Chegaram ao quarto, e Théo abriu a porta. Blanca entrou e levou Mia até a mesa. Ambos sabiam que agora, era esperar ela sair do transe para que eles pudessem saber o porquê da “reunião secreta”.

Após dez minutos de extremo silêncio e quietude, Mia acordou.

– Ok. Lápis e caderno. – Sua bolsa brilhou, e ambos surgiram. – Obrigada, bolsinha.

– Ei, Mia, você não vai nos falar nada antes não? – Théo estava irritado.

– É, algo do tipo: nós estamos aqui fazendo o que, exatamente? – Blanca não estava muito mais calma que Théo.

– Calma, vocês dois. Credo! Até parece que é algo grave! – Mia falou, exasperada.

– Ah, pelo menos isso a gente já sabe, então: não é nada grave. O que é, então? – Théo perguntou.

– Nós precisamos de um plano. Não sei se vocês se lembram, mas a Carneia falou que as parcas previram que íamos fazer algo de importante. E precisamos descobrir o que é.

– Ei! Como assim, descobrir o que é? Já pensou em perguntar pra gente se queremos fazer sabe-se lá o que? – Blanca começou.

– Ein? Se você não queria se envolver nisso, por que lutou? – Mia respondeu.

– Porque passou pela minha cabeça, por um instante, que minha opinião não importava, naquele momento. Só o que importava era tentar aliviar a carga pra você, pra você não ter que lutar com dois loucos ao mesmo tempo. – Blanca já não podia mais suportar isso, esses sentimentos invadindo toda hora sua mente, enlouquecendo-a.

Théo havia decidido há muito que ficaria quieto. Briga de garotas era uma coisa que não se podia impedir.

– Blan, não sei se você sabe, mas mesmo que a gente não faça nada pra descobrir o porquê somos “escolhidos”, uma hora ou outra vamos nos deparar com isso. Mesmo que só fujamos, sempre seremos perseguidos, e cada vez com personagens mais perigosos. Então, de qualquer forma vamos ter que descobrir o porquê disso, não acha?

– Não sei. Talvez possamos simplesmente ir ao Olimpo pedir proteção, ou falar com esses titãs e fazer um acordo, qualquer coisa. Minha vida inteira eu já vivi coisas estranhas. Será que agora eu não posso ter um pouco de paz?

– Poderia. Mas não terá. Se você quer um pouco de paz, por que não tenta resolver tudo primeiro? Quanto antes resolvermos isso, melhor para nós três será. Cada um poderá seguir seu caminho, se separar e viver a vida do jeito que quer! Mas tentar fugir não vai ajudar nada! Acho que você não sabe nada a respeito dos titãs, não é? Pois então, fique sabendo que eles não são nem um pouco piedosos nem amorosos. Em tudo eles procuram uma chance de serem libertados, de ganharem mais poder, de matarem os deuses, que não sei se você sabe, são nossos pais! E não vai adiantar nada você ir embora e tentar se afastar da gente, porque só o que você vai conseguir é uma morte mais rápida e indolor. Nem pedir proteção no Olimpo, porque é lá mesmo que está o maior dos problemas. Não temos para onde fugir, pois não sabemos que partes do mundo os titãs já dominam. Não há escapatória.

– Você não é um gênio? Por que não pensa nisso?

– Porque eu não procuro fugir das minhas responsabilidades, por mais arriscadas que elas sejam!

Foi a gota d’água. Blanca abriu a porta com estrondo e saiu batendo os pés. Théo nem se seu ao trabalho de tentar segui-la. Conhecia Blanca: ela sempre estourava, mas sempre voltava. Esperava que estivesse certo quanto ao seu retorno. Mia estava com um problema muito maior. Nunca havia discutido tão feio assim com Blanca, e nunca tinha exposto tanto assim seus problemas. Somente agora Théo via por quanta coisa Mia estava passando.

Mia havia desmoronado na cama de Théo depois que Blanca saiu. Pegou o travesseiro, se enlaçou nele e começou a chorar desesperadamente.

– Mia, você tá legal?

– N-ã-ã-ão... vo... você... viu...

– Calma Mia. Você está sob pressão, ela decidiu pular na corda bamba, e caiu. Você não teve culpa. Só expressou o que sentia.

Mia respirou, para falar claramente.

– Théo, você tem que ir atrás da Blan... Blanca.

– Sinceramente? Acho que você precisa mais de mim do que ela.

– Thé-éo. Ela na-ão va-vai voltar... E-eu sinto i-i-i-isso.

– Ela sempre volta Mia. Não se preocupe. Agora acalme-se.

– Desta vê-vez na-não. É di-fe-fe-rente.

– Você promete que se eu for atrás dela, você vai tentar se acalmar, e não vai sair daqui, em hipótese alguma?

– Por-pro-meto.

“Lá vou eu. Por que eu sempre faço o que ela quer? Imagine o quão lascado eu estaria se ela tivesse o poder da Blanca!” – Pensou Théo enquanto procurava Blanca. Achou-a um pouco antes do quarto que ela e Mia compartilhavam.

– O que você está fazendo, Blan? Pretende fugir? Você escutou alguma coisa que a Mia falou? Ou só espumou?

– Olha Théo, se você não veio aqui para falar coisas úteis, acho que é melhor você correr para a sua Miazinha.

– Ah! Entendi! Você não brigou com ela por causa daquelas coisas, não é? Você brigou com ela por causa desse seu cuiminho bobo.

– Ciuminho bobo? Todo o amor que eu nutri esses anos por você, você chama com esse nome?

– Você nutriu porque quis. Sempre te disse que eu te amava como a uma irmã, e que meus sentimentos não passavam disso. Você sempre ficava imaginando que cada ato meu, cada coisa que eu fazia, era para te impressionar. Você vivia falando para aquelas menininhas que babavam por mim que eu era seu, e que eu te amava loucamente. Mesmo eu tendo dito a você a verdade, desde o início.

– Caso você não saiba, o amor não é algo que se controle, que se esqueça.

– Eu sei muito bem. O problema é que o que você não entende, é que pra você seria mais fácil se você não se iludisse, ou culpasse a Mia por tudo, como se eu te amasse antes dela chegar.

– Foi a única desculpa que eu achei para amenizar as mágoas, a dor.

– É, mas aí você começou a machucar uma pessoa que tinha os melhores sentimentos em relação a você, a garota que te amou no instante que te viu. Por causa de uma desculpa boba que você colocou na sua cabeça, e fez não só você, mas ela também acreditar. Você poderia ter diminuído sua dor, e poupado eu e a Mia de termos uma, talvez igual à sua, talvez pior.

– Eu não tive a intenção de fazer isso com vocês. Com nenhum de vocês. Só achei que o que eu fiz, resolveria tudo.

– Esse é o problema. Ou melhor, seu problema: pense em si mesma primeiro, e depois nos outros.

– Não sou egoísta!

– Não, só mesquinha o suficiente para não se importar com os sentimentos de seus melhores amigos!

– E você não é muito melhor do que eu, não é? Jogando tudo isso na minha cara! Acha que essas palavras não machucam?

– Sei que machucam, mas prefiro ser sincero e discutir com você somente uma vez, do que usar palavras aveludadas, e que dependendo da interpretação podem machucar mais do que a grosseria e sinceridade que eu estou usando com você! Não sei o que você vai fazer, e cansei de me importar. Faça o que quiser. Mas se eu souber que você continua machucando a Mia e fazendo-a sofrer, eu vou procurá-la, caçá-la, e você vai se arrepender.

– O que você vai fazer? Me bater? Ou você acha que é capaz de me matar?

– Acho que existem coisas mais dolorosas que a morte.

– Como o que, por exemplo?

– Como nossa amizade acabar.

– Você... Você não está falando sério, não é? Quer dizer... ainda somos amigos, não somos?

– Sim. E seremos sempre, ao menos que você magoe a Mia. Aí sim nossa amizade vai acabar. E aí você vai perceber que era melhor você ter a minha amizade, do que nada.

Era a primeira vez que Théo chorava ao falar com Blanca, a não ser no dia em que ela o salvou. Blanca notou isso, o que a deixou amargurada. Ela quase nunca chorava, não na frente dos outros, pelo menos. Quase toda noite chorava por causa de Théo, mas só quando sabia que Mia não perceberia. Essa foi a primeira vez. Ela correu para o seu quarto, e chorou. Chorou como nunca. Théo achou que não deveria se intrometer. Só foi até a porta e estava fechando-a, quando parou e falou:

– Desculpe por tudo. Se pudesse, juro que tiraria essa dor de você, nem que para isso tivesse que fazer você me odiar.

– A culpa foi minha. Se tivesse me contentado com o que eu achei que era pouco, perceberia que foi muito.

– Por favor, não vá embora, a Mia ficaria arrasada e se sentiria culpada. E eu também ficaria triste de perder minha melhor amiga — Théo declarou, com um olhar brilhante.

– Pode deixar. Não vou abandonar vocês dois nunca, nem que vocês implorem. — Blanca falou, dando uma piscadela.

Théo voltou a fechar a porta, sorrindo.

– Théo? – Blanca chamou, timidamente.

– Sim?

– Você acha que a Mia acreditou no que eu falei, ou acha que ela soube o verdadeiro motivo pelo qual eu briguei com ela?

– Eu nem desconfiei. Só quando vim brigar com você. Mas como sou meio cabeça dura, então o meu ver não deve contar muito.

– Isso não responde muita coisa, Théo.

– Desculpe. – falou Théo, suspirando. – Sim Blan, acho que ela soube. Acho que ela soube desde o momento da luta, que uma hora ou outra você ia estourar.

– Era a resposta que eu temia.

Théo fechou a porta, relanceando um ultimo olhar pesaroso, que foi retribuído por Blanca.

Théo foi andando calmamente, pensando no que ele falaria, e o que ele esconderia de Mia. Decidiu que só iria falar o crucial: que seus temores foram em vão.

– Mia, eu falei pra você não se preocupar... – falou Théo, enquanto entrava no quarto, que ele logo percebeu que estava vazio.

“Por que simplificar, não é? Por que não encontrar um quarto, com uma garota bebendo água com açúcar, se acalmando como você pediu? Não. Tem que complicar.”

– Mia, diz que você está aí, por favor. Mia? MIA!

Ninguém respondia. Théo estava preocupado, e estava quase saindo, quando a porta se abriu:

– Mia, graças aos deuses, achei que você... Blanca?

– Perdi alguma coisa? – Blanca perguntou, sorrindo.

Conforme Théo foi contando a história, o sorriso de Blanca foi esmaecendo.

– Você acha que foi por minha causa que ela sumiu? – Blanca perguntou, nervosa.

– Não. Espero que não. Não é típico dela fugir assim tão fácil dos problemas. Acho mais provável que...

– Que ela tenha sido raptada ou outra coisa do gênero?

– Infelizmente, não consigo pensar em nada melhor.

– Então vamos fazer alguma coisa, ué. Vamos procurá-la!

– Vamos, não. Eu vou. Você fica.

– O quê? Minha amiga está não sei aonde, e você quer que eu fique aqui, parada?

– Não parada. Pode andar se quiser.

– Théo!

– Deixa eu terminar, Blanca. Você fica aqui, caso ela volte. E além do mais, ela não sabe que você está de bem com ela. Se não for algo muito grave, ela pode se assustar. – explicou Théo, vendo que Blanca não parecia satisfeita.

– Está bem, então. Mas se ela foi raptada, ela não vai voltar, não acha?

– Se ela foi raptada, provavelmente o raptor não quer somente ela. Vai usá-la como isca.

– E você vai se entregar de bandeja, então.

– Não.

– Não? Eu perdi alguma parte da história?

– Blanca, pense um pouco: ela foi raptada, e eu acho que foi um pouco depois de eu sair. Então a pessoa que a raptou deve ter pensado que a gente já deveria ter ido atrás dela. Se não fomos, ele deve achar q é porque a gente ia se encontrar em algum lugar. Como não estamos no seu quarto, ele vai achar q estamos nos dirigindo para o meu, ou que chegamos e estamos esperando-a por algum motivo. Como sei que a Mia não abriria a boca por nada nesse mundo, ele vai ter que pensar sozinho.

– Você tem a mente de um ladrão.

– Tenho que pensar como eles, se quiser me defender. Não posso mais perder tempo. Fique aqui, e preparada, por favor.

– Sim senhor. Se cuida.

Théo ia saindo quando viu algo brilhar.

– O que é isso? – ele perguntou.

– A bolsa da Mia. É um mau sinal, não é? Se ela não está com a bolsa, significa que ela não teve nem chance de se defender.

– Melhor assim. A pessoa que estiver com ela estará menos estressada.

Théo, ao dizer essa última sentença, pegou a adaga que apareceu, e saiu. “Quanto menor, melhor. Menos chance de acertar duas pessoas, e menos alarde.”

Enquanto procurava pela escola, passou pela cozinha, e sentiu um cheiro delicioso de sopa. “Que ótimo. Vamos perder o jantar. E talvez nos atrasar para nossa própria aula.”

Théo vasculhou a escola inteira, indo de corredor em corredor sorrateiramente, tentando não fazer nenhum barulho. Depois de chegar próximo ao ponto de partida, decidiu avisar Blanca que faria uma busca mais longe, na mini floresta da escola, e que estava muito preocupado. Não tinha mais tanta certeza assim se sua teoria estava correta, e se ao menos ela estava bem.

Ele chegou próximo à porta de seu quarto, e ouviu vozes femininas. Estranhou: somente Blanca estava lá. Ao menos que não fosse o raptor, e sim a raptora. Entrou empunhando a adaga, e ele se tornou uma confusão enorme de sentimentos e expressões quando se deparou com a cena seguinte.

▪▪▪

Blanca e Mia olharam para a porta, e pensaram que morreriam. Nunca haviam visto Théo lançar um olhar tão mortal assim, muito menos para suas melhores amigas. Ele estava furioso.

– O QUE VOCÊS DUAS ESTÃO FAZENDO?!

– A gente estava esperando você voltar, Théo. Estávamos preocupadas, você estava demorando demais...

– POR QUE SERÁ? TALVEZ POR QUE EU ESTIVE PROCURANDO POR ELA – falou Théo, apontando o dedo trêmulo de raiva para Mia – PELA ESCOLA INTEIRA! MORRENDO DE PREOCUPAÇÃO! SEM SABER SE ELA ESTAVA BEM, E SE EU TINHA RAZÃO AO TE DEIXAR AQUI SOZINHA, BLANCA!

– Théo, já chega! Se acalme, agora! – Blanca disse, concentrando-se. Mas, pela primeira vez na vida, seu poder não funcionou. Ou pelo menos foi isso que ela pensou.

– SE ACALMAR NADA! EU NÃO TENHO RAZÃO NENHUMA PARA ME ACALMAR! VOCÊS ME DÃO UM BOLÃO DESSES, ME DEIXAM SUPER PREOCUPADO, E QUEREM QUE EU ME ACALME?

– Eu não quero que você se acalme. – Disse Mia, serenamente.

– É ÓBVIO QUE NÃO, MAS MESMO ASSIM NÃO VOU... – Théo parou e pensou. – O que você disse?

– Disse que não quero que você se acalme. Pode ficar estressado a vontade. Nós merecemos. Você estava me procurando, e eu não fui atrás de você, nem a Blanca. Mas tivemos nossos motivos. Mas só vou poder falar quando você terminar.

Mikaela sempre conseguia o que queria. No começo, achavam que ela tinha o mesmo poder de Blanca, mas como às vezes o efeito não era imediato, e os de Blanca sempre eram, eles decidiram descartar a teoria. Théo respirou fundo algumas vezes, e perguntou quando se controlou:

– Por que nenhuma de vocês duas foi me procurar?

– Porque achamos que se fossemos te procurar, iríamos perder muito tempo. E já estamos sem muito... Eu sabia que, ao procurar pela escola, e der conta de que eu não estava em lugar algum, você voltaria para avisar Blanca e pensar em outra solução. Então achei que isso seria muito mais rápido do que te procurar, e talvez ir para o lado oposto ao seu. – Mikaela declarou, com um sorriso acalmador.

– E como eu não conheço metade do que a Mia conhece dessa escola, achei que, se ela não tivesse sucesso, eu também não teria. Simples assim.

– Simples assim? É só o que vocês dizem? Simples assim?

Mikaela estranhou. O poder de Blanca estava agindo de uma forma estranha com Théo. Na primeira vez, não funcionou; e na segunda teve o efeito contrario. O que estaria ocorrendo hoje? Por que tantos desentendimentos, e “falhas” nos poderes do trio? Mikaela pensou e decidiu que primeiro iria acalmar os dois, e depois falaria o que estava pensando.

– Ei, vocês dois. Querem se aquietar? Não causaram confusão suficiente para um dia inteirinho?

Ambos olharam estupefatos para Mia, como se tivessem esquecido que ela estava lá, naquele quarto, com eles. Assentiram e se acalmaram.

Enquanto isso, o mesmo vulto de doze anos antes espiava pela janela do quarto do garoto Théo. Estava impressionado com a sagacidade de Mikaela, o quanto ela era boa em resolver as coisas, e quanto os problemas cotidianos, de brigas e desentendimentos, pareciam tão mínimos e simples para o trio a sua frente. E foi com essa sensação que foi se distanciando vagarosamente do local, pensando em um jeito mais eficaz de acabar com eles. Não seria tão fácil quanto ele pensava.

Mikaela notou um movimento na janela, fez sinal para os outros dois se calarem, e foi em direção à sombra que tinha visto. Como a adaga de Théo estava no meio do caminho, aproveitou para pegá-la. “Antes com uma adaga do que indefesa.” E foi com esse pensamento que chegou à janela. Viu uma sombra distanciando-se, e bem no momento que ela olhou para trás, Mia abaixou-se. Apesar de não conseguir ver o rosto de seu espião, ficou satisfeita em saber que estava a par de uma situação que não deveria saber, ou seja, possuía o elemento surpresa diante de si. Esperou um tempo, e voltou agachada para a cama, onde estava sentada, e de onde poderia ter uma visão mínima, mas suficiente do lado de fora.