Sem Querer
1 Capítulo I
Notas iniciais
Um milhão, foi a quantidade de vezes que neguei o incansável pedido da Mariana, que insistia em me levar para a festa de veteranos.
— Não Mari, sabe que não gosto de festas. — Falei pela milionésima vez, revirando os olhos.
— Não importa, por favor, Nanda, vai comigo! — Bateu os pés, fazendo uma voz enjoada. — Imagina só se um bêbado resolve me assaltar? Eu tenho que jogar alguém em cima dele!
— E quer que eu seja o escudo? — Perguntei incrédula. — Mariana, eu já falei que não vou e ponto final!
— Fernanda, já disse que você vai e ponto final!
Correndo, ela saiu do meu quarto, gritando o nome da minha mãe que rapidamente veio da cozinha perguntando se algo grave tinha acontecido.
— A Mari é escandalosa e dramática, mãe! – Falei acalmando minha mãe.
— Tia Ananda, eu tenho uma festa muito importante para ir hoje á noite e a Nanda não quer ir comigo! — Resmungou fazendo voz de criança manhosa. — Pode convencê-la?
— Fernanda! Por que não faz companhia para a Mari? — Perguntou minha mãe. — Sabe muito bem que ela nunca te pede nada, o que é que custa fazer apenas um pequeno favor?
— Mas mãe... não é importante.
— “Mas mãe” nada! — Minha mãe virou-se para a Mari e perguntou: — Que horas será a festa Mari?
— Daqui a três horas, tia. — Mariana respondeu, com uma voz doce que ela faz sempre que quer algo.
— Ótimo! — Minha mãe bateu palmas e apontou um dedo para mim. — Tem três horas até eu pegar o carro e levar vocês, e se não estiver pronta, vai do jeito que está.
Voltei para o meu quarto, acompanhada da Mari, e peguei meu celular, discando o número do meu melhor amigo, que atende no terceiro toque.
— Danilo?
— Oi anjo, está bem?
— Sim, estou... É... Posso pedir uma coisa?
— Claro! Bom, depende.
— Pode me fazer companhia numa festa que a Mari está me obrigando a ir? Por favor.
— EU QUE SOU A COMPANHIA! — Gritou Mari. — Danilo diga que não pode!
— Vou sim anjo, que dia?
— Hoje à noite, no Bill’s daqui a duas horas e meia para ser exata.
— Hoje à noite?! Desculpe anjo, não posso ir, tenho treino daqui a meia hora.
— Ah, tudo bem então... a gente se vê.
— Beijos, te amo!
— Também te amo...
— Fernanda e Danilo estão namorando! Fernanda e Danilo vão casar! Fernanda e Danilo terão três filhos e um cachorro! Fer..._ Mariana começou a cantarolar.
Jogo um travesseiro na cara da Mari, enquanto ela pula e canta.
Quando ela vai entender que eu e o Danilo nunca, NUNCA, vamos ficar juntos? Somos apenas amigos, isso não vai mudar, e ele gosta daquela garota que ainda não sei o nome. Eles estão namorando e nenhum de nós gostaria de estragar uma amizade de 14 anos!
Além disso, eu não faço o tipo dele. Eu tenho um cabelo liso escorrido, bem preto e opaco, não vivo em salão de beleza para ficar bonita, meu corpo parece com o da vovó-zona, não sou líder de torcida, não sou popular e não chamo a atenção de ninguém! Quem, em sã consciência iria gostar de mim?
— Mari, sabe muito bem que isso não vai acontecer._ Eu disse para ela.
— Vamos ver querida Nanda, vamos ver._ Ela respondeu.
Depois de passar décadas da minha vida esperando a Mari terminar de se arrumar, ela finalmente sai, com sua saia preta, uma blusa de seda e seus saltos, entupidos de purpurina. Claro que não podia deixar o delineado de gatinho e o batom nude.
Saímos da casa e entramos no carro da minha mãe, que esperava pacientemente, por incrível que pareça.
O Bill’s não estava tão cheio como eu esperava, talvez porque ainda fossem dez horas ou as pessoas não acharam que iria muita gente e resolveram ficar em casa. Depois que a Mari me cutucou e me puxou para um local mais afastado, abrindo uma porta, eu entendi porque tinham poucas pessoas lá fora.
Todo mundo estava naquela sala, que era bem espaçosa, todos estavam divididos em grupos, onde tinha um se roçando no outro, bebendo, dançando, cantando, fazendo strip-teaser e sem dúvidas eu não me encaixo em nenhum desses grupos.
Como podia esperar, a Mari já saiu pegando bebidas para nós e começou a dançar. Agora eu faço parte de um grupo e ela de dois. Sentei em uma cadeira do bar e fiquei olhando o movimento, negando sempre que a Mari me chamava para dançar, até que ele apareceu.
Com seu cabelo loiro e seus olhos incrivelmente negros, com o andar que pode enlouquecer qualquer uma se juntar com aquele sorriso... Jorge, o aluno da terceira série do médio, mais velho, claro, chama a atenção de várias meninas, inclusive eu, que nem tenho cabeça para essas coisas.
Vi que atrás dele, vinham os seus... cães de guarda, lindos também, mas não como ele. O da direita, Marcos, olhou para mim e piscou um olho, indo atrás do Jorge. Leonardo, da esquerda, estava sério, olhando para a frente.
Dei mais um gole na bebida e pus o copo na mesa, andando até a Mari.
— Ei, vou dar uma volta por aí, pegar um pouco de ar, qualquer coisa me liga. — Falei um pouco alto para que ela escutasse. Ela apenas afirmou e eu saí.
Qualquer pessoa que olhasse para mim se perguntaria o que eu faço neste lugar, até eu mesma estou me perguntando o que faço por aqui.
Caminhei até uma parte do estacionamento onde tinham uns bancos e me sentei lá, suspirando. E aí comecei a pensar na minha vida entediante de quem faz vários nadas na vida.
— Não te avisaram que esses caras estão loucos para agarrar donzelas indefesas? — Arrepiei dos pés à cabeça quando ouvi aquela voz bem perto do meu ouvido.
— Não te avisaram que donzelas sabem se defender? — Sorri e me virei para ele. — Achei que não viria.
— Não te deixaria sozinha anjo, sei que nunca fica com a Mari. — Sorriu e deu um beijo na minha bochecha, sentando ao meu lado. — Só não entendo por que não vai se divertir.
— Não faz meu tipo. — Dou de ombros e deito, com a cabeça em seu colo. — Não ia treinar?
— Acabou mais cedo hoje. — Acariciou meu cabelo e beijou minha testa ainda sorrindo. — Vamos entrar? Quero ver como está o movimento lá dentro.
— Até você? — Levantei, rindo. — Vamos.
Esperei ele levantar e subi em suas costas, entrelaçando as pernas em seu quadril e os braços em seu pescoço. Ele segurou minhas pernas apertando e sorriu, começando a andar.
Ah se a namorada dele vê isso...
Ri com meu pensamento e apoiei a cabeça em seu ombro, sendo carregada até a parte de dentro do Bill’s.
Ele ficou andando de um lado a outro procurando a Mari, e eu, como grande ajuda, além de colocar todo o meu peso em cima dele, ainda reclamava da demora.
— Vamos Danilo, mais rápido.
Quase caí para trás enquanto balançava minhas pernas freneticamente na intenção de fazê-lo adiantar os passos.
— Fica quieta Angel. — Me segurou com mais firmeza, apertando minhas coxas com mais força. — Tenta procurar, você está mais alta.
Assenti, mesmo sabendo que ele não poderia ver e deixei minha folga um pouco de lado, curvando o pescoço para encontrar a Mari.
Assim que a vi, beijando um cara qualquer, saí das costas do Danilo, praticamente correndo em sua direção. Quão perto eu chegava, menos queria acreditar que fosse verdade.
Notei que o Danilo já estava atrás de mim e assim que viu a cena a nossa frente, automaticamente me puxou para mais perto tentando me tirar dali. Com um pouco de força (bastante força), me soltei de seus braços e puxei o braço do garoto, para ter certeza. E o pior que eu realmente tinha.
— Angel, vamos. — Danilo insistia, puxando minha mão.
— Ei Nanda! Só porque não sabe se divertir, não significa que eu não posso!
E enquanto eu e o garoto trocávamos olhares parte surpresos, parte horrorizados, ele era puxado pela Mari e eu pelo Danilo.
Finalmente cedendo, fui com o Danilo para fora da festa já sentindo meu rosto molhado das incontroláveis lágrimas que escorriam sobre o mesmo.
— Vai ficar tudo bem, tudo bem...
Era o que o Danilo repetia tentando de alguma forma, me acalmar.
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