempo em algo não ajudava.

Conseguiu. Théo e Mia riram. Iam começar a dar um tempo, quando alguém bateu na porta.

– Quem é? – Mia perguntou, cautelosa.

– Sou eu, Mia. A Ágata. Você poderia abrir a porta? Essa sopa está meio quente.

– Nossa! Tinha esquecido que hoje era sopa! – falou Mia, enquanto abria a porta. – Desculpa Ágata. Se eu tivesse lembrado, te pouparia. Pensei que fosse só pão.

– Não foi nada. Eu adoro fazer essas coisas. Deixo as pessoas felizes.

– Que linda, Ágata. Obrigada mesmo, viu? Quando precisar de alguma coisa, pode me pedir.

– Tá bom, Mia. Tchau, até a aula!

– Até!- Falaram os três em uníssono.

– Eba, comer! – Blanca e Théo falaram, animados, e começaram a devorar cada qual sua sopa.

Depois de um certo tempo, perceberam que Mia não comia. Aliás, perceberam que ela não tinha um prato para ela.

– Mia, vem cá. Eu divido minha sopa com você – disse Théo, gentilmente.

– Eu também. Aí nós três comeremos o mesmo tanto. – Blanca completou.

– Não, obrigada. Eu prefiro ficar sem comer antes da aula. – Mia falou.

Ambos deram de ombro, e não insistiram. Conheciam Mikaela o suficiente para saber que quando ela dizia que não, era não.

Enquanto os dois comiam, Mia ficou imersa em seus pensamentos. Ainda não tinha falado com os amigos sobre a preocupação dos constantes desgastes entre os três, e sobre a aparente “falha” do poder de Blanca. Na verdade, eles não tinham falado sobre muitas coisas, a não ser o básico: listar os fatos ocorridos até o momento, decidir o grau de importância de descobrir quem eram, e tentar decidir o local a se dirigirem depois que achassem que seus pupilos estavam preparados o suficiente para enfrentar o mundo sozinhos. Mas Mia sabia que alguns deles enfrentariam muito mais do que o mundo.

– Mia, eu sei que você está preocupada. Não precisa esperar a gente terminar aqui se quiser continuar a conversa. Se você esperar, é capaz de a gente só voltar a conversar depois da luta... – Théo disse com meiguice.

– Obrigada Théo. Mas vocês podem terminar de comer. Eu não me importo com o quando. Só com o como e com o porquê.

– Mikaela, deixa de frescura. Estamos aqui, nós três, juntos. Eu estou enchendo minha barriga, o que quer dizer que vou ajudar a pensar, e temos tempo: são dezoito e quinze agora, e temos que chegar lá umas dez para as vinte. Então desembucha, amiga. – Blanca estava animada.

– Está bem. Eu estou preocupada.

– Isso nós já tínhamos percebido, lindinha. – Blanca falou.

– Estou preocupada porque tivemos uma sucessão de problemas aqui: primeiro eu briguei com você Blan, depois o Théo se irritou com a gente, e seu poder não funcionou com ele da primeira vez, e da segunda...

– Da segunda...? – Perguntaram ambos, ansiosos e preocupados ao mesmo tempo.

– Parece que teve exatamente o efeito contrario. Você queria manter o Théo calmo, mas ao invés disso, estressou-o novamente. E aquele vulto misterioso que eu vi...

– Você acha que ele tem a ver com isso? Mia, você acha que essa pessoa consegue neutralizar nossos poderes?

Théo havia tocado no ponto. Era exatamente isso que ela estava pensando até agora. O que mais a intrigava não eram as brigas sucessivas, pois isso era normal em momentos de crises: o estresse tinha a fama de causar mais complicação nas coisas. O que a intrigava era o fato do vulto estar lá. Ela não sabia por quanto tempo ele estava lá, mas sabia que foi tempo suficiente para tirar algumas conclusões: senão ele teria permanecido por mais tempo.

– Mia? – chamou Blanca, cautelosa. Aliviou-se quando ela focou seus olhos azuis em seu rosto branco. — Há quanto tempo você acha que essa pessoa tem vigiado a gente?

– Não sei ao certo. Mas algo me diz que essa foi sua ultima visita de reconhecimento. Acho que nosso espião já coletou informações suficientes, e algumas cruciais, devo arriscar dizer, para nos entender, e fazer algo contra nós.

“Eu só queria saber um pouquinho do que ele sabe. Só para esclarecer algumas coisas.”

– Bom, temos um agravante nas nossas decisões então. – disse Blanca, enquanto limpava a boca com o guardanapo; seu prato estava totalmente limpo.

– Agravante? – perguntou Théo. – Nós temos um problemão, isso sim!

– Acho que é só um agravante. Se Mia estiver certa, e ele tiver acabado o “reconhecimento”, quer dizer que ele vai mandar coisas que acham que vão nos matar ou coisa do gênero. E se ele passou muito tempo nos vigiando, quer dizer que foi muito difícil para ele ver a nossa capacidade, e que ele quer adversários que não errem: ou seja, sobram poucos.

Mia e Théo olharam embasbacados. Blanca nunca tinha sido a que pensava tão longe assim. Ou suas frases eram curtas e sucintas, ou ela não falava. Ela dizia que não gostava de trabalhar com teorias e hipóteses.

– Eu falei pra vocês que penso melhor de barriga cheia. – ela declarou, dando uma piscadela.

– Percebi. Então acho que na nossa aventura vamos ter que levar umas sete bolsas de comida só para você... – Théo falou, zombando de Blanca.

– Falando em aventura... – Mia começou. – Eu estava pensando... Meu pai falou comigo no dia da batalha contra os professores, e seu pai também, Théo. Será que um de nós tentar falar com nossos pais, eles vão responder, e falar o porquê de tudo isso?

– Sinceramente eu não sei, Mia. – Théo estava com cara de pensativo. Olhou para Blanca e a viu com o rosto entristecido. – O que foi, Blan? Acha que eles não vão responder?

– Não, não é isso... É que os seus pais falaram com vocês, mas minha mãe não... Estou meio triste por isso. Mas é momentâneo, já passou.

– Blanca, não fique assim... – Mia falava em um tom maternal. – Meu pai tem um contato fácil comigo, que é a bolsa, que por sinal ainda preciso descobrir como funciona. E o pai do Théo usou o fogo. Não sei que artifício sua mãe poderia usar para falar com você sem muito alarde...

– Mia, é isso! – Théo falou, com uma cara de quem havia descoberto o mundo.

– É isso o que? Falei alguma coisa demais?

– Mais ou menos. O livro, Mia! Esquecemos dele! Podemos não descobrir coisas da gente, mas podemos ver quem são os inimigos mais fortes dos deuses, e talvez até formas práticas de falar com nossos pais! Antes de tudo, precisamos estudar esse livro!

– Mas isso eu achei que fosse meio óbvio, não? Você acha que eu fui buscar o livro só para fazer festinha com uma harpia?

– Nossa, Mia! Calminha aí! Tinha esquecido desse detalhe...

– Enfim, o ponto não é esse, o ponto é...- Mia parou abruptamente, ao ouvir uma algazarra do lado de fora do corredor – Que barulho é esse? Já está na hora de irmos, Blan?

– Não, ainda são dezenove e vinte. Deve ter alguma coisa acontecendo. O barulho parece com um monte de gente falando ao mesmo tempo...

– Jura? Nem tinha percebido isso... – falou Mia, em tom irônico, enquanto abria a porta.

Uma multidão estava no corredor, todos olhando para o lado oposto do quarto de Théo, que dava para uma parte onde os estudantes costumavam passar um tempo, debaixo das árvores e conversando, sentados na grama e sentindo o cheiro das diversas fragrâncias proporcionadas pelas plantas. Mia chamou seus dois amigos com um sinal, e o trio saiu e abriu passagem pela multidão. Ficaram estáticos quando descobriram o motivo da confusão.

▪▪▪

Um animal magnífico, meio homem meio cavalo, estava bem diante de todos: um centauro. Estava parado enquanto a multidão se fechava diante dele, e permaneceu quieto e controlado, apesar de estar nervoso: não gostava de pessoas muito perto dele.

Mas, quando ele viu o motivo de sua presença naquele lugar estranho e desconfortável, percebeu que havia valido a pena. Eles pareciam verdadeiros heróis. Daqueles saídos de histórias em quadrinhos feitos por humanos... Afastou todos de perto dele apoiando-se somente nas patas traseiras, empinando-se. Os três heróis não tiveram medo. Isso era um bom sinal: eram corajosos, ou pela visão do centauro, teimosos o suficiente para se arriscarem à morte. Continuou firme em seu lugar, sem se deixar abater pela coragem dos três.

Ao olhar continuamente para os três, viu diferenças de olhares. Ao que parecia, o único garoto do grupo era valente e destemido, e talvez isso viesse a colocá-lo em perigo mais tarde; a garota de pele cor de neve tentava não deixar transparecer, mas ao olhar daquele ser que tinha o dever de captar as coisas que se passavam no mais intimo de cada um, ela tinha um pouco de medo dele; mas a garota morena, ela não tinha medo, mas também não era metida a valente como o garoto: era o perfeito equilíbrio entre os outros dois seres que cobriam seus flancos.

Eles três estavam em posições que os animais que possuíam hierarquias normalmente tomavam: o líder, nesse caso a garota morena, no meio e alguns passos à frente; o segundo no comando, o garoto, um pouco atrás e do lado direito; a garota branca, na mesma linha que o garoto, mas do lado esquerdo. Isso demonstrava muito bem quem era o ponto fraco, e como eles o defenderiam.

Encarou-os ferozmente quando se aproximaram muito: a garota medrosa estremeceu, o garoto dirigiu-se a ela e abraçou-a, mas a morena continuou não se intimidando. Essa ele não tinha entendido.

– Não tenho medo de você. Sei o suficiente sobre você para não ficar insegura. – declarou Mikaela.

– Então você deve saber que somos muito diversos: uns de nós pendemos para o bem, enquanto outros preferem práticas mais... sangrentas. – disse o centauro, com um sorriso feroz.

– Mas você é do bem. Seu coração é calmo, e não tem desejos de matar, ou sequer ferir.

– Como você pode ter tanta certeza, garota?

– Gostaria que me chamasse pelo meu nome.

– Que é...?

– Mikaela. Eu sei que você não é mau porque não atacou ninguém, e eles estavam muito próximos, e eu sei que centauros são muito territoriais, digamos.

Antes de Mia dar a explicação, ele já sabia. Oras, uma filha de ninfa! É natural que saibam tanto, por instinto ou estudo. São as responsáveis pelo equilíbrio da natureza e de todos que nela habitam.

– A propósito, estes são Théo e Blanca. E como é o seu nome, senhor centauro?

– Meu nome é Philip.

– E por que você está aqui, Philip? – Blanca perguntou, com uma voz que demonstrava que ainda estava com medo.

– Não precisa ter medo, garotinha. Estou aqui para ajudar. – disse Philip, fazendo um esforço enorme para sorrir.

– Para ajudar?! – perguntaram os três em uníssono. – E quem mandou você? Ou você veio por conta própria?- Terminou Théo.

– Não, fui mandado mesmo. Sua mãe achou que deveria ajudar de alguma forma Mia, então pediu aos deuses para me enviar, pois eu posso ensinar-lhes muitas coisas. E confesso que, se não fosse por Afrodite, eu não estaria aqui. – declarou Philip.

– Minha mãe? O que ela fez? – perguntou Blanca, feliz por sua mãe ter sido a responsável por esse evento tão estranho.

– Ninguém queria que eu viesse até vocês. Uns acharam que eu era perigoso demais, outros que não gostam de Nefertitis disseram que era uma armação. Mas sua mãe e Nefertitis formaram um elo muito forte, principalmente quando foram obrigadas a vê-las crescer longe delas, e Afrodite usou todo seu potencial para convencer todos do Olimpo. E aqui estou eu. – explicou Philip.

– Viu, Blan? Quem disse que sua mãe não se preocupa com você? – disse Mia, dando um soco amigável em Blanca.

– Por que você achou isso, Blanca? Ela se preocupa muito com você! Toda hora te observando, tentando ajudar. Não para de pensar em você! – disse Philip, acalmando-a.

– Bom, agora não é hora para isso, não é? Já temos que nos dirigir para o local da aula, já são quinze para as vinte. – disse Blanca – Vamos, pessoal?

– Posso acompanhá-los? – perguntou Philip, inocentemente.

Aquele olhar não escapou de Théo, apesar de ele não ter conseguido identificar o significado. “Droga, — ele pensou – quem é boa nessas coisas é a Mia, e não eu. Por que não é ela que percebe essas coisas?”

Eles caminharam até a sala de convivência. Mikaela, Blanca e Théo estavam juntos como sempre, conversando animadamente. Porém Philip decidiu que era melhor não se juntar aos três. Quanto mais observasse, mais entenderia. Pelo menos foi isso o que ele achou inicialmente.

Mia até tinha pensado em fazer companhia àquele centauro magnífico e estranho ao mesmo tempo, porém decidiu que aquela não era a hora certa, pelo menos não ainda. Então continuou a andar com seus dois amigos até o salão de convivência, e tentou acompanhar a conversa de Théo e Blanca sobre as possíveis turmas, e como eles dariam conta de uma escola inteira, sozinhos.

Poucos minutos depois, descobriram que não teriam que se preocupar tanto assim. Ao chegarem ao salão de convivência, notaram duas coisas: a primeira era que Philip havia sumido, e a segunda era que a sala estava cheia de animais surpreendentes.