Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
21 Capítulo vinte e um - Os fortes nunca dizem adeus
Notas iniciais
Yuri Takashi Neto já tinha perdido as contas de quantas vezes ligou para o celular e para a casa de Benjamin enquanto se dirigia para lá. Mesmo acreditando que o menino de olhos verdes não lhe receberia bem, ele queria tentar uma aproximação. O oriental estava exausto de correr atrás do outro e caso aquela visita não surtisse nenhum efeito, tinha decido que não iria mais atrás.
Estava preparado para desistir de vez daquele amor não desejado. Antes de ir à UFSC, hoje de manhã, para ver a apresentação de Joshua, Yuri ligou para a irmã e contou a ela o que havia acontecido entre os dois no final de semana. Yumi tentou colocar na sua cabeça que Ben estava ainda mais com medo do que o japa e que precisava do seu apoio para aceitar juntos o que sentiam um pelo outro.
O menino confessou que já estava preparado para lidar com este amor e que não queria mais perder tempo com a Bruna ou com qualquer outra pessoa. Mesmo não escolhendo sentir aquilo pelo amigo, Yuri estava decidido a ficar junto com Benjamin sem pensar nas consequências que viriam.
O porteiro do condomínio de Ben era um velho conhecido do japa, então não demorou para permitir a sua entrada. Ele viu que o carro do amigo estava na garagem e sorriu nervosamente. Agora tinha que ter coragem suficiente para dizer tudo que estava engasgado na sua garganta.
Bateu na porta várias vezes, porém ninguém atendeu. Pegou o celular para tentar ligar para o telefone da casa, que logo começou a tocar, e tocar, e tocar, só que ninguém atendeu, caindo na caixa de mensagem. Tentou outra vez ligando no celular de Benjamin, mas em vão. A chamada caía diretamente na caixa de mensagem.
O japonês viu no celular que ainda eram quinze pras duas, e a mãe do amigo só chegaria depois das sete, e o Miguel devia estar na faculdade. O menino não desistiu e atravessou a cerca viva do lado da garagem – o que não foi fácil, os galhos estavam muito justapostos. Conseguiu, mas com um arranhão no braço direito – para ter acesso ao jardim com a piscina. Foi até a porta de vidro, embaixo do píer da casa onde a família do amigo costumava fazer algumas refeições nos dias mais frescos, e tentou abri-la, mas em vão. Estava trancada.
Yuri colocou a cabeça sobre as mãos em coxa na superfície da porta a fim de que o reflexo no vidro não prejudicasse a sua visão do interior da casa. O andar debaixo parecia totalmente deserto, mas o de cima, estava com as luzes do corredor acessas.
— Benjamin... Benjamin... Benjamin… – chamou aos berros de tempos em tempos. – Eu sei que tu está em casa. Por favor, desça aqui para conversarmos, cara.
Yuri estava prestes a chorar, mas respirou fundo e voltou a bater na porta, com um pouco mais de força. Não queria gritar demais para evitar chamar a atenção dos vizinhos da família Furlanetto. Sentiu seu coração esmorecer quando as luzes do corredor do outro andar foram apagadas. Sabia que aquilo provava a sua teoria: o menino de olhos verdes estava lhe evitando.
O japa se sentou no pequeno degrau de madeira junto da porta já chorando copiosamente. A sua cabeça pareceu pesar toneladas quando ficou suspensa sobre os seus braços dobrados como um arco apoiados em seus joelhos. Além de chorar, gemia como se sentisse dor muscular – um som abafado e profundo. As suas lágrimas começavam a inundar o tecido da sua calça jeans.
O garoto começou a falar sozinho:
— Benjamin, por que tu está fazendo isso comigo? Eu não aguento mais me sentir igual a um lixo. Estou farto de tentar aceitar que te amo, cara. Pra que devo insistir em uma porcaria de sentimento por alguém que não dá à mínima se estou sofrendo ou se estou distante? O Engraçado é que antes de tudo isso, tu sempre esteve bem próximo de mim. Não me lembro de uma vez sequer que eu tenha que ter te ligado para me dar seu ombro amigo para chorar, sabe por quê... sabe o porquê disso, Ben? Porque tu sempre soube quando precisava de um abraço ou do seu ombro, e é disso tudo que mais sentirei falta.
Yuri fez uma pausa como se estivesse no meio de um desabafo real para tentar controlar os pequenos soluços.
— Mas pra mim já chega! Chega de tentar aceitar que estou perdidamente apaixonado por ti sem ter o retorno do seu amor. Não insistirei mais. Só que também não posso mais ser o teu amigo, não posso mais... – Ele se levantou decidido e furioso. – Foda-se você, Benjamin Belucce Furlanetto. Espero que encontre a tua felicidade seja lá aonde for, porém não estarei mais ao seu lado para vê-la. Se tiver que chorar por ti, seja por causa da minha escolha... E não por causa de pouco se importar com meus sentimentos. Eu te amo, porém isso vai mudar de agora por diante. Prometo pra você, Yuri Takashi.
Yuri saiu rapidamente do quintal, quase quebrou os galhos da cerca viva ao passar. Sentia-se profundamente irritado e magoado. Os seus olhos permaneciam cheios de lágrimas, antes de entrar no seu carro, deu uma última olhada para uma das janelas do andar de cima como se Ben estivesse lá, detrás daquelas cortinas azuis, o vendo ir embora sem fazer nada.
Fechou a porta do carro, engatou a marcha ré, virou seu carro e saiu do condomínio. Para Yuri, acabava de sair da vida do melhor amigo também. Nunca mais voltaria a procurá-lo, mesmo sabendo que sentiria aquele desejo muitas e muitas vezes ainda, até que seu coração parasse de doer ao pensar no menino de olhos verdes.
O choro só aumentou e aumentou... A dor só cresceu e cresceu... Cacos invisíveis pareciam cortar os tecidos do seu coração, tamanha a força do solavanco que lhe batia dentro do seu peito.
Yuri estava saindo do banho quando o seu celular começou a tocar, se enrolou rapidamente na toalha e correu para atender. Antes de atender viu que já eram seis horas da tarde, a chamada partia do celular de Joshua. Atendeu, abrindo a porta do guarda roupa em busca de uma cueca.
— Fala aí, meu parceiro, não me diga que estão zoando demais o Precoce, desculpa, quis dizer: Dente de Leite— disse ele todo empolgado, nem parecia que tinha ficado quase três horas chorando debaixo do chuveiro.
— Japa, preciso de contar uma coisa muito grave. Tu tens que ser muito forte para ouvir o que direi agora. – O menino do outro lado da linha tentava falar enquanto chorava. Yuri se assustou, pensou que alguém tivesse lhe agredido durante o primeiro dia da SAC. – Está me ouvindo, Yuri?
— Sim, por favor, desembuche. Não me deixe aflito aqui.
— O Pedrão morreu...! O Pedro Alcântara está morto.
De repente, o mundo ficou em um completo silêncio. E toda luz que provinha dele foi sequestrado e tudo caiu numa total escuridão e o frio tomou conta de tudo ao redor. Yuri caiu, sentado na cama, não conseguindo conter as lágrimas e a expressão de alguém que é pego de surpresa.
Como admitir que um menino de dezenove anos, que havia crescido com ele e com seus demais amigos podia ter partido deste mundo?
— Cara... – pausa com choro – Cara, como... – pausa com suspiros desesperados – como o nosso amigo mo-mo-mo... – Ele caiu num profundo choro, queria desligar.
— A prima dele me ligou agora pouco para contar a notícia, mas ainda não sabia a causa da morte – respondeu com a voz embargada. – A garota me disse que o corpo dele será trazido... – Joshua recomeçou a chorar –... será trazido para Florianópolis hoje à noite. Os pais dele foram de avião para Curitiba para liberar o corpo.
— Porra, velho, no sábado mesmo, ele estava com todos nós na festa da Báh e vamos ter que enterrá-lo agora – lamentou Yuri em prantos. – Eu amava aquele puto. Ele era o mais doido de todos nós, mas era assim que o amávamos – gemidos. – Como a gente vai saber onde será o velório e o enterro?
Joshua não respondeu de imediato, parou para pensar um pouco.
— Japa, eu tenho o contato da prima dele. Então eu e você mantemos contato, mas minha mãe me disse que talvez o corpo só comece a ser velado amanhã cedo por conta das burocracias de translado do corpo – disse com a voz embargada.
— Merda! Tenho pena dos pais do Pedro que terão de lidar com isso enquanto lidam com a grande perda – comentou Yuri, já mais calmo. – Quem mais tu conseguiu avisar? Quer que eu ligue para alguém também?
— Liguei para a Fernanda, mas ela não atendeu, acho que ela tá no happy hour da Acadêmica para os calouros. Então, depois, liguei para a Báh, que ficou de avisar o Benjamin e a Giselle. O Fred também recebeu uma ligação da prima do Pedro.
— Beleza, Joshua. Agradeço por ter me ligado, agora, vou ficar esperto aqui para quando me ligar com mais noticiais. Vou me arrumar agora e daí, qualquer coisa, eu estarei pronto para sair correndo. Abraço, te cuida.
— Valeu, meu brother, se cuide também. Abraço, até mais tarde.
Quando a mãe do japonês chegou em casa, ficou alarmada com a notícia. Nara viu aquele menino crescer e também não podia assimilar o tamanho da perda da família do estudante de direito.
Passado das uma e meia da manhã, o celular do japa tocou, era uma chamada da Bárbara. Yuri estava de vigília desde a última ligação do Joshua às nove e meia para avisar que o corpo estava a caminho de Floripa, mas que não tinham previsão para o velório.
— Alô – disse ele, inseguro. Ainda não tinha conversado com ela desde a festa que saiu sem se despedir.
— Oi, Yuri. Não vou perguntar se está tudo bem, que sei que não está com nenhum de nós. – Sua voz evidentemente estava abatida. – Estou ligando porque o Joshua me pediu, ele está sem bateria agora. Já sabemos quando é a previsão da chegada do corpo do Pedro. – A garota se engasgou. – Então, ele deve chegar à capela do cemitério da Lagoa lá pelas sete horas da manhã. O velório terá que ser feito de tarde mesmo porque ele foi encontrado morto hoje de manhã num banheiro da faculdade dele. – Ela não suportou dizer aquilo e começou a chorar demais. Arthur estava do lado dela e tentou abraçá-la.
Yuri também começou a chorar. Os dois não trocaram nenhuma palavra até que o japa pôde se acalmar, e disse:
— Bárbara, nós todos precisamos ser fortes para dar o nosso amor à família do Pedro – disse, sóbrio. – Eles precisarão demais do nosso carinho. Então, por mais que soe falso, vamos ser fortes por eles, o.k.?
— Tu tem razão, Yuri. O legista disse aos pais dele que o Pedro sofreu uma overdose pelo uso de cocaína e álcool. – Ela voltou a chorar, mas continuou mesmo sendo difícil: – O Ben está se sentindo muito culpado por não ter contado aos pais dele quando voltou de viagem que o Pedro estava se drogando com coisas muito pesadas.
Yuri não deu à mínima.
— Todos nós sabíamos e não contamos para eles. Bárbara, eu vou tentar dormir um pouco que seja para conseguir estar logo que o corpo chegar lá no cemitério. Outra vez, eu te digo: muita força para todos nós.
— Também vamos tentar fazer o mesmo. Nos vemos mais tarde, então.
Por mais difícil que tenha sido, Yuri conseguiu adormecer, mas quando acordou com seu telefone tocando, achou que tinha fechado os olhos por apenas alguns minutos, só que já era mais de sete horas da manhã.
— Alô – disse ele, meio grogue. Nem olhou quem estava ligando, apenas atendeu de imediato.
— Ei, man, aqui é Josh. Estou ligando para dizer que já estou aqui na capelinha do cemitério e o corpo dele está aqui. Faz quinze ou vinte minutos que chegou à capela. A Giselle, a Báh e o Arthur já estão aqui também.
O oriental percebeu pela voz do amigo que o clima por lá estava muito mais pesado do que podia imaginar, e ter todo o grupo de amigos reunido naquele momento era vital.
— Joshua, daqui a meia hora, eu estarei aí.
Novamente Yuri cumpriu com sua palavra, antes mesmo de meia hora, estava procurando uma vaga próxima para estacionar. Pôs seu carro na vaga ao lado do automóvel do Arthur. Ele usava uma calça e um terno preto, uma camisa branca e gravata preta.
Quando estava a poucos metros da entrada do cemitério, colocou seu celular no modo silencioso. Parou, puxou o ar lentamente para seus pulmões e entrou pelo portão. A capela ficava próximo da entrada, a frente do lugar estava cheio de pessoas desconhecidas e tinha seis coroas de flores.
O japa já sentia o mal-estar de estar indo para o velório de um amigo que conheceu quando ainda eram crianças inocentes. A Bárbara saia depressa da capela em prantos enquanto ele se preparava para entrar. Atrás vinha Arthur e Benjamin.
Quando o japa pôs os olhos no melhor amigo, sentiu asco e se voltou para bloquear a ruiva no meio do caminho. Ela lhe abraçou forte e irrompeu a chorar novamente.
— Eu não consigo ficar aqui, Yuri. Ele está lindo demais, ele está do jeito que estava na minha festa. Por que isso teve que acontecer com um menino de dezenove anos? A mãe dele está arrasada.
— Bárbara, eu também não posso acreditar, mas a gente está junto neste luto. Todos nós estamos – acalmou Yuri, afagando e beijando a cabeça da ruiva.
— Arthur, leve ela para tomar um copo de água com açúcar. Eu vou entrar para dar os meus pêsames a família dele, o.k.?
Benjamin ficou surpreso quando o japa passou por ele sem fazer nenhuma menção a qualquer cumprimento. Ele tratou o menino de olhos verdes igual a um verdadeiro desconhecido.
Yuri viu a mãe de Benjamin abraçando e conversando com a mãe de Pedro, próximas do caixão. Giselle e o namorado cumprimentaram o oriental. Depois, ele enfrentou o momento que não queria que chegasse nunca, ver o amigo dentro do caixão entalhado.
Não pôde mais conter as lágrimas, de repente, estava sentindo a mais profunda dor. Fechou os olhos e se lembrou do dia em que o amigo viu seu nome na lista de aprovados no curso de direito na UFPR.
Ele estava tão feliz, que foi o primeiro a cortar um pedaço do seu cabelo com a Gillette. Benjamin, ele, Arthur e o Fred estavam na casa do Pedro no momento do resultado. Depois, os cinco pularam na piscina do aprovado em meio aos berros.
Pôde por poucos segundos se permitir voltar a viver aquele momento mágico, só que a realidade lhe sugou a boa lembrança e lhe fez questão de mostrar que jamais voltaria a ver o moreno pulando com eles numa piscina de novo ou partilhando de outro momento alegre. Aquele era o fim para o jovem cheio de alegria.
Yuri viu Fernanda entrar na capela acompanhada por seu namorado, e quando ela pôs os olhos sobre o caixão, Yuri viu o semblante da amiga se converter em um tristonho, e as lágrimas inundarem os olhos verdes da garota. Ela começou a alisar o rosto gélido de Pedro enquanto chorava. Yuri concordou consigo mesmo que nunca tinha visto a amiga naquele estado.
Ele se cansou de ficar ali dentro por ser muito doído. Então cumprimentou alguns parentes e a mãe do amigo para poder ir lá para fora. O japa fez questão de se fazer presente naquele abraço.
— Dona Marlene, eu sinto muito, muito, muito mesmo pela sua perda – disse, irrompendo em lágrimas novamente. – Todos amavam o seu filho, ele é daquele tipo de pessoa que nasceu para conquistar todos a sua volta.
— Muito obrigado pelas suas doces palavras, meu querido. Eu sabia que ele tinha grandes e verdadeiros amigos aqui em Floripa – disse com lágrimas nos olhos, mas se esforçando para sorrir. – Fico muito triste, Yuri, por ele ter se envolvido com pessoas erradas naquela cidade em que vivia. Mas o pai dele junto com seus colegas, policiais, de Curitiba vão investigar o que aconteceu mais a fundo, e vamos pegar quem quer que seja a pessoa que vendia estas porcarias para ele.
Yuri saiu de lá com a cabeça pesada, ainda mais depois de ouvir a declaração da mãe do rapaz. Quando estava do lado de fora, Benjamin veio ao seu encontro. O japa odiou ter que lidar com aquelas duas coisas no mesmo dia.
— Eu posso falar contigo, japa?
O oriental passou reto e nem fez questão de desviar o ombro, jogando-o contra o peito de Ben. O menino de olhos verdes olhou aquilo absorto e com os olhos arregalados. Yuri se aproximou de Arthur, Joshua, Fred, Bárbara, Giselle e do seu namorado, eles estavam sentados no meio fio, apenas Arthur estava de pé encarando os amigos.
Quando se aproximou, os dois amigos se abraçaram. Benjamin ainda estava parado no mesmo lugar que foi ignorado pelo japa. Abaixou os olhos, se sentindo humilhado e bastante envergonhado. O que só mudou quando a Fernanda saiu da capela, e os dois se abraçaram.
— Por que ele teve que morrer? Eu não consigo acreditar, Ben. Precisamos todos ficar mais unidos de agora por diante. Quero pedir desculpas para tu porque eu mudei bastante desde que saí do cursinho, agora, me arrependo demais por isso. Eu te amo, amigo. Tu e os outros são as pessoas que mais amo na minha vida – o choro da garota novamente se aprofundou, levando o Benjamin com ela –, deveria ter dito ao Pedro o quanto eu o amava no aniversário da Báh. Eu tive a chance, mas fui uma filha da puta que só trocou brincadeiras com ele. Se soubesse que seria a última vez que festaríamos juntos, nunca teria saído do lado dele.
— Fernanda, não se culpe. A culpa não foi sua. Tenho certeza que o Pedro sabia que todos nós o amávamos bastante. Ele era uma pessoa incrível e cheia de graça assim como tu, menina. Não precisa se sentir um lixo. Eu não vou deixar.
O grupo de amigos se aproximou dos três. As meninas começaram a abraçar a Fernanda e tentar consolá-la. Benjamin pôs os olhos em cima do japonês, que sequer fez o mesmo. Yuri estava com toda a atenção voltada para as três garotas.
— O Benjamin, sim, é que teve muita sorte. Foi passar uma semana lá em Curitiba com ele. Devem ter aprontado bastante por lá e sempre terá isso na sua memória. Todos deveríamos ter ido junto com ele e ter feito aquela cidade se tornar pequena diante de todos nós – confessou Fernanda.
Yuri percebeu que a morte do amigo abalou mais a Fernanda do que todos eles juntos. Mas neste sentido concordava com ela, Benjamin dentre eles pôde passar alguns dias dentro do mundo que Pedro vivia e o mesmo mundo que cobrou-lhe o preço mais caro que pode existir.
— Benjamin! – gritou uma voz, fazendo todo o grupo voltar os olhos para trás. Era Sabrina, Patrícia, que estavam acompanhadas de uma menina e um menino desconhecidos dos olhos verdes. A voz era da Sabrina, que logo estava abraçada ao seu pescoço, quando foi beijá-lo na boca, ele desviou o rosto.
— Patrícia, vocês vieram lá de Curitiba para se despedirem. Esse é o gesto mais lindo que poderiam demonstrar a família do Pedro.
A peguete do Pedro abraçou o menino já chorando e disse no ouvido dele que lamentava muito mesmo a morte do rapaz.
— Pessoal, estas duas meninas aqui são amigas do Pedro, que eu tive a oportunidade de conhecer durante a minha viagem para Curitiba. Esta é a Patrícia e aquela é Sabrina.
— Olá, galera – responderam as duas em quase uníssono.
— Nós viemos com mais dois amigos do Pedro lá de Curitiba. A Bárbara e o Vinícius.
Eles acenaram para o grupo que retribuiu o mesmo gesto.
— Não acredito que ele tinha outra amiga chamada Bárbara, que honra a dele – disse Báh, sorridente na medida do possível. – Eu também me chamo Bárbara. Prazer, xará.
A outra Bárbara sorriu e disse:
— Esperto mesmo. Eu e o Vini somos da mesma sala do Pedro. Quero dizer, éramos, vai ser difícil usar este verbo no passado. – Os olhos dela se encherem de lágrimas, e Vini abraçou a namorada.
— Vocês provaram mesmo que eram verdadeiros amigos dele por ter viajado tantos quilômetros. Se quiserem eu posso levá-los para conhecer a mãe dele e o resto da família – ofereceu-se Bárbara Ronsoni.
— Por favor, a gente está com muito medo de que alguém não goste de ver estranhos por aqui – respondeu Patrícia, passando a mão no rosto do Benjamin, e acompanhando a ruiva e o Arthur em seguida.
— Foi aquela Sabrina que tu ficaste lá em Curitiba, Benjamin? – perguntou Frederico com um sorriso entre os lábios. – Ela é mesmo muito gostosa e sua amiga também não fica muito longe disso, não.
Benjamin olhou para o japonês, mas ele mexia no celular, não se importando com a conversa dos amigos. O menino de olhos verdes abaixou a cabeça e soltou:
— Foi ela, sim. Mas deixa isso para lá, o meu coração já pertence à outra pessoa agora.
Yuri sentiu seu coração explodir dentro do peito e não resistiu o desejo de encarar o amigo após ouvir aquilo. Ben mordia os lábios, envergonhado, enquanto olhava para o chão e chutava uma pequena pedra.
O japa continuou na mesma posição de antes, não sabia dizer a quem o menino estava se referindo.
— Mirou vai ter que atirar – falou Joshua, tentando levantar o ânimo dos amigos.
— Seus idiotas, não vê que agora não é uma boa hora para fazer este tipo de questionamentos? Estamos velando um dos nossos melhores amigos lá dentro, caralho – explodiu Fernanda para a surpresa de todos.
— Estava apenas tentando falar sobre alguma coisa boa e tirar a nossa cabeça deste péssimo dia – confessou Joshua, envergonhado.
— Mas só que o péssimo dia vai continuar dentro do nosso peito em todos os outros dias. Não adianta falarmos de qualquer outro assunto. Pedro vai permanecer com os olhos fechados e com seu corpo petrificado naquela caixa de madeira.
Quando a Bárbara voltou na companhia dos outros, Matheus sugeriu que eles fossem comer alguma coisa na panificadora, que ficava em frente ao cemitério. Todos aceitaram a proposta e foram em direção ao lugar.
Benjamin tentou se aproximar de Yuri, que ao perceber a tentativa avançou, colando em Fernanda. O menino de olhos verdes se sentia frustrado, aquilo já estava parecendo uma caça às bruxas. Sabia que o outro tinha motivos para odiá-lo por todo o resto da vida, porém não podia pelo menos disfarçar um pouco?
Após o meio-dia, o tempo não suportou mais a mudança de temperatura, e começou a chover em Florianópolis. O enterro começou pontualmente às duas da tarde, e teve que ser feito debaixo de tanta chuva que caía. Muitas pessoas que tinham ido mais cedo não ficaram para o momento mais terrível de todos: o último adeus.
A dor foi ainda mais forte quando o caixão começou a ser enterrado. Benjamin precisou abraçar a Bárbara e o Arthur para conseguir permanecer ali. Fernanda estava de joelhos por ter desfalecido ao terminar de ouvir o pronunciamento do padre, e seu namorado a cobria como um manto.
Yuri estava no meio de Fred e de Joshua, e eles estavam abraçados. A mãe do Pedro começou a gritar e a se chacoalhar quando o caixão já havia sido oculto pela terra. O seu marido mesmo abalado, tentava controlar a mãe desesperada. Fernanda e Bárbara não suportaram, e foram levadas pelos seus namorados para fora do cemitério.
Benjamin atrasou seus passos para esperar por Yuri, que após se despedir do pai de Pedro, deu de cara com o melhor amigo a sua espera. Mas continuou a caminhar em direção à saída, Ben começou a acompanhá-lo apressadamente.
— Yuri, hei, Yuri... – O japa estava quieto e sequer olhou para o lado. – Eu estou falando contigo, pare de agir como uma criança e me ouça.
— Que tu quer, Ben? – perguntou com rispidez.
— Posso pegar uma carona contigo para casa? Eu vim de carona com a minha mãe porque ela queria dar um abraço na Marlene.
Em todo o aquele tempo de amizade com o Yuri, Benjamin jamais sonhou ouvir da boca do outro aquilo que estava por vir logo em seguida:
— Não. Pegue uma carona com o Arthur ou com o Fred, ou melhor ainda, pegue um táxi, tu é bom com isso, não é? Ou se quiser também, vá pra puta que te pariu. Isso não é mais da minha conta, Benjamin Belucce. Isso não é mais da minha conta!
Ben parou de andar e franziu a testa, não tinha ouvido aquilo. Tudo fazia parte do pesadelo que caiu no início da noite passada. Yuri não seria capaz de tratá-lo tão friamente ao ponto mandá-lo para puta que o pariu.
— Eu fiz isso de vir de carona só para que eu pudesse conversar contigo a sós – confessou ele, alcançando o outro novamente. – Preciso falar contigo de verdade. Me perdoe por tudo que fiz – se humilhou.
Os dois já tinham saído do cemitério e iam em direção aos carros.
— Não tenho nada para falar contigo. Lembra-se de que me pediu para nunca mais te procurar? Então, meu amigo, agora, quem quer distância de ti sou eu. Me deixe em paz e vá com toda a sorte do mundo para Blumenau ou qualquer lugar que quiser – Yuri disse tudo aqui com extrema crueldade –, mas me esqueça!
Benjamin se segurou para não chorar na frente do amigo, ao invés disso deu meia volta e caminhou em direção a um ponto de táxi próximo do cemitério. Ele olhou para trás e viu Yuri se distanciando, sem sequer demonstrar qualquer sinal de arrependimento.
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