Sem Piedade
1 Capítulo I - Vespa
Notas iniciais
O chão árido do local se estendia indefinidamente até o horizonte. Fissuras corriam pelo solo onde o vento não podia mais extorquir poeira, como marcas de violência que denunciavam um marido abusivo. Nenhum ser vivo, ou erva, parecia quebrar a desolação do deserto por quilômetros naquela direção, até se encontrar e imergir com o seu paralelo, o céu azul e límpido, no horizonte.
Era como um quadro: uma paisagem tão quieta e atemporal como uma pintura, feita à pinceladas ríspidas e impiedosas.
E como se viesse da sua mente após encarar aquele quadro por muito tempo, um som chama a atenção em meio ao silêncio. Um zunido baixo, distante. Logo, o som contínuo se torna alto o suficiente para que pudesse ser confirmado: era, de fato, um zunido; como um barulho produzido por um inseto ao voar.
Uma pequena e magricela silhueta então aparece no horizonte, bem onde o chão rachado encontrava o céu anil; ela cresce e se aproxima com o tempo, trazendo consigo o zunido incessante, que também cresce na mesma marcha.
Atravessando o deserto, a pequena lambreta descamava os restos de sua pintura quase inexistente em meio ao vento, guiada pelo que parecia ser apenas um garoto. O zunido era cuspido pelo motor através da lataria na parte de trás do veículo, abaixo do banco de couro desgastado que o menino nem mesmo usava; ele parecia preferir pilotar o veículo como se fosse uma patinete motorizada, de pé em cima do mesmo, como se estivesse brincando de passear com a lambreta em um parque ou na rua onde morava.
Ele não parecia estar cansado, ou aflito, em meio ao extenso e desolado deserto aonde se encontrava, e a única proteção que usava além das roupas no corpo eram os óculos de nadador apertados no rosto, sua fita de borracha atravessada na parte de trás da sua cabeça raspada.
A vespa atravessa o grande aplanado agreste até atingir o pé de uma colina, a primeira colina que se podia ver em todas as direções. Em velocidade, o veículo tenta subir parte do morro de uma vez, mas a brava lambreta é derrotada quase imediatamente pela areia e pelos cascalhos que se aglomeravam na parte de baixo, impedindo qualquer tipo de avanço.
Havia sido uma tentativa válida, mas era hora de seguir a pé até o cume.
O garoto crava suas duas botas mal amarradas — e, provavelmente, maiores do que o tamanho de seu pé — no chão pedriscoso, descendo de sua motoneta e empurrando-a morro acima consigo. Ele leva algum tempo para conseguir subir tudo, mas ele parecia ter tempo, e não parecia se incomodar muito; descer depois é que seria extremamente mais fácil — e mais divertido, especialmente na lambreta.
O gaiato de pele morena dá os dois últimos passos então finalmente no topo da colina, sendo revelado agora o panorama além dela diante de seus olhos. Ele joga o guidão que segurava com as duas mãos para o lado, deixando sua vespa cair no chão, e arranca os óculos do rosto. Aos poucos, seus lábios rachados se abrem, e um sorriso aparece.
Diante da colina estava um vale, uma depressão entre um conjunto de colinas, onde a vastidão monocromática e interminável de deserto desolado parece finalmente se quebrar, pelo menos um pouco. O próprio solo parecia tomar outra cor gradativamente morro abaixo, tendo uma terra um pouco mais escura; e dela, vegetação parecia surgir também, em forma de punhados de gramíneas, dispersas por toda a região. Com sorte, poderia haver até mesmo um cactos em algum lugar.
Porém, no centro daquilo tudo, o que havia realmente chamado a atenção do garoto lá em baixo, ao longe, parecia ser... Um prédio.
Não só um. Mais uma, talvez duas outras estruturas se mantinham erguidas junto ao prédio em meio ao terreno plano entre os montes, como se fosse um lugar secreto, um tesouro escondido em meio ao deserto.
Sob um olhar mais atento, era possível notar também que aqueles não eram prédios quaisquer; eram “ruínas”, um daqueles lugares bem antigos que tinham por aí, por toda a parte. Construções muito antigas, mais antigas que todo mundo vivo, até mesmo o pessoal mais velho. Eles dizem por aí que geralmente ninguém mora nesses lugares, especialmente os mais isolados como aquele, exatamente por serem tão antigos.
O garoto corre animadamente através do grande descampado no meio do vale, levantando poeira atrás dele ao bater suas botas afrouxadas contra o chão. Ele tenta segurar a cinta de couro atravessada no seu ombro – que segurava suas calças remendadas de cor cinza desbotado, do tipo “pula-brejo” – enquanto corre, se aproximando dos prédios e se esquecendo completamente da sua lambreta, que fica pra trás após a rápida descida com ela até o local.
Ele logo se aproxima do prédio mais próximo dos três, parecendo também ser o principal: um longo prédio retangular de dois andares, com um terraço. As paredes estavam desbotadas e, em certas partes, descascando, apesar de parecer estruturalmente sólida ainda. Haviam fileiras de janelas em ambos os andares que davam a volta nas paredes do prédio, sem vidros, iluminando a parte de dentro, aparentemente também na mesmas condições do lado de fora.
Logo, o rapazinho adentra o local correndo, desimpedido pela porta dupla da frente, já escancarada muito antes da chegada dele – e pelo que parecia, restando apenas suas molduras de metal. Ele ouve os ecos da sua própria correria atravessarem o prédio quando começa a parar, notando através dos mesmos que estava despedaçando algo abaixo dos seus pés com suas pisadas. Olhando para o chão, o mesmo nota pedaços daquele material transparente: “vidro”, ou coisa do tipo, misturado ao monte de areia que havia sido empurrada pelo vento estrutura adentro. Ele pega um pedaço do chão e começa a analisá-lo por alguns momentos, olhando através do caco de vidro enquanto aponta-o pra direções diferentes, mas logo perde o interesse e se vira para o corredor novamente, voltando a explorar o local.
Ele passa correndo por algumas portas através do corredor que levavam a largas salas, todas com várias mesas de madeira já seca, complexamente divididas em segmentos e gavetas; também havia muito lixo no chão, variando de pedaços e chapas de metal até pequenas engenhocas as quais o jovem não havia a menor ideia pra quê serviam; tudo iluminado intensamente pela luz vinda das janelas, de onde podia se enxergar todo o lado de fora.
Em mais alguns minutos de exploração, ele encontra um cômodo diferente dos outros: era uma pequena sala, até mesmo com adornos diferentes nas paredes e no chão. Elas tinham pequenas cabines com portas lá dentro, que levavam ao que parecia ser banheiros. Mas ele é surpreendido quando vê uma mina de ouro logo ali, na mesma pequena sala: uma não, DUAS TORNEIRAS ali mesmo!
O menino rapidamente tenta girar as válvulas dos aparelhos enferrujados, ambos ao mesmo tempo. Um barulho estranho vem das duas logo em seguida, mas nada acontece por algum tempo. E então, quando o menino estava para desistir, água marrom cospe repentinamente das torneiras. O jovenzinho de cabelos escuros abre um sorriso boquiaberto, enfiando as mãos debaixo de uma das torneiras, sentindo a água morna molhar suas mãos.
Ele molha seu rosto e bebe o quanto pode da água, que com o tempo fica um pouco menos turva após expelir sabe-se lá quantos anos de sujeira dos seus canos. Ele chega a brincar com ela e até mesmo molhar suas roupas todas, de propósito – algo que numa região como aquela era mais do que bem-vindo. Isso o dá mais energia pra explorar o resto daquele lugar, e logo de cara ele descobre outro cômodo exatamente como aquele ao lado, notando apenas a diferença nas portas, onde havia uma gravura de uma pessoa em uma, e outra de uma pessoa com um corpo triangular na outra.
Estranho.
O jovem acaba por explorar todo o lugar, mas não acha outras coisas mais legais além das várias torneiras que encontrou pelo local. Estando agora no segundo andar, e sem muito o que fazer, ele parece se lembrar de algo, e corre até uma das janelas, vendo o deserto lá fora e o caminho para os montes ao norte, de onde havia vindo. Ele vê o mesmo panorama atemporal de sempre, além da sua lambreta caída no meio do planado, que ele nem mesmo repara, não parecendo ser a tal coisa a qual que ele havia se lembrado. O rapazinho logo volta a caminhar por entre os móveis decrépitos, agora um pouco mais desanimado; não, entediado seria a palavra certa.
Ele se senta no chão e pega alguns papéis caídos, observando suas manchas pretas – símbolos escritos, que ele tinha quase certeza de ter visto antes em outros lugares; mas ainda assim, não podia fazia nenhum sentido deles. Ele passa então a amassar e jogar os papéis pro alto para se divertir, mas isso obviamente não dura muito tempo.
O gaiato então se levanta mais uma vez, indo até a janela de novo...
... Ainda nada.
Ele atravessa de um lado a outro do prédio, parando então em frente mais uma vez das janelas e vendo a paisagem, agora do outro lado, onde se encontravam os outros dois prédios: um bem maior que esse em que estava, e outro menor; ambos eram diferentes, e um pouco mais afastados dali.
Sem mais o que fazer, e já com a barriga cheia d’água, ele logo corre de volta para as escadas, descendo e rumando em direção, obviamente, às outras estruturas.
Ele corre mais uma vez pelo descampado, dessa vez em direção ao enorme prédio ao sudeste, alto e retangular. Era mais bem preservado do que os outros prédios, sendo possível ver sua composição de blocos de betão por baixo da pouca pintura que restava. Era possível notar janelas preservadas lá no alto, logo abaixo do telhado de metal reluzente, que também parecia preservado pelo tempo, embora ainda assim um pouco enferrujado. O garoto não consegue achar nenhum tipo de entrada daquele lado enquanto se aproxima, então logo decide dar a volta por trás do prédio pra ver se achava alguma.
Antes mesmo de achar uma porta, ele se impressiona ao encontrar um enorme rombo que havia na parede sul, tendo a derrubado quase por completo, e deixando toda a parte interna à mostra pra quem viesse daquela direção. Ele pula o pequeno murinho que ainda se mantinha de pé e atravessa os escombros da parede e parte do telhado, logo voltando a pisar sob areia, que cobria boa parte do chão pavimentado ali de dentro.
O menino passa a mão pela sua cabeça raspada até tocar o cabelo preto concentrado no escalpo, agora observando a parte de dentro do lugar: pilhas e mais pilhas de estrados de madeira e largas caixas, organizadas em fileiras que seguiam desde onde estava até o fundo escuro do lugar, aonde as paredes e o teto ainda estava intatos e impediam qualquer tipo de luz do Sol.
Ele caminha calmamente por entre as caixas – que eram maiores do que ele –, passando a mão agora pela superfícies das mesmas, que pareciam estar revestidas por um material transparente, maleável. Sem ter como ver por cima delas, ele observa o teto, e os estranhos aparelhos retangulares que se penduravam do mesmo por cabos, muitos parecidos com os que havia visto na outra ruína. Em pouco tempo, o garoto chega ao final do corredor em que estava, só pra encontrar mais corredores mais pra frente, com mais das mesmas coisas.
Em uma ideia genial, ele então escala uma das caixas, ficando de pé em cima dela para ter uma visão privilegiada do local como um todo. Porém, ele não consegue ver nada além do já esperado; todo o lugar parecia não ter muito mais do que aquilo: estrados e caixas repetindo-se continuamente de um lado a outro, como se todo aquele lugar fosse dedicado somente à isso. Ele gira seu corpo em 360 graus de maneira desanimada, em um fio de esperança de que iria encontrar algo legal, ou pelo menos algo diferente.
Seu desejo parece ser atendido, e ele nota algo meio escondido entre um dos corredores mais afastados, sendo maior do que as caixas em si. Era algo bruto, feito de metal, mas o garoto não consegue discernir muito mais do que isso. Em apenas alguns momentos, ele corre até o corredor e o atravessa até se aproximar da estranha coisa, que o deixa perplexo.
Ele nunca havia visto algo como aquilo antes.
Era um enorme engenho de metal, tão complexo e cheio de vigas e barras e peças enormes que parecia bastante ser um veículo retorcido ali escondido entre as caixas. No meio de tudo, parecia haver uma espécie de cabine, com janelas, mas essas, ao contrário das outras com vidros, eram completamente escuras. Parecia bastante com um carro, mas era robusto demais, largo demais, pra ser um; além do mais, sob um olhar mais atento, o garoto parece perceber que o engenho tinha apêndices dos lados e em baixo, parecendo...
O rapazinho se aproxima das laterais, olhando mais de perto. Ele não podia ver de nenhum outro jeito: aquilo eram braços mecânicos, com uma mão e tudo mais. Ele passa a mão pela superfície metálica do tal “braço”, também notando o estado conservado em que aquela máquina estava – melhor do que sua lambreta ou o prédio em que estava, com certeza. Ele dá a volta na "coisa" para ver a parte de trás, e vê o resto do que seria uma das pernas, significando que estava ajoelhada; ele também nota uma grande caixa tubular atrás da cabine com as janelas, que o garoto não vê nada particularmente interessante.
Ele dá voltas ao redor da "grande máquina humanoide", com os olhos cheios e passando os dedos em tudo. Não demora até que ele nota uma escada no que seria a perna esquerda do mesmo, que levava ao grande painel com o vidro escuro. O jovem curioso então sobe a mesma, mas não acha nada que pudesse indicar uma porta ou entrada, nem mesmo uma alavanca ou manivela sequer. Tudo que ele vê é o painel de vidro escuro à sua frente.
Ele aproxima o rosto do vidro, tentando enxergar algo do outro lado. O vidro era bastante escuro, mas quase dava pra notar algo lá dentro. Se pelo menos aquela máquina não estivesse no canto escuro...
O garoto bota a mão em cima dos olhos e espreme os mesmos, encostando a cabeça contra o vidro; e por um segundo, ele vê uma silhueta do que seria...
... Uma pessoa lá dentro.
No segundo seguinte, ele ouve um barulho de algo ligando, e logo a máquina se balança. Com o susto, o garoto se solta da escada e cai sentado no chão. Dali, ele vê a máquina assustadoramente tomar altura, a medida que poderosamente se levanta. Ela toma posição ereta, soltando uma lufada de fumaça e travando mecanismos nas articulações quando termina de fazê-lo.
Era enorme. Tomava mais da metade da altura daquela galpão, que era bastante alto. Depois de se levantar, a máquina permanece no mesmo lugar, parada, como se estivesse encarando o garoto, sem mover um parafuso sequer. Essa "troca de olhares" continua por algum tempo, o menino assustado demais até mesmo para respirar.
É então que o painel de vidro escuro e toda a parte da frente da cabine se abre, sendo jogado pra cima como o capô de um carro e revelando a parte de dentro. Em menos de um segundo, uma pessoa de capa e chapéu se levanta da cadeira lá de dentro e pisa na beirada pra fora da cabine, se inclinando pra fora e apontando um rifle para o garoto. Esse se assusta ainda mais, botando as mãos na frente do rosto e fechando os olhos.
— ... Alguns passos pra trás, garoto.
O menino apenas obedece, arrastando-se pelo chão arisco pra trás com as mãos. Seu coração parece que iria pular pra fora, e acelera ainda mais quando ele ousa abrir parcialmente um dos olhos, mas isso é o suficiente para notar a pessoa quem apontava uma arma firmemente para sua cabeça agora.
Logo, ele liga a voz às madeixas douradas que se penduravam por baixo do chapéu, e chega a conclusão:
Era uma moça.
Continua...
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