Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
20 Capítulo vinte - Dente de leite
Notas iniciais
Chegando ao seu lar, Benjamin não foi bem recebido por seus pais. Marisa estava em prantos e com o telefone nas mãos, já Manuel falava ao celular, totalmente preocupado.
Enquanto Benjamin esteve no táxi que o levou para casa, teve tempo suficiente para pensar na maneira estúpida como agiu a noite passada; dar um soco no rosto do Yuri foi demais. Ele sabia disso e sentia-se péssimo agora. O menino podia aproveitar a situação para se distanciar de uma vez por todas do amigo, mesmo não sendo este o seu verdadeiro desejo.
— Seu filho da mãe, aonde foi depois da festa da Bárbara? – berrou Marisa, jogando o telefone na poltrona em que estava sentada e caminhando, na direção da porta, ao encontro do caçula.
— Ele já chegou aqui. Eu te ligo mais tarde, Bárbara. Obrigado novamente, e feliz aniversário adiantado – concluiu o pai dele ao telefone.
— Como?
Benjamin recebeu um tabefe da sua mãe bem no meio da sua bochecha rosada, latejando rapidamente. Ele sentiu o seu rosto virar no mesmo sentido da mão de Marisa. Quando levantou seu olhar para a mãe, o seu pai já estava apertando seu braço direito, como se quisesse arrancá-lo do resto do corpo.
— Por que desapareceu da festa sem avisar ninguém sobre o seu paradeiro? Eu já tinha ligado para o pai do Pedro, já que ele é tenente da polícia, e daqui a pouco iria à delegacia registrar o seu desaparecimento, moleque imprudente – vociferou ele, aliviando a pressão no braço do filho. – Acha mesmo que nós ficaríamos tranquilos com tu bêbado por aí e tanta violência na cidade?
— Achei que poderia estar caído em alguma vala ou matagal destes morros de Florianópolis – confessou Marisa, chorando com muita raiva.
Ben engoliu em seco e baixou os olhos em direção ao carpe amarelo da mãe no corredor de entrada da casa.
— Vamos lá, nos diga aonde foi depois da festa? – berrou seu pai, socando a mesinha de corredor com as fotografias da família e um espelho larguíssimo, que vibraram com o impacto. Ele fez aquilo para não agredir o menino de olhos verdes.
— Eu dormi na casa do japa. Não fiquei sozinho na noite passada, ele me levou para lá porque eu havia bebido bastante e, como Yuri não tomou nenhum pouco de álcool, aceitei a carona.
— Mas por que não avisou a Bárbara ou qualquer pessoa na festa, Benjamin? A sua amiga ligou para o nosso celular, aflita, lá por volta das três e meia da manhã, afinal ninguém mais tinha o visto por lá. Ela estava em prantos e disse que o Arthur, o Pedro e outro menino, que não sei o nome, foram de carro te procurar nos dois sentidos da 401. Isso tudo depois da Fernanda e dos primos da Bárbara esgotarem toda a ACM.
— Mãe, tava tão bêbado que nem pensei que isso poderia acontecer. Eu peço realmente desculpas, mais tarde, eu ligo para todos eles para me desculpar. Eu sei que o erro foi meu, porém não precisavam usar tanta violência. Veja, eu estou bem... Eu estou vivo.
Marisa deixou o semblante cair, o coração da mulher palpitava que nem uma estaca de construção. Ela olhou do filho para o marido, que continuava com os lábios cerrados e com as sobrancelhas arfadas.
— Escute-me bem, Benjamin Belucce Furlanetto, a partir de hoje, tu não tem mais o seu carro, me devolva as suas chaves, porque eu vou devolvê-lo ao banco. E pensa que acabou? Não vai mais beber porra alguma de álcool tão cedo. Se me desobedecer não sairá do castigo até poder se autossustentar e cair fora da minha casa, e ainda cortarei todas as regalias que te damos, inclusive a faculdade e o cursinho.
— O quê? Pai, que injustiça... Vai me tomar o carro? Eu preciso dele para viajar pra casa nos fins de semanas e pra me virar lá em Blumenau também. Te imploro para que reconsidere esta posição. Juro que não beberei mais. Juro que não serei mais um imprudente. Por favor...!
A mãe do menino de olhos verdes olhou novamente para o marido, que nem sequer devolveu o olhar.
— Pelo menos por enquanto estará sem o seu carro. Quero as chaves aqui embaixo até o final da tarde. Sei que tem dezenove anos e tecnicamente não posso mais te deixar de castigo, mas não quero mais ver o seu rosto durante o dia todo, então suba agora, tome um banho, se vista e fique por lá até segunda ordem.
O menino apenas concordou e saiu com a cabeça baixa depois da ordem recebida. Quando entrou no quarto, a primeira coisa que fez foi pegar as chaves do carro e levá-las até a mesinha de centro da sala. Ele viu que seus pais estavam conversando no píer da casa, de costas para a porta de vidro da sala.
— Não sei se ele está preparado para morar sozinho, Marisa.
— Eu sei que o Ben não é tão responsável, amor, mas só que ele tem a chance de começar a faculdade de medicina. Nem eu e nem tu podemos privá-lo disso. Quantos pais estão vendendo até a casa para poder pagar uma boa faculdade aos seus filhos, e nós que podemos pagar vamos simplesmente fechar as mãos por uma irresponsabilidade do menino?
— Máh, só que tu tens que me entender, mulher, que o menino não tem vinte anos e ainda falta juízo naquela cabeça. Ele age conforme a maneira que quer. Preciso dar um basta nisso antes que o veja se afundando na lama. O Ben precisa crescer. Veja só como o melhor amigo dele, o japa, se comporta. Tem a mesma idade, porém muitos anos a mais de juízo e maturidade.
Ele ficou mordido de ciúmes por ver o seu pai puxando saco de Yuri e por se opor ao próprio filho. Todos sabiam muito bem que o garoto odiava aquelas comparações. Sejam elas nos estudos. Sejam elas na maneira como leva a vida. Sejam elas quaisquer que fossem.
— Manuel, o Yuri Neto e a Yumi são tão maduros por uma única razão; nem sempre tiveram o apoio dos pais deles, tanto do Yuri quanto da Nara. Os dois foram obrigados a crescer muito rápido. Agora o Benjamin e o Miguel sempre nos tiveram por perto, sempre os apoiamos em seus sonhos, em seus romances e até em suas decepções – explicou ela, com os olhos azuis cheios de lágrimas. – Sentiremos muita a falta do nosso caçula – sua voz estava embargada e emocionada – aqui em casa, mas ele precisa realizar seus sonhos. Não suportaria mais vê-lo sofrer pela UFSC ou por qualquer outra universidade. Nunca pude tirar do meu coração o dia em que Yuri, Fernanda e o Joshua foram aprovados em medicina e o nosso Benjamin, não.
O filho já tinha começado a chorar, só que continuou calado, próximo das escadas. Manuel abraçou a mulher de lado mesmo e pôs a cabeça dela sobre o seu peito, afagando seus cabelos negros com a mão livre.
— Ele ficou feliz por seus amigos de infância terem sido aprovados na UFSC, mas me lembro do quanto ficou arrasado, não comia direito, achava que nós iríamos matá-lo por causa daquilo – a voz da mulher continuava embargada – e que ele era um burro por não ter conseguido de primeira. Não quero mais vê-lo sofrendo daquela maneira.
— Tu tens razão. É melhor mesmo que o Ben comece a faculdade agora. Só que vamos mesmo sentir muitas saudades do nosso garotinho. – Ele riu. – Quando podíamos imaginar que aquele fedelho de olhos verdes, que ontem tínhamos batizado na igreja, cresceria tão rápido, e nós deixaria para morar sozinho antes de completar duas décadas de vida?
Manuel soltou um suspiro melancólico, e voltou a dizer:
— Não sei o porquê de eles terem que crescer tão depressa. Era muito melhor quando os dois me procuravam no meio da madrugada só porque tinham feito xixi na cama ou porque tiveram um pesadelo. Hoje, um com vinte e três anos só quer saber da namorada e dos amigos, o outro, com dezoito só quer saber de bebedeira e festas.
— Será que os dois sabem que nós os amamos demais? Será que nós dizemos isso com frequência aos meninos? Me odeio por não ter controlado os meus impulsos nervosos e ter dado outro tapa na cara do Benjamin. Já fiz isso duas vezes na mesma semana. Devo ser uma mãe horrível. Ele deve me odiar muito e querer mesmo ficar longe de mim. Talvez, eu seja mesmo igual à Nara Takashi.
O menino de olhos verdes subiu as escadas em silêncio e com os olhos cheios de lágrimas. Ao fechar-se em seu quarto, foi imediatamente para a cama, encontrar refúgio sobre seu travesseiro. Não conseguiu segurar o impulso de voltar a chorar. Queria desaparecer por um breve momento do mundo para poder ignorar tanta confusão e tristeza.
Yuri continuava dentro do seu quarto desde a hora que o Benjamin foi embora mais cedo naquele dia e agora já se passavam das sete da noite. Ele já ignorou dez chamadas da Bruna e não abriu as quarenta mensagens que a menina lhe deixou no WhatsApp.
Continuava muito tristonho e começava a chorar toda vez que se lembrava de como o amigo reagiu, inesperadamente, à noite que tiveram. Não sabia mais o que faria para consertar aquele estrago. Ser acusado de se aproveitar de alguém bêbado não era uma tarefa muito fácil.
Toda vez que ele olhava suas fotos com o menino de olhos verdes no seu notebook, sentia dentro do seu peito a mesma sensação de mais cedo, de que alguém tivesse o partido em dois.
— Yuri... – Ele ouviu aquela voz se aproximando e já tinha a reconhecido. – Yuri Takashi, cadê você, meu filho.
De repente, Nara ligou a luz do quarto do filho com uma expressão de alegria pelo reencontro. A japonesa usava um longo casaco preto e sapatos altos de ponta fina. O seu batom avermelhado e sua maquiagem foram retocadas um pouco antes do avião em que estava com seu marido pousar na ilha meia-hora atrás.
— Oi... oi, mãe! – respondeu um pouco atrasado, fechando seu notebook com o cotovelo esquerdo. – Não sabia que chegaria hoje à noite, cadê o meu pai?
— O Yuri está subindo com as nossas bagagens. Venha até aqui e dê um abraço de bem-vindo na sua mãe.
Ele se levantou e foi de encontro a ela na porta do quarto. O japa vestia a mesma camiseta e cueca da noite passada. A mulher abraçou e beijou o filho. Ela não beirava os 1,85 metros de altura do menino e também era um pouco gordinha.
— O que aconteceu com você? Está me parecendo tão pra baixo. Não me diga que brigou com sua irmã ou com sua namorada?
— Mãe, não quero falar sobre isso. Só que pode ficar despreocupada, eu e a Yumi não brigamos. Ela foi embora ontem à tarde e deixou um mega beijo pra ti e pro papai.
— Boa noite, meu garotão – disse o pai ao aparecer na porta.
— E aí, pai. – Yuri deu abraço rápido nele. – Fizeram uma boa viagem?
— Fizemos, sim. Consegui resolver tudo o que eu tinha ido fazer lá. Agora é só esperar para ver se surtirá efeito aqui na concessionária. Eu já vou indo me deitar porque estou exausto e tenho que ir a Porto Alegre amanhã de manhã. Nara, eu deixei as nossas bagagens no pé da escada.
— Boa noite, pai.
— Yuri, eu já vou indo também. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.
— A senhora já volta a trabalhar amanhã?
— Volto, sim. O tribunal está uma loucura com a minha ausência. Esta semana promete ser a mais longa e cansativa pra mim. Ainda mais depois de algumas semanas na Europa onde já havia me esquecido como advogar.
— Então boa noite.
— E tu volta amanhã pra faculdade ou só na outra semana ainda? Não lembro mais quando entrou de férias.
— É amanhã, sim. Ah, o Benjamin conseguiu ser aprovado em medicina na FURB. Começa a faculdade na próxima semana.
— Bá, sério? Que legal que ele conseguiu, já estava mais do que na hora de retribuir o investimento dos seus pais.
Yuri deu um sorrisinho fingido e se despediu mais uma vez, fechando a porta em seguida. A verdade era que não suportava a honestidade dos seus pais. Detestava ter que ouvi-los falar dos seus amigos e da irmã. O japa aproveitou que conseguiu sair da cama para ir tomar banho antes de se deitar.
O dia seguinte seria muito importante para a turma do Yuri. Eles estarão recebendo os novos calouros da medicina UFSC, entre eles, Joshua. O japonês não estava muito empolgado com a ideia de ir à Faculdade no primeiro dia do novo semestre letivo.
Pensava que teria que enfrentar os impulsos da Fernanda e as patadas da Bruna. Como ele não estava envolvido ativamente na recepção dos calouros, não via problema algum de perder aquilo e a apresentação do novo módulo pelo coordenador da segunda fase do curso.
Olá, meu nome é Joshua Baiano, meus amigos de Floripa me chamam de precoce só porque eu sou o mais novo do grupo. Tenho 17 anos para reforçar este apelido. Escolhi a medicina porque sempre tive uma forte paixão por médicas e também por querer ministrar a cura aos meus futuros pacientes doentes. E entrar pra Federal do Litoral é indescritível e ainda mais tendo veteranos tão parceiros quanto vocês — repassou mentalmente pela milésima vez em frente ao espelho do quarto.
A luz da nova manhã já invadia as duas janelas do quarto do novo calouro da UFSC. Joshua não conseguia disfarçar o nervosismo, embora conhecesse dois dos seus veteranos direto da faculdade, da turma do primeiro semestre, não sabia como seria a recepção por parte dos outros veteranos do curso.
E para piorar a situação, o irmão mais velho do menino entrou na sua cabeça enquanto jogavam videogame na noite passada.
— Cara, tu não sabes o quanto os veteranos são grossos e querem que a gente seja escravo deles. Caralho, Josh, eu quase bati num carinha de outra fase quando entrei em Odonto. Ele queria que eu carregasse as porras dos seus equipamentos lá do RU até o consultório da faculdade e do consultório até sua casa.
— Que merda, Heitor.
— E conheces a reputação da recepção dos alunos de medicina aqui no Brasil. Não viu os casos de até estupro na USP e na UNIFESP?
O menino ligou para o celular do seu veterano, Yuri, logo que entrou, de carona, no carro do irmão para ir à faculdade, porém a chamada caiu abruptamente na caixa de mensagens. Já era a terceira vez que tentava falar com ele só naquele início de manhã.
Fernanda lhe enviou antes das seis da manhã uma mensagem no WhatsApp, botando o maior terror no seu calouro.
Fernanda:
Chegou o tão sofrido dia, meu calourinho... Prepare-se para perder um dente logo no começo da SAC. Muahahá! Tu precisa ir primeiro à sala 903, os caras fodões do curso estarão lá para recebê-los e orientá-los sobre o funcionamento da faculdade. BUT...! Dez em ponto, nós, seus veteranos amados estaremos na porta da sua sala para amarrá-los e levá-los para serem batizados na frente de um auditório todo lotado de veteranos da medicina. Deixe que os jogos comecem. Medo? É só o início do que vem pela frente! Muahahá!
No minuto em que o irmão estacionou no estacionamento do centro de ciências da saúde da universidade, por acaso era lá também que funcionava majoritariamente o curso de odontologia, o menino de cabelos castanhos e olhos castanhos méis sentiu os pelos do seu braço se enrijecerem.
— Boa sorte no trote, otário – desejou o irmão indo em direção contrária a que Joshua deveria seguir.
Nos corredores do pátio do CCS, encontrou inúmeros calouros de outros cursos da saúde como enfermagem e fonoaudiologia, eles estavam com seus rostos e braços pintados. A porta da sua nova sala estava aberta, e já podia se ouvir a voz de algum palestrante. Ao entrar na sala, seus colegas de turma lhe encararam, e alguns conhecidos acenaram para ele.
Depois de tanto blá, blá, blá, chegou o momento mais aguardado pela Fernanda e pelos outros veteranos da sua sala: a hora de pôr o terror nos babies do curso. A garota agitava a saída dos calouros da 903, indicando onde eles deveriam se aglomerar e esperar. Outros garotos da sala do Yuri iam à frente do grupo para organizar a fila indiana, e algumas garotas estavam no meio dela reorganizando a ordem conforme o sexo e altura.
Joshua viu sua amiga sobre o segundo degrau da escada, que ficava na frente da porta da sala, mas ela lhe ignorou totalmente.
— Calouros, hei, calouros... escutem a Fernanda – berrou um menino ruivo e bombado.
Todos eles olharam para trás. A veterana e os outros da sua sala vestiam uma camiseta amarela da própria turma, onde estava escrito: Veteranos lindos da MEDICINA 15.1 da maior do SUL DO MUNDO!
— É o seguinte, creche, todos deveram sair do prédio em fila indiana e formando o clássico elefantinho. Ah, veterana gostosa, eu não sei o que é o elefantinho... Porra, como assim não conhece o elefantinho? É só dar a mão pro coleguinha da frente e pro de trás por debaixo das pernotas. Mas vão acabar passando a mão no meu pirulito e na minha aranha, mamãe não vai gostar... É isso mesmo que é o elefantinho, porra. Vou contar até cinco e todos estarão andando conforme eu ensinei. Sigam a gostosura que está aí na frente.
Joshua se dobrou e pegou a mão de uma menina por debaixo da virilha dela, e a de um rapaz por debaixo das suas próprias pernas, e começaram a seguir o mesmo menino que mandou que eles prestassem atenção na Fer.
Durante o trajeto, inúmeros veteranos mais velhos do curso zoavam-lhes pelos corredores do CCS.
A formação só pôde ser desfeita quando entraram pela porta do enorme auditório. Da metade dele para cima, só os veteranos das outras fases estavam sentados.
— Chegaram os calourinhos...! – gritou uma veterana da turma 15.1 no microfone, em cima do tablado do auditório. Os calouros foram recebidos ao som do Show das Poderosas, da Anitta.
O menino foi alocado na primeira fileira de cadeiras almofadas, dali, tentou encontrar Yuri, mas não viu o japa em nenhum lugar.
— Você que é o Joshua, né? – perguntou a menina que deu a mão para ele no elefantinho. Ela era negra, com lábios delicados e olhos grandes. Parecia uma menina bem simpática. – Me chamo Melanie.
— Prazer, Melane.
A garota riu de como ele pronunciou o seu nome.
— Eu sei que é meio incomum o meu nome – riu novamente. – Ele se pronuncia Melaní com um único “i”, mas se escreve com “ie” no final.
— Que legal, acho que em seis anos de convívio contigo poderei pronunciá-lo corretamente. Prometo que vou praticar muito, tá? – O menino levantou a mão na posição de juramento. – Tu pode me chamar de só Josh, mas os meus amigos mesmo me chamam de precoce.
— Precoce?
— É. Eu sou o mais novo de todos eles e por isso, fui carinhosamente apelidado assim.
— Na verdade, ele tem este apelido porque entrou alguns anos adiantados na nossa turma da escola – intrometeu-se Yuri, que estava de pé diante deles.
O japonês sorriu para o amigo, que se levantou e o abraçou forte.
— Seu puto, jurei que tu não vinha pra me dar boas-vindas. A recepção da Fer está sendo a maior merda, nem me deu bola. Ela está se achando demais só porque é veterano agora.
— Prazer, eu te apresento a Fernanda Mello, uma menina tão dócil e parceira— zoou Yuri, acabando o abraço. – Cara, vou me sentar ali atrás e depois volto aqui para dar risada da sua apresentação.
— Como isso vai funcionar?
— Ué, a Nayara vai chamar um por um de vocês e vai mostrar naquele telão tudo que conseguiram stalkear das suas redes sociais, e com base nisso, será batizado com um apelido.
— Ah, já sei que o meu vai continuar sendo Precoce. Ele me persegue há anos e nunca deixará de me perseguir.
Yuri cumprimentou seus amigos próximos do palco antes de ir se sentar lá em cima do auditório. Reconheceu de imediato a sua namorada ou ex-namorada, ainda não sabia o que a Bruna havia se tornado após abandoná-la na festa. A garota o encarou com um olhar incinerador e fez algum comentário maldoso para as amigas.
A apresentação dos calouros começou em seguida. Os amigos de Yuri que estavam lá no palco começaram a chamar os calouros e a entrevistá-los com base nas fotos, nos vídeos e nos comentários comprometedores publicados e esquecidos pelos seus donos na internet. Ao final da apresentação ocorria o batismo com o apelido.
— Melanie Batista Vieira. Caloura apresenta-se à direção, mas deixe a vergonha aí onde está.
A garota morena sorriu para Joshua e engatou no braço de um veterano a convite dele, e os dois subiram a rampa que dava acesso ao palco, pararam para tirar uma foto juntos, então ela se dirigiu a frente do telão com o nome dela todo colorido.
— Caloura, a gente chegou até o fundo do seu baú online. Isso mesmo a gente encontrou seu perfil abandonado do MySpace, atualizado pela última vez em 2007. – A garota corou assim que o print da tela do PC com uma publicação sua apareceu diante de todos, escondendo o rosto nas palmas de suas mãos. – Deixa eu ler para todo mundo: Ah, estou aqui morrendo de frio enquanto o seu colo está aí a me esperar, pronto para me derreter em contato com sua pele. Por que tudo tem que parecer tão complicado quando o mais fácil seria que a gente ficasse junto de uma vez? Só que você não sabe da minha existência, pelo menos, finge que não existo. Até quando desejarei o teu carinho, o teu contato, o teu amor, a tua declaração? Quando poderei me deitar no seu colo e deixar-te me possuir inteirinha? Estar exposta para você da mesma forma que fiquei diante dos meus pais quando bebê, sem nenhum tecido, sem nenhum pudor, sem nenhum impedimento. Pare de fingir que sou apenas mais uma colega quando na verdade já sou tua por inteiro.
— Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuu... – gritou a multidão na arquibancada. Todos começaram a rir, inclusive a própria garota, que não acreditava que eles tinham ido tão longe para encontrar algo superincriminador.
— Venha aqui, gata, que não fingirei mais que tu és apenas uma colega – berrou um veterano da sexta fase enquanto todos riam.
— Caloura, quantos anos tu tinha quando escreveu este supertexto? – perguntou o outro veterano no palco, colocando o microfone diante da boca dela.
— Eu tinha dez anos.
O melhor amigo do Yuri da faculdade deu play, no seu notebook ligado às caixas de som do auditório, naquele funk “Chame o bombeiro”, do MC Badimbull.
“Chama o Bombeiro, veem ...
Chama o Bombeiro pra elas ...
Tá com fogo na xota, com fogo no cu ...
Fogo no fogo no cu ...”
Todo mundo foi à loucura, começando a aplaudi-la de pé. Os colegas de sala da caloura não aguentaram e se matavam de tanto rir, até mesmo o Joshua. O menino já se apavorava por imaginar o que não poderiam mostrar sobre ele, já que a Fernanda, como uma amiga de infância, devia ter muito material para isso.
— E quem você estava desejando com aquela idade, caloura? – indagou Nayara, a veterana que estava de dupla com o outro entrevistador.
— Era um professor de artes que eu tive na escola. Era muito apaixonada por ele como puderam ler aí.
— Mas ele não te pegou, certo?
— Não, ele era noivo de outra professora minha e obviamente que aquilo não passou de um devaneio da minha parte.
— Ok, ok, ok... Fingimos que acreditamos para que eu possa te perguntar outra coisa. Quantos anos tu tem, qual o teu estado civil e o que é pra ti ser aprovada no vestibular de medicina da UFSC? Economize as palavras, vamos lá!
— Tenho dezenove anos e estou solteira. Ter sido aprovada na federal é a melhor coisa do mundo todo.
— Ah, caloura! Cadê a empolgação de alguém que disse adeus ao cursinho e adeus às mensalidades das particulares?
— Ser caloura da Federal é uma PUTA HONRA! – berrou ela, e todos começaram a fazer a maior algazarra; risos, palmas, assovios e gritos.
— Tu és a caloura Melanina. Seja bem-vinda à UFSC – disse o veterano, colocando a plaquinha com o apelido no pescoço dela.
Quando ela se sentou do lado do Joshua, os veteranos anunciaram o nome do garoto. Uma veterana lhe deu um braço para se engatar e acompanhá-la até o palco. Lá, tiraram uma foto, e, em seguida, ele foi de encontro aos dois entrevistadores.
— Ah, você que é o, calouro, amigo da Fer e do japa... É isso mesmo Fernanda? – questionou a loira através do microfone.
— É este puto, sim – gritou ela, da porta do anfiteatro.
— O trote será mais pesado pra tu, calouro. Como não podia ser diferente, a gente recolheu algumas fotografias, digamos... muito reveladoras. Duas delas foram cedidas pela Fer e uma, pegamos do seu Facebook.
A primeira foto que apareceu era de quando ele ainda tinha quatro anos e estava todo banguela, até aí, tudo fofo, mas ele vestia uma fantasia de fada, cor de rosa. As pessoas começaram a rir aos berros e a plenos pulmões. Joshua não sabia onde se esconder. Olhou para a Fernanda, querendo matá-la, e ela não parava de rir.
— Explica pra gente que foto é esta e onde a Fernanda a conseguiu, pela mor da santa Inês? – perguntou o veterano.
— Esta foto foi tirada quando eu estava indo a uma festa à fantasia no primário, mas os meninos deviam se vestir de algum personagem feminino e as meninas, de um masculino. Isso para desmistificar a relação de gênero imposta à sociedade.
— Sei, sei... – disse ironicamente a Nayara.
A próxima foto era uma que estava no seu Facebook, nela estavam Bárbara, Benjamin, Yuri e ele. Os quatro estavam na excursão do colégio para a Disney no final da oitava série. Todos usavam camisetas azuis com o logotipo dos Smurfs e, ainda por cima, o calouro era o menor deles e estava com um enorme rasgo no calção.
— Japa, meu amor, me desculpe, mas não pude resistir e tive que pegar esta foto. Aliás, você já era muito bonito na época – desculpou-se Nayara. O japonês fez um sinal de positivo com os dedos.
— Só que não! – emendou o amigo do japa com o microfone. Nesta foto em questão dava para ver os dentes tortos do Yuri e o seu aparelho odontológico, de cor azul bebê, a epidemia da primeira década do século XXI.
Yuri mostrou o dedo do meio das suas duas mãos para o amigo.
— Como tiveram coragem de usar uma camiseta dos Smurfs dentro do parque da Disney? E tinha dinheiro para ir aos EUA perto da recessão imobiliária de 2009, mas não tem um short digno de andar pelo parque? Explique-nos estas dúvidas.
— A gente fez de propósito, éramos meio rebeldes naquela época. Ah, o meu calção se rasgou quando tentei dar um corridão no Pluto.
— Calouro sem noção, então – comentou o veterano.
A terceira foto era dele bebendo no Meu Escritório, no dia da comemoração pela aprovação do Benjamin. Joshua estava com uma cara de drogado, com a boca bem aberta, ao estilo mongoloide, e os olhos caídos, enquanto olhava para algo que não foi contemplado pela fotografia.
— Que nos diz sobre esta foto?
— Foi tirada com certeza pela Fernanda...
— Rã.. rã... rã... Veterana Fernanda – corrigiu Nayara.
— Pela veterana Fernanda na semana passada enquanto comemorávamos a aprovação no vestibular de um amigo nosso.
— Pra onde estava olhando?
— Não sei te dizer – respondeu, rindo.
— Pra encerrar, diga aqui no microfone qual é o seu apelido, calouro? – ordenou o veterano.
— Precoce.
— Diga a eles a sua idade e estado civil.
— Tenho dezessete anos e estou solteiro – obedeceu ele ao comando do seu veterano.
— Explique em poucas palavras o porquê deste apelido – ordenou novamente.
— Quando os meus pais se mudaram para Floripa, eu fui colocado na mesma sala da veterana Fernanda e do veterano Yuri, mas só que tinha dois anos a menos do que eles. Por esta razão, todos os meus amigos me chamam de precoce desde então.
— Sabe qual será o seu nome de batismo aqui na UFSC a partir de hoje, precoce?
— Precoce?
— Nem a pau, guri – respondeu Nayara. – Como já tem o calouro Pampers na sua turma, a partir de agora, você é o calouro Dente de Leite.
Deram play no refrão da canção Dente de leite, de quando a Eliana ainda cantava para as crianças.
Com o dente é diferente
Vem na frente, pra te avisar
Esse é o dente de leite
Que logo cai, e nasce outro no lugar
Todo mundo voltou a fazer a maior algazarra enquanto o Dente de Leite vinha se sentar.
No final da apresentação, os calouros estavam sendo novamente organizados em fila indiana e, logo, teriam que andar de elefantinho até o restaurante da universidade, que ficava pelo menos um quilômetro dali.
— Dente de leite, eu estou indo embora. Achei o máximo toda a zoeira com sua apresentação, brother. Te desejo boas-vindas à faculdade. Tu vai ver que a UFSC é o melhor lugar do mundo para se aproveitar.
— Orra, japa, eu ia te convidar para almoçarmos juntos depois do elefantinho.
— Porra, não sabia que ia me chamar. Eu estou indo à casa do Benjamin, preciso muito falar com ele.
— Beleza, manda um abração pra ele. Diga pro Ben que eu vou ligar até quarta-feira na casa dele para combinarmos alguma coisa como uma despedida pra aquele putão.
— Pô, que ideia genial, velho. Vou dizer, sim. Até depois, dente de leite precoce!
Os meninos riram.
— Falou, japinha.
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