Sem Querer
3 Capítulo III
Notas iniciais
Depois de vários e vários beijos seguidos, ouvimos alguém batendo na porta e nos afastamos urgentemente. Sentei mais para o meio da cama, com as costas na parede e ele ficou na ponta, numa distância segura.
— Pode entrar. — Dei uma última olhada para ele e depois para a porta.
— Olá crianças! — Meu pai entrou, com um sorriso de orelha a orelha. — Fico tão feliz que não tenham perdido a afinidade um com o outro! Devem continuar assim, um ajudando o outro como irmãos fazem.
— Não somos crianças pai. — Gustavo revirou os olhos.
— Não vi vocês chegando, onde o senhor estava? — Perguntei.
— Ah, nós chegamos um pouco depois que você, eu estava na cozinha conversando com sua mãe. — Veio até mim e beijou minha testa. — Estava com saudade, como vai o colégio?
— Eu também estava. — Sorri. — Ficaria surpreso se eu dissesse que continua a mesma coisa?
— Não. — Riu. — Parece que com você as coisas nunca mudam.
— Pretendo mudar algumas.
Notei que o Gustavo desviou o olhar para o teto e depois limpou a garganta olhando para o pai.
Isso mesmo, também me refiro a você.
— Então pai, nós já vamos?
— Ah, ainda não! Podem voltar a conversar. Qualquer coisa chame.
Assim que ele saiu do quarto, meu irmão veio para cima de mim novamente, grudando os lábios nos meus. O afastei e respirei fundo antes de falar.
— Isso tem que parar.
— Pode dizer por quê? — Beijou pescoço, apertando minhas coxas.
— Porque somos irmãos, Gustavo! Isso é mais do que errado.
Tentei me afastar e ele segurou meus pulsos novamente me fazendo deitar e ficou por cima, voltando a distribuir beijos pelo meu pescoço.
— E isso importa? — Deu uma mordida no meu queixo.
— Claro que importa. — Falei com a voz trêmula.
Ele parou, saindo de cima de mim e passou as mãos no rosto, suspirando.
— Desculpe. Eu sei, é errado, não devíamos fazer isso. Eu... não vou aparecer aqui de novo, não assim, ok? Mas lembre-se que já tentei uma vez e não deu certo.
Saiu do quarto me deixando jogada na cama.
Depois do jantar, coloquei um casaco e saí de casa, andando pela calçada. Os ladrilhos que antes eram prateados, agora estão num tom de chumbo por causa da chuva. As árvores chegam a parecer sombrias devido a imensa escuridão por trás das mesmas. E céu está num tom azul-acinzentado, o que dá ênfase no sombrio.
Atravessei uma rua, chegando na praça e sentei em um banquinho, cruzando as pernas. Apertei mais o meu casaco que já estava ensopado, assim como a minha blusa e short. Tirei as botas, virando-as de cabaça-para-baixo, deixando a água escorrer. Assim que saiu, me inclinei um pouco a frente, colocando novamente.
Quando olhei para frente, dei de cara com aquele cabelo loiro escuro completamente bagunçado, os olhos verdes direcionados a mim, sorriso travesso, camisa branca — Quase transparente —, o jeans escuro e tênis manchados de areia.
Fiquei olhando para o meu melhor amigo, enquanto ele se aproximava com as mãos nos bolsos, sem quebrar o contato visual. Ao invés de sentar ao meu lado, ele sentou à minha frente, segurando minhas mãos. Depositou um beijo em cada e disse:
— Oi anjo.
— Por que veio falar comigo? A vadia te dispensou por acaso? — Falei, com raiva transbordando em minha voz. Ele riu.
— Não... Estava com saudade, tenho esse direito?
— Não, não tem direito a nada! Veio lembrar que eu existo agora! Meu ex-namorado voltou e está pegando a minha melhor amiga, eu fiquei com o Gustavo de novo e você não falou comigo o dia todo!
— O assunto do Alex já resolvemos... espera... vocês ficaram de novo?! — Ele parecia assustado, como se estivesse raciocinando lentamente cada palavra dita.
— Vai ficar aí com cara de palhaço? — Cruzei os braços olhando para o céu.
— Vai ficar aí com essa marra toda?
— Desde quando se importa? – Voltei a olhar para ele.
— Desde que minha mãe me levou na casa de uma peste que me deixou louco da vida porque tinha cabelo preto e os olhos eram azuis. — Riu, segurando meu rosto entre as mãos. — Escuta, eu não deixei de ser seu melhor amigo, só estou sem tempo esses dias. Me desculpe se não posso estar presente como antes, mas prometo que vou tentar passar o máximo de tempo possível com você, ok?
— Tá bom, tá bom. — Revirei os olhos sorrindo.
— Agora deixa de ser marrenta e me dá um abraço que até agora eu não ganhei.
Ele abriu os braços fazendo bico e eu ri o abraçando. É ele pode ser um filho da puta, mas é o único que me faz sorrir quando eu estou na pior. E é o único que se eu perder, será como tirar um pedaço de mim.
— Chega, ficou meloso demais. — Me afastei. — Aliás, o que faz aqui uma hora dessas?
— Eu estava voltando para casa, aí te vi aqui.
— Vamos para casa, já está tarde. — Subi no banco, fazendo sinal para ele se levantar.
— Folgada. — Levantou e ficou de costas para mim. Pulei na mesma, entrelaçando minhas pernas em sua cintura. — Gorda.
— Pare de me dar adjetivos ruins! — Apertou minhas coxas, rindo e começou a andar.
— São só esses que tenho para você, então acostume-se. E não, vamos para outro lugar agora.
Depois de muito tempo discutindo sobre os adjetivos, nós finalmente chegamos nesse outro lugar. Praia. Quanto tempo não venho aqui? Meses? Anos? Essa não é uma praia qualquer, é a nossa praia. Onde nós assinamos um contrato de melhores amigos.
Agora sim eu podia ver perfeitamente o céu estrelado, a maré alta, podia sentir a brisa fria batendo em meu rosto, a areia quente em meus pés e ao meu lado, o Danilo, com um grande sorriso no rosto, admirado com a beleza do lugar.
— É lindo, não é? — Sorri, ainda olhando para as estrelas.
— Faz tempo que a gente não vem aqui. – Ele observou.
— Renovar o contrato? — Ele riu.
— Nosso contrato não precisa ser renovado, é permanente.
Ele ficou atrás de mim, me abraçando e apoiou a cabeça em meu ombro, depois de dar um beijo em meu pescoço.
— Qual o real motivo de ter vindo aqui? — Perguntei, fechando os olhos.
— Nós terminamos. — Falou baixo.
— E você está mal? Por que terminaram?
— Mais ou menos, foi mais pelo motivo do término.
— E qual foi?
Ele apertou mais minha cintura, fechando os olhos e respirou fundo, balançando a cabeça.
— Fala Danilo...
— Eu entrei na sala de música, para pegar o violão e.... ela estava lá. Com o Alex.
Meu queixo caiu. Jessica e Alex? Mas ele não estava com a Mariana? Será que ela já sabia?
Eu conheço o Alex a muito tempo e traição não é bem uma coisa que se encaixe nele. Uma coisa que eu tinha certeza, ele era fiel. Mas pelo visto eu estava mais que errada.
— Alex...?
— Ainda gosta dele anjo? — Perguntou, virando meu rosto para ele.
— Se vai me beijar avisa. — Virei o rosto.
— Não mude de assunto. — Virou novamente meu rosto, chegando mais perto.
— Não, não gosto. Ainda gosta da Jessica?
E aí eu me parti em mil e um pedaços. Ele me puxou mais para perto, esmagando minha boca com a sua e ficamos assim, só com os lábios colados, sem fazer absolutamente nada. Ele segurando meu rosto e eu assustada com tanta proximidade.
Então ele se afastou, abrindo os olhos e aquele par de olhos verdes ficaram me encarando por um bom tempo até que mais uma vez ele me puxou, beijando.
Foi meio estranho, não só pelo fato de que foi totalmente inesperado, mas ele é meu melhor amigo e até esse momento, nunca, nunca tínhamos nos beijado, e agora estamos fazendo exatamente isso.
Depois de um tempo, nos afastamos e ficamos nos encarando. Acho que nenhum dos dois esperava por isso.
— Melhor... Irmos para casa. – Falei.
— É, é sim...
E então eu virei as costas começando a andar e ele veio atrás, com as mãos nos bolsos.
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