Sem Piedade
2 Capitulo II - No calor
Notas iniciais
O Sol se mantinha orgulhosamente erguido no meio do céu límpido, irradiando intensamente luz e calor de meio-dia. Abaixo dele estava o interminável deserto, com seu mar de areia e terra angustiada.
Recebendo o calor desgastante no meio dessas areias, se encontravam velhas ruínas do que fora um dia uma civilização.
Escondido por baixo das sombras de um telhado de alumínio enferrujado, em meio a caixas e estrados de madeira, tensão mortal cortava o ar seco, amplificado pelo acústico silêncio do enorme galpão.
O garoto de pouco mais de uma década de vida agora via seus dias contados através do cano de um rifle. Caído ao chão, ele instintivamente protegia seu rosto com as mãos, mas mantinha seus olhos abertos, fitando através de seus dedos o seu possível – e certamente incomum – carrasco: Um gigantesco robô da altura das paredes do armazém, bruto até mesmo em sua coloração cinzenta metálica, com o seu misterioso piloto – a pessoa que apontava a arma pra sua cabeça – escorado pra fora da larga cabine do mesmo. Esse piloto, por sua vez, coberto com um manto e chapéu de coloração bege, aparentava ser uma mulher – ou pelo menos era o que o garoto havia concluído.
Por ser uma situação tão surreal, mesmo com o perigo de tomar um tiro, o jovem não conseguia parar de olhar para o que havia à sua frente. Ele estava amedrontado, mas ao mesmo tempo, fascinado; ele nunca havia visto algo, ou alguém, como eles em toda a sua vida.
Ele podia ver olhos dela ao final do cano do rifle, logo acima da mira de ferro, mais anis do que o céu lá fora. Eles se moviam sem parar, procurando por coisas, ameaças, além dele no local; Sua pele... tão clara. Era possível notar que era macia e lisa daquela distância. Era possível ver isso também em suas mãos, nuas, que seguravam a arma. Ela era tão anômala que parecia ter até mesmo mechas de cabelo dourado escapando pelo chapéu.
— ... Tem alguém com você?! — Uma voz feminina, com timbre jovial, mas ainda ameaçador, sai da boca da misteriosa mulher, ecoando pelo armazém e cortando o silêncio que parecia ser eterno.
O garoto hesita por alguns instantes, mas então balança negativamente a cabeça, ainda de olhos arregalados. A moça observa o resto do galpão novamente sem mover um fio de cabelo, tão parada quanto com o robô em que estava, e então o olha novamente, da mesma maneira.
— ... Levante-se. — Ela diz, nem esperando ele acatar a ordem pra repetir-se. — Levanta.
O rapazinho se apressa, se levantando do chão imediatamente, ainda com as mãos ao alto. A atiradora desconhecida então tira a perna que usava pra se escorar da beirada, e em seguida, se senta no mesmo local. Ela acha a escada logo abaixo da cabine com um dos pés e começa a descer devagar, sem tirar os olhos, ou a mira, do garoto.
Ela aterrissa ao chão com os dois pés após uma pequena queda, expulsando poeira e grãos de areia de baixo deles com o impacto. Ela volta a segurar o rifle de madeira e ferro com as duas mãos, mirando certeiramente na testa do menino, e se aproxima dele a passos meditados e cuidadosos.
No caminho, além de olhar periodicamente para o chão, ela analisa o garoto de cima a baixo: as luvas velhas de couro; a camisa de manga longa, remendada, que um dia foi da cor branca; os óculos de proteção pendurado no pescoço; a fita de couro atravessada que segurava uma cinta, também de couro, que por sua vez segurava suas calças; a calça com bolsos "pula-brejo" e a bota de couro, mais do que usada e frouxa, desamarrada nos seus pés.
— Vire-se. De costas pra mim. — Ela ordena, também reparando no cabelo curto, completamente raspado nas laterais da cabeça do garoto e em sua pele morena enquanto ele as acata.
A moça então lentamente encosta a boca da arma na parte de trás da cabeça dele, fazendo-o engolir seco.
— ... Eu vou perguntar de novo. Não minta pra mim.
Ela diz em uma voz calma e meticulosa, como se quisesse que ele ouvisse cada sílaba, cada letra. Ele por sua vez já estava suando a água que havia ingerido tão pouco tempo atrás com toda a tensão e as longas pausas.
— ... Tem alguém com você?
O garoto novamente balança a cabeça para um lado e para o outro, tremendo.
— ... O que você está fazendo aqui, então?
Ele não faz gesto nenhum. Após alguns segundos de silêncio, a moça aperta mais a boca do rifle na cabeça dele, e então ele finalmente responde.
— ... Á... Á-Água... — Ouve-se a voz pré-adolescente.
— ... Água? Onde?
As botas do menino atingem o solo árido do lado de fora, uma seguida da outra. Ele espreme os olhos por causa do Sol forte, e logo começa a dar passos lentos até sair de trás do prédio, sendo seguido logo atrás pela mulher de manto, sua arma ainda encostada nas costas dele.
Se afastando do armazém, eles caminham até verem os dois outros prédios, e os montes ao longe que cercavam o aplanado.
— Ali. — Ele aponta para o prédio em que estava antes, sem se virar.
O menino fica a esperar a voz da misteriosa pistoleira, ou alguma reação por algum tempo. Ele sente a boca da arma sair das suas costas, e então, ouve o som da trava do rifle atrás dele.
— ... Me desculpe, garoto.
É então que o coração do rapazinho acelera. Ele respira mais forte quando ela se afasta, e parece começar a lacrimejar.
Era sua hora.
O silêncio marcava os seus últimos momentos. Ele fecha os olhos e abaixa a cabeça, uma lágrima caindo do seu rosto.
... Silêncio.
Ao abri-los novamente, ele vê o Sol escaldante mais uma vez. Seus últimos momentos pareciam estar atrasados.
O menino se vira devagar, notando que a moça estava há alguns metros dali, rumando de volta para o armazém. O rifle que segurava agora estava escondido em baixo do manto, enquanto uma de suas mãos saltava pra fora do mesmo, segurando o seu chapéu na cabeça.
Ela então se vira novamente, não mais apresentando seu semblante ou postura intimidadora. Demonstrando uma mudança até mesmo na sua voz, ela se refere ao rapazinho mais uma vez, de longe:
— O sol está quente. Você deveria sair daí.
Ele fica momentaneamente paralisado, completamente surpreso, sem saber o que aconteceu ou como reagir.
No meio do calor intenso, ele repensa o que havia acontecido momentos atrás, quando ela pediu desculpas, e então parece entender o engano que havia cometido: O som da arma era dela travando-a de volta, e não o contrário.
Até agora, o melhor engano de sua breve vida.
Continua...
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