Semideuses: A descoberta
2 Capítulo 2
Doze anos haviam se passado desde aquele incidente. Blanca e Mia se tornaram grandes amigas, e Théo desgrudava cada vez menos delas duas.
– Eu não consigo entender. Por que temos que ficar presos aqui? Nessa idade que estamos já deveríamos ter saído daqui. E não ficado trancafiados, sem poder sair nem aos finais de semana. Poxa, já era para estarmos formados!
Blanca havia mudado pouco nesses doze anos. Continuava com sua pele alva e seus olhos castanhos. Alguns diziam que seus cabelos haviam mudado. Não eram mais tão volumosos, nem tão claros quanto antes. Eles estavam certos. Seu corpo já havia se desenvolvido.
– Blanca, a eterna reclamona. Você sabe que eu te amo: você foi a primeira a me receber e tudo, mas às vezes você enche o saco, viu?
Théo continuava aquele garoto bem-humorado e palhaço de sempre. Mas seu físico estava mudado: estava forte, bem malhado, havia espichado muito. Seus cabelos haviam ficado de um castanho bem escuro, quase negro. Mas seus olhos continuavam daquela cor doce.
– Nem comecem tá? Vocês começam com essa troca de carinho, e depois passa para a agressão verbal. Vocês não se cansam?
Mikaela era a que tinha sofrido as maiores mudanças: seu corpo estava bem formado, com lindas curvas. Seus olhos estavam começando a se tornar mais verdes do que azuis. Seus cabelos estavam longos e caíam em lindas madeixas cor de caramelo pelos seus ombros. Sua pele, apesar de continuar dourada, tinha se tornado mais clara, devido ao pouco sol que tomava desde que mudou de escola.
Eles três haviam parado de andar. Mia estava encarando Blanca e Théo, com uma cara que, a primeira vista, parecia zangada, mas conforme foram se encarando, começou a se abrandar até se tornar um sorriso. Então todos caíram na gargalhada. Narcisa saiu então de sua sala, que estava próxima do local onde o trio havia parado, e ralhou:
– Vocês querem parar? Toda hora vocês se olham e caem na risada! Estou farta de vocês três.
Ela continuava a mesma de sempre: cabelo ruivo-desbotado, corpo meio rechonchudo, pequena, pernas roliças, um tom de pele amarelo. Usava óculos que mal entravam na sua cara, e que apagavam seus olhos meio alaranjados, que expressavam velhice e rabugice.
– Sim senhora!
Os três saíram correndo, tentando não rir.
– Eu tenho certeza que a professora Narcisa não era assim. – Théo declarou.
– Só se ela era diferente antes de eu chegar. Desde o meu primeiro dia de aula ela não foi nem um pouco simpática. – Mia disse.
– Eu também tenho algumas lembranças de uma professora mais carinhosa. – Disse Blanca.
– Isso é estranho. E não é a primeira diferença que nós notamos aqui. As salas estão diferentes, alguns professores também. Vocês contam coisas e personalidades de pessoas que estudam, trabalham ou vivem aqui, que eu nunca conheci. E a data de mudança dessas coisas é sempre a mesma: meu primeiro dia na escola. – Mia observa com uma voz amargurada.
Théo se aproxima, abraça-a e diz:
– Não se preocupe Mia. Nós vamos descobrir o que está acontecendo. Não é culpa sua.
– Ela não disse que é culpa dela. Mas nós três somos diferentes de todos os outros: eu consigo convencer todos de tudo, Théo tem um incrível poder de mexer com o fogo, e Mia faz coisas incríveis com tudo que é relacionado à natureza.
– Blanca tem razão. Conversei com um pássaro esses dias.
– Conversou com um pássaro? – Théo e Blanca disseram em uníssono.
– Sim. Ele me falou para tomar cuidado. E disse: “Todos dependem de você e de seus dois amigos. Vocês têm que tomar muito cuidado com tudo o que está acontecendo. Muitas coisas vão ocorrer. Vocês têm de ser fortes, e não cair em tentações. E principalmente: não morram nem se separem. Andem sempre juntos, mesmo que estejam brigados”.
– Você está brincando, né?
– Não estou não Théo. É muito sério isso. Temos que descobrir o que está acontecendo e depois dar o fora daqui. Estou com um mau pressentimento.
– Depois de falar com um pássaro até eu fico com um mau pressentimento. – Théo brincou.
– Não adianta se estressar Mia. Depois que ele cair na real e perceber que o assunto é sério ele vai parar de fazer piadinhas.
Mia estava quase pulando no pescoço de Théo, mas como se as palavras de Blanca fossem um calmante, ela desistiu.
– Crianças, escutem o que eu tenho a dizer...
Eram os megafones. Sempre que os professores ou diretores tinham recados importantes para dar a todos os alunos, faziam-no por este. Narcisa parecia estar prestes a dar um recado importante.
– Quero que todos vocês se encaminhem imediatamente à sala de convivência, que foi equipada para atender uma nova atividade, inserida ao nosso currículo escolar.
Todos começaram a se movimentar.
– Acho que a Narcisa tem que se decidir se ela quer que sejamos crianças ou adolescentes. Ela vive nos chamando de crianças, mas quando a gente chama-a de professora Cissa, ela fala: não sejam infantis! Vocês conhecem meu nome e sabem falar, não é? – Blanca falou meio irritada.
– Nossa Blanca, o que aconteceu com você hoje? Você está tão irritadiça... – Mia fala, demonstrando preocupação.
– Todos quietos! Temos visitas, e precisamos demonstrar educação, por mais que falte a vocês. Tentem fingir que são bem-educados.
Narcisa estava diferente. Os três amigos não demoraram a perceber. Ela estava com um sorriso diabólico no rosto, e apertava suas mãos de forma nervosa.
– Professora, quem está aí dentro?
A pergunta vinha de uma menina, que parecia estar temerosa com o que encontrariam do outro lado da sala, como se pressentisse que fosse algo suspeito ou aterrorizador. A resposta veio logo depois, concisa e bem-articulada, como se ela estivesse treinando há anos para responder a pergunta:
– São os três melhores professores de artes marciais de todo o mundo. Vocês irão aprender a manejar espadas, bastões, punhais, e talvez até aprender a usar leques e fitas de forma ofensiva. Vão aprender também a arte da luta corporal, que muitos de vocês acham que já sabem e treinam nos corredores com seus amigos, por sinal.
A professora Narcisa lançou um olhar incisivo e insistente para Théo, e só desviou quando Mikaela lhe encarou.
– Vou ver se eles já estão preparados para recebê-los.
Logo após a entrada da professora, Théo declarou:
– Acho que isso responde sua pergunta, Blanca. Se ela achasse que somos realmente crianças, acha que ela contrataria professores para nos ensinar a lutar?
– Tem razão Théo. Você viu o jeito que ela te encarou? Parecia que ia te engolir viva, não é Mia?
Ela não tinha ouvido. Estava com uma sensação estranha, como se houvesse algo estranho atrás da porta. Algo muito mais perigoso do que meros seres humanos, professores de luta.
– Andem crianças, entrem.
Narcisa havia falado pela porta e entrado novamente. Houve um grande empurra-empurra. Théo e Blanca tentaram ficar perto de Mia, porém foram arrastados para dentro. Após alguns minutos, no corredor só haviam sobrado Mikaela e a garota que parecia estar com medo. Ela continuava com a mesma carinha de terror de antes.
– Também está com medo, Mia?
– Estou com um pouco sim, Ágata. Estou sentindo que tem alguma coisa estranha lá dentro.
– Eu também. Não quero entrar. Estou com muito medo.
– Segura na minha mão. Se estivermos de mãos dadas, ficaremos com menos medo.
E foi assim que as duas conseguiram adentrar na sala: tímidas, vagarosas e de mãos dadas.
– Oras, achei que vocês duas não entrariam nunca. Vocês só me dão trabalho, mesmo!
Narcisa estava brava, e Mikaela tinha um pressentimento que o motivo da irritação dela era sua presença. Ia começar a enrolar, quando a pequena Ágata entrou na sua frente e disse:
– Ela demorou a entrar por minha causa. Eu estava com medo de entrar aqui. Não gosto dessas coisas, me assustam.
– Ora, ora. Não precisava ter medo, querida. É só de brincadeira. As pessoas não vão se machucar de verdade. Quer que eu fique com você?
– Não professora, a Mia está comigo. Ela disse que ia me proteger.
Se um olhar matasse, Mikaela teria morrido naquele mesmo instante. Aquele não era um fuzilamento qualquer. Parecia assassino, como se ela já tivesse matado pessoas antes, e isso fosse uma tarefa fácil e rápida. Mikaela sentiu seus instintos lhe dizerem que ela deveria sair o mais rápido possível de perto daquela estranha professora.
– Vamos Ágata. O Théo e a Blanca estão nos chamando.
– Ei, o que aconteceu? Você estava bem e de uma hora pra outra ficou petrificada! Está acontecendo alguma coisa?
Théo estava realmente preocupado. Apesar de Blanca também estar, ela não conseguiu evitar que passasse por seu olhar perscrutador um lampejo de ciúmes. Mia, ao ver esse lampejo, se afastou de Théo e falou:
– Estou bem... Sinto-me meio estranha, mas depois eu converso com vocês...
A aula havia começado, e como era de praxe, todos se calaram e prestaram atenção.
– Muito bom, vejo que vocês param para escutar os professores... Isso vai ajudar muito lá na frente, acreditem. Mas antes de tudo, eu sou o professor Górdio, e esses são Carneia e Moiras.
– Que nomes estranhos vocês tem! – Falou um garoto, meio receoso de sua brincadeira dar vazão a algo ruim.
Mas todos caíram na risada.
– Você não é o primeiro a observar isso garoto. Muitos de nossos conhecidos costumam comentar isso. Mas não se preocupe, não vamos brigar com vocês. Podem rir sempre que acharem engraçado. – Górdio tornou a falar.
– Poderíamos conversar o dia inteiro, mas viemos aqui para lecionar, então é isso que faremos, não é Górdio? – A única mulher que havia no trio até que parecia ser simpática.
– Sim, Carneia. Vamos começar, então. Você não quer dar a primeira tarefa, Moiras?
– Se assim deseja... Queremos ver seus talentos, portanto formem duplas e escolham uma espada.
A bagunça começou. Começaram a discutir entre si quais duplas fariam. E com o trio não foi diferente.
– Eu quero lutar com a Mia.
– Eu também quero Théo. Da última vez, foi você que lutou com ela.
– Por isso mesmo que deve ser eu. Eu mereço uma revanche. Aquele dia eu estava mal, não lutei bem.
– Que desculpa esfarrapada, Théo. Nós três sabemos que a Mia é a melhor lutadora que nós temos em toda a escola. E eu quero lutar com ela.
– Pessoal, parem com isso. Eu vou procurar alguém para lutar comigo, tá?
– Não Mia. Pensando bem, adoraria ver o Théo apanhando de você. Ele já me irritou o suficiente por um dia. Ágata, você quer lutar comigo?
– Pode ser, mas não pega muito pesado comigo. Eu não luto muito bem.
– Está bem.
As lutas eram feitas por três duplas ao mesmo tempo, um professor monitorando cada dupla. Logo Ágata e Blanca foram chamadas. A luta delas foi rápida, porém Ágata demonstrou uma habilidade que impressionou Górdio.
– Apesar de você ter perdido essa luta Ágata, pude ver que você tem um grande potencial. E você Blanca, acho que dispensa comentários. Seu talento é incrível.
– Obrigada, professor. – Disseram as duas em uníssono.
As duplas foram batalhando, e conforme o tempo ia passando e as duplas terminavam suas lutas, as próximas se mostravam mais expertas com movimentos e esquives. Théo e Mikaela haviam sobrado então eles estavam muito nervosos. Os três professores veriam a batalha. Eles tiveram a sensação de que os três queriam que eles dois fossem o foco, sem nenhuma outra dupla para atrapalhar.
– Ora, ora, ora... Vejo que só sobraram estes dois jovens... Como são seus nomes? – Górdio perguntou com um sorriso que ia de orelha a orelha.
– Eu sou Théo e esta é Mikaela.
– Prazer em conhecê-los. Escolham suas espadas e divirtam-se!
Em uma parede grande e sem ornamentos havia várias espadas. O professor Moiras tinha explicado que elas estavam em ordem de peso: da mais leve até a mais pesada. Ele havia dito que havia uma espada que era a melhor, e que cada aluno teria a oportunidade de escolher. Parecia que até agora ninguém havia acertado a espada. Uns pegaram espadas muito pesadas, e outros espadas muito leves. Nenhuma parecia ter dado certo na batalha. Mas Mia havia entendido o dilema: as pesadas dificultavam os movimentos, e as leves desengonçavam e atrapalhavam no controle da velocidade dos golpes. Então ela se dirigiu à parede e pegou a espada do meio. Mas havia duas: o número de espadas era par. Ela pegou as duas e girou-as. Escolheu a da esquerda. Théo, percebendo o tempo que Mia havia demorado a escolher as espadas, percebeu que ela deveria ter descoberto o enigma de Moiras. Então escolheu a espada recusada por Mikaela.
Moiras, Górdio e Carneia observavam tudo com extrema atenção. Desde a primeira luta esperavam ver esta batalha, que prometia ser cheia de emoções e muito acirrada.
– Pronta Mia?
– Eu nasci pronta, professor.
– Disso eu não tenho dúvidas. – Sussurrou baixinho Górdio. – E você, Théo? – Falou elevando a voz.
– Prontíssimo.
– Então, que a luta comece!
Górdio mal acabou de proferir essas palavras e Mia tentou golpear Théo. A luta havia começado. Mia mostrou-se ótima lutadora, assim como Théo. Ambos sabiam muito sobre golpes, esquives e contragolpes. Quem os visse lutando pensaria que eles tinham sido ensinados desde pequenos a lutar. Mikaela conseguiu acertar o braço de Théo, o que fez com que ele se enraivecesse. Tentou golpear Mia cegamente, sem pensar em nada. Isso foi péssimo para ele. Mia golpeou sucessivamente Théo, acertando seus braços, barriga, tórax e pernas. Théo caiu. Tentou se concentrar e passou a espada por baixo de Mia, para tentar acertar-lhe as pernas. Porém Mia deu um salto e se esquivou.
Théo ficou embasbacado. Sempre havia admirado Mia em lutas, sempre pensou que ela fosse extraordinária, mas ela nunca havia feito tantas acrobacias. Ele devia estar se saindo bem. Esse momento de distração foi o suficiente. Mia acertou com seus pés a panturrilha de Théo, o que fez com que ele caísse. Colocou a espada em seu peito e, arfando, disse:
– Então, qual a sua desculpa de hoje?
– Nenhuma... – Respondeu Théo com dificuldade. – Você é realmente extraordinária!
– Concordo plenamente garoto. Você é um verdadeiro prodígio, Mikaela. Comecei a me impressionar com você quando você escolheu a espada. Fez a escolha certa!
– Obrigada professor, é muita gentileza sua. Mas eu queria beber água e cuidar dos meus ferimentos...
– Sim, sim... É claro que você quer! Falaremos sobre as lutas e as espadas na próxima aula. Estão dispensados.
A algazarra foi total. Todos queriam dar os parabéns para Mikaela, afinal ninguém nunca havia ganhado de Théo. A verdade é que ninguém sabia que Théo e Mia já haviam lutado antes, e como Théo havia perdido, decidiu não contar sobre a luta com ninguém. Mia também não contou a ninguém por respeito a Théo, e Blanca, a única testemunha da batalha, foi obrigada a jurar que não contaria.
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