Mikaela acordou com a vista embaçada. Não conseguia focar em nada. Um rosto apareceu na sua frente. Apesar de não enxergar direito, reconheceu aquele par de olhos na hora:

– Théo...

– Shhh... Poupe energia, se recupere. Durma mais um pouco, pra você acordar melhor.

– Não... Escute... Eu...

– Mia, durma. – Era uma voz diferente, mas ela não teve muito tempo para pensar no dono da voz, pois imediatamente todo seu corpo, apesar da resistência da mente, obedeceu.

▪▪▪

Já fazia quatro dias desde que Mikaela havia dado sinal de estar viva, e quase uma semana e meia desde a luta.

– Blan, estou preocupado. Ela não acordou mais desde aquele dia. Seu organismo não dá sinal de melhoras, nem nada.

– Calma Théo. Encontrei a pessoa perfeita que vai resolver tudo isso.

Ela entrou na enfermaria com um menino que aparentava ter pouco mais que onze anos.

– Agis? O que ele veio fazer aqui? No que esse pirralho pode ajudar?

– Nós três não somos os únicos que temos dons. Eu não tenho ficado muito na enfermaria porque andei estudando uns documentos na sala da Narcisa e...

– Você o quê?! Invadiu a sala de um professor?

– Bem, ela não era nossa professora, certo? Deu-nos aulas, mas estava se passando por outra pessoa.

– É, bem pensado. Então, o que descobriu?

– Lembra que a Mia falava que tudo mudou quando ela entrou no colégio?

– Sim.

– Ela estava certa. A partir do dia que ela entrou, a harpia também entrou, e começou um processo novo de seleção: quem era semideus entrava, quem não era...

– Não era selecionado. Isso explica porque apareceram tantas caras novas na nossa turma... e porque desapareceram um monte também.

– Sim. E eu estava dando uma olhada nas “fichas” dos alunos e vi que a Narcisa foi boa o suficiente para deixar o nome do aluno e sua aptidão. Então comecei a procurar por alguém com dom de cura, e quem eu acho? O Agis!

– Ele pode curar a Mia? Então por que você não foi direto ao ponto e depois deu os detalhes?

– Porque você simplesmente já chegou julgando o menino! Achei que se eu explicasse, você seria um pouquinho mais gentil!

– Ah sim.... Desculpe Agis, é que eu estou meio agitado esses dias, sabe? Aí eu fico meio sem controle.

– Sem problemas. É um sintoma comum de estresse.

– Sim, senhor. E você cura isso também? – Perguntou Théo, esperançoso.

– Infelizmente não. Só consigo curar coisas físicas, e não mentais.

– Ah, sim. Obrigada mesmo assim.

Agis acenou com a cabeça, e foi em direção ao leito de Mia. Começou com a mão na cabeça dela, sem encostar fisicamente, e foi lentamente abaixando, até chegar aos pés. Repetiu o procedimento três vezes.

– Ela estava muito ferida, mas consegui curar tudo. Ela vai acordar daqui a algumas horas. Acho que quando ela acordar, ela vai estar morrendo de fome, por sinal.

– Está bem. Eu vou buscar comida para ela. Obrigada, Agis. – disse Blanca.

– Por nada. Espero que curando a Mia, eu acabe curando você, mesmo que indiretamente. – Disse Agis, dirigindo-se a Théo.

– Com certeza vai, Agis, com certeza vai. – respondeu Théo, correndo para o leito de Mia.

▪▪▪

Mikaela abriu os olhos novamente. Mas dessa vez, não estavam embaçados. Ela conseguia ver claramente seu quarto. Mas aquele não era seu quarto. Era um local branco, sem graça. “Será que estou no céu? No Olimpo?” Mas ela reconheceu as macas. “Tudo que é bom dura pouco, principalmente os sonhos.” Esquadrinhou o local. Chegou a um rosto, quase no mesmo lugar onde havia visto-o antes. “Se Théo vai estar do meu lado sempre, prefiro a realidade, por mais dura que seja.”

– Oi, dorminhoca...

– Dorminhoca? – perguntou ela enquanto se levantava. Não conseguiria, se Théo não tivesse ajudado. – Quanto tempo eu estou aqui? Melhor: por que eu estou aqui?

– Você não se lembra de nada? – Perguntou Théo, risonho.

– A última coisa que eu me lembro é de um sonho com a Narcisa virando uma gárgula gigante, e três professores...

– Sinto dizer, mas não foi um sonho. Aliás, é por isso que você está aqui.

– Então é tudo verdade? Os professores, nós sermos...

– Semideuses? – perguntou Blanca, enquanto entrava com uma bandeja farta de frutas e doces. – Mia, foi você que descobriu isso.

– Ela não se lembra de muita coisa. Achava que era um sonho.

– Quem dera – respondeu Blanca. – Está difícil cuidar dessa escola, mesmo com um monte de gente e meu “poderzinho”.

– Nossa, mas assim até parece que eu estou desmaiada por...

– Uma semana? Sim, é isso mesmo. E, aliás, é por isso que eu trouxe comida, não pra você ficar beliscando, Théo.

– Ah, qual é, eu também estou sem comer a dias!

– Por falta de poder que não foi. Você não desgrudou da cama da Mia nem pra ir ao banheiro!

– Mentira! O banheiro é aqui do lado...

Eles três caíram na gargalhada. Mia dividiu a comida com os outros dois, enquanto eles punham-na a par dos acontecimentos.

– Então quer dizer que essa escola é fachada para um recrutamento de morte? – Mia concluiu.

– De morte não. Narcisa via realmente a esperança de conseguir alguns “parceiros” de luta, o que seria muito propício, lutar com as mesmas armas. – Blanca respondeu.

– Bem pensado. Bom, agora que eu estou melhor, o trabalho de organizar as coisas não vai ficar só para você, e o Théo não terá mais desculpas para não ajudar.

– Não usei nenhuma desculpa! Ajudei no que pude, e a Blanca está de prova!

– É verdade, tudo que podia ser feito a distância, foi ele que fez. Sozinho.

– Viu?

– Desculpa, Théo, não queria te magoar.

– Não queria, mas magoou.

Houve um silêncio entre os dois. Blanca já não estava mais lá.

– Théo, me desculpa. Olha, eu realmente não queria dizer isso, falei só na brincadeira, e...

– Lembra o que você me disse uma vez? Tome cuidado com as brincadeiras, porque às vezes elas...

– Podem machucar. – Mia completou, pesarosa. – Eu sinto muito, muito mesmo. Só achei que você não tinha motivo nenhum para ficar comigo aqui, o tempo todo, e acabar ficando doente também, porque não cuidou de si mesmo.

– Eu não suportaria me afastar de você, nem por um minuto, o que eu tive que fazer às vezes, graças à minha bexiga... Mas preferiria definhar ao seu lado a te abandonar. Você não sabe que dor eu senti ao te ver lutando, com a melhor lutadora que eu já vi, só para não nos machucarmos. E quando vi você caindo, senti que meu mundo desabou com você. E você não voltava, passou-se um dia, dois, e nada. Quando chegou no sexto dia e eu pude ver seus olhos azuis de novo, mesmo que de relance, tudo voltou ao normal. Mas depois passou muito tempo pra você acordar de novo, e eu comecei a desmoronar de novo. Quando vi Agis te curando, senti que estava me fortalecendo de novo, e quando você acordou, e eu vi que estava bem, fiquei bem também. – Disse ele, comovido, para uma garota que estava timidamente soltando gotas de lágrimas.

– Obrigada por não me deixar, não me abandonar. Quando acordei por alguns minutos, aquele dia, e vi seu rosto, mesmo embaçado, e seu olhar brilhante, sabia que tudo estava bem. Mas não queria dormir de novo, reviver aquele pesadelo, e não ver seu rosto me fitando... Mas fui obrigada.

Eles se aproximaram e se abraçaram. Quando voltaram, não estavam tão afastados, e sim bem próximos, e chegando cada vez mais perto...

– Ei, vocês não disseram... Opa, hora errada.

Eles se assustaram, e se afastaram de repente, mas não rápido o suficiente para que Blanca não visse. Ela ficou vermelha, mas não de vergonha, por ter atrapalhado o momento, como ambos pensaram, mas sim de raiva. “Essa cena deveria ser minha! Não Blanca, unidos, lembra? Eles se amam, e você está aí de intrometida.” Durante o dilema, ela foi readquirindo sua cor natural, e Théo e Mia já haviam levantado e estavam perto dela.

– Vamos, Blan. Desculpa pelo atraso, foi sem querer. – Théo começou.

– Não foi nada. Parece que eu cheguei em uma hora ruim.

– Imagina, Blanca. Nós estávamos conversando e... A gente se perdeu no tempo. – Mia falou.

– Sei. Bom, vamos lá.

Os três dirigiram-se ao saguão principal, cada um com um pensamento na cabeça:

“Não devia ter permitido que isso acontecesse. Blanca deve estar ressentida, e com razão. Não posso deixar que simples impulsos se acometam de mim. Principalmente agora. Não, devo deixar esses impulsos e ataques de carência de lado. Deve ser isso, e só isso.” – foi o pensamento de Mia.

“Esses dois não tomam jeito! Estamos em uma crise, tendo que cuidar de uma escola inteira, cheia de crianças, e eles ficam procurando ‘conversar’! Que raiva da Mia! Como ela conseguiu chegar tão perto dele, em tão pouco tempo? Eu vivo com ele a mais tempo e ele não me dá metade dá atenção que dá para ela!” – Blanca concatenava consigo mesma.

“Cheguei tão perto... Mas foi bom a Blanca ter chegado. Temos que cuidar das prioridades primeiro. Nunca me senti tão bem na minha vida! Ela tão perto de mim, seu cheiro doce envolvendo-me, seus olhos me fitando tão graciosamente! Mas não queria que fosse tão rápido. Ainda bem que não aconteceu. Quero que ela me ame, e não siga simplesmente suas reações. Mas eu gostaria tanto que eu pudesse tê-la beijado... Sinto seu hálito impregnado em mim.” – Théo era o mais indeciso dos três.

Quando chegaram no saguão, Mia e Théo ficaram impressionados.

– Nossa, não lembrava de ter tanta gente assim no colégio! – Mia declarou.

– Uma parte não ia, não gostava de ouvir a professora. Mas não sabia que eram tantos assim. – Théo respondeu.

– Como você sabe? – perguntaram Mia e Blanca em uníssono.

– Eu já tentei escapar dos sermões de dona Narcisa, mas não tive muito sucesso. – Disse Théo, fazendo uma careta.

– Bom, vamos lá. Já nos atrasamos o suficiente, não acham? – Blanca disse, em tom agressivo.

– A gente já pediu desculpas, Blan. Não precisa ser tão grosseira assim.

– Gente, gente. Vamos logo. Não comecem a brigar de novo não.

– É de praxe, Mia. Ainda não se acostumou? – Théo falou, zombeteiro.

– Não, e nunca vou me acostumar, acho.

Subiram em uma espécie de palco, e Blanca começou a falar:

– Olá, pessoal. Como eu já havia explicado, estamos sem professores e como eu não tinha gente o suficiente para o corpo docente, as aulas foram suspensas, e eu pedi ajuda para alguns de vocês. Bom, apesar de não termos muitos professores, já temos o suficiente: Mikaela, Théo e eu iremos substituir os outros professores. Como já os coloquei a par das coisas, você sabem que vamos dar um treinamento básico para vocês, e depois todos nós vamos embora. Os que têm casa, para elas, e os que não têm, vão decidir o que fazer do futuro. Não poderemos ficar aqui, pois colocaríamos vocês em um perigo extremo, o que já estamos fazendo, por permanecer aqui.

– E por que então vocês não vão embora? – Marcos perguntou, cheio de si.

Théo realmente não gostava desse garoto. Além de desafiá-lo várias vezes, se insinuava continuamente para Mikaela, o que o deixava doido. Marcos se achava o valentão, e ele realmente era, mas antes de Mia entrar na escola, e antes de Théo crescer. Foi esse Marcos e a turma dele que quase matou Théo.

– Porque se deixarmos vocês por conta própria, vocês não vão saber lidar com os problemas que hão de aparecer. – respondeu Mia, calmamente.

– Mas gatinha, se eu entendi bem, o problema aqui são vocês, e não a gente. Mas se você quiser, eu posso te proteger... – Marcos respondeu, visivelmente feliz por Mikaela ter dirigido a palavra especialmente a ele.

– Você acha que, se vocês realmente não fossem nem um pouquinho importante para os titãs, vocês estariam aqui? Por que vocês acham que estão aqui? Só para decorar a escola? Para que não suspeitássemos que nós três éramos diferentes?

– Sim.

– Você não acha que seria muito mais fácil dizerem que temos problemas de aprendizado e que precisamos de aulas especiais, com professores especiais, ao invés de se dar ao trabalho de arranjar uma escola, um monte de alunos e professores?

Mikaela havia ganhado esta partida, mas Marcos não desistiu. Queria saber tudo o que pudesse.

– Com essa você me convenceu. Mas eu nunca vi você fazendo nada de especial, a não ser que deixar todo mundo babando seja um dom. O único que eu já vi fazendo coisas que dão medo é o Théo.

Mikaela se concentrou, fechou os olhos e após alguns instantes, abriu-os novamente. Observou todos os rostos, admirados, e lembrou-se de seu primeiro dia de escola. Ela havia feito que surgisse uma rajada de vento, com algumas pétalas de flores, para enfeitar. Concentrou-se no Marcos. Fez o vento levantá-lo, apesar de ser uma tarefa difícil, pois ele era grande e forte. Carregou-o até o rio que corria bem do lado da escola, e deixou-o pairando acima dele.

– E aí? Quer tomar um banhozinho? – perguntou Mia, segurando sua risada.

– Por favor, não me jogue! – Marcos estava desesperado.

Mia levou-o até a beira do rio, e deixou-o lá. Ele voltou andando, e olhou primeiro para Mikaela, com o rosto assustado, e depois para a multidão de rostos rindo, com uma mistura de raiva e vergonha.

– Quietos! – Blanca bradou, e no mesmo instante, todos se calaram.

– Como você pode ver Marcos, o dom de Blanca é mais sutil, porém nem um pouco menos efetivo. – Disse Mia.

Ele acenou timidamente com a cabeça e afastou-se do trio.

– Alguém tem mais alguma pergunta? – indagou Théo, divertindo-se.

Todos se olharam, e acenaram a cabeça em um movimento negativo. Blanca retomou o discurso:

– Vamos fazer horários diferentes. Mikaela e Théo vão fazer uma avaliação e dividi-los em turmas, conforme suas aptidões para lutas. Eu vou tentar ajudá-los a desenvolver seus respectivos poderes. Amanhã já teremos tabelas de horários programados, e hoje faremos a avaliação para dividirmos as turmas. Estejam todos na sala de convivência, às vinte horas, ou seja, um pouco depois da janta. Tentei puxar o horário para o mais distante possível para não haverem muitos vômitos, mas ainda sim, vamos ter que jantar mais cedo, às dezessete e trinta. Estão dispensados.

Todos começaram a sair, uns dirigindo-se para os quartos, outros para os corredores, e outros para o campo.

– E agora, o que faremos? – Théo perguntou.

– Olha, não sei por onde começaremos, mas temos um monte de coisas pra fazer. Será que podemos ir para o seu quarto, Théo? – Mia perguntou.

– Claro. Mas o que nós temos para fazer? – Théo respondeu.

– Prefiro falar só depois que estivermos no seu quarto, só nós três, e que eu tiver colocado todos meus pensamentos numa folha de papel.

Mikaela tinha várias manias, mas uma em especial: gostava de tudo perfeito. Por isso não se contentava em pensar em uma solução qualquer, como ela não cansava de dizer. Gostava de colocar todos os seus pensamentos em ordem, com um papel e um lápis na mão. Depois de escrever tudo, ela lia, relia e achava um padrão, e encontrava a solução. Normalmente suas soluções eram perfeitas. O problema é que demoravam muito para serem achadas. Théo e Blanca, no aniversário de Mia, deram um caderno gigantesco, feito por eles mesmos, onde ela deveria colocar todos os problemas, pois quando ela se lembrava de algo, da outra vez que tiveram problemas, ela poderia consultar facilmente, e talvez achar uma solução mais rapidamente.

Enquanto dirigiam-se para o quarto, Mikaela já procurava organizar seus pensamentos. Théo e Blanca sabiam que, quando isso ocorria, não adiantava tentar conversar com ela. Então foram conversando animadamente sobre as possibilidades de achar algum aluno com um potencial em especial, ou alguém que possa ajudá-los de alguma forma. Mia estava começando a entrar no transe já tão conhecido, e quando ela entrava nele, Théo precisava guiá-la, senão ela logo iria parar em um lugar desconhecido, ou bateria em uma parede.

Quem passava e via a cena, achava bizarra: um garoto e uma garota conversando e rindo, e esse mesmo garoto segurando o braço de uma outra menina, como se ela fosse uma garotinha que precisasse andar de mãos dadas, e com uma cara de amalucada. Era realmente um momento hilário.