Semideuses: A descoberta
10 Capítulo 10
Mia, Théo, Blanca e Ágata eram os mais nervosos. Nunca tinham saído da escola. Apesar de Ágata já ter tido um vislumbre do local para onde se dirigiam, havia sido somente em seu sonho.
– Agora, vamos descobrir onde estamos. – disse Mia, resoluta.
– Primeiro temos que rastrear o baú. E ele não vai pela cidade. Passa sempre pelas estradas externas. É melhor não perdermos tempo, e irmos direto procurar o baú. – contestou Agis.
– É... Você tem razão. Vamos procurar esse baú então. – disse Mia, contrariada.
Agis guiou-os pela maior parte do caminho, pois ele havia seguido os guardas para tentar descobrir o que carregavam. Mas chegou um momento em que Agis parou:
– Só sei até aqui. Agora teremos que descobrir para onde foram.
– Deixa isso com a gente. – disse Théo, referindo-se a ele, Blanca e Mikaela. Eles adoravam procurar rastros e pistas.
Blanca viu marcas de rodas e começou a segui-las. Mas havia uma bifurcação na estrada, e ambos os caminhos tinham marcas.
– E agora? – ela perguntou. – Como vamos saber qual dessas marcas é a que devemos seguir?
– Agora é só deixar comigo – disse Mikaela. Ela se concentrou, e um pássaro se aproximou. – Olá, você poderia me informar se uma carruagem com um baú e alguns monstros passou por aqui?
– Sim, passou. E foram por aquele caminho. – disse o pássaro, apontando uma das garras para o primeiro caminho.
– Muito obrigado. – disse Mia. – Vamos?
– Como assim vamos? – perguntou Théo, confuso.
– Vocês ouviram o que o pássaro disse. – refutou Mia.
– Não. – disse Blanca, espantada.
– Como assim não? – Mia perguntou, espantada.
– Às vezes eu acho que você esquece que é filha de uma ninfa. – disse Agis, displicente. – Mia, só você pode falar com os animais, a não ser os mitológicos.
– Ah, é mesmo. – disse Mia, intrigada.
– Então, o que o pássaro disse? – perguntou Théo, curioso.
– Disse que eles foram por ali. – Mia respondeu, e eles se encaminharam para o caminho apontado pelo pássaro.
– Nossa, que caminho estranho. – constatou Ágata. – Nunca conheci nenhuma estrada desse tipo. Tenho certeza que aqui não é a França.
– Você veio da França? – perguntou Blanca, espantada. – Eu vim da Alemanha!
– Eu sou o único espanhol daqui? – Théo perguntou, espantado.
– Gente, vocês sabem que nós somos de origens diferentes, não é? Eu sou brasileira, o Aaron é português e o Agis é o único grego daqui. – disse Mia.
Isso explicava a aparência física de Agis, Aaron e Ágata, pensou Théo. E a deles também. Agis tinha cabelos negros, uma pele ligeiramente bronzeada, de estatura media. Considerando que ele ainda cresceria, ficaria de uma altura relativamente grande. Aaron tinha um cabelo meio encaracolado, era meio amorenado também e era alto. Ambos eram um pouco corpulentos, por causa do tipo físico original. Ágata era branca, de um corpo frágil e delicado, possuía um cabelo castanho-loiro, e era baixa e graciosa.
– Bom, é melhor não enrolarmos aqui, senão perderemos a pista da carruagem. – disse Agis.
Théo percebeu que logo se irritaria com Agis. Ele não gostava de pessoas que davam ordens. Só aturava Mia, pois ela era uma líder nata, sabia comandar sem parecer ser uma chefe ou querendo dar ordens. Agis não era assim. Era o que ele falava, e ponto. Tudo em um tom de ordem. E Théo odiava isso. Respirou fundo e se acalmou. Não se irritaria agora. Começaram a andar pelo caminho apontado pelo pássaro. Após algum tempo, Mia conseguiu distinguir uma trilha feita por rodas.
– Consegue descobrir algo pelas marcas, Mia? – Aaron perguntou, notando que Mikaela estava analisando detalhadamente as marcas.
– Sim. Consigo descobrir o peso da carruagem, o tipo da roda, quantos cavalos a carregam. E devo dizer que seja lá o que estiver dentro dessa carruagem, é bem pesado.
– O que você acha que é Mia? — Perguntou Blanca, temerosa.
– Eu não faço ideia Blan. Podem ser tantas coisas... Existem tantas armas, tantas coisas que eles podem usar ou ter para ameaçar os deuses... Mas algo que diz que é algo tão simples, mas tão importante...
– Então só nos resta a opção de seguir a carruagem e ver no que dá. Quantos cavalos você acha que tem Mia? – perguntou Aaron, preocupado.
– Acho que são em torno de quatro. Não muito mais do que isso. As patas estão confusas aqui, e um pouco apagadas. Mas não deve ser menos porque a carruagem carrega algo pesado. E não deve ter muito mais do que quatro, pois fica mais difícil sustentar os animais.
– Você tem razão Mia. – concordou Agis. – Então acho melhor não perdermos tempo.
– Será que conseguiremos alcançar a carruagem a pé? Não é melhor tentarmos achar algum meio de locomoção? – Perguntou Blanca, apreensiva.
– Não sei onde encontraríamos alguma coisa por aqui, Blan. Estamos em uma estrada, e ao que parece, não existe nenhuma vila por perto. – explicou Mia.
– Mas você acha que a gente consegue? Acha que vamos alcançar a carruagem? – insistiu Blanca.
– Eu acho que com a caroninha que tá chegando a gente chega rapidinho. – disse Théo.
Todos olharam e viram uma carroça que, apesar de simples, era muito espaçosa. Parecia que comportaria muito bem todos os amigos. E o carroceiro parecia ser simpático. Aaron deu sinal para a carroça, e o dono parou-a.
– Boa tarde garotos, em que posso ajudá-los? – perguntou o dono da carroça, que parecia ter entre trinta e quarenta anos. Tinha um aspecto jovial, apesar de seu corpo demonstrar que ele trabalha no campo, com sol e algum tipo de trabalho manual. Seu olhar era penetrante e sincero, e seu sorriso, ameno.
– Nós gostaríamos de saber se o senhor pode nos dar uma carona. Ou então nos sugerir um local para comprar ou alugar algum meio de locomoção. – disse Aaron.
– E para onde vão? – perguntou o carroceiro.
– Seguiremos essa estrada. Só precisamos de uma carona para adiantar o caminho, depois teremos que terminá-lo a pé. Perdemo-nos de um grupo, e estamos tentando achá-lo novamente. Sabemos que eles seguiram por essa estrada, mas não sabemos até onde foram. – improvisou Mia.
– Estou indo justamente por essa trilha. Posso lhes ajudar. A propósito, meu nome é Tião. Podem subir. Fiquem a vontade. Não é uma carruagem, mas é confortável.
Todos se arranjaram em seus devidos lugares. Mikaela e Théo sentaram-se na frente. Ágata e Blanca, no meio, e Aaron e Agis, sentaram- se no fundo e nas pontas.
– Obrigado pela carona senhor. Nós não temos como lhe pagar em dinheiro, o que o senhor aceitaria? – perguntou Mia, consternada.
– Não preciso de nada garota. Já estive na mesma situação que vocês, perdido, sem dinheiro nem informação, e já fui acolhido. Sabia que teria que retribuir de uma forma ou outra. – disse Tião, sempre simpático.
– Muito obrigado, senhor Tião. – agradeceu Mia, visivelmente satisfeita.
– Mia – Théo cochichou no ouvido dela, para ninguém mais ouvir. – eu sei que ele parece ser simpático, mas não se esqueça de que devemos tomar muito cuidado. Estamos correndo muito perigo desde o momento em que saímos da escola. Não podemos sair confiando em todo mundo.
– Eu sei Théo. Pode deixar, não vou colocar confiança demais.
A viagem transcorreu normalmente. Assim que chegaram perto de uma bifurcação, Mia pediu que Tião parasse e deixasse-os ali. Todos agradeceram, e observaram Tião partir. Não podiam arriscar tentar achar os rastros da carruagem com ele por perto. Apesar de tudo, não sabiam ainda se ele era um simples humano, ou um servidor dos Titãs.
Após perceberem que o carroceiro estava a uma distância segura, Mia acenou para os outros do grupo, entrando na floresta que margeava a estrada. Todos seguiram-na, apesar de confusos. Quando acharam Mia, viram-na sentada, com uma toalha estendida, e alguns lanches.
– Eu pensei que vocês estariam com fome. Trouxe na minha bolsa alguns lanches. Eles têm cenoura, peito de peru, alface, tomate, frango, catupiry... E como já faz mais de 7 horas que não comemos, achei que seria uma boa ideia. Isso sem contar que já está escurecendo, e temos que nos abrigar e esconder.
Eles não sabiam se ficavam mais impressionados com o fato de Mia ter pensado em todos os detalhes, ou pelo dia ter passado tão rápido e eles não terem se apercebido.
Comeram e adentraram um pouco na floresta. Pegaram seus colchões e deitaram-se. Montaram um plano de vigia. Primeiro Mia e Ágata, depois Aaron e Agis, e por último Théo e Blanca.
A noite foi tranquila, e passou rapidamente. Logo era dia, e a jornada do grupo estava se reiniciando. Vários dias se passaram, sem nenhuma novidade, nenhuma pista ou obstáculos para enfrentarem. Os garotos começaram a estranhar. Além de tudo, não havia nenhuma cidade pelo caminho, nem nada que demonstrasse sinais de população. Eles estavam começando a desistir de seguir o caminho escolhido, quando algo muito estranho aconteceu.
▪▪▪
Eles já não se preocupavam mais em andar fora da estrada, ou adentrar um pouco da mata para se esconderem. Afinal, não havia do que se esconder. A única companhia que eles tinham era a poeira e alguns animais que apareciam às vezes: um pássaro, uma lebre, e às vezes até um animal maior se arriscava a espionar os jovens viajantes.
Ágata estava sempre silenciosa, prestando atenção em tudo. Era a que menos falava, menos reclamava, menos participava. Só seguia os outros e não questionava nada. Mas era a que mais se interrogava mentalmente. “Será que estamos no caminho certo? Será que eu realmente ajudarei o grupo em algum momento? Eu tenho alguma utilidade ou só vou atrapalhar quando chegar a hora?”
Agis percebia essa tensão de Ágata. Aliás, percebia a tensão de todos os integrantes do grupo. Apesar de nunca ter sido uma pessoa chegada a companheirismo e apoio, ele fazia de tudo para manter o grupo de bom humor e animado.
– Mia, como estamos? Quer dizer, você ainda está seguindo o rastro, certo? – perguntou Ágata, depois de reunir muita coragem.
– Sim Ag. Venha cá. – Mia apontou para um trecho específico da estrada, e todos se aproximaram. – Está vendo essa marca mais funda aqui? – perguntou ela, ignorando os demais. – Isso significa que a carruagem parou abruptamente. Estou torcendo pra que ela tenha sido interceptada, o que significaria que o número de guardas diminuiu, e que a carruagem vai diminuir a velocidade até que as forças sejam restituídas.
– Mas você tem certeza de que é o rastro da nossa carruagem? – pergunta Agis, desconfiado.
– A gente não tem a nossa carruagem, Agis, mas é o único rastro, e eu estou apostando tudo nela. Se nós tivéssemos um pouquinho mais de ajuda seria ótimo, mas parece que ninguém além de nós quer colaborar. – respondeu Mia, visivelmente irritada.
Ela recomeçou a caminhada, e os outros seguiram-na. Estavam todos cansados, mas ninguém mais cansada e estressada do que Mia. Era visível que ela estava muito irritada, principalmente depois de sua reação com a frase de Agis. Ela não dormia há dias, sempre pensando no que faria a seguir, como sair desta trilha de incertezas e descobrir o que realmente estava se passando. Pensou até em mudar totalmente de caminho, voltar à escola e exigir uma maneira de falar com os deuses. Qualquer um que fosse, só para ter uma coisa a que se apoiar. Só para ter um ponto de partida. Mas ainda assim ela continuava, perseverando. E via todos os olhares: encorajamento, medo, dúvida, tristeza, saudade, cansaço. Pensou em quantos estavam perdendo as noites em claro, assim como ela. Mas sempre via todos se rendendo ao sono, em algum momento. Mas ela não. Enquanto não achasse um meio de resolver, não descansaria. Começou a ler o livro de mitologia pego, e leu-o todo em 3 noites. Depois releu-o, e novamente, sempre parando em pontos que achava importantes, coisas que considerava como possíveis pistas. Mas sempre voltando à estaca zero.
E ela voltou a pensar no dia em que se reuniram com Philip, para resolver as últimas coisas da “missão”, que até agora era somente uma caça ao tesouro. Foi então que uma frase peculiar lhe veio à mente:
– Ei Agis, você não disse na nossa “reunião” que descobriu vários caminhos subterrâneos e trilhas? Por que você não dá uma ajudinha?
– Porque infelizmente eu tinha ido por outro lado. Nada aqui me parece familiar.
– Poxa, que pena.
Então eles recomeçaram a caminhar. O sol começou a sumir, e a noite se iniciou. Como sempre, os garotos adentraram um pouco na floresta, comeram e fizeram os turnos de vigília. Desta vez, Mikaela e Théo ficaram no mesmo turno. Depois de vários dias com quase nenhum contato, além das conversas em grupo e um ou outro toque, eles finalmente teriam algum tempo a sós. Pelo menos, foi o que Théo pensou.
– A quanto tempo nós não ficávamos a sós, não é? – Théo falou, enquanto eles se afastavam para verificar o perímetro.
– Sim. Já estava sentindo falta das nossas conversas...
– Só das conversas? – Théo exibia um sorriso maroto.
– O que mais eu poderia sentir falta? – Mia estava com uma expressão interrogativa.
– Não sei, talvez das nossas brincadeiras, das nossas carícias...
– Ah, sim. Claro, disso também. – disse ela, dando de ombros.
Ambos ficaram em silêncio. Théo não sabia se ela estava testando-o, brincando com ele ou simplesmente queria deixar de lado o que havia ocorrido entre os dois um dia antes da missão. Resolveu arriscar.
– Sabe do que eu mais senti falta?
– Hm? – Mia parecia distraída, desinteressada.
Mas ao invés de responder, Théo parou, somente alguns passos atrás de Mia. Ela foi até ele, achando que ele havia visto algo suspeito. Parou a centímetros dele, e virou na direção do seu olhar. Sem ver nada, virou-se novamente, e percebeu a distância mais encurtada ainda. Ela resolveu teimar mais um pouco, para provocar mais Théo. Encarou-o com seu olhar penetrante, mas ele não se deixou abalar. Ela vacilou, por alguns instantes, achou que tinha ido longe demais e estragado o momento, mas ele captou esse vacilo, e aproximou-se mais. O cabelo dela roçava o rosto dele. Ele não afastou a madeixa teimosa desta vez. Deixou-se sentir o toque do cabelo em seu rosto. Então levantou uma das mãos e acariciou o rosto dela, aproximou-se ao máximo, e beijou-a. Primeiro um beijo leve, vacilante. Mas depois de correspondido, tornou-se mais intenso. Ela enlaçou seu pescoço, e ele envolveu sua cintura com a mão livre. A mão que estava no rosto passou para os cabelos, fazendo-lhe carinho.
Mikaela estava muito feliz. Em alguns momentos da viagem pensou que a cada dia estaria mais afastada de Théo, e que eles nunca mais poderiam estar juntos. Chegou até a pensar que ele começaria a se interessar por outra garota e a esqueceria. Mas deixou todos esses pensamentos evaporarem, e concentrou-se no beijo. Nas sensações, nos sentimentos. Mas algo a impediu de continuar a aproveitar o momento. Por sorte, ela percebeu que Théo também ouviu o barulho. Ambos pararam abruptamente, e puseram-se a escutar. Aparentemente, o que quer que fosse estava em movimento, e não havia percebido a presença dos dois. Silenciosamente ela fez sinal a Théo para ele ir até os outros alertá-los, enquanto ela se aproximaria do autor do barulho. Théo, apesar de preocupado, acenou com a cabeça afirmativamente, e foi o mais rápida e silenciosamente possível até o “acampamento” provisório.
Mia escalou uma árvore e foi pulando de uma a uma, até se aproximar o suficiente. E o que ela viu não lhe agradou nem um pouco.
– O que esse troço tá fazendo aqui?
O “troço” virou-se, aparentemente ouvindo o som da fala. “Isso Mia, por que você já não fala: oi cara de boi?”. Ela continuou seguindo-o, e percebeu que ele estava indo na direção do acampamento. “Talvez tenha sentido nossa presença. Por sorte ele é bem lento e eu consigo chegar até a galera antes dele”.
Ela foi pulando de árvore em árvore o mais rápido que podia, e conseguiu chegar, aparentemente poucos minutos antes do monstro chegar. Todos já estavam acordados e se preparando para partir, ou batalhar. Pediu para sua bolsinha a espada dupla novamente, e disse:
– Esse monstro está vindo pra cá. Provavelmente nos sentiu. Eu gostaria muito de dizer que devemos sair correndo, mas não sabemos se ele faz parte do grupo que está levando o carregamento que procuramos. Então, como ele já sabe que tem gente aqui, temos que lutar contra ele e mata-lo. E já vou dizer que não vai ser nada fácil.
– Mas que monstro é esse Mia? Théo nos disse que você demorou para vir porque estava tentando descobrir o que ele era. Conseguiu? – perguntou Ágata, visivelmente nervosa.
– Não sei se é felizmente ou infelizmente, mas sim, eu vi. E é um monstrinho chato, grandinho, e tem seis bracinhos que são uma graça. Ou seja, toda ajuda é bem-vinda.
– Mas Mia, nós três não somos tão bons quanto você, o Théo e a Blanca – Ágata já estava nervosa.
– Ag, eu vi você lutando quando os 3 professores estavam lá, você luta muito bem, e tenho certeza que melhorou muito ainda, porque o Philip deu um treinamento super intenso para todos nós. Até os piores aprenderam a lutar. E se vocês três estão aqui, é porque o Philip confiou na capacidade de vocês de lutar e passar por diversos tipos de prova, então eu também confio. Mas alguma pergunta, ou coisa a falar? – o olhar de Mia se dirigiu a cada um deles.
– É... Tem sim – disse Aaron. – Eu fui o único que não trouxe nenhuma arma?
– Não, eu também não trouxe – disse Ágata.
Mia providenciou uma espada para Aaron e um arco e flecha para Ágata.
– Ag, Blan, eu quero que vocês duas subam em algum lugar alto e nos cubram o quanto puderem. Agis, você é o menor de nós, então eu quero que você fique em um lugar bem visível, e vá acertando-o por baixo, o máximo que puder. Se estiver correndo muito perigo, não hesite, saia daqui. Aaron, quero que você ajude Agis, cada um tentando distrair o monstro para o outro atacar. Eu e Théo subiremos as árvores e atacaremos de cima. Pularemos nele. Alguma dúvida, sugestão...?
Todos negaram com a cabeça. Mia e Théo escalaram rápido, mas Blanca e Ágata tiveram alguma dificuldade. Quando acabaram de se ajeitar, o monstro chegou. Avistou somente os dois que estavam no chão, e se encaminhava em direção a eles quando uma saraivada de flechas o atingiu de ambos os lados. Ele rodou, tentando achar a fonte, e foi nocauteado em todas as partes das costas, tórax e abdome. Mia e Théo aproveitaram a deixa e pularam em cima dele.
Enquanto isso, Agis e Aaron alternavam entre golpear e esquivar. Mas o monstro Gegene, depois de ficar confuso, começou a contra-atacar. Com dois de seus braços evitava que as flechas lhe acertassem o corpo inteiro; com os pés tentava pisotear; e com os outros 4 braços tentava agarrar Mia e Théo. Mikaela fez sinal para que Théo subisse até a nuca do Gegene, enquanto ela o distraia.
Mia conseguiu prender a atenção de 3 dos braços, mas aparentemente o monstro não era assim tão estúpido. Ele ainda conseguiu atrasar Théo. Porém, logo que ele chegou no ponto indicado, perguntou a Mia:
– E agora?
– Como assim e agora? Enfia essa espada na nuca dele quantas vezes você conseguir!
Agis ficou preso em um tronco caído, que o monstro havia usado para tentar acertá-los. Aaron não sabia se socorria o amigo ou se continuava a lutar. Na confusão, tentou fazer os dois. Sua sorte foi que assim que o monstro percebeu que Théo se encontrava prestes a acertar seu único ponto fraco, se concentrou somente nele. Mikaela aproveitou a chance e acertou os braços dele o máximo que podia, rendendo à Théo mais alguns instantes. Blanca e Ágata ajudaram acertando a nuca, tentando não ferir Théo, o que foi um tanto difícil, uma vez que o monstro não parava de se mover nem um instante.
– Mia, o que você está fazendo? – Théo perguntou quando viu que Mia estava se encaminhando até ele.
– Estou tentando te ajudar. Caso não tenha percebido, seis braços estão indo em sua direção. Ou pelo menos, tantos quanto te alcancem.
Ela se alojou no ombro do monstro, e ficou sentada, como se nada estivesse acontecendo.
– Agora não é hora para apreciar a vista Mia – Théo comentou, irritado.
– Eu estou te dando cobertura. Enquanto você não começar a estocar a nuca do nosso amiguinho, ele não vai se concentrar em nós, e Agis e Aaron vão virar papinha.
Ele golpeou uma vez, e os braços vieram automaticamente para cima de ambos. Mia levantou-se num pulo, equilibrando-se no ombro. Golpeava todos os braços que chegavam perto de Théo, mas ao mesmo tempo aguentava os golpes que sofria. O monstro estava cada vez mais furioso, aumentando a intensidade dos golpes. Mikaela percebeu que precisavam acabar com aquilo logo, e fez um corte profundo na nuca do Gegene. Um pouco de sangue saiu, mas logo foi substituído por um pó.
– Théo, ele está se desfazendo! Temos que pular para algum lugar, e rápido!
Théo rapidamente saltou para o galho de uma árvore, porém quando foi a vez de Mia, o monstro se virou, tentando em vão se salvar. Mikaela errou o pulo, e começou a cair. Tentou se direcionar para algum lugar mais macio, onde a queda fosse menos dura, mas não achou nada. Ela fechou os olhos, esperando o baque surdo, a inconsciência, o acordar com dores profundas e dois ou três ossos quebrados. Mas tudo o que ouviu foi um bater de asas suave, tudo o que sentiu foi algo agarrando suas pernas, e um pouso suave e consciente. Ela abriu os olhos vagarosamente e viu que todos a rodeavam. Não, não a rodeavam. Rodeavam outra coisa. Uma coisa que estava bem do lado dela.
Ela virou a cabeça e viu uma fênix. Uma linda fênix, cor de fogo, viçoso, e com um olhar doce e significativo. Do jeitinho que ela leu no livro que roubou da biblioteca. Ela sorriu, agradecida, e a fênix meneou a cabeça, como se entendendo e aceitando o agradecimento. Logo depois, alçou voo, e subiu até que a única parte que o grupo enxergava era a cauda estonteante, e suas labaredas de fogo.
– Tiveste sorte. – disse uma voz. – Somente alguns são agraciados com a visão de uma fênix, e raros os que são salvos por ela.
Todos procuraram pela voz, mas ninguém achou sua dona.
– Não irão achar-me. Estou aqui, mas também estou acolá. Presente e ausente. Sendo e somente estando.
– Mas que coisa complicada – disse Blanca – e no que você pode nos ajudar?
– Em tudo, e em nada. Depende do que desejardes. Escolham com sabedoria, pois o que vos aparenta ser o essencial neste momento, pode demonstrar-se supérfluo.
– Só eu não tô entendendo nada? – perguntou Théo.
– Precisa ter cultura para entender o que ela fala – caçoou Agis.
– Brigas não os ajudarão, somente tratará de separar-vos. Portanto, procurem sempre colocar vossas desavenças de lado.
– Ela está certa. – disse Aaron – E precisamos pensar em algo que ela possa nos ajudar.
– Acho que temos que pensar no que ela falou, do que pra gente parece ser essencial pode ser supérfluo. – comentou Mia. – O que parece ser essencial nesse momento pra gente?
– Que caminho nós temos de seguir, e o que estamos procurando – sugeriu Ágata.
– Quem está por trás disso, qual o plano deles – foi a vez de Agis.
– E supérfluo seria... Quando essa guerra vai começar de verdade – arriscou Mia.
– Se lutaremos ao lado de nossos pais, onde lutaremos, quem são os aliados dos chefões, o que a gente vai comer... – disse Théo.
– Théo! – disseram em uníssono.
– Que foi? Tô com uma fome...
– Decidam-se. O tempo é curto, e a viagem é longa.
– Enfim, o que perguntaremos? – disse Aaron.
– Já sei! – disse Ágata – Mia, posso perguntar? – assim que ela viu o aceno de cabeça, perguntou – Qual será nosso caminho?
– Sábia pergunta, feita por uma sábia menina.
Mia lançou um olhar orgulhoso e um sorriso à Ágata.
– Deverão seguir para o Oeste. Se forem rápido, alcançarão seu objetivo. Porém não devem intercepta-lo. Devem esperar e seguir o caminho juntamente com seus inimigos. Passarão por apuros, mas juntos, conseguirão superá-los. Conhecerão os aliados, e se prestarem atenção, talvez até alguns dos principais inimigos. A guerra só começará, quando todos ao destino chegarem. É tudo o que precisam, e podem saber por agora. Adeus, ou até mais. Só o futuro dirá.
– Nossa, que estranho. Como é que a gente vai saber se ela já foi? – Théo perguntou, curioso.
– Acho que ela não é do tipo que fica para ouvir os babados – Blanca comentou sarcasticamente. – Agora, a pergunta que fica é: pra onde é o Oeste?
– Vamos perguntar pro vento. – Mia se concentrou, e disse, como se estivesse soprando – Qual de vocês é o vento do Oeste?
– Sou eu – disse uma voz grossa e velha.
– O senhor poderia nos guiar no caminho? Precisamos seguir para o Oeste, o caminho que o senhor tem que fazer.
– Há tempos ninguém pedia-me para guiar. Estava começando a sentir falta disso. Sigam-me! – ele disse com uma voz eufórica, começando a se distanciar.
– Senhor! Poderia ir um pouco devagar? É que estamos a pé, e às vezes precisaremos descansar.
– Ah sim, que erro foi o meu. Perdoem-me, seguirei com vocês.
O começo do caminho foi quieto. Todos estavam incomodados, e não sabiam o que fazer, ou falar. Começaram a prestar mais atenção nas coisas, como se a qualquer momento mais vozes começassem a conversar com eles do nada.
– Posso perguntar o que está causando toda essa mudez em vocês, garotos?
Todos se assustaram com a voz grave. Mikaela riu e disse:
– Não é nada, senhor vento. Eles só não estão acostumados a falar com mais de uma voz sem corpo por dia.
– Se preferirem, posso tomar a forma humana.
– Por favor! Você falando, e não tendo corpo, tá me deixando louco. Não sei para onde olhar, pra onde assentir, se é tudo imaginação minha... – disse Théo, visivelmente perturbado.
O vento Oeste riu, e sua risada retumbou.
– Está certo. Tomarei a forma humana.
Uma cabeça flutuante começou a se formar. Cabelo acinzentado, ondulado, não muito longo. Um bigode e uma barba igualmente acinzentados. Olhos cinza-esbranquiçados. Um rosto envelhecido, porém sem muitas rugas. O pescoço denunciava que um corpo definido estava por vir. Braços musculosos, peitoral firme, e pernas bem desenvolvidas. Todos estavam olhando, abismados. A risada retumbante soou de novo, ele disse:
– Parece que não, mas nós, os Quatro Ventos, fazemos muitos exercícios. E com exercícios ganhamos um corpo mais... Sarado, como vocês dizem.
– Eu nunca tinha pensado dessa maneira... – disse Blanca, constrangida.
– Sim, quase ninguém pensa. Apesar de estarmos na forma em que todos nos conhecem, de vento, temos muito trabalho. Ir de um lado pro outro, provocar ventanias aqui, brisas acolá. Furacões são os piores. Temos que trabalhar em equipe. Mas eu e o Vento Sul nunca nos damos bem.
– E vocês tem tipo, outros irmãos? Sabe, como nós aprendermos: Noroeste, Sudeste, Sudoeste. – foi a vez de Aaron.
– Ah, sim. Eles estão por aí. São mais fracos, mas estão.
Mia quebra o silêncio que estava por vir novamente.
– Senhor, eu estava pensando outra coisa... Nós temos que dar uma oferenda não é? Por você estar nos ajudando?
– Em casos normais sim. Mas digamos que estamos em uma época especial. A retribuição de vocês será a ajuda. E nós precisaremos de muita ajuda. Aliás, muitos deuses não estão querendo admitir, mas todos nós sabemos que nossa sobrevivência depende de vocês.
– Mas o que é que está acontecendo, afinal?
– Mikaela, é um assunto tão complicado, uma coisa que parece tão frívola para vocês. Mas para nós é muito importante. Não posso dizer nada do que vocês já não sabem. Precisam descobrir e investigar. Faz parte do processo. Só a curiosidade vai instigar vocês em alguns momentos. Se eu lhes contar tudo, vocês desanimarão e desistirão no menor sinal de dificuldades.
– Entendo – respondeu ela, solícita.
Pela cara de todos os outros, só Mia entendia. E mesmo ela se sentia em dúvida. Sabia que por causa da relação fraca entre eles e seus pais, com o menor sinal de perigo, se isso não viesse a afetar o mundo humano e o semideus, eles iriam se recusar a continuar com isso. “Mas, se eles pelo menos se dignassem a falar conosco... Talvez assim nós tivéssemos motivação suficiente para enfrentar tudo, mesmo sabendo das coisas que teremos que passar.” Mas acabou guardando esse pensamento só para ela. Ao invés disso, perguntou:
– O senhor sabe quanto tempo teremos que viajar?
– Sim, eu sei. Terão de viajar três dias comigo, e depois encontrarão o que procuram. Mas verão que a melhor solução é seguir a carruagem, e então não poderia mais lhes acompanhar, senão seriam detectados. E eu sinceramente não sei onde eles pretendem parar. Aliás, é o que mais preocupa a todos nós, deuses, sátiros, ninfas, centauros... Enfim, todos.
E assim foi. Viajaram aquele dia inteiro. Descansaram somente 2 horas naquela noite. Porém foi o melhor descanso de todos, uma vez que o Oeste se prontificou a ficar de vigia enquanto todos descansavam de uma só vez. E depois acordaram, e caminharam novamente, sem parar nem para comer. Todos concordaram em comer uns sanduiches enquanto continuavam a trilhar. E naquela noite, repetiram o processo da noite anterior. E no terceiro dia, caminharam por toda a manhã, e por quase toda a tarde. Estavam perdendo as esperanças, e Blanca estava prestes a perguntar ao Oeste se eles iam mesmo encontrar a carruagem quando o vento virou-se e falou:
– Só posso levá-los até aqui. Se eu chegar mais perto, eles sentirão minha presença, e todos nós perderemos seu rastro. É só seguirem em frente mais um pouco e encontrarão o que procuram.
– Obrigado senhor Oeste – disse Ágata. – Estamos muito gratos pela ajuda.
– Não precisam agradecer. Só fiz a minha parte, assim como vocês estão fazendo as suas. Adeus.
Seu corpo foi desaparecendo do mesmo jeito que tinha aparecido. Souberam que ele havia ido embora depois de uma leve brisa passar por eles. E eles continuaram andando, e o anoitecer foi chegando. Todos estavam cansados, mas Mia, Agis e Théo se mantiveram na frente, a fim de estimular os outros. Chegaram próximo de uma campina, escondida por um pequeno trecho de mata fechada. Mia fez sinal para que todos fizessem silencio e se aproximassem. E eles ficaram impressionados com o que viram.
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