Semeando o Destino
2 Cap. 02 - Partidas e Chegadas
Notas iniciais
Naquele momento, já não se tratava mais do encontro de dois olhares, mas das metades de um inteiro perfeito que por travessura do destino foram separados numa distração e desde então trilharam caminhos diversos até se encontrarem novamente. O magnetismo de seus olhos não conseguia enxergar outra coisa senão um ao outro. O quê sabiam como num passe de mágica se evaporou, as certezas cederam lugar ao desconhecido, ao medo, ao vazio e a outro sentimento que não conseguiam definir. Tudo ao redor seguia seu curso normal, menos eles, estavam alheios aquela rotina; não se escutava ruído algum a não ser quase que num acústico, as aceleradas batidas de ambos os corações, as gargantas estavam secas e os olhos inexplicavelmente sentiam uma vontade de se esvair em lágrimas.
Era tamanha a confusão de sentimentos dos dois que apenas seus pensamentos iniciavam um diálogo interno repleto de questionamentos.
"Quem será essa esplendorosa mulher, de olhar tão marcante, que emite pura sinceridade dentro deles? eles me hipnotizam e não consigo parar de fitá-los e querer explorar essa relva de segredos que eles escondem! E estes rubros lábios! oh, que vontade de prová-los, saber o sabor que essa boca pequena tem, me convidando a beijá-la e descobrir o gosto de sua seiva! Que pele macia ela deve ter! Minha boca sente uma necessidade de apreciar este pescoço alvo e esguio, até chegar aos seus ouvidos e lhe contar os meus perversos pensamentos que querem pulsar! Fico imaginando as curvas que este vestido esconde, que me tentam a passear por elas! sinto vontade de querer dedilhar cada centímetro desse corpo delgado, que me convida ao pecado, de fazê-la sucumbir aos meus desejos mais impuros!"— Ferdinando sentia o corpo formigar enquanto fazia a análise mental da bela jovem a sua frente.
O mesmo acontecia involuntariamente com Gina, analisava o rapaz que a fitava.
"Oh, o que está acontecendo comigo? Por que não consigo parar de olhar esse belo rapaz a minha frente?.. oh, pensei BELO.. rapaz?.. não posso mentir pra mim mesmo, ele é lindo sim, e não sei por que tenho a impressão que o conheço.. não, não! só pode ser um engano, pois acho que me recordaria deste mar de olhos que me enfeitiçam e me fazem querer mergulhar no mistério que eles escondem! e essa boca carnuda.. oh Deus dos exércitos, por que não consigo parar de ter pensamentos carnais provenientes destes lábios?! devo estar maluca pois quase posso sentir a sua quentura explorando o meu corpo.. não! não posso ter esses pensamentos pecaminosos com esse homem.. de ombros largos, braços longos, pescoço alvo que me faz sentir vontade de querer saber o cheiro que ele tem?.. Gina!!! o que há com você? por acaso perdeu a compostura, o bom senso? Por que esse rapaz a minha frente me faz despir da minha pureza, da minha inocência, dos meus princípios, e me faz nua e repleta de vontade de me vestir de desejos que a vida inteira jamais cogitei imaginar que pudesse sentir? Será um devaneio insano?.. não Gina, não se perca nesse olhar tão desconhecido!"— Gina sentia o corpo todo arrepiar, enquanto se imaginava envolta por uma leve neblina sedutora que a embriagava e a deixava refém de pensamentos confusos e impróprios.
Ela tentava a todo custo sair daquele delírio que a invadira. Era uma mulher que não se deixava dominar por nada, muito menos por ninguém. E por ser tão confiante de si, aquela situação a amedrontava, pois se sentia vulnerável, insegura. Jamais havia sentido ou passado por algo parecido antes. Gina precisava sair daquela emboscada que o destino preparara para ela. Foi quando ouviu a voz do agente de embarque e desembarque bem ao fundo dizendo que os passageiros da próxima viagem já podiam embarcar.
Sem pensar muito, desviou o olhar para o chão, para as malas, pegando-as e seguindo apressadamente em direção a portão de entrada do trem. Neste mesmo instante, Ferdinando também sai do transe daquele olhar marcante, sentindo uma angústia por não saber como lidar com aquela mulher.. como assim não saberia? Ele era Ferdinando Napoleão, 'o selvagem galanteador', como as mulheres mesmo o nomeava, como não saberia lidar com aquela que agora escapava ao seu olhar.. não podia deixar que partisse sem ao menos saber seu nome. E quando ela passou por ele, quase que instintivamente segurou o seu braço, fazendo-a parar e perguntou:
— Antes que embarque poderia me dar o privilégio de saber a sua graça? — Ferdinando sentia sua mão querer tremer pelo simples contato nela.
O coração de Gina acelerava a cada ação que aquele desconhecido rapaz fazia a ela. Não sabia o que fazer ou responder. O que ela queria era se livrar daquela angústia que sentia ao estar perto dele.
— Privilégio negado! Melhor que não saibamos nada um sobre o outro! Me solte ou não respondo por mim! — e sem dizer mais nenhuma palavra, se livra da mão que a segurava e parte apressadamente ao portão de embarque, deixando um rastro de perfume campestre a enfeitiçar o nobre rapaz ao mesmo tempo que, o suave cheiro amadeirado do mesmo, invadia seus pensamentos.
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Próximo ao local, Gina avista seus pais conversando com uma jovem que não fazia a mínima ideia de quem fosse, mas naquele momento o que ela mais desejava era fugir daquele olhar que conseguiu, mesmo que momentaneamente, atormentar seus pensamentos. Ela se sentia abalada com o ocorrido e ao mesmo tempo indignada consigo mesmo, afinal, por que um simples olhar de um desconhecido mexera tanto com ela? E por que não parava de pensar nisso? Resolveu dar um singelo beijo de despedida nos pais e embarcar o quanto antes. Quem sabe, dentro do trem se sentiria protegida.. do que mesmo?
— Mãe, Pai! Preciso embarcar o quanto antes que.. que.. — Gina tentava ser breve na despedida com os pais, mas não parava de pensar no incidente recente, para ser mais exato, no rapaz que não lhe saía da mente — .. que eu não consiga embarcar e achar um bom lugar para me acomodar durante a viagem!
— Ara filha, olha os modos! não vê que temos companhia!? — Seu Pedro via a aflição da filha, mas apenas imaginava ser a pressa de embarcar mesmo, o que não deixava de ser uma verdade — Deixa eu te apresentar! Esta é a perfessora Juliana, aquela que falei que viria da capitar, pra ensinar as crianças!
Gina ainda estava perdida em suas aflições e mal prestara atenção no pai, muito menos em Juliana, apesar de ser quase impossível a professora não se fazer notar pela beleza e estilo incomum. A jovem mestre lhe cumprimentava conforme a boa etiqueta das damas cultas daquela época, para as devidas apresentações.
— Prazer! Me chame apenas de Juliana! — pegava em cada lateral da saia do vestido e reclinava suavemente o corpo para frente para cumprimentar a moça, mas percebia que Gina estava afoita, por alguma coisa ou alguém, mas resolveu não transparecer que percebia a aflição da ruiva — Uma pena não poder nos conhecermos melhor, visto que seus pais me informaram do seu embarque nesta próxima viagem!
A ruiva ainda continuava atônita com o que lhe ocorrera, mas precisava fugir, daquela professora insistente, dos possíveis questionamentos de seus pais que não demorariam muito a perceber seu estranho comportamento e principalmente, dos olhares persistentes daquele desconhecido rapaz.
— Oi Juliana, sou a Gina! — ela discretamente olhava para trás para ver se aquele contratempo a comprometeria na façanha de sua escapada estratégica. Precisava ser muito breve, sem levantar suspeitas — Me perdoe não poder ficar de prosa cocê, mas preciso embarcar logo! De qualquer forma, seja bem-vinda a Vila de Santa Fé! — deu uma nova olhada e viu que o rapaz continuava da mesma forma que o havia visto pela última vez — Ah! Não é por serem meus pais não, mas tenho certeza que você não poderia se alojar em lugar melhor, que não fosse debaixo das asas deles! Me desculpe a pressa, mas preciso ir!
E depositando um beijo na testa de Dona Tê e Seu Pedro, se despediu deles e de Juliana, pegou suas malas e entrou no vagão sem novamente direcionar o olhar ao rapaz que tanto a deixou desconcertada. O mesmo continuava paralisado em seus devaneios e nem notara a breve conversa que a ruiva tivera com a jovem de cabelos rosados, o qual flertara platonicamente durante a viagem.
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O engenheiro continuava absorto sobre o ocorrido. Se questionava por que estava tão impressionado com aquela mulher .. linda, geniosa, de corpo escultural, olhar hipnotizante e boca tentadora.. "Ora essa Ferdinando!— pensava — Você já teve mulheres mais belas que ela e.. não, essa é diferente! Tem um mistério que me atiça a querer desvendar! Mas se quero tanto saber quem é ela, não vou descobrir nada se ficar aqui parado como um dois de paus, com cara de bocó! Vá atrás dela, o que você está esperando?!"
Mas antes que ele pudesse colocar em prática sua procura a desconhecida moça, ouviu uma voz na entrada da estação chamar seu nome.
— Signore Ferdinando! — Seu Giácomo, um viúvo italiano, que era dono da única venda da vila, acenava ao rapaz depois de avistá-lo — Quanto tempo non ci vediamo.. non te via!
— Seu Giácomo! — Ferdinando se divertia com as futricas daquele italiano fofoqueiro, mas naquele momento não poderia perder tempo e ficar de conversa mole. Precisa escapar do italiano — Faz mais de cinco anos que deixei Santa Fé para ir estudar na capital! Adoraria falar sobre todo este tempo que estive ausente por estas bandas, mas infelizmente preciso resolver uma coisa urgente antes que ela me escape! — e saiu em disparada ao portão de embarque do trem. No entanto, retornou pois viu que a presença do italiano poderia seria providencial.
— Mas aproveitando que está aqui, poderia por gentileza tomar conta de minhas malas, ah! e se for muito abuso de minha parte, poderia solicitar-me um coche, sim?! Temo que não seja possível levar toda essa bagagem sozinho! — antes que o pobre italiano pudesse balbuciar algo, Ferdinando completou — Ah! Obrigado Seu Giácomo, sou grato por me ajudar! Prometo não demorar!
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Sem perder mais tempo começou a acelerar o passo, olhando todos os cantos, na esperança que aquela moça não houvesse embarcado ainda. Tarde demais. Viu tal possibilidade se esvair com o apito de partida do trem. Entrou em leve desespero ao ver o trem aos poucos começava se locomover. Resolveu seguir o trem pela lateral, olhando pelas janelas ainda imaginando ter a possibilidade de vê-la, mesmo que fosse por uma última vez e viu, em um dos cantos dos vagões, sentada, exuberante, e seus olhares não demoraram muito a novamente se encontrar. Foram apenas segundos, mas o suficiente para eternizar em suas vidas. Ferdinando sem raciocinar, levado apenas por um impulso ainda conseguiu gritar: "- Volta!" — enquanto Gina o observava ficando para trás à medida que o trem ganhava velocidade. Sem que pudesse impedir, uma lágrima inesperada surgiu, enquanto seu coração voltava a acelerar, trazendo uma dor de vazio sem explicação.
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"Devo estar pãm das ideias!"— Gina respirava fundo e tentava entender tudo que havia acabado de acontecer com ela — "Nem conheço esse sujeito e estou me sentindo aflita em deixá-lo.. ora essa, preciso pensar em qualquer outra coisa pois a viagem é longa, e se eu não tirar essas maluquices da minha cabeça, vou enlouquecer!"
Gina abriu a maleta menor e tirou dela o bloco de notas, onde fazia seus relatórios, uma espécie de diário de cultivo, anotava tudo que lhe era pertinente e assim, prosseguiu sua viagem tentando não lembrar do incidente na estação.
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Ferdinando se manteve na extremidade da plataforma da estação, até o trem sumir no horizonte, sentia que algo nele ia embora também. Da mesma forma que Gina, ele não conseguia entender a razão de se sentir angustiado apenas pela possibilidade de não mais vez aquela misteriosa mulher.
"Ela partiu, e eu não consegui nem ao menos saber o nome dela! Nem um nome para nomear isso que estou sentindo!"— lamentava para si mesmo enquanto se encaminhava até sua bagagem — "Ora essa Ferdinando, para quê se importar com isso?! Ela se foi, outras mais belas virã.. mas não como ela!"— Parou, não sabia se lamenta-se ou se censurava por não saber o que pensar, aliás, pensar era o que mais fazia naquele instante. E na tela de seus pensamentos apenas aparecia uma imagem, daquela ruiva. Da única mulher que conseguira tirá-lo da sua prepotência machista, do controle que sempre teve certeza de ter sobre todas as mulheres. Aquilo o deixou intrigado a tal ponto, que por um momento esquecera até do real propósito de voltar a Santa Fé.
"Diacho! Esqueça de vez dessa mulher Ferdinando! Você nem sabe se algum dia ela volta.. bom, e se voltar você saberá! Ora se saberá!"— resolveu deixar a autoconfiança que tinha sobre as mulheres tomar o controle da situação, deixando um sorriso malicioso de lado invadir o canto esquerdo da boca, enquanto se encaminhava até onde Seu Giácomo estava.
— Seu Giácomo! Me desculpe fazê-lo esperar! — sorria para o italiano sem graça, disfarçando e se desviando de quaisquer subjulgamentos.
— Tuti bene! Conseguiu risolvere il problema? — Seu Giácomo perguntava inocentemente. Ferdinando havia disfarçado bem, mas quase entregara seu disfarce.
— Como disse?
— Il perdono! tu non havia detto que precisava risolvere un problema? — mas uma vez o italiano questionava Ferdinando na maior inocência.
— Ah! Sim, claro! mas não consegui chegar a tempo! Enfim, era algo sem muita importância! — e não querendo ser mais questionado pelo italiano, resolveu mudar o rumo da conversa — Mas mudando o rumo da conversa, conseguiu arrumar-me um coche?
— Ah! Si! Inclusive o condutor levou quase tutti as suas bagagens! Deixou apenas a minore, imaginando que tu quiseste levar personalmente!
— Fez certo! Prefiro levar esta maleta eu mesmo!
— Ma scusa, per que suo padre non inviaste uno duo seus criados para vir buscar na stazione? — perguntava Seu Giácomo, despretensiosamente.
— Meu pai não mandou nenhum criado, por que não informei a ninguém sobre o meu retorno. Quero fazer uma surpresa a todos lá na casa grande!
— Va bene! Melhor sera apressar antes que anoiteça!
E assim, foram os dois até a saída da estação, procurar o coche que Seu Giácomo havia solicitado.
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Não muito distante dali, Juliana havia acabado de chegar à casa de seus anfitriões. Era uma casa simples, sem muito luxo, mas tudo bem arrumado e organizado, com adornos, bibelôs e flores colhidas recentemente dispostas nos variados móveis que havia, trazendo frescor e alegria aquele que seria seu lar de agora em diante. Havia também muitos quadros em paredes diversas, e como era uma fascinada por histórias, tinha certeza que cada um deles deveria ter algo para contar.
— Chegamos perfessora Juliana! A casa é modesta, mas esperamos que se sinta a vontade por cá! — dizia Seu Pedro num tom acanhado.
— Ora, deixe disto Seu Pedro! O meu propósito de ter vindo para esta Vila é poder educar as crianças que aqui vivem. Não me importo com luxo!
— Oia fia, tarvez na capitar ocê esteja acostumada com a mudernidade da cidade grande! Tudo aqui é muito simples!
— Que isso Dona Tê! A Vila pelo que pude perceber durante o caminho até aqui é um encanto! Na verdade é essa simplicidade que venho buscando. Quero exercer bem o meu trabalho e poder alfabetizar a maioria das crianças dessa redondeza, tenho certeza que não poderia ter feito melhor escolha.. '[.. uma grande chance de deixar para trás todos os erros que cometi no passado!]' — falava quase como um sussurro a última frase.
— Como disse, fia? — perguntava Dona Tê achando que Juliana estava comentando algo com ela.
— Não, nada Dona Tê! apenas pensando na vida nova que terei em Santa Fé! — Juliana achou melhor mudar de assunto — Mas me digam qual será o meu aposento, para que eu possa levar as minhas malas. A viagem foi cansativa e por esta razão, vou desfazer as malas apenas amanhã — apesar de cansada, sentis-se feliz por começar uma vida nova — Gostaria também de me lavar antes do jantar!
— Ah, sim perfessora! Ocê ficara no quarto da Gina, mas vamos que eu ajudo a carregar as malas! — Seu Pedro sempre solícito indicava o quarto a esquerda no final das escadas, levando quase toda a bagagem da professora.
— Isso! Vá com o Pedro, Dona Juliana! Deixei alguns lençóis limpos na cama. Enquanto isso, irei preparar seu banho! Licença! — Dona Tê se esmerava para ser o mais atenciosa possível à professora.
— Obrigada Dona Tê! — Juliana agradecia mesmo com a certeza que Dona Tê não tivesse ouvido, mas novas oportunidades para o feito não lhe faltariam.
— Juliana, este é seu quarto. Fique a vontade para se acomodar! — Seu Pedro deixou a última mala logo atrás de Juliana quando ela entrou no quarto, fechando a porta do aposento quando saiu.
Juliana observava tudo. Era um quarto simples, sem muitos indícios que indicassem pertencer a uma moça. Mas era aconchegante e se sentia acolhida logo que entrou.
"É Juliana! Uma nova chance de acertar sua vida lhe foi dada! Vê se não estraga tudo desta vez!" — respirava fundo enquanto concluía seus pensamentos — "Você veio pra essa Vila tão distante, pra lecionar, somente! Nada de abrir brechas para namoricos!" — respirou novamente, abrindo o baú para decidir o que iria vestir.
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Ferdinando já avistava a casa grande na paisagem ao fundo, e cada vez que se aproximava mais, a apreensão também aumentava. Mas precisava ser firme, não podia voltar atrás nas suas escolhas. Tinha pensado em várias formas de comunicar ao pai como havia modificado sua vida nos últimos treze anos. Sentia falta daquele lugar, dos poucos momentos felizes que tivera durante sua infância ali. Antes de sua mãe falecer, vencida pela doença. Antes do pai endurecido pela perda da mulher, o enclausurar quase que a vida inteira num internato e o privar de toda a vida que brotava naquele lugar. Agora seria diferente. Ele havia crescido e se tornado dono de suas ações e consequências.
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No outro extremo da estrada, olhos de rapina observava aquele coche se aproximar da propriedade, atento a exercer suas funções caso fosse necessário. Avistava ao longe a charrete se aproximar da mansão dos Napoleão, se escondeu próximo ao celeiro, onde podia vigiar sem ser percebido enquanto traçava a melhor estratégia de abordagem. Zelão era o homem de confiança do Coronel Epaminondas, assim como fora seu pai antes dele.
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O coração de Ferdinando apertava o compasso da aceleração cada vez que se aproximava de sua casa. Durante o trajeto quase não dirigiu a palavra ao cocheiro, não por arrogância, mas por que sua mente estava sobrecarregada com seus pensamentos, não sobrava espaço para conversas aleatórias.
— Chegamos senhor! — dizia o cocheiro ao parar em frente à escadaria do roll de entrada da casa. — Quer que eu o ajude a subir com as malas?
— Não será necessário senhor?.. — estava tão absorto com seus problemas que nem se lembrava do nome do cocheiro.
— Silas! meu nome é Silas senhor, como lhe disse quando saímos da estação! — respondia o cocheiro, não se incomodando com a sua falta de atenção, pois havia percebido o cenho de preocupação na expressão do rapaz.
— Desculpe senhor Silas, pela falta de atenção! — Ferdinando se sentia constrangido, pois era a terceira vez que perguntava o nome do distinto senhor.
De repente foram interrompidos por um homem com uma expressão nada amistosa, deixando bem claro que a presença deles não era bem vinda naquele lugar.
— Quem são ocêis e o que vieram fazer por estas bandas? — Zelão impunha sua autoridade de protetor da mansão, com ambas as mãos em riste, prontas a sacar suas armas caso fosse necessário.
— Zelão?! É você? — apesar do longo período que não o via, Ferdinando reconhecia o fiel capataz de seu pai.
— Quem é ocê e como sabe o meu nome? — Zelão analisava o rapaz que o reconhecia e também o achava familiar.
— Sou eu Zelão, Ferdinando Napoleão! — aproximava do capataz e dizia diminuindo o tom de voz para que Silas não ouvisse — O Nandinho, não se lembra de mim?
— Ara, patrãozinho Ferdinando!? Num pode ser! — o cenho carrancudo de Zelão aos poucos ia diminuindo ao começar reconhecer o filho do coronel — A úrtima veiz que ponhei os zóio nocê, era um rapazote sem nenhuma penuge na cara! — ele continuava a olhá-lo com desconfiança.
— Ora Zelão, sou eu sim. Passei cinco anos na capital estudando e agora que finalmente me formei, estou de volta! — falava Ferdinando descendo do coche e se aproximando do capataz.
Zelão o analisava e começou a reconhecer aquele olhar azulado inconfundível.
— Parece que é o fio do coronel mermo! Mais tô achando estranho. Causo que o patrão num me falô nada de sua chegada! — Zelão insistia numa pequena implicância.
— Meu pai não te avisou nada por que ele e nem ninguém sabe do meu retorno! Queria fazer uma surpresa a todos! — justificava o rapaz — Ora Zelão, será que mudei tanto assim? Deixe de desconfiança e de cá um abraço!
— Patrãozinho! É o nhor mermo! — Zelão agora o reconhecia — O nhor adescurpe o mal jeito, mas estava apenas cumprindo meu dever!
— Eu sei Zelão, não tem por que se desculpar! É bom saber que estamos protegidos com você por perto, apesar de não saber do quê! Aqui sempre foi tão tranquilo!
— Mas nunca se sabe quando argum argo pode acontecê, né mermo?! mior estar preparados — fazia menção de pegar suas armas, referindo à elas a proteção.
Ferdinando não se sentia muito a vontade com Zelão armado, mas não queria questionar. Não no momento. O quê queria naquele instante era concluir o que viera fazer ali. Nem havia percebido que o cocheiro já havia deixado sua bagagem no começo das escadas. Fez o pagamento do transporte e agora olhava para o final da escada com um ar pesaroso.
— Bom, mas agora o que mais quero é rever minha família, principalmente meu pai. Tenho muito que lhe falar!
— Quer que eu ajude o patrãozinho com as malas? — perguntava agora um Zelão prestativo.
— Sim Zelão, por favor! — Ferdinando tinha a impressão que o peso de seus pés se tornava maior a cada degrau que subia. Mas agora era tarde demais para desistir. O jeito era seguir em frente e encarar de vez a fúria de seu pai quando soubesse de tudo.
"É Ferdinando, agora é tudo ou nada!"— respirava ofegante por tudo que supunha esperar ao passar por aquela porta — "Vamos lá, defenda suas escolhas!"
Respirou fundo mais uma vez e abriu as portas de casa, anunciando sua chegada.
— Olá família! Estou de volta!
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