Mikaela estava ensopada. Estava totalmente coberta de sangue, parte era dela, pois apesar de ter perdido, Théo havia conseguido feri-la bastante. Mas boa parte daquele sangue era de Théo. “Agora estamos unidos pelo sangue, literalmente”, pensou Mia consigo mesma. Olhou para o lixo do banheiro: milhares de algodões e gazes, todas ensangüentadas. “Isso vai demorar uma década. Vou tomar um banho”. Após tomar seu banho, pôs um composto de urtiga, flor de laranjeira e arnica em seus machucados. Ela mesma havia feito aquele remédio, e funcionava como ótimo cicatrizante, além de ter um cheiro muito melhor do que aquele que a enfermeira da escola usava. Mia acabou de cuidar de seus machucados, se trocou e avisou a Blanca, que era sua colega de quarto:

– Vou ao quarto do Théo ver como ele está se saindo para cuidar dos ferimentos. Tem um pouco do remédio para machucados que eu preparei aqui nesse pote. É esse de cor verde.

– Obrigada, Mia. Eu só vou para lá mais tarde. Combinei de me encontrar com o Aaron.

– Com o Aaron, é? E o que vocês dois vão fazer?

– O que você acha?

Blanca falou enquanto saía do banheiro. Ela estava simples, porém deslumbrante. Com uma blusa estampada e uma saia jeans, cabelos presos somente dos lados, e pés envolvidos com uma sandália que tinha tiras que iam tá a panturrilha.

– Tá gata, Blanca. Vai tentar a sorte grande com ele, é?

– Você sabe que eu estou tentando esquecer o Théo, Mia. Estou me esforçando bastante. Não quero atrapalhar vocês dois. Mas está difícil achar um garoto. Tem muitos garotos bonitos aqui, mas nenhum que laçou meu coração.

– E eu já falei que eu não tenho nada com o Théo. E ele também disse que não tem nada comigo. Então por que você não para de inventar coisas e tenta ficar com ele?

– Mia, você vai me agradecer daqui alguns meses. Quando você entender seu coração, você vai me agradecer.

– Enquanto eu não entendo o meu, quero amenizar a dor do seu, amiga. Não precisa fazer sacrifícios de coisas que só estão em sua imaginação.

– Na minha imaginação, sei. Vamos ver se essa noite a sós com o Théo vai estar só na minha imaginação. Talvez você esteja vestida assim só na minha imaginação também.

Mikaela não deixava a perder em questão de deslumbramento. Com um vestido amarelo mostarda de alças finas, com uma fita preta um pouco acima da cintura, ela estava linda. O vestido era um pouco agarrado na parte de cima da fita, e solto na parte de baixo, formando um evasê. Seus cabelos estavam soltos, com alguns cachos tímidos que haviam se formado devido à umidade.

– Eu estou como sempre. Você vive me vendo usar vestidos, incluindo esse.

– Boa escapada. A mim você pode enganar, mas vamos ver como você se sai quando o assunto é você mesma.

Mikaela saiu do quarto pensativa. Por que Blanca havia falado daquele jeito? Ela nunca havia se enganado em relação aos sentimentos da Mia. Será que ela havia se enganado, pela primeira vez? Mikaela dizia a si mesma que sim, porém seu coração não se enganava.

Théo ouviu um barulho na porta. Alguém estava batendo. Ele, ao contrário de todos da escola, não tinha um colega de quarto. Ninguém queria dormir com um garoto estranho. Seus poderes não haviam sumido como todos achavam que aconteceria. Muito pelo contrário, haviam se desenvolvido: ele estava cada dia mais poderoso. “Tá aí a única coisa boa de um colega de quarto: ele abre a porta quando você está ocupado”. Théo, apesar de curioso, não foi abrir a porta. “Se for importante voltará mais tarde”, e continuou suas vãs tentativas de se cuidar. A chave começou a girar sozinha. Théo só mudou sua expressão após ver quem estava diante da porta, agora aberta.

– Achei que o dia já tivesse acabado. Não deveria ser de noite agora?

Théo estava sorrindo. Mikaela estava parecendo o Sol. Seu vestido amarelo e sua pele azeitonada estavam iluminados pela lua cheia.

– Por que você não abriu a porta?

– Se fosse importante voltaria. Ou no seu caso, abriria. E depois as pessoas se assustam com os meus poderes.

– Eu não ficava me achando com eles quando tinha sete anos.

– Tem razão. Sempre foi discreta ao extremo. Ninguém nunca te viu brincando com as folhas ou fazendo as flores tomarem formas de animais. Muito menos abrindo portas com o vento.

– Pelo menos minhas habilidades têm relação com a natureza. Coisas que as pessoas amam, e não temem.

– Elas só temem o fogo porque não sabem utilizá-lo de uma forma mais prudente e produtiva que não seja queimar coisas. Principalmente coisas que eles amam.

Théo estava falando sério agora. Sempre discordou das pessoas que culpavam o fogo por tudo. Não era o fogo que fazia aquelas coisas horríveis. Eram as pessoas que manipulavam o fogo que faziam. Mia tentou desviar a conversa.

– Vejo que não vou poder contar com você se eu me machucar algum dia.

Théo estava mais empapado do que quando a luta acabou. Ele, ao tentar se limpar, piorou a situação e agravou a maior parte dos ferimentos.

– Tenta lembrar que eu não sou bom nessas coisas na próxima vez que nós batalharmos. Talvez assim você me machuque menos.

– Não preciso lembrar na batalha. É só eu me lembrar de vir cuidar de você depois. Anda, senta aqui.

Mikaela havia preparado tudo: gaze, algodão, pomada e o remédio dela. Começou pelos machucados mais profundos.

– Ai! Que remédio é esse?

– É aquele que eu fiz com flor de laranjeira, arnica e urtiga. Por quê?

– Ele arde! Caramba!

– É a urtiga. Tem poder bactericida.

– Ah... Então, como se sente sendo a melhor lutadora da escola?

– Normal.

– Normal?!

– É. Era para eu sentir algo de anormal?

– Ah, sei lá. Eu me sentiria poderoso. Com todos aos meus pés, com medo de mim, você sabe.

– Não te incomoda todos te temerem? Você parece tão arrogante, que acho que nem se importa, não é?

Mikaela falou com certa raiva. Ela não gostava de atitudes superiores em ninguém. Para ela, todos eram iguais, mas cada um desenvolvia-se melhor no que era mais apto.

– Você fala como se eu não tivesse sentimentos. Sabe que eu não gosto de ser tratado como um estranho. Como se eu fosse um monstro. Eu só sou o que sou, arrogante é a palavra que você usou para me descrever, não é? Pois então, eu só sou arrogante para não ser pisoteado por todos, humilhado como eu era antes de conhecer a Blanca e você.

– Você não foi sempre assim? Quero dizer, quem te conhece vê que você é um garoto honesto e legal, mas a primeira vista não parece.

– Não. Eu conheci a Blanca uns dois meses antes de você entrar na escola. Os garotos mais velhos sempre me batiam. E no dia que nós nos conhecemos, ela me salvou da morte.

“Eu já tinha meus poderes, mas eles eram fracos, então não os usava para me defender deles. Naquele dia, alguma coisa os havia irritado, e eles vieram descontar em mim. Começaram a me bater, e eu tentei me defender, como sempre. Isso os irritou ainda mais. Acertaram-me no corpo inteiro, até na cabeça. Eu estava quase perdendo a consciência, quando eu vi um vulto branco. Pensei ser o fantasma da minha mãe vindo me buscar. Mas o vulto brigou com os garotos, e eles pararam. Como se ela tivesse jogado um feitiço. Fui trazido para o meu quarto por dois pares de braços. O vulto seguia do meu lado, e falou: não tenha medo, ninguém mais vai te machucar, pode descansar. Quando ela falou a palavra descansar eu apaguei e acordei somente no outro dia, com Blanca do meu lado, cuidando de mim. Demorei para juntar tudo, e depois que me recuperei, não saí da cola da Blanca. Todos diziam que era para protegê-la, como forma de agradecimento. Mas na verdade, era para ela me proteger. Não queria mais apanhar.”

– Nossa. Nunca tinha me contado essa história. – Falou Mia, pesarosa.

– Você nunca perguntou. – Théo respondeu, com um sorriso triste.

– Mas você percebe que você se tornou igual a eles, não percebe?

– Mia, quantas vezes você já me viu brigando? Assim, por razão nenhuma?

– Nunca. Você só briga quando começam a briga com você.

– Sim. Mas mesmo assim as pessoas falam que sou eu que começo. Sabe por quê?

– Porque eles querem uma desculpa para ficar longe de você.

Mia havia compreendido. E não havia gostado disso. Tinha ficado triste com a descoberta. Théo confirmou com a cabeça. Lágrimas corriam por suas faces.

– Ah, Théo, não chore, por favor. Se eu pudesse, juro que faria algo a respeito.

– Eu sei. E por mais que não pareça, você faz. Sendo minha companheira, minha amiga, você me dá a maior força.

Eles dois haviam se aproximado tanto que seus rostos estavam quase colados. Mia enxugou as lágrimas de Théo com carinho. Acariciou seu rosto de forma gentil e vagarosa. Théo pegou as mãos de Mia e uniu-as às suas. Ficaram assim por quase um minuto.

– Xii... – Mia falou, como que para sair do transe.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa? – Théo parecia ter ficado preocupado, como se tivesse errado em algo.

– Sim. Acabou o remédio, mas os ferimentos não. Ainda tem muitos que não foram tampados. Se eu não passar nada, eles vão inchar e ficar cheio de bactérias. Preciso fazer mais.

– Então tá. Vamos pegar os ingredientes.

– Vem comigo.

Mikaela pegou a mão de Théo e levou-o pelos corredores, até Théo perceber para onde eles estavam indo.

– A enfermaria está fechada a essa hora, Mia.

– Eu sei. E é por isso que estamos indo para lá.

– Vamos roubar a enfermaria? Peraí... Você já fez isso, não é? Roubou a enfermaria antes?

– Não roubei. Peguei emprestado.

– Sem devolução, né? Conheço essa história.

– Não. Com devolução mesmo. Eu estava precisando dos materiais, e não sabia onde achar. Aí eu fui à enfermaria perguntar, e vi que lá tinha. Pedi emprestado para a enfermeira, mas ela não quis me dar. Voltei à noite e peguei. Mas no outro dia eu procurei mais longe e achei, então fui lá e devolvi. E vou fazer isso de novo.

– E ela não percebeu? Foi aquele dia que você sumiu?

– Sim, foi aquele dia. E não, ela não percebeu. Eles nunca usaram esses ingredientes pra nada.

– Vocês viram as lutas de hoje? Foram magníficas! – Górdio falou.

– Ei, pessoal, o que vocês estão fazendo aqui?

Mia e Théo haviam virado um corredor e encontrado Blanca.

– Shh, Blanca. Os professores estão aqui. – Falou Théo.

– Vamos sair de fininho. Acho que não nos ouviram. – Mia completou.

– E uma luta em especial: A de nossos heróis, Mikaela e Théo. – Górdio continuou.

– Mudei de idéia. Vou escutar.

– Mia, você está doida? Vamos logo!

– Sinto que eles vão falar coisas importantes sobre a gente, Théo. E acho que de você também, Blanca.

– Vamos, Théo. Deixe de ser medroso.

– Não sou medroso, tá?

– Então fique.

– Silêncio vocês dois. Estou tentando ouvir.

– Sim. Eles dois lutaram bravamente deu para ver que eles eram verdadeiros semideuses. Foi a vez de Moiras.

– E aquela outra garota, a Blanca, realmente puxou a beleza de Afrodite. – Carneia observou.

– Não sei. Já vi outras semideusas filhas de Afrodite, e eram muito mais bonitas do que ela. – Contestou Moiras.

– Mas eu fiquei sabendo que ela tem um poder que nenhum de seus filhos havia tido. Resta-nos descobrir qual é. – Disse Górdio.

– E Théo? Achei que honraria o pai e usaria seus poderes no meio da batalha. Afinal, todos sabem que ele tem grandes dons com o fogo. – Carneia parecia insatisfeita.

– Mas seria trapaça, e ele não trapaçaria com sua oponente. São amigos, deu para perceber de cara. – Górdio explicou.

– Sim. Acho que Théo demonstra muito mais do que amizade com ela. Afinal, ela puxou a beleza da mãe. – Carneia pareceu se consolar.

– Sim, a ninfa Nefertitis fez um ótimo trabalho. Mas ela também puxou a destreza do pai. – Parecia que quando se tratava de beleza, Moiras tomava a palavra.

– Vamos – Sussurrou Mia

– Espere. – Théo disse, segurando a mão de Mia, que se preparava para ir embora.

– Narcisa!

– Sim mestres.

– Quero que os acompanhe mais de perto, estão precisando de vigia.

– Sim mestres.

Blanca foi mudar de posição para tentar ver melhor, e esbarrou em um pedaço de ferro. Eles escutaram a algazarra e foram investigar.

– Eles estão vindo para cá, vamos embora. – Mia disse.

Começou a arrastá-los para a enfermaria. Trancaram-se e esconderam-se como puderam lá dentro.

– Narcisa, acho que temos companhia aqui. Quero que vigie a escola com mais empenho.

– Sim senhor Moiras.

Os três se assustaram. Haviam visto os três professores, que pareciam estranhamente mais novos. Mas a professora Narcisa estava muito estranha. Sua sombra delatava uma gárgula gigante. A professora perscrutou tudo, e vendo que estava tudo deserto, foi embora.

– Vocês viram o que eu vi? – Sussurrou Mikaela.

– Um monstro com nome de Narcisa? Vi sim. – Falou Blanca.

– Não era um monstro. Era uma harpia. Um monstro grego. – Redargüiu Mia.

– Mia, não vai me dizer que você está acreditando em toda essa baboseira... – Falou Théo, em tom de deboche. – Todos nós concordamos desde o primeiro momento que esses professores pareciam loucos. Agora temos certeza.

– Ah, sim, é claro. E como o senhor explica o seguinte: nossos três novos professores estavam uns 30 anos mais jovens, e a nossa velha professora Narcisa virou um bicho com asas e garras? Poxa, o Górdio tinha uma barriga e era careca, e agora nós o vimos musculoso e com cabelos fartos; A professora Carneia tinha o corpo e o rosto de uma velha, e agora ela estava com um corpo de uma mulher de vinte e tantos anos; e o professor Moiras tinha bigode e pelancas nos braços, e agora também é um jovem.

– Sei lá... Magia, talvez? – Tentou Théo.

– Théo, você acredita em magia e não acredita no que ouvimos? Faria todo o sentido: o porquê eu tenho poderes com a natureza, você com o fogo e Blanca com a persuasão. – Falou Mia enquanto pegava os ingredientes.

– Estamos nos escondendo de seres muito estranhos e você está pegando ingredientes? – Blanca falou irritada.

– Se eu não cuidar dos ferimentos de Théo, logo eles vão nos achar: ou sentirão o cheiro que vai estar fortíssimo, ou se tentarmos sair daqui, seguirão o rastro de sangue que vai se formar. – Mia parecia calma ao explicar. – Vocês têm que se acalmar. Estresse só atrapalha tudo. Théo, fique quieto!

– É incrível como você consegue manter a calma nessas horas. Acho que ela já foi. Vou ver. – Blanca disse enquanto se levantava cuidadosamente. Espiou pela janela e não viu nada. – Ei Mia, quem será seu pai? Eles não falaram, né?

– Não. Nem falaram do meu pai. Ai, Mia! Tá doendo! – Reclamou Théo.

– Seu pai é fácil de saber. Você é ótimo em transformar coisas com fogo. Existe um deus do fogo, também conhecido como ferreiro. É o deus Hefesto. Dizem as referências que ele era manco, e por isso foi banido do Olimpo por sua mãe, Hera. Teve muitos filhos, alguns deuses e outros semideuses. – Mikaela explicou.

– E ao que parece você está na lista de filhos, Théo. – Blanca zombou. – Mas e quanto a seu pai, Mia? Não há nenhum deus da guerra?

– Sim, há o deus Ares, mas eles não mencionaram que eu era filha do deus da guerra. Só disseram que eu puxei meu pai na questão da destreza. Isso não ajuda em muita coisa, pois todos os deuses são ótimos lutadores, principalmente os três principais: Hades, Zeus e Poseidon. Acho que seria bom se fôssemos buscar o livro de mitologia grega na biblioteca. – Mia comentou.

– Acho melhor voltarmos para meu quarto, e amanhã decidimos o que vamos fazer a respeito dessas coisas. – Théo argumentou.

– Talvez não tenhamos um amanhã. Não se não conhecermos o inimigo. Mas concordo com sua opinião de voltarmos para seu quarto. Podemos armar um plano para nos defendermos e irmos pegar o livro também. – Mia disse.

– Concordo com a Mia. Provavelmente eles desconfiam de nós. Narcisa sabe que somos xeretas e que gostamos de sair à noite dessa prisão. – Blanca completou.

– Então tá. Se assim desejam, assim será. Vamos sair daqui. – Théo disse, tomando a dianteira.

Os três foram se esgueirando pelos corredores, tomando todo o cuidado para não serem vistos. Chegaram ao quarto de Théo.

– Quanto tempo faz que você não faz uma faxina no seu quarto? – Blanca perguntou torcendo o nariz.

– Temos coisas mais importantes a fazer do que ficar vendo a bagunça dos outros, Blanca. – Mia repreendeu-a. – Ponto de partida: precisamos conhecer nosso inimigo, ou seja, precisamos do livro que eu falei para vocês.

– Mas Mia – Começou Théo – você deve ter algum livro bom, do jeito que você sabe de tudo relacionado à cultura grega...

– Tudo que eu sei eu aprendi com aquele livro. É um livro gigante, com umas quinhentas páginas, e uma capa super colorida e velha. Parece que foi escrita há séculos.

– Por que vocês não fazem assim: Mia, você fica aqui cuidando do Théo, e eu vou buscar o livro. – Blanca sugeriu.

– Simplesmente porque tem uma harpia lá fora e três professores super estranhos. Não que seja grande coisa, mas já pensou se você encontra os quatro juntos? – Mia falou, preocupada.

– Eu dou conta. – Blanca respondeu.

– Dá conta de sair correndo, só se for. – Théo debochou.

– Não deixa de ser uma opção. Mas provavelmente eles estão divididos para cobrir uma área maior. – Blanca disse, saindo de fininho.

– Espera aí, mocinha. Não dê nem mais um passo. Se você pensa que vai lá sozinha, está muito enganada. Senta aí e espera eu terminar.

– Sim, mamãe. – Blanca começou a se dirigir à cadeira mais próxima, porém deu meia volta e saiu correndo pela porta.

– Você tinha que comentar algo sobre sair correndo, não é Théo? – Falou Mia se dirigindo para a porta.

– Ei, aonde você vai? – Perguntou Théo, ao ver que Mia estava indo embora.

– Atrás da Blanca, onde mais? – E ao ver que Théo se levantava – Você fica aqui, caso ela volte. Continue passando o remédio em suas feridas.

– Tá bom, mas leva a bolsa. – Théo falou, derrotado.

– Que bolsa? – Mia perguntou.

– Essa que está aí na cômoda. Se não é sua deve ser da Blanca.

– Nem eu nem ela trouxemos bolsas. Mas eu vou levar de qualquer jeito. Eu queria ter algo para ficar invisível ou alguma coisa do gênero, isso sim.

– Mia, olha! – Disse Théo, apontando para a bolsa.

Mia parou no meio do caminho e viu: a bolsa começou a emitir uma luz do lado de dentro. Receosa, se aproximou e abriu a misteriosa bolsa, e achou...

– Uma pena?! – Théo estava surpreso.

Mia pegou na pena e desapareceu.

– Mia? Cadê você? – Théo estava confuso, surpreso e apavorado.

– Como assim onde eu estou? No mesmo lugar que eu estava antes de pegar a pena, ué.

– Então por que eu não te vejo?

– Deve ser a pena! Não é possível... Mas acho que é sim...

– Que é o que? Larga essa pena, que eu estou ficando louco aqui.

Mikaela guardou a pena na bolsa, único objeto que parecia não ser afetado por ela.

– Théo, acho que essa pena é de um tipo de pato que foi dado de presente das ninfas para os humanos. Mas os humanos gostaram tanto do pato, pois a carne era tão macia e suculenta, que eles começaram a matar muitos e não respeitavam a época de reprodução, o que fez com que os patos se tornassem animais raros. As ninfas, para proteger os pássaros que sobraram, jogaram um pó meio mágico que fez com que os patos se tornassem invisíveis. A partir daquele dia, os patos passaram a ser caçados como nunca, porque todos queriam ficar invisíveis. Mas só as ninfas e os deuses podiam vê-los.

– Você acha que essa bolsa aí que faz as coisas aparecerem foi presente da sua mãe? Acha que ela esteve aqui?

– Não. Ninfas não têm coisas como essas. Deuses sim.

– Então acha que é um presente do seu pai?

– Não sei. Mas vou pensar nisso depois. Agora tenho que ir atrás da Blanca. Não saia daqui, por todos os deuses.

– Sim senhora.

Mikaela saiu correndo pelos corredores rumo à biblioteca. Estava quase voando, de tão desesperada que corria. Não soltava aquela pena, apesar de ter muita dificuldade de segurá-la, devido ao vento. Após virar três corredores diminuiu a velocidade. Ouviu um barulho. Parecia uma porta.

“Deve ser a Blanca abrindo a porta da biblioteca. Ou ela terá companhia.”

Virou o último corredor e deu de cara com a biblioteca. Viu um vulto que parecia ter asas.

“Droga. Quando as coisas podiam ser fáceis. O que a Blanca está aprontando? Preciso entrar.”

“Narcisa está na porta – percebeu Mia quando se aproximou – Não quer que ninguém entre ou saia. Deve ter outra entrada. Vamos Mia, você conhece esse colégio de cabo a rabo. Pensa, pensa, pensa.”

Enquanto Mikaela tentava se lembrar de outra entrada para a biblioteca, Blanca estava esquadrinhando prateleira por prateleira à procura do livro que Mia havia falado. Estava com uma lanterna na mão, porém a luz não estava ajudando muito, uma vez que as mãos de Blanca tremiam. Ela também havia escutado o barulho da porta se abrindo, e tinha ido ver quem era. Torcia para que fosse Mikaela e Théo, então foi sem tomar muito cuidado. A sorte dela foi que Mikaela, ao chegar perto da porta, aguçou os sentidos da harpia, que teve uma leve impressão de que tinha companhia. Foi o suficiente para Blanca se esconder imediatamente e recomeçar a busca. A harpia, que não viu nada, continuou a guarda da porta.

“É isso – lembrou Mia – como não lembrei antes? Tem uma janela gigante na biblioteca, para que o Sol entre e os livros não mofem. Acho que passo por lá.”

Mikaela saiu sorrateiramente e deu a volta na biblioteca, chegando ao local desejado: a janela.

“É um pouco mais alta do que eu pensava. Vou ter que subir em alguma coisa.”

A cozinha era próxima da biblioteca, e cheia de caixotes, pois toda semana chegavam frutas, legumes e verduras que não tinham na horta da escola. Mikaela, ao lembrar-se disso, dirigiu-se à cozinha e pegou um caixote. Apesar de ser magra, ela logo percebeu que teria que subir e imediatamente se pendurar no parapeito da janela. Foi o que fez, mas ao terminar de se pendurar, o caixote, que estava na vertical, tombou.

“Ótimo. Além de agora ter que ser rápida para entrar, não poderei sair da biblioteca por aqui.”

Mikaela segurou com força e começou a escalada. Como a janela estava aberta, ela pôde se segurar nos vãos. Ia entrar quando viu duas coisas acontecendo simultaneamente: a harpia mexer no caixote e procurar alguém pelo corredor, e Blanca amedrontada procurando o local de onde veio o barulho. Então, Mikaela lembrou-se que estava invisível, e que iria assustar Blanca. Esperou a harpia ir embora e colocou a pena na bolsa. Abriu o quanto pôde a janela e passou para o outro lado. Mas ela havia se esquecido de um detalhe: do lado de dentro não havia parapeito. Ela percebeu que estava caindo e se encolheu como reflexo.

Blanca ouviu um baque atrás dela e virou-se. Estava com algo na mão. Mikaela, ao perceber que Blanca estava armada, começou a movimentar-se devagar para que a última a reconhecesse. Blanca viu que era Mikaela, mas não se moveu. Mia, com dores em todo o corpo levantou-se. Fitou Blanca e, ao ver o que estava na mão de Blanca, pôs-se a rir.

– Shh! Narcisa vai ouvir! Afinal, do que você está rindo? Achou engraçado o susto que você me deu?

– Não, é que... – falou Mia enxugando as lágrimas – você ia se defender com um lápis?

– Foi a única coisa que eu vi. Você queria que eu usasse um livro?

– Seria muito mais eficaz do que um lápis, você não acha? Mas você achou o livro, sabichona?

– Não. Já percorri quase todas as prateleiras, e nada dele. Acho que alguém pegou.

– Não podem ter pegado. Ele não está nas prateleiras para locação. Você ficaria séculos procurando e não acharia. Vem comigo.

As duas jovens se dirigiram agachadas à recepção. Havia uma porta atrás do balcão da recepcionista. Mikaela abriu a porta vagarosamente e elas entraram. Era praticamente outra biblioteca.

– Nossa! É bem mais bonita e organizada do que a nós temos acesso.

– Só eu posso entrar aqui. Sempre freqüento a biblioteca, e tinha acabado de ler todos os livros interessantes daquela ala. Então perguntei à recepcionista se receberíamos livros novos e ela me mostrou esse lugar. Disse que eu não poderia contar a ninguém.

– Por que não?

– Porque foram livros proibidos de serem colocados lá fora. A professora Narcisa que proibiu. Então a Mariana, a recepcionista, começou a trazer livros para cá. E hoje tem tudo isso. Pronto, chegamos. Está ali, está vendo?

– Sim. Vou pegar.

Blanca pegou o livro e quando iam sair, viram a harpia saindo da porta.

– Acho que ela cansou de esperar a gente e vai procurar-nos. Segura na minha mão. – Mia havia pegado novamente a pena.

– Se eu soubesse onde ela está! – Sussurrou Blanca.

Mikaela agarrou o braço dela.

– Ai! Que susto! Que pena é essa?

– Abra o livro e veja.

Blanca procurou no livro e achou, enquanto Mikaela a guiava até a saída. Blanca terminou de ler e fechou o livro.

– Ponha o livro aqui nessa bolsa.

Blanca estranhou “Não é uma bolsa muito pequena?”, mas colocou mesmo assim. O livro entrou e desapareceu. Blanca olhou para trás.

– Mia, como você disse que era o nome desse bicho mesmo?

– Harpia, por quê?

– Porque eu acabei de ler que as ninfas, para que não houvesse uma superpopulação de patos invisíveis, fez com que eles fossem visíveis aos seus predadores.

– Sim, e daí?

– Daí que a harpia é um predador, ou seja...

– CORRE! – Mikaela gritou.

Tarde demais. A professora já havia visto as duas garotas e voou sobre suas cabeças e fechou a porta. Mikaela pensou: “Eu preciso de alguma coisa para me defender.” No mesmo instante a bolsa brilhou novamente. Mikaela puxou uma linda espada.

“Do peso certo” – Pensou consigo mesma, enquanto pegava a espada e guardava a pena.

– Blanca, lá do outro lado tem um arco com umas flechas. Preciso que você atire na harpia para distraí-la, enquanto eu tento me aproximar.

Blanca correu até o outro lado da sala e Mikaela começou a se aproximar. No começo, a harpia ficou confusa, mas depois julgou que Blanca era inofensiva e concentrou-se em Mikaela. Blanca pegou o arco e começou a flechar a professora.

“Sempre quis fazer isso com essa megera! Ela bem que merece.”

Algumas flechas foram o suficiente para atordoar a harpia e permitir que Mia se aproximasse e começasse a golpear o monstro. Acertou suas pernas, e quando ela se abaixou para agarrar Mia, ela acertou-lhe o peito. A harpia, que tinha começado a alçar vôo, caiu e contorceu-se de dor, tanto pelo golpe quanto pela queda. Blanca e Mikaela observaram com certa pena a harpia morrendo lenta e dolorosamente. Mas não puderam observar por muito tempo. Ouviram passos, e como deduziram que estavam a certa distancia, saíram da biblioteca e esperaram. Era Moiras.

– Será que eles também são predadores do pato? – Sussurrou Mia.

– Acho que não – respondeu Blanca – se fossem, acho que já teriam nos visto.

– Ou estão nos ignorando.

Começaram a andar devagar, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Mas Moiras virou a cabeça e começou a mexer o nariz.

– Droga. – Mia falou.

– O que foi? – Blanca estava nervosa.

– Acho que ele não é um predador do pato, mas caça pelo cheiro das coisas, e acho que essa pena não apaga o cheiro ou coisas do gênero.

– Então...

– Corre! – Falaram as duas em uníssono, e saíram correndo.

Moiras seguiu atrás, sempre farejando. Quando viraram o corredor, viram que Górdio vinha na direção das duas garotas.

– Por aqui – Disse Mia.

– Aonde nós vamos?

– É um caminho mais longo, mas logo chegaremos no quarto do Théo.

– Espero que ele esteja bem.

– Eu também.

▪▪▪

Théo estava terminando de passar o remédio, era o último machucado quando Mikaela irrompeu, com um rosto vermelho e desolado.

– Mia, o que aconteceu? Por que você está com essa cara? – Falou Théo, levantando-se

– Oh, Théo, você não sabe o que aconteceu – Falou ela, jogando-se aos seus braços.

– Se você me contar fica mais fácil.

– Nós estávamos saindo da biblioteca quando os professores chegaram, e eu não tinha nada com que lutar, então fui acertando-os como podia. Eles se juntaram e cercaram a gente, e então a Blanca empurrou a professora Carneia e me jogou para fora da roda, dizendo: Corra, corra! Eu me escondi e vi... Foi horrível, Théo!

Mikaela parou. Estava em prantos. Théo, apesar de estar estranhando, tentou consolá-la como pôde.

– Eles foram embora, acho que para nos procurar, então eu coloquei o corpo inerte de Blanca na grama e joguei flores. Não tive muito tempo. Tinha que vir aqui e te avisar. Temos que fugir! Enquanto ainda é tempo!

– Não Mikaela! E essas crianças? Como vão ficar?

– Vão ficar bem. Eles querem a nós! Blanca não aceitou e morreu. Eu não quero morrer. Não quero que você morra! Quero viver com você para todo o sempre! Eu te amo, Théo.

Théo ficou paralisado. Sempre sonhou com esse momento. Mas ele estava errado. Pensou e pensou, e quase não percebeu que Mikaela estava cobrindo-o de beijos desesperados.

▪▪▪

Mikaela parou por um momento. Ela e Blanca estavam de mãos dadas, ainda fugindo dos dois professores. Tinham conseguido despistá-los. “Esse é o lado bom de viver doze anos na mesma escola. Mas agora não é hora para essas coisas. Preciso despistá-los por muito tempo. O suficiente para chegar ao quarto de Théo. Estou com um mau pressentimento.”

– Vamos Mia, ou eles vão nos alcançar! – Blanca estava impaciente.

– Espere – Disse Mia enquanto procurava algo nos bolsos. – Pegue isso e espalhe pelo corpo.

– O que é isso?

– Urtiga. Mas cuidado. Passe só na roupa, e não pegue com a mão, se não você vai se queimar.

Passaram em suas roupas, e esfregaram um pouco no chão do caminho contrário ao que pegariam.

– Isso deve enganá-los o suficiente para chegarmos ao quarto de Théo.

– Você também está com um mau pressentimento? – Perguntou Blanca, ao recomeçarem a correr.

– Mau não, péssimo. – Mikaela respondeu preocupada.

▪▪▪

– Mikaela, pare com isso. Temos que pensar em alguma coisa para fugir. – Falou Théo, enquanto a desgrudava de seu corpo.

– Sim, me desculpe.

“Quando eu estava quase lá, prestes a conseguir o que eu queria.”

– Primeira coisa: para onde você pretende ir? Segunda: Como você quer sair daqui?

– Não sei, não sei. Estou desesperada e em choque, não consigo pensar em nada.

– Se você fosse a verdadeira Mikaela, nada te derrubaria. – Falou Blanca, enquanto irrompia no quarto de mãos dadas à Mia.

– O que está acontecendo? – Perguntou Théo. – Existem duas Mias? Blanca, Mikaela disse que você estava morta!

– Como você pode ver Théo, eu estou vivinha da silva.

– É uma farsa, Théo! Devem ser os professores Górdio e Moiras disfarçados! Estão tentando nos pegar! Vamos correr!

A falsa Mikaela começou a arrastar Théo até o corredor. Blanca tentou impedir, mas Mikaela segurou-a. Quando Théo passou por elas, olhou para Mia. Seus olhares se encontraram, como no primeiro dia de aula de Mikaela. Théo deu uma piscadela, e Mia compreendeu logo a mensagem. Foi com Blanca calmamente até o corredor.

– Ei, Mia! – Falou a verdadeira Mikaela. – Me explique duas coisinhas: onde está o livro que eu, quer dizer, você foi pegar, e cadê a sua bolsa?

– Bolsa? Que bolsa? Você está ficando doida?

– Não estou não. Essa bolsa, que por sinal, Théo achou. Linda, não é?

– É a bolsa do seu pai!

– Ahá! E você é a professora Carneia! Anda, pode sair desse disfarce! Fosse qual fosse sua intenção, agora está destruída.

– Não está não. Olhe atrás de você Mikaela. São Górdio e Moiras vindo. Eles vão me ajudar a matar vocês. Mas não é nada pessoal, viu? Não podemos correr o risco de vocês lutarem do lado de seus pais, ao invés de ser do lado dos titãs. Isso afetaria muito a guerra. – Carneia falou.

– Então tudo isso é uma questão de guerra externa? E passou pela cabeça de vocês que talvez não quiséssemos lutar? – Mikaela desafiou.

– As parcas previram isso, e elas nunca erram. – Górdio se intrometeu.

– Já que vocês têm consciência que as parcas nunca erram, deveriam conhecer melhor a história de Hércules. – Mikaela começou. – Ele estava predestinado para ser um grande herói, e tentaram destruí-lo de várias formas, porém, como as parcas haviam previsto, ele se tornou o herói. Não puderam mudar o futuro de Hércules, e não podem mudar o nosso também.

– Bom argumento, esse seu. Mas não vamos deixar de tentar, não é? Afinal, elas não decidem tudo. – Moiras argumentou.

– Sim decidem. E provavelmente já sabiam o que eu vou fazer agora... – Disse Mia, enigmática.

“Preciso de três armas. Qualquer coisa serve pai.”

No mesmo instante a bolsa brilhou, e a espada que Mia havia usado reapareceu, junto com outras duas e um bilhete: Mas por que não caprichar?

– Théo, Blanca! – chamou-os enquanto jogava as espadas para eles – Vamos lutar!

E a batalha começou. Apesar de serem bons guerreiros, estavam começando a perder. Os três professores lutavam muito bem. “Não é à toa que ensinavam artes marciais” pensou Mia consigo mesma. Mia finalmente conseguiu desferir um golpe em Carneia, porém... A espada nem a arranhou.

– Eles nem se machucam com a espada! – Mia exclamou.

– Deveriam ter lido sobre nós antes de duelarem. Veriam que não somos tão vulneráveis quanto vocês. – Carneia se vangloriou.

“E agora? – Théo estava tentando arrumar uma solução — Pai, preciso de sua ajuda. Se fosse só eu lutando, mas são minhas melhores amigas!”

Uma mensagem de fogo apareceu entre Théo e Moiras, que estava batalhando.

“Una o fogo à espada”. Era o que a mensagem dizia.

– Mia, Blanca, se aproximem!

Moiras, ao perceber a intenção de Théo, exclamou:

– Não deixem eles se unirem! Théo sabe como derrotar-nos.

Mikaela e Blanca ouviram e tentaram ao máximo se aproximar de Théo, mas Carneia e Górdio dificultavam cada vez mais.

Théo lembrou-se de um dia em que ele e Mikaela estavam no jardim, e pragas estavam estragando a plantação. Mikaela disse que precisavam tirar alguns, senão toda a plantação se perderia. Então Théo jogou minúsculas bolas de fogo em algumas dessas pragas, e controlou-as para que não queimassem as plantas. Tentou se concentrar, mas estava difícil se defender e tentar se concentrar.

“Anda Théo! Mikaela está precisando de você! Blanca também! Pelo menos uma vez na vida, seja o herói!”

Uma bola de fogo começou a se formar na mão de Théo, e ele dividiu-a em duas. Moiras observava com o rosto misto de fascinação e terror. Théo, com dificuldade, fez com que as bolas de fogo começassem a flutuar e a se distanciar dele. Mikaela, percebendo o movimento, aproximou sua espada o máximo possível, e Blanca também. Górdio ficou paralisado, mas Carneia não se deixou abalar: golpeou Mia quando ela baixou a guarda. Mikaela começou a cair, mas uniu todas as suas forças e se levantou. Ambas as garotas conseguiram encostar as espadas no fogo. O fogo se alastrou pela parte de metal da espada de cada uma, e elas voltaram à batalha. Théo logo fez com que sua espada pegasse fogo e reiniciou a batalha. Porém estava desconcentrado, preocupado com a batalha de Mia. Ela estava muito ferida. Carneia havia acertado-lhe a barriga, podendo ter-lhe acertado algum músculo ou mesmo um órgão. Mas percebeu que quanto mais se preocupasse com a batalha dela, antes de terminar a dele própria, menos chance teria de ajudá-la.

Blanca estava indo muito bem. Havia conseguido queimar bastante Górdio, pois aproveitou o curto estado de choque dele para golpeá-lo. Agora ele estava mais fraco, o que deixou Blanca em vantagem. Théo estava com alguma dificuldade no começo, por causa da preocupação, mas depois de se concentrar novamente estava conseguindo bons resultados. Mikaela, apesar de ferida, estava lutando bravamente. Mas logo ficou claro, tanto para ela quanto para Carneia, que seria muito difícil que Mia ganhasse a batalha. Carneia aproveitou a fraqueza de Mikaela para acertá-la o máximo possível. Mas Mikaela era forte, estava resistindo. Estava até conseguindo acertar-lhe de vez em quando.

“Preciso vencer essa batalha – Carneia pensava – Mia é, obviamente, o elo do grupo. Se eu conseguir destruí-la, nós conseguiremos ganhar o poder dos deuses.”

Blanca, apesar de concentrada, não conseguia parar de espiar a batalha de Mia. Ela estava muito preocupada. Mia era sua melhor amiga, e estava lutando para salvá-la. Não poderia deixá-la morrer. Mas em compensação, seu coração se destruía toda vez que Théo lançava aquele olhar de preocupação, um olhar que ele nunca lançaria para ela. Górdio percebeu esse dilema de Blanca, e resolveu alimentar a raiva dela em relação à Mikaela.

– Por que você está aqui, Blanca? Você sabe que você não deveria estar aqui, se ferindo à toa. Poderia estar no seu quarto, dormindo. Dá pra perceber que a razão de você estar aqui não é a Mikaela.

– E o que você tem a ver com isso? Esses problemas são meus, você deveria se preocupar com as coisas que te dizem respeito.

– Mas isso me diz respeito, minha flor. Eu me preocupo com você. Você e o Théo estão nessa luta por bobeira, por terem acreditado na pessoa errada. Ela está lutando por alguém que nem conheceu. Os pais dela, assim como sua mãe, abandonaram-na. É por isso que estamos lutando contra eles. Achamos errado ver os deuses se divertirem à custa dos humanos e depois não assumirem suas responsabilidades.

– E o que a Mia tem a ver com isso?

– Ela está defendendo o lado errado. Ela é como eles, toda metida à deusa. Acha que se lutar a favor dos deuses vai ser aceita no Olimpo. E para isso ela precisa de vocês. Mas quando ela atingir o objetivo dela, ela vai deixar vocês dois. Quer dizer, você.

– Por que eu?

– Porque o Théo e ela parecem se dar muito bem. Mas tem a possibilidade de ela estar prendendo o Théo para que ele, e conseqüentemente você, saiam correndo atrás dela. E você e ele caíram como dois patinhos.

Blanca parou de lutar. Górdio decidiu se arriscar a não revidar. Estava quase conseguindo. Se tudo desse certo, eles três se desentenderiam e, quem sabe, Blanca viesse para o lado deles.

Blanca olhava para Mia e para Théo. Mia estava concentrada, lutando contra Carneia. Théo estava indo meio bem, meio mal. Dava para perceber que ele estava preocupado com a Mia. Os olhares de Théo e Blanca se encontraram. Théo ficou com o rosto indagador. Blanca deu de ombros, e Théo voltou a batalhar. Blanca se concentrou em Mikaela. Ela estava fraca, com dificuldades na batalha. Blanca a fulminava com olhar. Mas algo a consternou. Ela percebeu que Mia havia ficado com Carneia, que parecia se a melhor lutadora. “Deve ser para se mostrar a melhor”. Mas logo ela percebeu que Mia estava tentando, além de lutar contra Carneia, ajudar Théo, que também estava com dificuldades. Um flash da vida delas foi passando pela mente de Blanca, e ela se tocou: Mia nunca deixaria Théo e Blanca. Ela lutava pelo que ela acreditava ser o certo. E quando se acredita, é porque é o certo.

Górdio viu a cara enfurecida de Blanca e pensou “Ótimo, agora é só esperar ela ir até Carneia e lutar contra Mikaela”. Mas algo inesperado aconteceu. Blanca começou a correr, mas em direção a Carneia, e não a Mia. Acertou-lhe o peito. Carneia, numa ultima tentativa de sobrevivência, tentou golpear Blanca, que se esquivou. Carneia caiu no chão. Górdio e Moiras ficaram petrificados. Théo aproveitou o ensejo e matou Moiras. Só havia sobrado Górdio. Ele, ao perceber que estava sozinho, desapareceu como fumaça.

Mikaela, ao perceber que tudo estava calmo novamente, deixou-se cair. Théo e Blanca correram para socorrê-la.

– Mia! Por favor, não me deixe!- Théo estava chorando – Por favor...

– Calma Théo. Vou ver se acho alguém que possa nos ajudar.