Sem Piedade
4 Capitulo IV - Ao acordar
Notas iniciais
Cores vivas. Flores e plantas. Vestidos brancos. Pessoas sorrindo. Taças borbulhantes. Buffet.
Pequenas mãos sujas seguravam uma antiga e exótica relíquia, uma raridade do passado: Uma revista.
Debruçado em cima da mesma, mergulhado em suas páginas coloridas, estava o curioso garoto da vespa, sentado em uma comprida mesa de metal; ele estava em uma sala igualmente comprida, com mais dessas mesas metálicas, todas distribuídas igualmente nas laterais do lugar. Todas elas eram soldadas junto com os bancos, como uma única peça de mobília, permitindo que o “jovem explorador” pudesse escorar os seus pés no conjunto de barras de ferro em baixo das mesmas. Ao seu lado, havia uma pilha de revistas antigas parecidas com aquela, também em cima do banco, tragos pelo próprio rapazinho.
Jace, como era seu nome, viajava nas figuras da revista e no mundo que ele nunca chegou a presenciar; um mundo estranho, mas aparentemente agradável — afinal, todo mundo sorria naquelas gravuras.
E eles eram todos bastante limpos também. Todo mundo tinha todos os dentes, e eles eram mais brancos do que qualquer outra coisa que já viu antes!
Não havia terra, ou areia, ou nada que indicasse o mundo que ele conhecia. Muito pelo contrário: Tudo era novo, e arrumado, e colorido. Tantas cores! Também haviam muitas do que pareciam ser árvores; mas não as árvores que conhece, mortas e assustadoramente pontudas em cima. Aquelas eram árvores agradáveis, com muito, muito verde em cima, dominando algumas gravuras e fazendo breves aparições em outras, até mesmo no meio de enormes construções.
Ele já havia ouvido falar de árvores assim antes, mas dizem que elas existem apenas em um lugar específico:
"Deve ser uma daquelas 'Selvas' que todo mundo fala por aí...", pensa o garoto.
Levantando a cabeça por um momento e saindo daquele mundo, ele volta ao mundo dele, podendo enxergar o enorme contraste entre ambos logo à sua frente: a sala aonde Jace estava agora tinha um painel inteiro de janelas, sem vidro, por toda a extensão da parede oposta à qual ele estava – o que só podia significar, portanto, que ele estava de volta ao prédio de dois andares, cheio de janelas e torneiras de antes.
E assim como em qualquer outro cômodo do prédio que tivesse janelas, dali era possível enxergar quase todo o vale lá fora naquela direção. Jace podia ver os montes ao fundo do longo aplanado de terra e areia, e parte do céu do dia, ainda claro como nunca. Ele passa algum tempo olhando para fora da janela, inspecionando a região com os olhos, procurando por algo diferente mais uma vez.
A única coisa que parecia roubar a atenção de um observador era a Vespa, esquecida pelo próprio garoto no meio do campo. Ela estava caída ao chão, solitária e inchada de tanta exposição ao Sol, sendo possível notar as linhas de que ar turvo que flutuavam logo acima dela por causa de todo o calor irradiado.
Porém, o seu dono mais uma vez não prestava a mínima atenção nela. Ao invés disso, o rapazinho analisava a região onde o chão e o céu se encontravam: o cume dos montes, aonde havia subido quando achou o lugar.
Nada lá, entretanto.
Toda a paisagem lá fora parecia, como sempre, como observar um quadro: até mesmo em um lugar como aquele, com um pouquinho mais de vida, tudo ainda parecia imutável, atemporal. O mundo parecia se congelar no tempo, e até mesmo o Sol parecia brilhar há uma eternidade lá em cima, a noite anterior sendo apenas uma vaga lembrança no passado – assim como as gravuras da revista.
Mas no fundo, ele sabia muito bem que aquela sensação de imutável, do mundo estar congelado no tempo, era na verdade apenas uma ilusão.
Ele acorda de sua reflexão quando sons de passos e algo batendo surgem no corredor ao lado, e volta a olhar para as revistas. O som vai se aproximando até culminar na aparição da misteriosa pistoleira loira, no lado direito distante da sala, aonde havia a porta.
— Ei, garoto... — Ela chama o garoto enquanto vai adentrando o local, ainda fazendo os barulhos ao andar. — ... Você disse que bebeu água foi daquelas duas salinhas uma ao lado da outra, cheia de portinhas e tudo mais?
— Aham. — Ele responde inocentemente.
— ... Jace, você não pode fazer isso. Aquele é o banheiro. — A moça para, olhando-o com um olhar repreensivo. Ele levanta o olhar pra ela de novo.
— ... E daí? — Ele retruca, confuso.
— E daí que é o banheiro. Você não bebe água do banheiro; você... Mija e faz outras coisas nojentas lá.
— Então por que eles colocaram torneiras lá?
A mulher autointitulada “Jenny” não responde o garoto, abrindo apenas um sorriso de canto de boca e voltando a atravessar as mesas pelo meio da sala, se aproximando de onde o garoto estava. Dá pra ver então que ela carregava na mão direita um galão de plástico, com duas cordas amarradas na asa dele: uma amarrada à própria tampa do galão, e outra amarrada a outro recipiente de plástico menor, que batia na lateral do galão vazio enquanto ela andava.
Ela passa a mesa do garoto e vai até uma pequena área na parede oeste da sala, separado do resto do lugar por um pequeno murinho. Era como uma cozinha, com armários, pia, fogão, e até mesmo uma geladeira, essa última tendo um revestimento metálico igual ao das mesas. Não demora nem um pouco pra atiradora concluir que aquela sala era um refeitório, especialmente pelo formato das mesas.
— ... Você abriu isso aqui? — Ela pergunta ao rapazinho, apontando para a geladeira.
— Não.
— Ótimo. Você também não deveria comer nada de dentro dessas coisas em lugares como esse. Tudo deve ter estragado... Séculos atrás.
Ela coloca o galão azul em cima da pia, e abre a torneira que estava lá, acontecendo a mesma coisa quando Jace tentou abrir as outras torneiras do local: nada de água, apenas barulho por algum tempo. Enquanto isso, a jovem loira abre o galão e desamarra o outro recipiente de plástico, um simples copo de plástico duro.
Quando a água finalmente espirra pra fora da torneira, ela sai mais do que só com sujeira. Jenny vê um inseto ser cuspido pra fora da torneira junto com a água toda suja, que acaba sendo arrastado pela enxurrada pra dentro do ralo da pia. Fazendo cara feira, ela deixa a água correr por um tempo, até que os canos fossem bem limpados.
— ... Jenny? — Chama o garoto.
— Sim? — Ela vira-se para ele, de trás do murinho da cozinha do local.
— Quantos anos você tem?
Ela o fita suspeita, franzindo as sobrancelhas e empinando o nariz.
— ... Por que você quer saber? — Indaga a moça, com o copo de plástico em mãos.
— Sei lá... — Ele desconversa, momentaneamente intimidado pela mesma. — ... Só queria saber.
— Hmm. — Ela se vira novamente pra água da torneira, esperando clarear. — ... Mais velha que você, com certeza.
Jace volta a olhar para a terceira revista em suas mãos, em que havia uma moça loira na capa. Ele olha de novo para Jenny, agora de costas, e repete a ação mais algumas vezes, como se estivesse comparando as duas. Após algum tempo, ela finalmente começa a mexer com a água da torneira, lavando primeiramente seu copo e logo em seguida lavando o interior do galão rapidamente. Quando ela termina, ela enche o seu copo com água e bota o galão debaixo da torneira, deixando encher.
A piloto então retira seu aparelho eletrônico de trás do seu cinto e caminha até a mesa mais próxima, a que estava frente à mesa de Jace, se sentando no banco do lado contrário do da parede, evitando o Sol que batia da janela. Ela então se vira pro lado de fora do banco, ficando de frente para o garoto e escorando suas costas relaxadamente na quina da mesa de metal, enquanto mexe no aparelho e toma um gole da sua água.
Em um breve silêncio que se segue, Jace observa o aparelho no colo da moça, ainda curioso para saber o que era aquilo. Ele logo indaga:
— ... Jenny?
— ... Sim, Jace? — Ela responde, sem olhar pra ele.
— O que que é isso ai que você tá mexendo?
— Isso aqui? — Ela levanta brevemente o aparelho, voltando a olhar pra ele. — É um aparelho eletrônico.
— Ah... — Ele responde com certo fascínio, com a boca entreaberta, fazendo uma breve pausa. — ... O que que ele faz?
— ... Ahm... Esse daqui... É como se fosse um livro; Eu leio coisas nele, tipo isso que você tá segurando.
— Ah... — Ele faz o mesmo som de antes, com a mesma pausa em seguida. — ... Então por que o seu é diferente do meu?
— ... Bem... É tecnologia antiga. — Ela retruca, olhando-o rapidamente. — ... Se bem que, tecnicamente, o seu também é... É complicado demais.
— Ah... Tá bom.
O silêncio volta. Jenny volta a observar a tela do aparelho, vendo mais uma vez um mapa, como antes, mas agora do prédio em que estava, esse totalmente atualizado. Ela mexe em um dos potenciômetros do equipamento, que lentamente diminui o zoom e logo aparece o mapa parcialmente completo daquela região.
Um ícone quadrado, com um "i" dentro dele, aparecia no meio do mapa incompleto, em cima do prédio em que estava e do lado do triângulo que indicava a sua posição.
— ... Oh! — Ela parece surpresa, abrindo um sorriso e colocando seu copo em cima da mesa, agora mexendo no aparelho com as duas mãos, enquanto o inconspícuo garoto só observava. — Finalmente...
Jace fica no mistério, vendo apenas o rosto e os olhos azuis claros da moça focados na pequena tela do equipamento, assim como ele estava focado nas revistas até pouco tempo atrás. Ele novamente troca olhares entre a mulher da capa da revista e ela, agora focando-se no seu rosto.
Depois de algum tempo, Jenny parece voltar a apertar os botões com menos frequência até parar completamente. A jovem loira então se pronuncia:
— É um escritório...! — Ela diz, com fascínio, levantando as sobrancelhas e o rosto para o garoto.
— ... Hã? — Ele não entende nada. — ... O que que é o quê?
— Essas ruínas. Costumava ser um escritório... — A piloto olha para o lugar. — ... Pessoas trabalhavam aqui. Eles vendiam essas revistas.
— Ah... — Ele faz a mesma reação de antes.
— ... Só achei que você quisesse saber também, já que você é tão curioso. — Ela fala ao se levantar, bebendo o resto da água do seu copo.
A moça vai até a pia, pegando seu galão que agora transbordava de água, fechando a torneira e tampando-o novamente.
— Enfim, agora eu deveria conseguir sincronizar minha localização com os antigos mapas... — Ela começa a falar consigo mesma.
O garoto não prestava atenção. Ele tomava toda dose de coragem que podia, especialmente após perguntar a idade dela, para fazer aquela próxima indagação.
— ... Jenny?
— ... Sim, Jace. — Ela responde, preocupada em fazer a suas coisas.
— Você é... Ahm... Você é do passado?
A moça ri, se virando pra ele mais uma vez.
— O quê? Se eu sou do passado?!
— D-Desculpe. Deixa pra lá... — Ele abaixa a cabeça, se focando novamente nos impressos.
— ... Oh. É por isso que você me perguntou quantos anos eu tenho? — Indaga a piloto loira, pegando o galão agora cheio e voltando-se para as mesas.
— ... É só que... Você se parece tanto com ela. Todos eles. — O rapazinho retruca, ainda olhando pra revista na sua mão.
Jenny fita a revista, colocando o galão em cima da mesa e guardando o seu aparelho. Ela então vai até o garoto e se senta na frente dele, estendendo o seu braço até a revista.
— Deixa eu ver. — Ela pede gentilmente a revista, sendo entregue à suas mãos de imediato. Ela olha para a mulher loira de calça jeans e blusa colorida na capa, analisando-a de cima a baixo. — Hmm. Meio que parece mesmo.
— ... Eles falam que as ruínas são lugares muitos antigos. Eu achei você aqui, e você tem todas essas coisas antigas, e você se parece tanto com essas pessoas desses livros antigos...
Ela balança a cabeça, com um sorriso contido.
— ... Você não me “encontrou” aqui, Jace. Você só me acordou.
— ... Eu... Acordei você?
— ... Aham. Eu estava dormindo quando você se aproximou do Thunder, que também estava “dormindo”, e aí você acordou a gente. Foi por isso, aliás, que eu reagi tão agressiva. — Ela faz uma pausa. — ... Eu não moro aqui.
— ... Ah. — Ele responde, olhando-a ainda mais curioso. — Então... Onde você mora?
Ela se levanta, ainda sorrindo.
— ... Você realmente é curioso, sabia disso? Especialmente pra um garotinho que eu não sei nada. Eu devia parar de te contar tanta coisa.
— Mentira. — Ele retruca rapidamente. — Eu te contei que meu nome é Jace, e... Onde ficava as torneiras!
— Ah, é...?
Com mais algumas risadas contidas, sem barulho como sempre, ela se vira e vai até o seu galão de água, levantando o rosto para observar o panorama lá fora. Quando seu olhos azuis claros se travam no que estava lá fora, porém, ela para imediatamente, e sua expressão desaparece tão rápido quanto o seu coração começa a bater naquele instante.
Em uma reação de meio segundo, ela agarra seu galão de água e se abaixa, saindo da visão da janela e do jovem. O rapazinho fica intrigado e se inclina pro lado, vendo a parte de baixo das mesas e a moça abaixada ali.
— ... O que est--
Jace se cala imediatamente quando vê a atiradora fazer um gesto de silêncio com o dedo, com o mesmo rosto nervoso e intimidador que ela tinha quando ele a viu pela primeira vez.
Ela deixa o galão no chão e ainda agachada, ela atravessa em velocidade a sala, se aproximando do garoto e praticamente arrancando-o do banco da mesa ao puxá-lo pelo colarinho da sua camisa pra fora da mesa.
Jenny mais uma vez faz o sinal de silêncio para ele, ainda o puxando pela camisa logo atrás enquanto ela volta a se mover pro outro lado do refeitório, ambos então se recostando na parede logo abaixo das janelas. O garoto continuava confuso e agora um pouco amedrontado, olhando-a constantemente, como se procurasse por algum sinal do que estava acontecendo ali nos olhos dela.
A piloto parecia se focar em tentar escutar algum som, sem querer levantar a cabeça pra olhar. Quando ela olha para o rapazinho mais uma vez, e percebe o olhar dele, ela sussurra algo muito brevemente, uma única palavra, que ele lê nos lábios dela perfeitamente:
“Abutres”.
Do lado de fora, no meio do extenso campo, duas botas se firmam em frente à lambreta de Jace. O homem sem camisa e com proteções escuras nos ombros se agacha, fitando o pequeno veículo de cima a baixo, deixado ali no meio do aplanado.
Logo, um assovio perto dali chama a sua atenção, e seus olhos miram em um outro individuo de vestimentas parecidas, que apontava para o prédio de dois andares ao longe o qual as outras três pessoas do grupo já rumavam em direção.
Ele se levanta novamente, tampando os olhos do Sol com o pulso da mão que segurava um revólver, para poder enxergar melhor o prédio na distância. Ele abre um sorriso, e em plenos pulmões, ele grita:
— JAAACEEE!!!
Continua...
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