Mikaela foi a uma mesa, onde havia um mapa, muitas canetinhas, e ao lado, o misterioso baú. Dois garotos e uma garota se aproximaram, e começaram a examinar o mapa também. Mia observou por alguns instantes, depois deu de ombros.

Um dos garotos começou a fazer riscos e anotações em uma folha separada, para não riscar o mapa. Eram táticas de invasão e proteção. Mikaela ficou boquiaberta com a precisão e a criatividade do menino. Os outros dois também se aproximaram e começaram a ajudar. O plano estava ficando ótimo, pelo que Mia podia ver. “Ok, eu nunca mais julgo pela primeira impressão.” Ela se aproximou timidamente, e ajudou o quanto sua vergonha permitiu. Passaram rapidamente o esboço para o mapa original, e deram as coordenadas a todos os integrantes do grupo. Foi só nesse momento que Mia percebeu que havia um arsenal de armas, escudos e armaduras em uma parede à parte.

O plano estava perfeito, Mikaela notou. Não tinha falhas, e quando a tuba tocou, ela sentiu que seu time venceria. Foi até o arsenal, e percebeu que havia a espada que Mikaela tanto gostava. Pegou-a e foi para seu posto: ela e mais três pessoas foram encarregadas de invadir o terreno do grupo vermelho. Ela ficou se perguntando se iria encontrar Théo, e se batalharia com ele, ou com algum daqueles garotos mais fortes. “Tomara que eu possa lutar com um dos grandalhões, para ensinar a nunca mexer com meus amigos.”

Eles se encaminharam, no começo sem se importar em se esconder, pois não haviam escutado nem visto nada; porém, conforme foram chegando ao local desejado, ouviram muitos barulhos e viram muitas pessoas circulando. Um garoto de nome Arthur se aproximou e disse:

– Acho que eles resolveram focar mais nas armadilhas do que em pessoas defendendo.

– Se eu conheço bem as pessoas desse grupo, eu acho que isso se chama improvisação. Provavelmente teve alguma briga ou problema, e eles se esqueceram de fazer um plano. Isso vai ser moleza. – disse Mia.

Ela quase fez as palavras retornarem para sua boca quando eles chegaram perto o suficiente para espiar. Parecia uma escolta para proteger um presidente: O baú estava flanqueado por quatro garotos grandes e fortes. As garotas do grupo foram cada um para um lado tentar roubar a bandeira dos times adversários.

– Eu e minha boca grande – disse Mikaela, se arrependendo novamente.

– Quatro contra quatro – disse um dos garotos, de nome Horácio.

– Na verdade são quatro contra três. – disse a outra garota do grupo, Cindy.

– Por que, Cindy? – Mia perguntou.

– Porque eu não sou boa em luta. Se depender de mim, a gente perde a batalha.

– Credo, que pessimismo! Nós somos um time, trabalhamos em conjunto. Nada de pessimismo para ninguém. Se não conseguirmos, a gente finge que desistiu e tenta de novo mais tarde. – Disse Arthur, decidido.

– Concordo. Bom, vamos lá – disse Mia, decidida. – Eu cuido do mais forte.

▪▪▪

Quando os garotos viram o trio se aproximando, ficaram em posição e flanquearam mais o cofre, protegendo-o de qualquer tentativa de furto. Se eles quisessem, teriam que enfrenta-los.

O garoto mais forte ficou a olhar o trio que vinha chegando, e identificou Mikaela entre os dois fracotes. “Três contra quatro. Acho que nem vou me dar ao trabalho de entrar nessa briga. Seria muita injustiça. Mikaela não conseguiria dar conta de todos nós, por mais que ela quisesse.”

Os três chegaram, e o que aparentava ser o líder, o mais forte, falou:

– A gente vai ser bonzinho, e não vamos bater em vocês, se vocês saírem pianinho daqui.

– Nossa, Tom. Quem vê pensa que vocês são os mais valentões da escola!- disse Mikaela, zombeteira.

– Do que esses dois aí, somos mesmo. E quanto à você... Você nunca conseguiria enfrentar todos nós juntos.

– Eu só vou precisar dar conta de dois. Eles dão conta dos outros dois. Vai querer lutar comigo, Tom?

– Você acha que eu perderia essa oportunidade? Você vem comigo, Marcos?

– Você acha que eu perderia a oportunidade de acabar com a namoradinha daquele babaca do Théo? Se bem que tem um rostinho tão lindo...

E eles dois partiram para cima de Mikaela, enquanto os outros dois iniciavam a batalha com Arthur e Horacio.

Arthur e Horacio visivelmente eram muito bons, apesar de estarem com algumas dificuldades na luta. Leonardo e Ethan eram muito talentosos, e Mikaela começou a se preocupar, pois eles não estavam se distraindo o suficiente, para o plano funcionar. “E essa Cindy, que não chega?” pensou Mia. Mas ela tinha outras coisas a se preocupar. Estava batalhando com dois dos melhores lutadores do colégio. E isso foi tudo o que ela desejou. Pensou em cada coisa que fizeram a Théo, em cada coisa que falaram para ela, e deixou a força da raiva fluir, mas não descontrolá-la. Os acessos de raiva de Théo haviam ensinado-lhe que ela não deveria agir por instinto.

Tom estava com uma armadura muito resistente e pesada, o que dificultava seus movimentos, porém impedia que Mia o acertasse e fizesse algum ferimento grave. Marcos, em compensação, parecia preferir a agilidade à proteção, e não possuía nenhuma malha ou armadura. Tinha somente um escudo, que era grande, mas ele não demonstrava sinais de estar carregando algo pesado. Mikaela analisava os dois, tentando descobrir seus pontos fracos. Mas logo descobriu que eles escolheram tudo propositalmente. Os dois quando juntos se completavam, se tornavam invencíveis. O ponto fraco de um era o forte do outro. Ela não sabia se ganharia, mas em ultimo caso, por mais desonroso que lhe fosse, recuaria. Não estragaria todo o plano por um momento de orgulho. Ela resolveu apelar para a distração:

– Vocês dois não sabem lutar mesmo, viu?

Não ajudou muita coisa. Eles só começaram a pegar mais pesado, e nem quiseram saber de papear. “Droga, esses meninos não são nem um pouco tontos.”

Mikaela recebeu um golpe de Tom, bem na perna. O corte foi fundo, e ela cambaleou. Tom sorriu. O sorriso maroto lembrou-a de Théo. Ele tinha um sorriso bem parecido. Continuou a lutar. Marcos golpeou-a com seu escudo. Ela viu o rosto de Théo no escudo. Na verdade, ela via o rosto de Théo em todos os lugares: no rosto de Tom, de Marcos, de Ethan e de Leonardo. Não queria machucar Théo. Não podia machucá-lo. Em todos os lugares via Théo, e isso começou a assustá-la. Como ele podia estar em tantos lugares ao mesmo tempo? Lutando com tantos em tantos lugares? Aliás, como ele lutava consigo mesmo? Agora ela via: Arthur e Horacio haviam desaparecido. Em seus lugares, ela via Théo. “O que está acontecendo? Onde estão aqueles moleques?” Pensava Mia, já a beira da loucura.

Arthur e Horacio viram em Mia a cara de desespero, e realmente não entenderam o motivo. Ela estava se saindo bem até agora, não tinha motivo para o nervosismo. Horacio era o que mais estava estranhando. Mikaela parecia estar atordoada, como se algo a estivesse afetando. Ele sentia que alguma coisa estava envolvida. Percebeu uma estranha névoa rodeando Mikaela, e viu que era esse o problema dela.

– Mikaela. – chamou calmamente. – Preste atenção. Concentre-se. Concentre-se no que é real.

Mia ouviu essas palavras, como se uma voz do além as tivesse proferido. Não ligou em um primeiro momento, mas inconscientemente foi procurar a voz com todos os seus sentidos, e apurou-os. Começou a notar que algo estava diferente, como se uma névoa a envolvesse. Mas não era uma névoa normal. Era como se a névoa só estivesse ao redor dela. O que era aquela névoa, ela não fazia nem ideia.

Horacio voltou sua atenção à luta. Já havia conseguido o que queria. Mia ainda via Théo em alguns lugares, mas tentou não dar muita atenção à sua visão. Concentrou-se somente em sua audição, seu olfato e seu tato. Ouviu sons de passos se aproximando sorrateiramente, e viu Théo novamente. Mas desta vez não se deixou abalar. Cerrou os olhos, e quando sentiu o vento chiando, e o barulho do metal rasgando o ar, esquivou-se rapidamente e acertou Tom. A névoa se dissipou no exato momento em que ele caiu, e ficou nocauteado. Conforme ele foi se recuperando, a névoa foi voltando. Mikaela, ao perceber isso, soube que teria que primeiro acabar com Marcos, para um não proteger mais o outro. Aproveitou a nocaute em Tom, derrubou-o novamente, e partiu para Marcos.

Marcos era muito rápido e habilidoso. Estava com uma lança de tamanho médio, e com a ponta bem afiada. Apesar das espadas de Mia serem compridas, ela precisava se aproximar para acertar Marcos, o que dava uma grande desvantagem a ela. Mas Mia era bem mais ágil que ele. Mikaela começou a pensar em uma estratégia. A lança chegou a milímetros do seu braço. “Quer saber? Pra que estratégia? Vai na sorte mesmo.”

Marcos investiu com a lança novamente, desta vez mirando o peito de Mikaela, porém ela logo se esquivou, jogando seu corpo para o lado. Isso a aproximou demais de Marcos, que deu uma rasteira nela. Ela deu uma cambalhota, acertou a panturrilha direita de Marcos e afastou-se dele. Ele praguejou alto, e pulou com o pé esquerdo para o lado, pois Mia havia tentado outra investida nele. Marcos resolveu tentar a sorte. Lançou um punhal em Mikaela, que não se defendeu a tempo: a faca passou pelo seu flanco esquerdo, causando um corte bem fundo em sua barriga.

Mikaela, que até então só estava usando uma de suas espadas, desembainhou a outra, e aproximou-se de Marcos. Ele se aproximou do arsenal, jogou a lança no chão, e pegou uma espada. Mikaela tentou o primeiro golpe com a espada dupla, que foi repelido instantaneamente pela espada pega por Marcos, que era comprida, e de um peso médio. Ela tentou mais duas vezes. Percebendo que Marcos havia notado a viciação dos golpes de Mia, fez que repetiria o golpe novamente, mas quando ele estava preparando o contra-ataque, ela desviou uma das espadas, acertando a parte frontal de sua barriga. Com a outra espada, fez um corte em sua perna, o que fez que ele se prostrasse em direção ao chão. Ela virou a espada, e bateu na cabeça de Marcos com o cabo, levemente, para causar um pequeno desmaio.

Tom, enquanto se recuperava, olhava a luta, analisando o modo de Mikaela lutar: seus ataques, contra-ataques, defesas. Tirou a pesada armadura, e aproximou-se de Mikaela, já empunhando sua espada, e pegando o escudo que Marcos havia deixado no chão.

– Marcos te subestimou, Mia. Mas não se preocupe, eu não vou cometer o mesmo erro dele. Eu sei como você é boa nisso. Mas também sei todos os seus truques, e sei que você está se cansando.

– Eu? Cansada? – disse Mia, arfando. – Nunca estarei cansada, muito menos se for para uma batalha. E eu não tenho truque nenhum. Estratégia, talvez, mas não usei nenhuma com esse aqui. – Ela declarou enquanto apontava para Marcos.

– Então contra mim você vai usar alguma?

– Não sei não. Acho que você é um pouquinho melhor do que ele, mas não sei se merece que eu gaste meus neurônios.

– O melhor jeito de descobrir é tentando, não é? – disse ele, enquanto se aproximava de Mikaela, com o escudo à frente.

– Pelo jeito sim. – E desviou-se da primeira tentativa de Tom de golpeá-la.

Ao contrário do que Tom havia suposto, Mikaela era boa na luta mesmo quando havia um escudo envolvido, pois Théo e ela gostavam de treinar com escudos, para aprender a tentar tirar vantagem.

Tom tentou acertá-la no rosto com um golpe de escudo, porém ela se abaixou, e ficou entre o braço esticado dele e seu corpo.

– E aí, tudo bom? – ela perguntou, desinteressada.

Após um momento de confusão, ele recolheu o escudo novamente, prendendo-a em si.

– Por essa você não esperava, não é? – ele disse, satisfeito consigo mesmo.

– O pior é que eu esperava sim. Você é que não esperava por isso. – disse, enquanto golpeava seu braço que segurava o escudo. Ele tentou se virar para conseguir sair, mas ela fez uma cruz com suas espadas, envolvendo o pescoço dele, impedindo-o assim de se movimentar.

– Agora, largue bem devagar esse escudo e essa espada. – ela disse, com uma voz firme e divertida.

Ele largou o escudo, e começou a abaixar a espada, porém no ultimo instante colou seu corpo no de Mikaela, virou-se rapidamente e acertou suas pernas, fazendo com que ela se retraísse e ele conseguisse escapar. Mikaela logo se recuperou e, apesar de sentir muita dor na sua perna, conseguiu se desviar dos golpes dados por Tom. Ele pegou o escudo novamente, protegendo assim seu braço ferido. Mia, não se dando por vencida, agachou-se, e acertou a coxa de Tom enquanto ia rolando para o outro lado. Ela desvencilhou-se da espada que Tom foi passando pelo chão, numa tentativa fútil de acertá-la. Ela aproveitou e acertou com o cabo na mão de Tom, que derrubou a espada. Mia jogou-a longe, impedindo que ele a recuperasse. Agora tudo o que ele tinha era seu escudo e seu corpo.

Mikaela tentou acertá-lo com uma das espadas, porém ele a segurou firme com a mão livre, e puxou Mia para si. Ela guardou a outra espada, impedindo Tom de tirar ambas de Mia, deixando-a desarmada. Com um golpe de escudo, acertou o braço de Mia, fazendo-a largar uma das espadas. Largou o escudo, prendeu-a com uma chave de braço, impedindo a de se movimentar. Ela tentou jogá-lo para frente, impulsionando-se para dar uma cambalhota. Porém ele de certa forma já esperava isso, e ele também era muito pesado. Então ela se viu encurralada. Não conseguia se mexer, nem se livrar de Tom, que já tentava retirar a outra espada da bainha, que ficava nas costas de Mikaela. Então ela teve uma ideia. Jogou todo seu peso em direção a Tom, levantou suas pernas, jogou seu tronco para trás, e fez algo que ela nunca antes havia conseguido: uma cambalhota reversa. Tom, surpreso com esse golpe, não reagiu, sendo derrubado. Mikaela não conseguindo cair de pé, caiu em cima de seus joelhos, o que fez com que sua dor na perna aumentasse. Ignorou essa dor, aproximou-se rapidamente de Tom, arrastou-o até o arsenal, e procurou uma corda. Achou-a. Amarrou os braços e as pernas de Tom. Viu Marcos, ainda desmaiado, e decidiu não amarrá-lo. Horacio e Arthur já haviam acabado suas respectivas lutas também.

Parabenizaram-se uns aos outros, e decidiram voltar ao seu forte, pois sua missão já havia se cumprido. No caminho, eles se encontraram com Cindy.

– E então? – perguntou Arthur.

– Foi desnecessário vocês quererem terminar a luta. Uns três minutos depois de vocês chegarem, o objetivo já havia sido alcançado. – disse Cindy.

– Mas estava quase impossível recuar. Tava na cara que eles iam perseguir a gente, só por raiva da Mia. – disse Horacio, brincando.

– O que importa é que a gente ganhou a luta, e conseguiu a distração para a Cindy pegar a bandeira, não é? – falou Mia, um pouco zangada.

Os outros três caíram na risada.

– Claro. E foi incrível ver aqueles dois metidos apanhando. Eu não mudaria nada, se tivesse que fazer de novo. – declarou Cindy.

– Eu mudaria um monte de coisas. Um monte de golpe que eu recebi porque estava distraída. Estão doendo muito. E você já levou a bandeira? – declarou Mia.

– Já. Eu levei e não resisti. Dispensaram-me lá, e eu voltei. – Cindy disse. – Quando eu saí de lá, o grupo que foi atacar o lado amarelo estava chegando com a bandeira. Só falta o verde.

Chegaram a seu terreno. O local estava muito avariado, mas não havia sinais de que eles haviam sido derrotados. Mikaela se aproximou de Ágata, que havia sido escolhida para o time azul também, e que estava na proteção das bandeiras.

– Quantas bandeiras conseguiram pegar? – disse Mia, enquanto enfaixava seus machucados, preparando-se para continuar.

– Nenhuma. Aqui está bem tranquilo. O grupo amarelo veio para cá, mas não conseguiu nada. Aparentemente desistiram, ou vão tentar quando tiverem mais gente. O problema maior está sendo com o grupo verde. Vieram me comunicar que o grupo quase inteiro ficou lá, só saíram uns poucos para capturar as bandeiras. Eu dispensei a metade do pessoal que chegou do lado amarelo para ajudar lá, e acho que você também deveria ir. Mas quero os outros três aqui, para proteger.

– Por mim tudo bem. Mas só tem você aqui? – Mia perguntou, surpresa.

– Não, tem mais gente. Estão escondidos, ou repondo o estoque de armadilhas. Mas não perca tempo, vai para lá. Lado sul. – e a conversa acabou.

Mikaela, antes de se dirigir a um novo campo de batalha, tomou um copo d’água, e colocou uma malha bem leve, porém bem resistente. Mais tarde ela agradeceria por ter ouvido seu instinto.

Começou a encaminhar-se para a direção sul, sem se importar muito se seria vista. Quando ouviu os primeiros chiados, agachou-se e continuou. Percebeu, enquanto andava, que o barulho vinha do alto, na maioria das vezes. Conforme se aproximava, entendeu o porquê: o grupo verde era muito habilidoso com arco e flecha, e isso havia se tornado uma grande vantagem. O campo de batalha possuía muitas árvores altas e fáceis de escalar. Mikaela decidiu subir em uma arvore, para ter uma visão mais ampla dos pontos onde havia maiores conflitos. Conseguiu ver muitos dos atiradores, porém não sabia como os acertaria.

Fechou os olhos, e começou a pensar. Percebeu que sentia o vento, as árvores, os animais. Mas sentia que estava conectada principalmente às arvores. “Será...?” Mikaela pensou. Concentrou-se mais. Sentia como se as árvores respirassem. Melhor, sentia como se falassem com ela. “Você não está imaginando nada, Mia. Está mesmo nos escutando.” “Pelos deuses. – ela pensou – Então estava certa. Sou uma...” “Dríade?” completou a árvore. “Não, não é. Sua mãe era muito mais do que uma dríade.” “Como assim?” “Você terá tempo depois de descobrir. Agora tem uma batalha para ganhar.”. Mia odiava ficar sem saber as coisas. “Custa começar e terminar?” era o que ela falava.

Ela sentiu cada pessoa em cima de uma árvore, deitada na grama, tinha até uma dentro de um velho tronco caído. Todos à espreita, todos esperando mais um ataque. Mikaela sentiu que tinha que avisar seu time, mas não sabia como. Então o vento soprou, como se dissesse: “Use-me”. “Estou ficando louca.” Mia pensou. “Mas não custa tentar”. Abriu a boca três vezes, mas não sabia o que falar. Sabia que ia se sentir uma idiota se falasse, e não adiantasse em nada. Mas mesmo assim, na terceira tentativa, falou em um tom um pouco baixo: Não ataquem agora, esperem, tem gente à espreita.

E o vento se foi. E todos levaram um susto quando ouviram a voz de Mia, ecoando. Uns olhavam para os outros, pensando que estavam loucos, outros procuravam-na. Alguns poucos entenderam como ela havia conseguido esse feito. Mas nenhum ousou desobedecer.

Mikaela, enquanto pensava em como retirar os guardas dos locais, viu uma garota subindo a arvore em que estava. Mas era uma garota diferente. Tinha rosto de menina, mas corpo de mulher. Mia achou estranho, porque de certa forma, combinava. E o mais estranho é que ela era de uma cor meio verde musgo.

– Olá Mikaela. – disse a garota.

– Mas todo mundo aqui sabe meu nome? – Mia perguntou, espantada.

– Sim, você e sua mãe são muito conhecidas.

– Ah, tá. E como sempre, você também não vai falar nada sobre ela, certo?

– Garota esperta – disse a menina, sorrindo.

– Ok. E você, quem é?

– Sou uma dríade. Achei que você já tivesse adivinhado isso.

– Desculpa, é que eu nunca teria imaginado que vocês são... são meio...

– Verdes? Sim, somos assim por causa do elemento que cuidamos.

– Então, as nerêiades são azuis?

– Sim, mas agora não é a hora de descobrir o quão errado estão os livros de mitologia.

– Já sei: uma guerra e blablabla.

– Exato. E você está levando isso muito pouco a sério.

– Ah, qual é. É só uma brincadeira!

– Mikaela, querendo ou não, essa brincadeira ensina muito sobre sobrevivência. E você tem que se sair bem nisso.

– E o que você quer que eu faça? Saia caçando todo mundo, um por um?

– Isso demoraria muito, e você precisa ganhar essa batalha em equipe. E é por isso que estou aqui. Você faz o plano, e eu e minhas irmãs vamos falar para o resto do time.

– As partes difíceis sempre ficam pra mim... – resmungou Mia enquanto pensava em algo.

Conectou-se novamente, e pensou em como iria lidar com as pessoas nas arvores. Esse era o maior problema. Pensou em quantos arqueiros Ágata havia selecionado. Conseguiu identificar três. Montou seu plano, e comunicou à dríade.

Ela desceu da árvore, e caminhou. Só agora, que Mia a via indo embora, ela distinguiu mais dríades ao redor. Conseguiu contar 6, mas achava que eram mais, pois estavam tão bem escondidas, e se moviam com tanto cuidado, que era muito difícil vê-las.

Mikaela desceu de sua árvore, pegou sua bolsa, que agora levava sempre consigo, e desejou um arco e uma aljava. A luz característica apareceu, e um arco recurvo surgiu, com uma aljava com flechas farpadas. “Tomara que eu não acerte ninguém de verdade” ela pensou, meio temerosa.

Foi andando silenciosamente, aproximando-se do primeiro grupo de sentinelas que havia. Viu alguns de seus companheiros se posicionando, conforme o combinado. Posicionou-se atrás de uma moita, retirou o porta-espada das costas, guardou-o na bolsa, e colocou a aljava transpassada. Preparou o arco, colocou uma flecha, e atirou. Conforme o combinado, todos atacaram. A luta foi silenciosa, como o esperado. O elemento surpresa era o essencial. Mikaela conseguiu ferir todos no braço. As flechas, como eram farpadas, rasgaram os braços dos seus oponentes, e o tranquilizante que as dríades haviam colocado teve efeito instantâneo. As dríades fizeram camas com folhas, para que a queda não fosse brusca, e que nada de grave ocorresse. O mesmo procedimento se repetiu mais duas vezes. Porém na terceira, haviam mais guardas. E eles escaparam e avisaram sobre a estratégia. Ambos os times se reuniram e formaram um novo plano.

– Agora o jeito é atacar. – declarou Mia, enquanto via as posições que o time inimigo tomava. – Todos estão com escudos e armaduras?

Todos confirmaram que sim com a cabeça. Mikaela, após alguns instantes, desenhou na terra as posições, e cada um decidiu o que faria. Partiram para o ataque novamente. O grupo verde estava bem preparado. Havia, no total, muito mais gente do time deles do que do de Mia. Mas o time de Mia já havia avariado quase metade do time verde, com os ataques surpresa e com as tentativas de invasão anteriores. Mia percebeu que a maioria estava exausta. Apesar de seu time também estar muito cansado, era fácil ver que se não ganhassem por talento, ganhariam por insistência.

Mikaela havia entregado seu arco e sua aljava a uma garota que havia perdido sua arma em uma luta, e ainda não havia conseguido recuperá-la. Pegou novamente sua espada dupla, e foi à luta. Como ela havia previsto, a luta foi rápida. Logo um dos garotos conseguiu se infiltrar e pegar a bandeira. Todos recuaram rapidamente. Mikaela teve um momento de lentidão. Foi tempo suficiente para todos virem voando com armas na mão. Mikaela pensou que nunca mais seria lenta daquele modo. Correu como nunca havia corrido em toda sua vida. Quando sentiu que havia ganhado distancia suficiente, subiu em uma arvore, e esperou. Alguns passaram correndo, para ir atrás dela, outros voltaram a seus postos. Somente um garoto ficou onde Mia estava. Para ser mais exato, ele estava bem abaixo do galho onde Mikaela se encontrava. Alguns minutos se passaram. Quando não se ouvia mais nada além do som do vento, e das arvores, ele falou:

– Acho que agora você pode descer.

Mikaela, assustada, perguntou:

– Como você sabia que eu estava aqui em cima?

– Você não está lá muito invisível aí em cima. As dríades têm camuflagem, você não.

– Quem é você? – disse Mia, enquanto descia da árvore. Estava zangada. Não estava acostumada com a impertinência.

– Poxa, não consegue lembrar-se de mim? Eu te ajudei no seu pior momento. Curei você. Sou Agis.

– Agis? E como você conseguiu me ver ali? E o mais importante: por que você não falou nada para ninguém? É uma armadilha?

– Acalme-se Mia. Não é uma armadilha. Eu te vi ali porque consigo ver todo ser vivo, pois eles podem estar precisando de uma cura. E eu consigo curar. E não falei nada, pois vocês já pegaram nossa bandeira. De que adiantaria capturar você? Ninguém trocaria a bandeira pelo seu socorro, e você não permitiria, mesmo que quisessem fazer isso. Não estou certo?

Mikaela fez que sim com a cabeça, porém continuou em silencio.

– O que eu realmente queria, era conversar com você. E ultimamente você tem estado muito ocupada. Todos nós estamos.

– E o que você queria falar comigo?

– Eu preciso me encontrar com vocês três hoje à noite. Tem muitas coisas das quais precisamos falar.

– Não pode nem falar sobre o que é? – Mia disse curiosa.

Agis deu um sorriso maroto, e disse:

– Não. – e foi embora.

Mikaela, se segurando para não sair socando tudo, voltou ao local onde seu time estava alojado.

– Você demorou Mia – disse Ágata, preocupada.

– É... é que eu demorei um pouco pra me tocar da retirada, sabe... – disse Mia, meio sem jeito.

– Ah, sim... Entendo. – Ágata segurou a risada.

– Pode rir Ágata. Fui boba mesmo.

Ambas caíram na risada. Mas elas não tiveram muito tempo para relaxar. O time amarelo tentou repetidas táticas de invasão, mas todas falharam. O time verde não dava sinal de vida, e quando o time vermelho apareceu, a tuba soou, dizendo que o time de Mia já havia conseguido levar o baú ao centro, e que eles haviam conseguido enganar os outros times, fazendo-os pensar que eles não haviam conseguido todas as bandeiras ainda. Mia desencapou o banco, que havia servido de falso baú, para todos verem que havia sido seu time que tinha tocado a tuba. Todos fulminaram o time azul, e se encaminharam até o centro. Philip já os aguardava.

– Bom, bom, bom. Então quer dizer que temos um time vencedor? Achei que esse jogo duraria no mínimo uns três dias. Mas vejo que me enganei. De novo. – disse enquanto encarava Mia firmemente.

“Vou considerar isso como um elogio.” Pensou Mia.

– E quem foi o time vencedor, que conseguiu todas as bandeiras? Que o líder se aproxime.

O time azul ficou em silencio. Ágata falou, envergonhada.

– Senhor, nosso time... Bom, nosso time não tem um líder.

– Hum... Se não tem um líder, porque você falou por eles?

– Por que eu sei que todos concordam comigo, e somos uma equipe igualitária. Qualquer um pode falar.

– Bom argumento. Mas alguém tem que vir aqui na frente, receber o premio. E essa pessoa será... A Mia, suponho?

– Não senhor. – disse Mia, imponente. – A Ágata irá. Ela coordenou as coisas. Eu só obedeci. Ela foi nossa líder.

Philip sorriu. Como sempre, Mikaela havia surpreendido-o. Assim como o restante do time. Ele, assim como Mia, havia pensado que o time com maiores chances de ganhar seria o time amarelo.

Mia empurrou Ágata de leve. Ela andou cambaleante, até onde Philip se encontrava, e recebeu o prêmio. Levantou-o com dificuldade. Era uma taça. Uma taça grande, e aparentemente pesada. Tinha como emblema a letra grega ômega, em alto relevo. Todos ficaram embasbacados. Os outros receberam medalhas, com o mesmo símbolo. Ao que parecia, poucos sabiam o que significava aquele símbolo, e menos ainda que para ele ser utilizado precisa-se de permissão. Mia pensou se falaria com Philip naquele momento, ou deixaria para mais tarde. Decidiu deixar para depois.

Percebeu que Agis estava observando-a atentamente. Notou, também, que todos os grupos haviam se desmanchado, porém Blanca e Théo ainda não haviam se aproximado. Procurou-os, mas não os via em lugar algum. Começou a se preocupar, e não prestou muita atenção no que Philip dizia. Só entendeu a ultima frase:

– Bom, estão dispensados.

Deixou todos se afastarem. Quando não havia quase mais ninguém, viu Agis parado do outro lado da clareira. Ele fez um gesto com a cabeça, pedindo para ela acompanhá-lo. Ela o seguiu relutantemente. Manteve-se afastada o mais que podia, sem que ele notasse que ela estava receosa por estarem sozinhos. Afastaram-se cada vez mais. Mikaela não ouvia nenhum som, a não ser o vento soprando, as árvores murmurando, os passos de ambos e a respiração pesada dela. Mas após algum tempo, ouviu o som de murmúrios. Mas eram murmúrios de pessoas. Reconheceu as vozes, e se tranquilizou. Agis estava levando-a até Blanca e Théo. Ela os viu primeiro. Ia falar, em seu tom de voz bravo, que era um pouco exaltado. Mas Agis a impediu. Fez com que ela se aproximasse silenciosamente. Théo ouviu o barulho primeiro. Olhou para Mia, e sorriu. Ele parecia estar bem. Blanca também. Ambos estavam conversando, animados, apesar de estarem contidos.

– Nossa Mia. Você demorou. – disse Blanca.

– Eu estava com Philip. Meu time venceu. Precisava estar lá. – e foi então que ela entendeu porque somente não estavam presentes.

Théo e Blanca parabenizaram-na. Agis sentou-se, e esperou que eles conversassem um pouco. Mia, lembrando-se do motivo de estarem lá, perguntou:

– Agis, por que estamos aqui? E por que temos que falar baixo, se estamos distantes da escola?

– Não são os alunos que me preocupam. São os outros seres que podem ouvir o que quero falar-lhes. E é um assunto muito importante.

Os três empertigaram-se. Estavam curiosos sobre o que Agis queria tanto lhes falar, e tão secretamente.

– Vocês sabem que vocês são o motivo de tudo isso estar acontecendo, não é? Nós somos somente o combo. Viemos juntos para termos algo para fazer. Mas os mais importantes são vocês. E vocês têm que ir. Tem que resolver esse problema que está surgindo. Não podem mais esperar. Ficar aqui e treinar? Pra que? Vocês já pegaram desafios, e passaram por eles, sem muitas dificuldades. Tem um ótimo trabalho em equipe. Intrigas? Isso ocorre até mesmo entre os deuses. É normal. Vocês já estão preparados o suficiente. Philip quer deixá-los mais tempo aqui, não porque ele é como os outros professores. Não. Ele está mesmo do nosso lado, dá para notar. Mas ele quer protegê-los. Acha que vocês devem ser usados somente no momento de desespero. E isso não é verdade. Vocês têm que ir, e já.

– Já? Tipo... Agora? – perguntou Théo, meio inseguro.

– Não. Tem que se programar, é claro. Mas tem que ser logo. Se puderem, ainda essa semana. Eu falei com algumas pessoas que poderiam ser úteis nessa viagem, e Ágata, eu e Aaron estamos dispostos a ir.

– Não. Vocês não vão se arriscar por bobeira. Você mesmo disse. Isso é uma luta nossa. E só nós três somos capazes de sair dessa escola sem muitas preocupações. Além do mais, você e a Ágata ainda são novos. – Mikaela falou, veementemente.

– Já temos idade suficiente pra poder tomar nossas próprias decisões. Pelo menos aqui dentro, sim. – rebateu Agis.

– Como assim aqui dentro? – inquiriu Blanca, curiosa.

– Vocês nunca pararam pra pensar, como vocês estão aqui há tanto tempo, e cresceram somente até uns, vamos ver... Dezoito anos? Entre dezesseis e dezoito, vamos colocar assim. E quantos anos vocês têm, de verdade?

– Eu tenho vinte e dois, o Théo também. Só a Blanca tem vinte e um.

– Então vocês chegam à conclusão de que...

– A gente bebe água da fonte da juventude? – Brincou Théo.

– Agora não é hora para brincadeiras, Théo. Existe algum poder aqui, que não deixa a gente passar dos dezoito? – Arriscou Blanca.

– Não acho que seja isso. Tempo, tempo, tempo... Cronos? Ele usou seu poder para acelerar o tempo aqui? – tentou Mia.

– Exatamente Mia. Vocês sabem que tem uma guerra rolando solta lá fora. Mas já se perguntaram de quem é essa guerra? Ou melhor, contra quem é essa batalha?

– Normalmente quando há guerra entre deuses, e semideuses estão envolvidos, e eles não estão separados, é contra os Titãs. – Palpitou Mia novamente.

– Sim. Mas o problema é que dessa vez, Hades não soltou os Titãs, como acontece sempre.

– Hã... E como eles saíram? – perguntou Théo.

– É essa a grande questão. Não sabem. Mas agora eles não podem se preocupar muito com isso. Eles têm que lutar e impedir que os Titãs roubem seus postos. E apesar de alguns deuses desconfiarem de que Hades esteja aprontando algo novamente, não estão muito dispostos a arranjar mais confusão. Aliás, Hades está lá, ajudando na batalha. O que é estranho também.

– Perguntinha básica, Sherlock Holmes: como você sabe de tudo isso? – Théo disse, intrigado.

– Digamos que eu acompanho muito os jornais. – Agis disse, esquivando-se.

– Isso não me convenceu. Mas você vai se explicar depois. E nem tente fugir, ouviu? – Ralhou Mia.

– Sim senhora.

– E quanto a nós, vamos resolver isso logo. O Agis tem razão. Temos que dar um jeito nisso, e logo. Quanto mais enrolarmos, mais nossos amigos vão ter que ficar presos aqui, e nossos pais vão ficar andando na corda bamba.

– Mas o que nós vamos fazer Mia? Ir embora, sem mais nem menos? Jogar fora tudo o que Philip está nos proporcionando? Fazê-lo ficar preocupado, e talvez até ir atrás da gente, só para nos trazer aqui novamente? – argumentou Théo.

– Não. Está claro que não é isso. Nós vamos falar com Philip. – disse Mia, resoluta.

– Como é que é? – perguntaram os três, em uníssono.

– É claro que sim. Assim não vamos deixá-lo preocupado. E se ele não concordar, pelo menos saberá que estamos decididos, que não vamos mudar de opinião, e que não vai adiantar nada ele tentar nos impedir ou nos buscar.

– Faz sentido. – disse Agis.

– Mas e quanto aos três candidatos? Vão conosco? – perguntou Blanca, esperançosa.

– Não sei. Isso nós vamos decidir com o Philip. E essa decisão dele nós iremos acatar. Agora vamos. Temos que descansar. O dia foi muito puxado. E eu estou morta. – decidiu Mia.

Os outros três concordaram, mas Agis sem muita boa vontade. Ele queria muito ir, mas também não queria ser um incômodo. Achou sensata a decisão de Mikaela, por isso não objetou contra. Os quatro se dirigiram à escola, onde Philip os esperava, zangado.

– Vocês realmente acharam que poderiam sair sem avisar e voltar? Assim, sem mais nem menos? Queriam o que? Passarem por despercebidos?

– Não, de maneira alguma. Nós pedimos mil desculpas, senhor. E aproveitando o ensejo, nós queríamos contar o porquê do sumiço. Está disposto a ouvir? – disse Mia, astutamente.

– Se você está realmente achando que palavras enfeitadas e uma boa historinha para boi dormir vão me convencer, está muito enganada.

– Pense o que quiser. Eu vou contar a história, e você vai notar que não é qualquer lorota. É o que se passou, de verdade.

Mikaela então, com a ajuda de seus amigos, contou tudo: os planos, o que Agis lhes informara, as decisões tomadas e as serem resolvidas.

– E vocês querem que eu os ajude nessa loucura? Vocês perderam a noção de tudo, não é? Bateram com a cabeça em algum lugar, não é possível! Vocês não têm ideia do que está se passando lá fora! Não tem nem uma televisão que possa mostrar a “previsão do tempo” dos humanos! Está um caos! E vocês vêm aqui, e me dizem, com a maior calma do mundo e um sorriso estampado na cara, que querem ir lá? Não, não e não! Nem pensar! – bradou Philip, zangado.

– Sinto muito senhor. Mas eu, Théo e Blanca iremos. Quer você queira ou não. Essa decisão não cabe a você, cabe a nós. E nós já estamos resolutos. Quanto a Agis e os outros... Sobre eles nos acompanharem... Disso eu não tenho muita certeza, por isso queria sua ajuda. – redarguiu Mia.

– Deixe-me ver se entendi. Você vem, fala tudo aquilo, eu nego, você contraria, ou seja, desacata a autoridade maior aqui, que sou eu, se você não se lembra, e ainda pede ajuda? Realmente, você está completamente sem noção.

– Você não entendeu. Eu não estou desacatando, porque eu vim aqui pedir ajuda para meu amigo, e não para um diretor ou professor. Aliás, você não é diretor. Só professor, e nós três – disse Mia enquanto apontava para Théo e Blanca – não estamos abaixo de você, porque estamos no encargo dessa escola. E eu ainda estou aqui te pedindo ajuda. Por favor, nos acuda. Só queremos saber para onde ir, mais nada. Não estamos pedindo que você nos siga, que vá à frente, que faça as coisas por nós. Muito pelo contrário, estamos exatamente livrando você e seus parentes de algo que não os cabe.

– Gente, acalmem os nervos aí! – disse Théo. – Senhor Philip, eu concordo com a Mia, que nós não podemos continuar jogando tudo isso nas costas de vocês. Vocês não têm nada a ver com isso.

– É claro que temos a ver, Théo! Essa luta também é nossa! É de todos os semideuses, centauros, deuses. – tentou argumentar Philip.

– Sim, mas quanto mais cedo nós fazermos o que tem de ser feito, mais rápido isso vai acabar, e menos pessoas serão prejudicadas. – disse Blanca, até o momento calada.

– Está bem, vocês me convenceram. Agora vocês estão dispensados.

Os quatro estavam saindo, quando Philip os chamou novamente.

– Agis, fique aqui. Quero falar com você. Théo, você pode chamar o Aaron? Blanca e Mia chamem a Ágata, por favor. Ainda tenho um assunto a resolver.

– Sim senhor. – responderam os três.

Mia, Blanca e Théo seguiram até o corredor que divide ambos os dormitórios. Mikaela falou:

– Théo chame o Aaron e depois vá ao dormitório meu e da Blanca. Nós o esperaremos.

– E o que a gente vai fazer lá? – perguntou Théo, curioso.

– Vou cuidar dos ferimentos dos dois, óbvio. Se quiser levar uma muda de roupa e uma toalha, você já toma banho lá. Vai ficar mais fácil de limpar depois. E vamos ver se ainda temos um pouco de ânimo para tentar organizar as coisas.

– Que coisas? – indagou Blanca.

– Logo vocês saberão. – declarou Mia, com um ar enigmático.

Os três se separaram. Mia e Blanca passaram pelo dormitório pertencente a elas, e Mikaela disse:

– Se quiser Blanca, pode ficar aí e ir tomando banho. Voltarei em instantes.

Blanca não pensou duas vezes. Entrou no quarto. Mikaela seguiu em frente. Logo avistou o quarto de Ágata. Bateu. Alguns instantes depois, ela atendeu.

– Oi Mia! A que devo essa visita inesperada? – Ela parecia contente.

– Philip mandou chamá-la – declarou Mia. E vendo sua cara de espanto, resolveu concertar a frase. – Não é nada demais. É sobre o assunto de Agis ter falado com você e com o Aaron sobre ir conosco, sabe...

– Ah sim! – Ela parecia estar se recordando.

– Mas você não está aprontando nada, não é? Ficou tão assustada quando disse que Philip queria vê-la...

– Não, imagina. – Ágata disse, rindo-se. – Eu nem saberia o que aprontar.

– Então está bem. Eu estou voltando para o meu quarto. Quer me acompanhar?

– Claro, por que não? Assim podemos conversar, e você me por a par dos acontecimentos.

Elas foram andando e Mikaela foi contando tudo o que havia ocorrido. Ágata acenava com a cabeça, e às vezes interrompia a narração para uma dúvida ou outra que surgia. Finalmente chegaram ao quarto de Mia.

– Bom, foi isso. Agora é com você e com os outros dois. Espero que dê tudo certo lá.

– Obrigada Mia. Então acho que é isso. Até mais.

– Até.

As duas separaram-se. Mikaela entrou em seu quarto, e encontrou Théo e Blanca. Eles dois estavam conversando. Théo havia acabado de sair do banho, e Blanca estava se preparando para tomar.

– Você vai cuidar dos ferimentos do Théo e depois dos meus? – Blanca perguntou.

– Claro, sem problemas. Dessa vez tenho remédio suficiente. – brincou Mia.

Os três riram. Blanca entrou no banheiro, trancou a porta e ligou o chuveiro. Mas não entrou no banho. Encostou o ouvido na porta, tentando decifrar algo da conversa dos dois.

– E então, o que achou da batalha que o Philip propôs? – era a voz de Mia.

– Muito interessante. Achei até legal o fato de ele misturar as pessoas pros times. Não gostei do time em que caí isso é verdade, mas mesmo assim.

– Pelo menos você aprendeu, ou tentou aprender, a conviver com as diferenças. E que em momentos críticos, temos que confiar até em quem a gente mais odeia.

– Nem sempre. Vai que ele é a pessoa na qual eu tenha que lutar contra.

– São hipóteses diferentes. Você me entendeu.

– Entendi sim. Ai!

– Xi... já começou a frescura dos ais e uis.

– Não sei se você sabe, mas esse remédio arde.

– É claro que sei. Eu também passo em mim. E não fico com essa frescura.

Blanca desistiu. Ganharia mais tomando banho. Mal sabia ela que tinha desistido no momento errado.

– Está bem então. Você quer me ver forte, sem reclamar. Você pediu.

– Há, essa eu quero ver.

Mikaela se aproximou, e apertou bem a atadura com o remédio no maior dos ferimentos de Théo. Théo puxou Mia para si, e olhou em seus olhos. Rostos próximos, corações acelerados. Uma mecha de cabelo estava no rosto de Mia. Théo afastou o cabelo gentilmente com a mão livre. Afagou a cabeça de Mia. Ela não reagiu. Ele se aproximou cada vez mais. Ela também. Seus lábios finalmente se encontraram. E foi assim o primeiro beijo, o beijo que marcaria uma grande história. Corpos colados, um ferimento sendo estancado.

Théo afastou-a gentilmente. Segurou a mão que estava com a atadura e fitou-a. Ela estava vermelha. Estava mais graciosa do que o comum, ao ver dele. E ele se contentou a admirá-la. E ela, estava tão avoada, que não pensava em nada deste mundo. Estava em seu próprio mundo. Um mundo de fantasias e pareceres. Um mundo perfeito.

Théo sorriu. Ela finalmente havia voltado para o mundo. Enrubesceu mais ainda. Pegou abobalhadamente uma atadura limpa, derrubou o remédio e colocou no corpo de Théo. Ele riu:

– Está toda boba agora, não é? E eu nem reclamei.

– Seu... Seu... – disse Mia, sem forças.

– Seu o que? – disse ele, ainda rindo.

Théo só sentiu um dor na boca do estômago. Não viu a mão de Mia. Ela sorriu zombeteira. Aproximou-se de Théo e cochichou em seu ouvido.

– Teria sido perfeito, se você não tivesse sido esnobe.

E continuou cuidando dos machucados de Théo. Ela havia recuperado o controle de seus sentidos. O choque de adrenalina havia ajudado.

Blanca saiu do banho, e nem desconfiou de nada. Os dois já haviam voltado ao seu normal.

– Vem cá Blanca. Deixa-me aproveitar o embalo e já cuidar de você. Depois eu tomo banho.

Os três ficaram em silêncio. Théo e Blanca olhando Mikaela cuidar dos ferimentos, e ela concentrada no que fazia. Blanca resolveu quebrar o silêncio.

– Então, o que vamos fazer a respeito do que conversamos? Quero dizer, quando partimos, o que levaremos, o que faremos, para onde iremos?

– Nossa quanta pergunta Blan. Vamos com calma. Eu pretendo ver tudo isso com o Agis e com o Philip. Ao que parece, Agis sabe de muitas informações das quais precisaremos quando sairmos dessa escola. – Disse Mia.

– Sim, e como não sabemos de nada do que tem lá fora, nem temos noção de onde estamos, vamos precisar de mapas. E armas, claro. – completou Théo.

– Tá. Roteiro a ver. Bagagem: mapas, armas, comida, roupas. – disse Blanca, anotando tudo mentalmente.

– Comida e roupa? Está louca menina? Você acha que a gente vai de que? Carro? A gente vai ter que se virar para arranjar comida no caminho, e roupa também. – falou Mia.

– Mas alguma coisa a gente tem que levar. Nem que seja só um pouco. – rebateu Blanca.

– Contanto que não seja difícil de carregar... – falou Mia.

– Sim, mas e quanto a meios de locomoção? – perguntou Théo.

– Tem o pé, o barco, o carro, trem, ônibus, metrô... – brincou Mia.

– E qual desses meios a gente vai usar? – perguntou Théo, irredutível.

– Isso vai depender do local em que estivermos, da quantidade de dinheiro e do nosso bom-senso. – respondeu Mia.

– E isso quer dizer que... – disse Blanca.

– Que a gente vai entregar nossas vidas à sorte. – completou Mia.

– Tomara que a gente tenha ajuda no caminho. Sabe igual aos livros de aventuras que você lia pra gente. – disse Théo à Mia.

– Isso eu já não posso garantir. Talvez uma ajuda dos nossos pais quando precisarmos muito. Mas não sei se vamos encontrar muita gente disposta a nos ajudar. Principalmente porque eles vão correr risco de vida quando nos ajudarem. – explicou Mia. – Mas agora, vão comer vocês dois, que eu vou tomar banho e me limpar e depois alcanço vocês. Nós temos que descansar bastante hoje para amanhã estarmos dispostos.

– Mia... Só tem um problema... – começou Théo.

– O horário da janta já passou faz um tempinho. – completou Blanca.

– Mas já? – surpreendeu-se Mikaela. – Poxa, vou ter que arranjar algo então. O que será que eu tenho aqui...?

E saiu vasculhando suas coisas. Achou a bolsa que havia ganhado, e pensou: “será que é muita cara de pau pedir comida por aqui?” A resposta apareceu batendo na janela.

– Ei, abra aqui! Eu tenho algumas frutas para vocês! – disse a dríade.

Théo abre a janela, assustado. Mikaela os apresenta, e enquanto os três se conhecem ela vai para o banho. Termina rapidamente, troca sua roupa e cuida de seus ferimentos. Quando sai do banheiro, vê que Théo e Blanca já comeram, e estão no parapeito da janela conversando com a dríade. Senta-se em um canto e começa a comer. Percebe que estava faminta, e que as frutas tinham um gosto delicioso. Come tudo avidamente e vai para a janela junto com os outros. A dríade olha Mia e adivinha sua pergunta:

– São frutas cultivadas especialmente para os deuses e para as dríades. Mas todo ano plantamos algumas a mais, para casos especiais ou de extrema necessidade.

– Nossa, me senti lisonjeada agora. Muito obrigada pelas frutas, estavam deliciosas. – agradeceu Mikaela. – Mas agora, se nos dá licença, temos que dormir. Algo me diz que amanhã será um longo dia.

– Sim, é claro. Caso precisem de alguma ajuda, pode me procurar, ou qualquer uma de minhas irmãs. Estaremos sempre à sua disposição, Mikaela.

– Muito obrigada. Adeus. – despediu-se Mia, fechando a janela. Virou-se para Théo e disse. – Bom, boa noite e tchau.

– Boa noite Mia e Blanca. Até amanhã. – Théo se despediu das duas como era de costume, beijando as faces de ambas, e foi-se.

Mikaela e Blanca arrumaram suas camas e deitaram-se. Blanca dormiu rapidamente, mas Mia não. Ficou pensando em Théo, no beijo e em todos os momentos divertidos e românticos que passaram juntos. Tentou relaxar, mas não conseguia. Virou-se de um lado para outro, agitada. De repente, ouve o som de passos abafados, aproximando-se da porta. Levantou-se o mais silenciosamente possível, e tentou ver através do batente da porta. Não enxergava nada. Tudo já estava escuro. Destrancou lentamente a porta, abriu-a e colocou a cabeça para fora.

– Bu!

Mia bateu a cabeça na porta. Viu quem era e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado.

– Seu idiota! Tá doendo! – disse ela, batendo em Théo de leve.

– Desculpa. Achei que você estivesse preparada para tudo. – caçoou Théo.

– Nem tudo... Anyway... O que você está fazendo aqui?

– Não consigo dormir. Pelo jeito você também não estava tendo muito sucesso, não é?

– Não muito... Estou meio... Agitada.

– Hum... Entendo... Quer dar uma volta comigo?

– Claro, por que não?

Eles caminharam para a floresta. Estavam um do lado do outro, mas sempre que seus corpos se encostavam, uma mão roçava na outra, eles retraíam o corpo automaticamente. Foram o caminho inteiro em silêncio. Estavam dirigindo-se para onde Théo sempre se deitava quando não conseguia dormir.

Deitaram-se na grama, e ficaram olhando o céu. Estava limpo e estrelado, e uma linda lua cheia brilhava. Nenhum dos dois ousava falar. Tinham medo de interromper o silêncio, e estragar a magia do momento. Théo finalmente tomou coragem, e começou a conversa:

– Sabe, eu fico me perguntando como serão as coisas lá fora. Se eu vou sentir medo, se a gente vai ter muita coisa para enfrentar. O que nós teremos que fazer. Se vamos conhecer... Você sabe...

– Nossos pais? Por que você tem medo?

– Porque eles são deuses. E não tenho ideia de como me sentiria, olhando para um deus, e pensando: ele é meu pai.

– É, deve ser estranho, pensando por esse lado... Mas não quero pensar nisso. Isso sempre me traz muitas coisas a ponderar.

– Coisas do tipo...?

– Por que eles não vêm dar uma ajuda pra gente? Por que eles não falam conosco o que temos que fazer? Nós vamos sair daqui por causa deles. Custa eles darem uma ajudinha?

– Mas eles são deuses, Mia. Tem coisas mais importantes a fazer. Estão tentando resolver as coisas lá. A gente tá aqui, mas não fazemos ideia do que eles estão passando por lá. Podem estar numa guerra nesse exato momento. Ou se preparando para uma.

– Mas Théo. Eu só quero coordenadas. Ajuda. Não to pedindo pra eles irem lá e falarem: espera só um pouquinho, dá uma pausa na guerra aí, que eu tenho que falar com minha filha. O que eu queria é que eles mandassem algo. Poderia ser até pela bolsinha. Sei lá. Algum sinal de que eles estão cientes do que vamos fazer, e que nos apoiam. Eles já fizeram isso uma vez, por que não novamente?

– Faz sentido... Eu nunca tinha parado para pensar nisso.

– Eu já. E fiz isso muitas vezes. E ainda não cheguei a nenhum resultado.

– Ficar assim não vai adiantar nada Mia. Só o que temos a fazer é seguir como podemos. E agora, o que temos que fazer é olhar as estrelas, e contemplá-las. Eu nunca soube muita coisa de constelações. Você sabe?

– Eu sei algumas. – Mia se aproximou de Théo, e ambos, deitados, com seus corpos juntos, mãos dadas, falaram sobre constelações e muitas outras coisas.

Mikaela deitou sua cabeça no ombro de Théo, e ele começou a lhe fazer cafuné. Ela foi se desligando aos poucos, e adormecendo devagar. Théo estava com um sorriso no rosto. Estava muito feliz em saber que finalmente estava tendo algum sucesso com Mikaela. E ela dormiu. Théo ficou um tempo naquela posição, apreciando cada segundo. Alguns minutos depois, ele também dormiu. Duas horas se passaram. Théo acordou. Ele ainda estava na grama, e Mia com ele. Ela havia abraçado-o enquanto dormia. Sua cabeça estava descansando no braço de Théo. Ele admirou-a por alguns instantes, sentiu seu cheiro floral, fitou seu rosto sereno. Depois de apreciá-la, acordou-a.

– Ei, dorminhoca, acorde. – sussurrou ele em seu ouvido.

Ela abriu os olhos preguiçosamente. Fitou os olhos brilhantes de Théo. Viu que o dia já havia começado.

– Dormimos aqui? – perguntou ela, sonolenta.

– Sim. Você deitou em mim e dormiu. Eu também acabei pegando no sono. Desculpa.

– Não... Não precisa pedir desculpa. Foi bom.

– Sim, foi. Agora vamos para nossos quartos. Ainda é cedo. Podemos dormir mais um pouco.

Mia concordou com um aceno de cabeça. Théo ajudou-a a ir para o quarto. Ela estava muito sonolenta.

– Nossa, que sono, ein? Você nunca ficou assim. – disse Théo, preocupado.

– É... É estranho. É como se tivesse dado alguma coisa pra eu tomar...

– Sabe que não podemos descartar essa possibilidade, não é? A gente dormiu ao céu aberto, eu não fiquei vigiando. Alguém pode ter feito algo. Quer ver se tem alguém na enfermaria?

– Não, obrigado. Se eu não melhorar quando acordar de novo, eu vou. Você me leva?

– Levo. Pode deixar. Agora abra a porta, pra eu te deixar na cama.

– Não... Eu entro sozinha. Obrigado, de novo.

– Pode contar comigo, Mia.

Ele deixou-a na porta e esperou-a entrar. Assim que ela fechou a porta e trancou-a, ele afastou-se. Foi para seu quarto. Mas sabia que não conseguiria dormir. Assim que chegou, pegou seu caderno e seu lápis de desenho. Começou a esboçar a imagem que estava fresca em sua mente. Desenhou Mikaela e ele, deitados na grama. Ela dormindo, ele a fitando. Depois passou aos detalhes. Seus cabelos, suas pálpebras, sua boca, seu nariz. Desenhou todos os detalhes, de tudo. A grama perfeitamente aparada, a árvore que os abrigou do sol da manhã. A pantera desenhada na blusa de Mia. Ele não havia ligado muito para os detalhes de si mesmo. Mas quando contemplou o desenho, viu-se na obrigação de fazê-lo o mais perfeito possível. Terminou o esboço. Pensou em colori-lo, mas achou que ficaria mais bonito somente em grafite. Após várias horas de trabalho, completou o desenho. Estava perfeito. Ele sorriu e guardou o caderno. Alguém batia à porta. Théo abriu a porta, e viu Mia, linda e radiante. Mais do que de costume, ou era só sua impressão?

– Oi. – disse ela, timidamente. Suas faces enrubesceram.

– Olá. Está se sentindo melhor?

– Sim. A Blanca já foi pro refeitório. Vamos?

– Claro.

Os dois se encaminharam para o refeitório, onde encontraram Blanca. Os três conversaram animadamente. Depois se dirigiram para a sala de Philip, para resolver os últimos problemas antes da partida.

Encontraram Philip no meio do caminho. Ele disse ao trio:

– Podem ir para minha sala, já os encontro. Vou buscar Agis, Aaron e Ágata.

Eles três se olharam, confusos. Mia deu de ombros e voltou a andar. Théo e Blanca foram atrás.

– Será que ele decidiu que eles vão com a gente? – disse Théo.

– Não sei. Pode ser que ele só esteja chamando para coletar os últimos dados, ou para os três falarem algo que contaram para o Philip ontem. – retorquiu Mia.

– Tem tantas teorias... O melhor é esperar para ver. – disse Blanca.

Algum tempo depois, Philip entrou com os três.

– Bom, é o seguinte: – começou Philip. – ontem eu conversei com os três, e achei melhor eles te acompanharem. Não o caminho inteiro. Cada um quer ir para um lugar em específico, então eles só vão pegar uma carona com vocês. Mas acho que cada um vai ter uma utilidade no caminho. Agora o que falta é vocês decidirem os detalhes da missão.

– Mas nós só poderemos decidir, quando soubermos o que está acontecendo lá fora. Mas ninguém nos quer por a par das coisas... – disse Mia.

– É exatamente por isso que vocês estão aqui agora. Nós vamos contar tudo o que sabemos, e que achamos que poderá ser útil. Depois só o que terão que fazer é arrumar as coisas e partir. – explicou Philip.

– Então vamos começar. Eu começo. Acho que minha história é a mais demorada. Vocês devem saber que eu sou filho de Apolo. Percebe-se isso pelo meu dom de tocar instrumentos musicais. Então eu sempre tenho uma curiosidade por coisas novas. E às vezes me vêm umas frases na mente. Pedaços de profecia. E como eu sou curioso, resolvi investigar o que eram esses pedaços de profecia. Juntei-os como pude. Acabou virando o típico enigma que é toda profecia. Então achei que deveria investigar ao que se referia: as coisas lá fora. E eu consegui vários métodos de saída furtiva. O que foi mais difícil foi passar despercebido lá fora e descobrir tudo o que eu queria. Mas consegui, com a ajuda de algumas dríades e outros seres mitológicos. Eles realmente gostam de contar histórias.

“E então eu descobri a verdadeira guerra. Lá fora está uma zona. Descobri que as dríades receberam ordem da mãe de Mikaela para proteger a escola. Tanto para não sermos afetados quanto para não vermos o que estava acontecendo. Mas lá fora, todas as ilhas inabitadas, todos os locais isolados estão servindo de campo de batalha para os deuses e os titãs. Por enquanto não vi nenhuma luta corpo a corpo deles. Estão usando suas artimanhas e aliados mais fracos. Então, esse é o melhor momento para sair. Os deuses estão muito mal. Os aliados dos titãs são bem mais fortes e maus. Mas percebi que os deuses estavam tomando muito cuidado. Cuidado até demais. Procurei descobrir o porquê. Descobri que os titãs haviam conseguido algo dos deuses. Algo que os deuses tinham que ter muito cuidado, para não correrem o risco de perder. E que eles estão tentando reaver antes de estourar uma guerra de verdade e prender os titãs novamente. Não cheguei a descobrir o que era. Mas a profecia começou a fazer sentido.” Aaron entregou um papel com algumas frases escritas. O trio se juntou para ler.

– Eu achei que profecias fossem formadas por rimas. – disse Mia, confusa.

– Não, nem todas. Alguns dos filhos de Apolo não têm tanto senso poético assim. – explicou Aaron.

Mikaela acenou com a cabeça, e leu a profecia:

– “Nos dias de escuridão e trevas, nos dias de tempestades e fúria, heróis surgirão para lembrar o passado, consertar o presente e proteger o futuro. Terão auxílios dos mais variados, contarão com muitos na jornada. Mas terão que seguir sempre, sem nunca voltar atrás. Por vários obstáculos passarão, e sempre demonstrarão qualidades inimagináveis. No final, cada um sua trilha seguirá. Somente os originais vão restar. E eles, por uma prova terão que passar. E descobrirão quem realmente são e quais são seus destinos. Algo a seus donos devolverão, e por muitos lugares passarão. E em todos os lugares algo acharão, em que não poderão se desvencilhar, precisarão no final. Muitos no caminho se juntarão, outros se perderão. Mas no final, tudo se resolverá, seja qual for a decisão que ela for tomar.”

– Ela? Quem é ela? – perguntou Théo, preocupado, pensando em Mia.

– Não sei Théo. Estou pensando nisso e em várias outras coisas desde ontem, que foi quando eu li essa profecia. Ela contém muitos dados, muito mais do que de costume. – disse Philip.

– Tá. Então, chegamos à conclusão que não há conclusão. – disse Mia.

– É mais ou menos nesse caminho mesmo, Mia. Mas nunca nenhuma missão pode ser prevista. Só algumas coisas, que a profecia nos forneceu. O resto, quem faz é o próprio herói. – disse Philip.

– Bom, pelo menos a gente tem alguns pontos de referência, e ajuda. Bom, agora acho que é a sua vez, Ágata? – perguntou Aaron.

– Sim. Bom, eu sou a filha de Morfeu, deus dos sonhos. Não tenho lá muitas coisas para contar. Comecei a me perguntar o que eu tinha de diferente quando eu comecei a sonhar coisas que não tinham nada a ver comigo. E foi quando ouvi uma amiga minha contando um sonho que ela teve que eu percebi que entrava nos sonhos dos outros. Comecei a tentar controlar isso, direcionando-me ao sonho desejado. O Aaron e o Agis ficaram sabendo disso e pediram para eu entrar em sonhos de pessoas chaves. O mais difícil foi quando pediram para eu entrar no sonho de um Titã. Foi muito difícil. Eles têm um escudo, e não dormem quando sonham. É estranho. Mas eu consegui. Consegui ter um vislumbre do objeto que eles guardam. Seja o que for, está muito bem guardado. Está em uma caixa, com monstros a flanqueando. Pensei que fosse a caixa de Pandora, mas descobri que não.

– E como você descobriu? – Perguntou Blanca, curiosa.

– Isso quem conta é o Agis. Mas depois disso, os Titãs ficaram muito mais espertos e vigilantes com seus sonhos. – concluiu Ágata.

– Já vou aproveitar o ensejo e falar a minha parte. Aaron sempre que saía me levava, para ter ajuda e segurança. Só que ele saía pouco, e não ia muito longe. Eu resolvi ir sozinho para lugares mais distantes. Tanto é que um tempo eu fiquei ausente, e o Aaron disse a todos que eu estava muito doente. Como a Mia ainda estava na enfermaria, não deram muita importância a minha doença. Fiquei uns dias fora. No mesmo dia em que voltei, Blanca foi me procurar para curar Mia. Fui para bem longe. Não sei onde estamos, mas também não procurei me informar. Só sei que andei uns três estados. Mas descobri muitos atalhos subterrâneos que saem em lugares distantes. Encontrei no caminho alguns seres batalhando. E vi um carregamento. Bisbilhotei para tentar descobrir o que era. Vi uma caixa, e tive o mesmo pensamento de Ágata. Mas percebi que não era a caixa de Pandora, pois não era entalhada com tudo o que ela contém, além de aparentar ser bem leve. E todos sabem que é muito difícil carregar a caixa sem se deixar abalar. Vi alguns orifícios na caixa, e percebi que dentro havia um objeto brilhante. Mas não consegui ver mais nada. Tive que desaparecer, pois sentiram minha presença. – Agis aparentemente havia acabado a história que os três tinham que contar.

– Mas você não conseguiu ver nenhuma placa nem nada de cidade? – perguntou Théo.

– Consegui. Mas estamos em uma parte muito isolada, pelo que sei. Não conheço essas cidades, e encontrei três possíveis lugares para estarmos. Não sei se li o nome das cidades direito. As letras estavam confusas. Nunca vi aquela língua antes. Tive que tentar adivinhar, e digitar no Google. – explicou Agis.

– Então não estamos no Brasil? – perguntou Blanca, preocupada.

– Não. E descartei toda a América, o Reino Unido, a Espanha e Portugal, pois inglês e espanhol eu sei falar, e sabemos português. – disse Agis.

– Ah, podem deixar. Assim que a Mia por o pé fora dessa escola, ela vai descobrir. Não tem idioma que ela não conheça nem um pouco. – disse Théo, zombeteiro.

– Mas alguém me responda uma coisinha só: pra onde é que nós vamos? Onde está acontecendo a guerra? Em que país? Como chegaremos lá? – Mia estava frustrada.

– Não foi só uma pergunta, mas tudo bem. Posso respondê-las. A guerra está ocorrendo em todos os países. Os Titãs estão atacando todos os lugares, para dificultar e dividir as forças dos deuses. Mas vocês têm que ir atrás dessa caixa. Para onde ela está indo eu não sei. Mas pelo que Agis descobriu, ela está em movimento. E vocês terão que seguir os rastros dela o mais rápido possível, antes que a percam de vista. O país e a cidade onde esta caixa ficar vai estar com grandes problemas. Pois todas as forças dos deuses e dos Titãs se concentrarão lá. Então, mesmo que não consigam reaver a caixa, tentem fazê-la ficar em um local deserto, que é exatamente o contrário da ideia dos Titãs, provavelmente. – explicou Philip.

– Então não há mais tempo a ser perdido. Temos que arrumar tudo e partir. Procurar essa caixa, e segui-la. Estudar durante o caminho toda a sua proteção, e descobrir um modo de retirá-la de lá, de preferência sem sermos descobertos. – resolveu Mia.

– Sim. E quanto antes partirem, mais fácil será a busca. Recomendo que não se despeçam de ninguém. E que partam o mais discretamente possível. E não levem muita coisa. Acho que é só. Adeus, nos veremos em breve. – Philip se despediu e os garotos saíram. As dríades os chamaram, e eles se aproximaram o mais discretamente possível.

Elas já estavam com as bolsas dos garotos, e mostraram um caminho para saírem da escola sem serem vistos. As dríades se despediram. Os seis garotos encaminharam-se para o mundo afora.