Sem Piedade

3 Capitulo III - Holywood


Notas iniciais
Tenham uma boa leitura.

Um par de coturnos pretos atravessam o pavimento do armazém. Como um fantasma do passado que assombra um local decrépito, a misteriosa pistoleira de manto até as coxas retorna até a enorme estátua humanoide em meio às caixas, o seu robô, ainda parado no canto do local. Não muito distante dali, se escondendo atrás das caixas para não ser visto, o menino volta também naquela direção, observando de perto a moça.

Ela retira o seu chapéu e sobe as escadas do robô, retornando pra dentro da cabine lá em cima. A cabine de piloto em si parecia ser bem espaçosa; tanto ou mais até do que um veículo comum como um carro.

A moça adentra o compartimento e parece procurar por algo lá dentro, se abaixando frente à confortável cadeira acolchoada para procurar algo por baixo do que deveria ser o painel de controle do maquinário. Mesmo com a "porta" ainda aberta, suspensa ao alto, e com a relativa luz dentro do galpão, as paredes de dentro da cabine conseguiam ser totalmente escuras, como se quisessem realçar o piloto – ou, muito pelo contrário, como se quisessem ajudar o painel de vidro escuro a esconder a identidade de quem estivesse lá dentro.

Quando ela encontra o que queria, a pistoleira pendura o seu chapéu em um pequenino gancho numa das paredes laterais da cabine e volta-se para fora, pulando o painel e se sentando na beirada, com as pernas pra fora; assim, o menino, que a observava o tempo todo, finalmente tem a visão completa da surpreendente figura da moça que ele havia encontrado ali, no meio do nada.

Ele não estava delirando: Era realmente uma moça, e jovem também; obviamente mais velha do que ele, mas ainda assim, parecia bastante jovem, até mesmo pra uma adulta. Não havia uma ruga sequer em seu rosto.

Sem o chapéu, era possível notar também que ela tinha cabelos curtos, até o pescoço, puxados pra trás da cabeça e dos ouvidos. A cor deles era exatamente como ele havia os visto: dourados, só que eles escureciam perto da raiz. A cor dos olhos e pele também eram exatamente como se lembrava dos momentos tensos que a viu pela primeira vez: azuis e clara, respectivamente.

Era difícil acreditar, segundo os pensamentos do jovem, que sendo tão diferente – e com algo tão intimidador e poderoso como a máquina a qual estava sentada agora –, que alguém como ela precisaria de um rifle para se proteger. Mas quando ela joga seu manto pra trás, revelando seus trajes, ele logo vê que a realidade é outra.

Por baixo do manto bege, uma peça de roupa só parecia tomar conta de todo o seu corpo: um macacão-jeans não muito solto no corpo, desgastado, de manga longa e completamente fechado, saindo de dentro do coturno dela e indo até o pescoço. Por cima disso, ela usava vários adereços de couro, tanto pra utilidade quanto proteção; longos braceletes de couro batido e cintos cheios de bolsos, o mais óbvio sendo um atravessado na cintura, que segurava um coldre caído na coxa esquerda. Nesse coldre, havia claramente um revólver, além do rifle de repetição nas costas.

Somente depois que ele analisa a figura da "garota de outro mundo" por completo é que ele nota o equipamento que ela havia pegado da cabine, agora em suas mãos: Um aparelho retangular, parecendo uma caixa meio fina de metal, no qual ela girava e apertava botões.

Desconhecido para o menino, a pistoleira de cabelos dourados olhava para uma tela no meio dessa "caixa", que na verdade era um aparelho eletrônico; algo tão incomum e raro quanto a própria moça, ou o robô no qual estava sentado — provavelmente até mais.

Esse aparelho, além da tela no centro, continha diversos botões e potenciômetros, fazendo-o parecer uma mistura de um controle remoto de algum brinquedo com uma televisão antiga.

Na pequena tela preta, aparecia uma série de linhas de texto, do canto superior esquerdo pra baixo:

"workpad series boot

version
2.5600 mar 25 210

welcome,
user: THUNDER_JENNY


please put in your password:

> ***_ "

Ela continua a girar e apertar os botões, mexendo no aparelho ininterruptamente, enquanto o garoto continuava a observá-la de longe, de trás de uma caixa, tentando entender o que a moça fazia.

Após algum tempo, ela repentinamente se levanta, ficando de pé na beirada da cabine, e apontando o aparelho para o céu. O menino olha para o telhado do lugar, procurando para onde ela apontava a coisa, mas não encontra nada; na tela dela, porém, aparecia o que parecia ser um mapa, sendo atualizado em pedaços.

— Que lugar é esse? — Se indaga a moça com uma voz baixa, audível só pra ela mesma.

A piloto então pula da cabine em direção ás caixas, começando a andar por cima delas, ainda olhando para a tela. A cada distância específica que ela percorria, um novo pedaço do mapa parecia atualizar; sua posição no mapa, porém, indicada por um triângulo colorido, parecia ser bem menor que os pedaços de mapa que apareciam.

Assim, sem andar muito, ela parece mapear todo o prédio em seu aparelho. Entretanto, seu rosto toma um semblante decepcionado, como se algo que ela esperava não estivesse ali.

Abaixando o aparelho da frente do rosto e agora analisando o local com os próprios olhos, a jovem loira olha para baixo e fita as caixas em que andava, notando logo em seguida o rapazinho, ainda no local, tentando dar uma espiada no aparelho lá de baixo. Quando ela se vira para ele, ele se afasta um pouco, ainda olhando-a desconfiadamente, mas com a cabeça levemente abaixada.

Após alguns segundos pensativa, a moça então guarda seu aparelho de algum modo na parte de trás da cintura e pula da caixa para o chão, em frente ao garoto. Ele se afasta ainda mais.

— ... Ei, garoto. Você quer me ajudar a tombar essa caixa pra lá?

O garoto então olha pra caixa. Ele pensa um pouco, mas acaba balançando a cabeça negativamente.

— ... P-Por que eu iria querer te ajudar? — Ele responde de maneira audaz.

— Justo. Mas de acordo com você mesmo, você não veio aqui por minha causa. — Ela escora uma das mãos na cintura. — ... E eu não vejo nenhuma caixa aberta por aqui, o que significa que você também não abriu nenhuma delas até agora.

— Eu não disse que queria abrir caixa nenhuma. Chame o seu grande robô estúpido. — O garoto retruca, fechando o rosto e os braços.

— Tem certeza? Eu notei que você é bastante curioso... Olhando pra mim de longe, escondido aí... — Ela se escora na caixa. — ... A gente pode descobrir o que tem aqui dentro, e eu posso dividir com você... Meu “grande robô estúpido” provavelmente não vai precisar do que tiver aqui.

O menino volta a ficar pensativo. Ele pensa em recusar novamente, mas a esse ponto, não havia razões para fazer isso; e além do mais, ela estava certa. Ele realmente queria saber o que tinha dentro daquelas caixas.

O rapazinho então concorda com a cabeça, ainda meio emburrado e de cabeça baixa.

— Sim? Ok! Vem cá então. — Ela abre um sorriso e o chama com um gesto, deixando de se escorar na caixa e se agachando em frente à mesma. — Pega aqui por baixo dela e a gente vai puxar pra lá, tá bom?

Ele se aproxima cuidadosamente da misteriosa moça, seguindo as instruções da mesma. Os dois se entreolham, e numa contagem até três, os dois puxam aquele lado da caixa pra cima. A caixa era de um tamanho considerável, então eles põem esforço, mas eventualmente eles conseguem levantá-la até o ponto necessário para que ela tombasse por conta própria.

A caixa tomba lentamente e cai do outro lado, causando um eco com o seu impacto e levantando uma onda de poeira, tanto do chão quanto da própria parte superior da caixa em si. O garoto rapidamente corre até o outro lado, esperando ver o interior da caixa, mas a boca da caixa ainda era selada pelo material transparente que cobria todas as caixas daquele armazém. Quando ele olha pra trás, ele nota a moça retirar uma enorme faca da sua cintura enquanto vem na sua direção, alarmando-o momentaneamente e fazendo-o andar pra trás.

— Não, calma, calma! Eu não vou machucar você! — Ela põe as mãos ao alto. — A faca é pra cortar o plástico!

O garoto parece não entender ao que ela se referia, então ela vai até a boca da caixa e faz um corte no plástico de cima a baixo – pois ela sabia o que era –, rasgando o mesmo e fazendo o peso do conteúdo da caixa saltar pra fora.

Ambos veem uma montanha de papelada colorida cair entre os pés deles.

Era um monte de páginas impressas coladas umas às outras, em grupos. De primeira, pareciam ser um monte de livros. Mas aqueles "livros" eram diferentes dos quais o garoto havia visto antes. Não era um monte de papeis brancos só com letras e símbolos pretos que ele não podia reconhecer; eram páginas todas coloridas, com impressos de pessoas, lugares, todo tipo de coisa, até mesmo na capa!

Os olhos do menino se enchem com os impressos, como se tivesse acabado de encontrar um baú cheio de ouro dentro, e ele logo pula em cima dos mesmos. Para a moça, entretanto, não parecia ser algo que ela nunca havia visto antes; ainda assim, havia sido uma surpresa pra ela, e pelo menos por alguns instantes, ela reagiu dessa maneira, antes da decepção lavar o seu rosto.

A atiradora se agacha, pegando uma das publicações impressas e vendo sua capa, onde tinha uma mulher loira, de roupas limpas e elegantes, com um homem vestido de terno. Os textos na capa descreviam os nomes dos dois indivíduos, falava sobre "celebridades", de "casamento" e de um lugar chamado "Holywood". Havia diversas cópias dessa mesma publicação, e de mais outras publicações caixa adentro.

Ela então levanta o rosto e observa o garoto, percebendo o quão incrivelmente fascinado pelas publicações ele estava.

— ... Tiramos a sorte grande, hein? — Ela fala olhando para o garoto, com um sorriso de canto de boca e ironia que o rapazinho certamente não entende.

Ele continua a observar cada página do impresso, sem mesmo olhar pra moça loira, ou teme-la.

— Uou... Metade disso é meu? — Ele parece se dar conta ao observar a papelada no chão.

Uma risada então escapa da boca da moça, que continua a olhá-lo com um sorriso.

— ... Quer saber? Minha metade não vai caber no meu robô. Pode ficar com tudo.

— Sério?! — Ele fica boquiaberto. — Obrigado, dona!

— “Dona” não... Você pode me chamar de Jenny. — Ela retruca, simpaticamente. — E o “grande robô estúpido” ali se chama Thunder.

— ... Thunder? — O garoto tira os olhos do monte de papelada por um segundo, vendo o robô ao longe.

— Isso mesmo. — Ela faz uma pequena pausa. — E o seu?

— ... Meu nome é Jace.

— Jace? Nome legal, Jace.

Ela estende a mão para o jovem, esperando um aperto de mão. O garoto, após alguns segundos olhando pra sua mão de maneira desconfiada, a segura, sem saber muito o que fazer. Ela logo em seguida balança a mão dele.

— ... Prazer. Então, que tal você me mostrar aonde você disse que tem água por aqui? Estou morrendo de sede.

O garoto acena com a cabeça, abrindo pela primeira vez um sorriso tímido para a moça.

Continua...