Semeando o Destino
3 Cap. 03 - Novos Rumos
Notas iniciais
— Olá família! Estou de volta!
Ferdinando, apesar da angustia que o consumia pela inevitável conversa que pretendia ter com o pai, estava feliz por finalmente retornar. Naquele instante, apenas queria desfrutar de um momento em família que nunca lhe foi proporcionado — pelo menos não da maneira que gostaria. Muitas vezes apenas usufruiu de sentimentos alheios, por meio das alegrias e comemorações que seus companheiros de curso partilhavam com os seus, em cada nova etapa alcançada. Invejava sim, mas não com rancor, e sim com um sentimento solidário, por não ter quem lhe incentivasse e respeitasse suas escolhas, o apoio bem vindo nas horas de dificuldade, a família ao lado para dizer, sabemos que é capaz.
— Menino Ferdinando, é ocê? – Amância saia esbaforida de sua cozinha, assustada com a inesperada gritaria que vinha da porta de entrada da casa grande – num pode ser!
— Mââââância minha querida, sou eu sim, Ferdinando Napoleão! – o rapaz ia ao encontro da cozinheira, cumprimentando-a com um caloroso abraço e depositando um beijo em seu rosto — Talvez um pouco mais alto desde a última vez que me viu e com barbicha e bigode!
— Ara, mai é o nhor mermo!? – Amância o olhava ainda receosa se era realmente o filho do coronel – Estranho, Madama Dona Catarina não me avisou nada que o menino chegaria hoje?! Será que ela se esqueceu?
— Não Amância, ela não esqueceu! Eu que quis fazer uma surpresa sobre a minha vind...
— Que barulhada é essa? Ieu posso saber o que está se assucedendo por cá? – Catarina descia as escadas, tremelicando os dedos, bem mais do que de costume, afoita com a movimentação que ocorria em sua sala e paralisou no último degrau ao se deparar com o motivo de tamanha balburdia – Não posso increditar, é ocê Ferdinando?!
— Catarina! Minha cara madrasta! – Ferdinando agora caminhava em direção a ela, fazendo uma breve análise visual da bela mulher paralisada no final da escada, mas com certa contenção, pois também lembrava se tratar da esposa de seu pai – Sou eu sim, minha cara! Quanto tempo não nos vemos! – parou frente a ela, pegando sua mão direita e fez uma mesura de beijar, num gesto de cumprimento.
— Estou espantada com sua chegada, por que não me avisou do seu retorno? Não recebi nenhuma carta avisando sobre isso – Catarina jamais admitiria, mas ver o belo rapaz que seu enteado havia se transformado, trazia calafrios involuntários – Ieu poderia ter mandado preparar uma festa de boas vindas!
— Ora minha cara madrasta, não se preocupe, pois não lhe escrevi avisando sobre o meu retorno! Queria surpreender a todos, inclusive meu pai! – Ferdinando já olhava todo o trajeto que levava a escada até o final dela, verificando algum indício da presença do coronel nele. – Preciso muito ter uma conversa com ele, sobre tudo que passei nestes últimos anos que vivi na capital!
Catarina que sabia exatamente sobre quais assuntos Ferdinando se referia, tentou intervir, a sua maneira, a fim de alertá-lo que seria uma nova batalha que teria de enfrentar ao contar toda a verdade sobre suas escolhas. Não queria ser pessimista, mas já dava qualquer esforço ou explicação como perdido.
— Ferdinando, meu querido! Ocê deve de ta cansado da viagem... e acho que sereria mior que fosse tomar um banho pra relaxar! – tentava puxar Ferdinando de canto, longe do olhar curioso e ouvidos bem atentos de Amância, e dizer que por mais que a argumentação dele fosse totalmente convincente, seria bem difícil, até mesmo arriscado, seu pai aceitar o rumo que ele havia dado a sua vida. Então disse quase que sussurrando – mior ocê deixá essa cunversa com seu pai pra outra hora, quem sabe, alguns dias...
— Não Catarina! Preciso resolver minha situação o quanto antes, se possível ainda hoje! E seja qual for a decisão dele mediante a tudo que irei lhe dizer, tenho que dar um rumo a minha vida!
— Nando eu tentei sondá-lo, mas ocê sabe que seu pai é mais xucro que mula veia .. – Catarina segurava Ferdinando pelo braço e puxava ele de canto para tentar alertá-lo – ele não quer saber de cunversa, e sim do seu diploma de ‘dotor advogado’ enquadrado e moldurado na parede. Ocê tem?
— Bem Catarina, você sabe...
— O que está se assucedendo por cá? Tô ouvindo lá do escritório e.. – Epaminondas fica espantado no meio da escada ao se deparar com o motivo de toda aquela agitação – ..ocê!? Não pode ser quem estou pensando que é.. Nandinhooo! É ocê meu fio? – ele volta a descer as escadas agora com emoção pela chegada inesperada do filho indo ao seu encontro para abraçá-lo.
— Ora, meu pai, sou eu sim seu filho Ferdinando Napoleão! – abrindo um sorriso e o olhar lacrimoso, vai ao encontro do pai e seu tão esperado abraço.
— Meu fio! Ninguém me avisô que chegaria hoje! Ara, seja bem vindo!
— Ninguém sabia meu pai! Era uma surpresa! – Ferdinando o abraçava com uma necessidade de que aquele abraço poderia ser o último.
— Mais me diga, veio de visita ou tá retornando de vez?
— Estou retornando de vez e feliz!
— Ara, isso quer dizer que finarmente ocê se formou dotô advogado! Não imaginas o quanto fico satisfeito por saber disso! – o coronel demonstrava sua alegria dando alguns tapinhas nas costas do filho. – Mas cadê o diprôma? Me dê ele cá que vou mandar o Izidoro levar pra enquadrar e moldurar e vou colocar no escritório.. meu fio, dotô advogado! Que orgüio docê Nandinho!
— Veja bem meu pai precisamos conversar sobre meu diploma, melhor dizendo, a minha formação..
— Depois do jantar! – Catarina os interrompeu de súbito. Queria adiar aquela conversa entre pai e filho o máximo que pudesse, pois sabia que a reação do marido seria bem diferente daquela que presenciara a pouco – Ara Epa! O Nando acabou de chegar de viagem, de certo ele deve de tá cansado, querendo um bom banho, jantar! – ela tremelicava sem parar os dedos, fazendo todo esforço possível para desviar daquele assunto – tenho certeza que ocês não vão se incomodá de falar sobre isso outra hora.. amanhã depois do café, quem sabe?!
— Catarina eu preferiria..
— Que o jantar fosse servido em seu quarto? Ara, que desfeita Nando?! – Catarina simulava uma cara carrancuda para conseguir ganhar um pouco mais de tempo sobre aquela conversa dos dois – Nada disso, ocê vai jantar conosco a mesa, com toda a família reunida de novo e.. oh, Pituca! Esqueci de sua irmã no quarto, com toda esse agitório por cá!
— Pituca, é verdade! Não consigo imaginar como ela cresceu! – sem escolha, Ferdinando percebia o desespero de sua madrasta e em solidariedade a ela resolveu adiar, por um breve momento, a inevitável conversa que mais cedo ou mais tarde teria que ter com o pai, mas não queria demorar muito a fazê-lo – da última vez que a vi, ainda brincava de cavalinho com ela!
— Já tem 10 anos! Estava tentando lhe ensinar argum argo, já que é tão dificir achar uma preceptora para ela! – segurando Nando pelo ombro, o tirava do foco do coronel enquanto subia as escadas com ele, se encaminhando ao quarto de Pituca – Soube que Seu Pedro Falcão em acordo com aquele prefeitin das Antas, contrataram uma professora para a Vila e que ela iria chegar por esses dias e..
— Catarina, já conversamos sobre isso e ocê já sabe que minha resposta é NÃO! – respondia o coronel em desagrado com o assunto que sua mulher relatava ao filho.
— Eu já sei Epaminondas e ocê sabe da minha opinião tumem sobre isso! – olhava carrancuda para o marido – mas não falemos sobre isso! Venha Nando, vamos ver sua irmã!
E se encaminharam os dois até o quarto de Pituca.
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“Prezado Sr. Viramundo,
Conforme nossos acertos, venho confirmar minha estadia de 3 semanas em sua fazenda para estudo dos meios utilizados no cultivo e extermínio das pragas em suas plantações.
Chegarei em dois dias a contar pelo envio deste telegrama,na estação de trem da cidade.
Att,
Falcão”
— Ara, esqueci que esse Farcão chegava hoje!
Senhor Almir Viramundo, era um dos fazendeiros mais ricos e respeitados da região sul-centro-oeste do país. Filho de imigrantes espano ciganos, mas nascido em terras brasileiras, não seguiu os mesmos caminhos de seus antecedentes, muito conhecido por ser um povo andarilho e não fincar raiz num lugar.
Desde que constituiu sua própria família, resolveu também construir sua própria história naquela região de terra boa e tornou sua casa, uma das melhores das redondezas, a princípio um ponto de chegava a sua gente que por lá passava, e anos depois, por sugestão de seu filho Gabriel, transformaram o local num ambiente de estudo e análise do solo, água e suas plantações. De início Seu Almir questionou receoso o filho se tal empreitada não seria uma loucura, entretanto Gabriel o convenceu com bons argumentos que seria um bom negócio para todos. Pois, teriam com frequência pessoas interessadas no plantio, no preparo da terra e buscas de soluções para pragas, ajudando e auxiliando os empregados, em troca de estadia e local adequado para estudo. Uma troca, com poucos custos e bons resultados.
— Preciso que argum arguem vá a estação de trem buscar aquele um! – o fazendeiro saia alvoroçado do seu escritório atrás de quem fosse buscar o novo estudante. Mal imaginava ele que tal viajante a chegar se tratasse de uma mulher.
Ao chegar à varanda de sua fazenda, avistou seu filho ao final dela, tocando sua viola com o olhar absorto no horizonte, que emoldurava um belo final de tarde. Com receio de deixar o jovem na estação de trem esperando, foi até Gabriel a encube-lo de tal tarefa.
— Oh fio.. tô carecendo de.. um grande favor seu!
Gabriel saiu do seu suave devaneio em meio a agitação do pai.
— Pois o sinhô me digue, meu pai! No que eu posso lhe ajudar?
— Esqueci.. completamente.. que o jovem Farcão.. chegava hoje! – Seu Almir falava ofegante devido a pressa que tinha em resolver a pequena pendência. – Ieu ia percurar o Zé Tuiuiu, mas o rapaz já deve di tá estourando na estação de trem! Oh fio, ocê pode ir lá buscar?
— Oh pai, é claro que vou! – Gabriel acalmava o pai afoito – Só vô lá no quarto guardar a viola, pego a charrete e em dois tempos tô lá na estação!
— Obrigado fio! Voismicê é mermo um fio de oro! – Sr. Almir respirava aliviado enquanto seguia o filho até o quarto. – O sobrenome dele é Falcão, se aprece para não deixar o guri esperando, ara!
— Já estou indo, meu pai! Já estou indo, inté!
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As bolhas que emergiam da banheira, tornaram-se cúmplices a divagação da moça que se banhava em suas águas. Com o dedo indicador formava pequenos redemoinhos em sua espuma, enquanto seu pensamento insistia em trazer-lhe um pequeno compacto dos reais motivos que a levaram a tomar tal decisão de se esconder, esquecer e tentar recomeçar. Havia feito uma grande mudança, no rumo que planejara para sua vida. Precisava ocupar a mente com novas esperanças antes que as lembranças a consumisse, assaltando os pensamentos em momentos inoportunos.
— É Juliana, vida nova! – falava pensativa consigo mesma – Pare de ficar revisitando tais lembranças! Cumpra a promessa que fez ao embarcar naquela estação de trem! Deixe o passado lá... sua vida é de agora em diante!
Ainda sentia o peso de suas decisões. Mas tentava aliviar sua consciência com o novo cenário e os personagens que agora fariam parte da nova página de sua história.
Foi totalmente providencial a oportunidade de lecionar num vilarejo distante, desconhecido e totalmente alheio as pessoas da cidade grande. Um bom esconderijo caso uma certa pessoa resolvesse ir ao seu encalço. Arrepiava a pele alva e delicada ao pensar em tal possibilidade.
Poderiam talvez censurá-la por não sentir falta de seus pais, mas sentia-se perdoada toda vez que lembrava que os mesmos encerrara boa parte de sua vida atrás das paredes de um convento; “Você terá os melhores estudos! A melhor formação e quem sabe, será uma futura boa esposa!” Eram sempre as mesmas justificativas que lhe davam, quando a solidão teimava em reivindicar um pouquinho de atenção de seus genitores. Amor este que viera de bom grado da freira que praticamente a criara e Deus talvez por ciúmes a levara, para iluminar ainda mais céu com sua luz, deixando-a novamente no caminho solitário.
— Mãezinha Ana.. como a senhora faz falta! – uma terna lágrima descia em seu rosto ao lembrar da querida senhora – Não tenho mais ninguém para desabafar minhas aflições!
~ TOC TOC TOC ~
Alguém batia a porta. Mas Juliana permanecia em seu mundo alheio.
~TOC TOC TOC ~
— Dona Juliana?
A segunda batida a despertou de seus devaneios.
— Desculpe.. Dona Tê! Acho que fiquei tão relaxada que perdi a noção do tempo, mas já estou terminando meu banho!
— Ieu que peço descurpas, fia! Não queria lhe atrapaiá.. espero que o banho esteja de seu agrado! – Dona Tê percebia a descompostura ao bater precipitadamente a porta para avisar a professora que o jantar estava quase pronto. – Só quiria dizê que a janta tá quase pronta! Mas pode continuá o seu banho com carma! Di certo ajuda a relaxar da viage longa!
— Owm Dona Tê, não há o que se desculpar! Pois eu já terminei o meu banho e devo lhe agradecer, pois fazia muito tempo que não tomava um banho tão relaxante como este! Obrigada! – A professora respondia enquanto se enrolava na toalha.
— Ara, Dona Juliana... num foi nada demais!
— Irei me vestir e depois ajudarei a colocar o jantar à mesa!
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Logo o trem chegaria ao seu destino, mas uma de suas passageiras estava aquém daquele vagão. Nem mesmo as tentativas de ocupar seus pensamentos, primeiro com suas anotações que mal tocara e fora posta na maleta novamente, ou as diversas pinturas que aquarelavam sua janela durante a viagem, nem mesmo a divertida e atrapalhada família que viajava no mesmo espaço, constituída por pais que tentavam conter seus dois filhos – imaginava ela que as crianças haviam transformado o lugar em um espaço de diversão, pelo menos durante o tempo da viagem – fora uma boa distração momentânea, lembrava seu tempo de garota arteira e suas traquinagens mas, por mais que tentasse, não conseguia esquecer e entender por que razão, não tirava aquele rapaz que havia visto na estação de Santa Fé!
— Diacho! – Se recriminava baixinho por causa disso – Por que ainda fico pensando naquele um?!.. – o coração batia descompassado só em mencionar qualquer fragmento dele. – Gina Falcão, você deve estar ficando maluca.. para de pensar nele!
Baixou a cabeça por um instante e a repousou sobre os braços cruzados e apoiados em seu colo. Mas logo percebeu ter sido uma péssima escolha. As lembranças que tentava esquecer e todas as sensações que sentira no momento do encontro com o rapaz se intensificaram. Lembrava daquele olhar intenso que a hipnotizara, daquela carnuda boca que a levava a ter pensamentos impróprios e seu cheiro que imaginava ter impregnado nela. Não era o tipo de moça sonhadora de contos de fadas, por isso se surpreendeu ao idealizar aquele homem como a descrição perfeita de um príncipe.
Estava tão envolvida em seus pensamentos, que só percebeu que havia chegado ao seu destino quando o trem enfim parou na estação. Notara também que todos os passageiros que estavam no mesmo vagão haviam descido, apressou-se a pegar seus pertences e fazer o desembarque. Supunha ter alguém da fazenda do Sr. Almir a aguardando e não queria o deixar esperando.
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Fazia pouco tempo que Gabriel havia chegado a estação e agradeceu mentalmente ter chego antes do trem. Sempre o animava quando um novo aprendiz se propunha a conhecer e aprender novas formas de cultivo em suas terras. Oportunidade mútua de troca de conhecimentos, novas amizades e algumas futuras parcerias, pensava ele. Sentia-se orgulhoso por ver nesta uma forma de ajudar a família, contente por ter realizado o sonho do pai, vê-lo formado engenheiro agrônomo, embora sentisse uma pequena frustração ao ter abdicado do seu próprio, ser músico, levando melodia e poesia a todo o país, guardava apenas para si este descontentamento, não queria que os pais se sentissem culpados por abrir mão de algumas de suas vontades.
Ao chegar a estação se deu conta que não tinha nenhuma informação além do sobrenome do rapaz que fora buscar. Procurou um pedaço de papel e escreveu em grandes letras forma o nome referido: F A L C Ã O.
Logo que o trem parou, se posicionou próximo a porta de saída, segurando a placa improvisada a frente do peito e observou o passageiros que desembarcavam. Por se tratar da última viagem do dia, tinha muitos viajantes, procurou se atentar nos jovens rapazes que desciam e começou a ficar um pouco impaciente pela demora de encontrar o estudante. Nisto desceu uma moça ruiva que chamou-lhe a atenção e começou a subir uma certa tensão ao percebê-la vindo em sua direção. Parou em sua frente, leu a placa que segurava e abriu um sorriso e falou:
— Acredito que seja eu quem está esperando! – Gina olhou-o nos olhos e estendeu a mão para cumprimentar e se apresentar. – Prazer, sou Falcão! Gina Falcão!
Gabriel ainda hipnotizado com a linda visão daquela mulher exuberante a sua frente, não percebeu quando deixara cair a placa que segurava e involuntariamente abriu a boca em deslumbre e surpresa.
— F-Falcão?! – Ainda estava surpreso por descobrir que Falcão era uma mulher, uma linda mulher e falou sem pensar. – Falcão é uma mulher?
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