- Crianças, silêncio!

Já era a décima vez que a professora chamava a atenção de seus alunos. Nem pareciam estar na quarta série. A menina novata que estava escondida atrás da porta, esperando ser anunciada para entrar, pensou em acabar logo com aquilo: entrar sem ser ao menos chamada, sentar em qualquer lugar vago, e ficar lá. Mas a professora fazia questão de apresentá-la à turma de forma dramática. Afinal, aquela garota era especial, pensou a professora quando soube que a garotinha que ela havia visto no corredor estudaria naquela escola e teria aulas com ela.

— CRIANÇAS!

Todos pararam assustados.

“Finalmente — a garotinha pensou. Mas havia um menino teimoso, que continuava falando com uma menina. — A menina com quem ele fala é bonita. Ele também é. Vou esperar mais um pouco, se ele não parar, eu vou entrar. Mesmo que a professora brigue.”

A garotinha não estava vendo. O menino havia dobrado uma folha de papel na forma de uma flor, e entregado à menina bonita. Quando a menina foi pegar, em meio as suas risadinhas, ele fez o papel pegar fogo e fechou a mão. A menina se assustou. Mas ele deu um sorriso maroto e abriu a mão devagar. No lugar da folha em forma de flor, havia surgido uma rosa branca.

- Uma rosa branca para minha eterna Blanca. – Ele falou, com um lindo sorriso estampado no rosto.

Todos sempre se assustavam com ele. Afinal, você também se assustaria se visse um menino que transforma as coisas com fogo. Blanca era a única que não tinha medo. Talvez fosse por isso que ele sempre tentava agradá-la. Ela pensava que fosse porque ele era apaixonado por ela. Ele já havia tentado dizer-lhe que só fazia aquelas coisas por gratidão. Mas ao que parecia, ela teria que descobrir isso do modo mais difícil.

- Théo, quantas vezes vou ter que gritar? – A professora já tinha se irritado.

- Desculpe senhora.

- Desculpado. Agora, eu quero que todos prestem atenção: temos uma nova coleguinha, que eu quero que vocês tratem muito bem. Mikaela, você já pode entrar.

Ela segurou a respiração e entrou. Seu coraçãozinho estava disparado. Entrou de cabeça baixa. Não tinha coragem suficiente para levantá-la. Todos inclinaram a cabeça, tentando vê-la melhor. Ela percebeu o movimento e se escondeu atrás dos lindos e fartos cabelos ondulados.

- Ora Mikaela... Anda, deixa de vergonha! Mostre a todos esse seu lindo rostinho! Não o esconda atrás dos cabelos!

Mikaela, timidamente, ergueu os bracinhos finos e delicados e afastou os cabelos do rosto, prendendo-os atrás das orelhas.

- Agora levante o rosto! Como você vai ver onde você vai sentar? – A professora esboçava um sorriso débil. Não tinha paciência com crianças, muito menos tímidas.

Mikaela ergueu seu rosto vagarosamente. Todos puderam contemplar seu lindo rosto azeitonado sendo iluminado, aos poucos, pelas luzes da salinha de estudos. Conforme ela erguia seus olhos e deixava de encarar o chão, a boca de cada criança naquela sala ia se abrindo. Parecia uma princesa. Seus olhos azuis esverdeados foram admirando cada aluno. Conforme ia passando de criança em criança, aquele olhar ia se amenizando, como se ela estivesse obrigando o medo a ir embora. E o medo obedeceu. Após a saída do último vestígio de olhar receoso, ela passou para outro olhar: o olhar divertido. Parecia estar se divertindo com aquela situação. Mas a verdade era que ela estava se encantando com aqueles rostos. Em sua antiga escola só havia rostos horríveis, fechados. Aqueles não. Eram rostos convidativos, sorrisos acalorados, olhares ternos.

A nova garotinha estacou em um rosto especial: o daquele garoto moreno, de olhos de mel e sorriso branco e brilhante. Conseguiu sair daquele êxtase quando a professora deu uma leve cutucada nela. Atrás dele estava aquela garota que ela tinha achado bonita. Queria ser amiga dela, então caprichou no olhar. Mas a menina de pele branca, olhos e cabelos castanhos claros não deu uma pequena brecha para que aquele olhar a encantasse. Se Mikaela tivesse se empenhado naquele olhar para Blanca antes de ver Théo, talvez ela tivesse sido mais receptiva.

“Com o tempo ela vai ser minha amiga. Eu vou conseguir conquistar sua confiança” – Foi com esse pensamento que ela foi se sentar.

Seu lugar era do lado de Blanca e de Théo. A primeira não deu nenhuma atenção à Mikaela. Mas Théo, logo que ela se sentou começou a puxar conversa. Ao final do dia eles haviam virado grandes amigos. O tempo mostraria que seriam inseparáveis.

As semanas foram passando. Semanas divertidas e alegres para Mikaela, porém tristes e sozinhas para Blanca. Théo havia tentado atender aos pedidos de sua nova amiga: aproximá-la de Blanca. Porém foram várias tentativas sem nenhum sucesso. Muito pelo contrário, parecia que todas essas tentativas estavam separando mais e mais as duas garotas. Blanca havia se tornado uma garota mesquinha e metida. Mikaela se mostrava cada dia mais compreensiva e companheira. Théo tentou impedir que a grande mudança de Blanca ocorresse, mas ela estava cada vez pior. Ele, ao invés de ficar ao lado dela, tentando amenizar essa mudança, se afastou definitivamente de Blanca.

Um longo mês havia se passado. Blanca ora observava todos os movimentos de Mikaela, ora se trancava no banheiro para chorar a perda do querido amigo. “Posso ser amiga dela. Se eu for, vou ver que ela não é tão má quanto eu penso. Afinal, ela não sabe que eu gosto do Théo, e o Théo disse várias vezes que não gostava de mim, que éramos somente amigos.”

Enquanto concatenava consigo mesma, ouviu um barulho. Era a porta do banheiro sendo aberta. Segurou o choro. Já havia sido descoberta chorando antes, e não tinha sido uma boa experiência. Ela estava no ultimo box. Era um banheiro comprido, com várias divisórias, e uma pia grande e comprida também, com um espelho. Blanca fechou com a tranca o seu box, e esperou.

— Esse plano vai ser fantástico!

Blanca conhecia aquela voz. Era de Gabriela. “A Gabriela nunca gostou da Mikaela. Será que é um plano contra ela?”

— Sim... É hoje que eu te destruo, Mikaela. Esse bolinho, que você acreditou piamente que eu fiz porque eu gostava muito de você, vai te asfixiar! Há há!

“Caramba! Por mais que eu não goste da Mikaela, eu nunca faria isso! Eu não vou permitir que isso aconteça! Mas eu não posso sair daqui agora. Tenho 7 anos e ela tem 14. Se eu sair e tentar enfrentá-la, vou acabar me machucando, e ela vai conseguir entregar o bolinho. Vou esperar que ela saia e procurar a Mikaela para avisá-la”

Blanca esperou e esperou, mas não ouvia nenhum barulho de porta se abrindo. Decidiu espiar. Viu que a Gabriela estava concentrada no que fazia, então foi se arrastando de divisória em divisória. Era um jeito difícil de sair de lá, mas se ela saísse do box onde ela estava a Gabriela a veria. Chegou à porta. Levantou-se devagarzinho e abriu a porta, rezando para que ela não fizesse barulho. Saiu.

“Ufa! Saí. Agora eu preciso correr e encontrar a Mikaela. Será que ela vai acreditar em mim? E se não acreditar, o que eu faço? Eu vou esperar ela ganhar o bolinho e pegá-lo. Se ela tentar comê-lo eu engulo inteiro. Vou ficar perto da enfermaria.”

Blanca deu de cara com a Mikaela ao virar um corredor.

— Mikaela!

— Ah... Oi Blanca. Tudo bom?

— Vai ficar melhor depois que eu falar com você.

— Também preciso falar com você. Não sei o que eu fiz para você, mas eu quero pedir desculpas...

— Desculpas aceitas. Agora eu preciso que você me escute: A Gabriela vai te dar um bolinho, mas você não pode comê-lo.

— Por quê?

— Me promete que não vai comer que eu te falo.

— Tá, eu não como.

— Ela estava no banheiro e falou que ia te asfixiar com o bolinho.

— Notei que ela estava mais gentil do que o normal.

— Ei, meninas! – O Théo passou. Ele parou de repente e deu meia volta. – Peraí. O que vocês duas estão fazendo juntas?

— Ficamos amigas. Quer dizer, eu acho que ficamos. – A Mikaela declarou, meio insegura.

— Sim, ficamos. – Blanca confirmou, com um sorriso no rosto.

Gabriela chegou com passos decididos e cara emburrada.

— Blanca, eu te mato! – Falou enquanto pegava-a pelo pescoço.

— O que...eu...fiz... – Blanca tentou redargüir, quase sem ar.

— Eu ouvi você contando pra ela do bolinho! E eu vou matar vocês três.

Théo estava em choque. Não reagiu, nem ajudou a garota, que estava ficando mais branca do que o normal, por falta de ar. Mas Mikaela pensou rápido: deu um soco nas costas de Gabriela, e quando ela soltou Blanca e avançou, com a cara vermelha, para Mikaela, esta deu outro soco, desta vez na barriga.

— Acho que se você fosse uma garota inteligente, como todos dizem, teria primeiro me matado. – Disse Mikaela, triunfante.

— Não se preocupe Mikaela, eu me lembrarei disso da próxima vez.

— Também se lembre que só há uma próxima vez porque eu não te matei hoje.

Gabriela foi embora cambaleante.

— Obrigada Mikaela.

— De nada. Faz-me um favor?

— Sim. O que é?

— Chama-me de Mia.

— Pode deixar. Théo? Você está bem?

— Você viu o que eu vi?

— Sim.

— Isso foi... Foi DEMAIS!

As garotas riram. Não sabiam por que Théo não havia reagido. Ele sempre brigava com outros que tentavam machucar seus amigos. Mas com a Gabriela, ele ficou parado, como em choque.

— Não sei o que me aconteceu. Foi como se eu não conseguisse me mexer. – Falou ele mais tarde.

Um vulto que os seguia esboçou um sorriso. Este vulto havia impedido que Théo se mexesse. Precisava ver do que a garota Mia era capaz. E havia conseguido.