Sem Nome (ainda)
1 Capítulo 1
Eu simplesmente não consigo parar de balançar meus pés. É como se eles tivessem vida própria, indo pra cima e pra baixo numa velocidade um tanto quanto... ansiosa demais. Algumas pessoas roem as unhas, eu balanço meus pés sem parar.
Se fosse só isso ainda estava bom. Mas eu estou suando. Coloquei meu melhor blazer, um do estilo daquelas garotas da TV. Eu o escolhi por que ele parece sério, mas ao mesmo tempo moderno e cobre exatamente as partes que não gosto (minha bunda do tamanho de duas bolas de pilates) e molda as partes que quero (minha cintura – o que faz eu parecer mais magra).
Me arrependo um pouco de não ter vindo usando salto alto. Minha maldita mania de escolher o conforto e não o estilo. Conforto nunca anda de mãos dadas com a moda, então estou usando uma sapatilha, que não é feia, mas que agora parece infantil demais. Todo meu esforço de parecer séria e moderna foi por água abaixo com essa sapatilha que grita “Olhe pra mim, nunca fiz isso e sou uma amadora, não me contrate.”
Esses pensamentos só fazem com que eu soe mais. Posso sentir minhas costas grudando no tecido do blazer e espero que não esteja formando uma mancha gigante.
E quem adivinharia que nos Estados Unidos pode fazer tanto calor assim? Parece que estou no Brasil, em pleno verão. Estou sentada no lobby de um hotel bacana no meio de Hollywood, e lá fora deve fazer uns trinta e oito graus.
Mas não estou soando de calor, estou é soando frio.
Aqui dentro o ar condicionado está a toda potência, o que faz com que tudo tenha aquele clima que gosto: Impessoal, quase hospitalar... não, não que eu goste de hospitais! Não sou uma esquisitona. Eu só gosto desse clima de ar condicionado... Droga. Até meus pensamentos estão embaralhados. O que vai sair da minha boca assim que alguém aparecer para me entrevistar? Se eu falar alguma besteira, eu vou estar fora, e não posso perder essa oportunidade. Não posso.
Tento repassar todas as respostas padrão na minha cabeça – meu maior defeito é ser muito organizada e querer que as coisas sempre saiam da minha maneira (o velho truque de dizer um defeito que é uma qualidade. Espero que caiam nessa.) e minha maior qualidade é, segundo meu amigo Thomas, não me importar que ele sempre coma o último rolinho primavera (mas acho que essa qualidade não vai contar, então ficarei com a dica do Inácio, que falou para eu responder “ser muito concentrada e responsável”). O que faz com que eu seja qualificada para esse trabalho é o fato que eu ... Opa. Tem alguém vindo.
Um homem baixo, de não mais que um metro e meio, careca e que, não surpreendentemente, está suando mais que eu (o que faz com que grandes manchas de suor apareçam no seu terno cinza, bem nas axilas e na barriga bem avantajada).
Ele me lembra daquele ator, o Danny Devito, e tenho que me segurar para não rir. Eu sei que é só o nervosismo, por que não tem graça nenhuma ele ser parecido com o Danny Devito. Talvez ele também esteja segurando o riso vendo uma garota usando sapatilhas e suando como ele parada aqui. Depois de parar na recepção, ele vem em minha direção quando o funcionário do hotel me aponta. Então, esse deve Rick Robson, o empresário. Só nos falamos por e-mail, quando me candidatei para a vaga de assistente e enviei meu currículo em anexo, e ele respondeu marcando uma pequena entrevista nesse hotel.
Eu me levanto, e ele tenta sorrir, mas posso ver que ele está apressado, e por isso não vamos ter muito tempo para amabilidades do tipo nos apresentar e falar sobre o calor ou sobre o quanto o hotel é bonito, ou qualquer superficialidade do tipo conversa-entre-dois-estranhos.
Ele me aponta a poltrona, um sinal para eu me sentar novamente, e tira um lenço do bolso, passando pelo rosto. Ele está suando de verdade, e grossas gotas de suor escorrem pelo seu rosto, pelas suas costeletas.
–Boa tarde senhorita Pinheiro. Peço desculpas pelo atraso, mas você sabe como são essas coisas. – Não, eu não sei, mas não posso contar isso pra ele. Rick tem que acreditar que eu pertenço, ou pelo menos estou capacitada para pertencer ao mesmo mundo que ele pertence.
Mentalmente eu apenas grito como se eu estivesse começando a subir numa montanha russa: “Por favor, goste de mim. Por favor, goste de mim.”
–...as coisas estão realmente corridas por aqui, então vamos ao que interessa – Ele liga o iPad que trouxe e começa a mexer. Ficamos em silêncio por um tempo e ele dá um suspiro desanimado, olha para os lados como se quisesse sair dali, mas volta a olhar pra mim – Tenho aqui seu currículo, mas tenho que dizer que ele é um pouco... fraco. Se é que você me entende.
No meu estômago, é como se eu tivesse acabado de descer a primeira parte da montanha russa. Me sinto enjoada.
–Eu...erm... como assim? –Estou gaguejando mas não posso evitar.
–Você me entende senhorita Pinheiro. No mundo das celebridades é necessário ter muita experiência. Temos que lidar com imprevistos, com horários loucos, com muita, muita segurança, tudo dentro de uma agenda que temos que seguir a risca. E controlar cinco humores diferentes, cinco garotos na puberdade, não é fácil. Tem que ser muito capacitado, ter experiência sabe? Ainda mais quando são garotos famosos. – Nesse momento ele volta a limpar a testa com o lencinho, como se a simples lembrança dos cinco o fizesse suar ainda mais – A senhorita tem irmãos?
–Sim – Eu minto. Minha irmã mais velha podia muito bem ser um garoto. Ela me batia como um garoto faria quando éramos pequenas. – Tenho três. –Já que estou mentindo, três soa melhor que nenhum.
E pela primeira vez vejo um brilho de interesse passar pelos olhos de Rick.
–Me conte sobre essa empresa de eventos que você trabalha. Qual o nome mesmo?
–B&G Eventos.
–Hum, B&G. B&G. Nunca ouvi falar. O que você faz por lá?
–Bem, eu sou responsável basicamente por toda estratégia. Quando nos contratam para os eventos, eu cuido para que tudo esteja no lugar programado, na hora certa. Cuido dos imprevistos e atendo o desejo dos nossos clientes. É uma empresa muito prestigiada, muito movimentada. Muito trabalho, o tempo todo.
E lá vai mais uma mentira. Mas essa sai com mais facilidade, já que eu estava preparada para mentir nessa parte.
Na verdade, eu não diria mentir, eu diria omitir alguns detalhes e florear outros, fazendo eles parecerem melhores do que realmente são. Afinal, é assim que uma entrevista de emprego funciona não é mesmo?
Por exemplo, omiti o detalhe que a empresa que eu trabalho pertence ao meu pai e a minha tia.
Não que eu tenha que trabalhar menos só por que trabalho pra família. Na verdade, isso faz com que eu tenha que trabalhar mais e receber menos, quem já trabalhou para a família sabe como funciona. E quem nunca trabalhou para a família, é só assistir Poderoso Chefão para ter uma ideia – e sim, a parte de acabar no lago dormindo com os peixes é verdade.
E também achei melhor, inocentemente é claro, abreviar o nome da empresa, que na realidade se chama “Bride&Groom”, e com isso também não tocar no assunto que a empresa na verdade organiza casamentos.
Mas casamentos são eventos, certo? E eventos muito importantes, apesar de eu ter quase certeza que Rick Robson não teria a mesma opinião.
Ele estaria errado de qualquer modo, é só perguntar para qualquer pessoa: para quem é famoso, é muito fácil ter momentos memoráveis. Festas e festas para usar um longo vestido, para se encher de jóias, usar o melhor terno, andar de limusine e ser o centro das atenções. Agora para o resto das pessoas, para nós, os simples mortais, existem poucas oportunidades na vida para ser a estrela da festa, e o casamento era a mais especial de todas. E sem dúvida, era o momento mais próximo da fama que qualquer anônimo podia ter.
Eu não era uma mentirosa, eu apenas queria muito aquele emprego.
Não que eu não gostasse de trabalhar na “Bride&Groom”, eu até gostava de cuidar do dia especial das outras pessoas, fazer com que tudo desse certo, que tudo andasse exatamente como o planejado. E se eu conseguia lidar com uma noiva em estado de nervos, com toda a família dela (incluindo a sogra, sempre detestável e a mãe, sempre um monstro), com convidados folgados, e noivos indecisos, por que eu não ia conseguir lidar com cinco garotos e um pouco da indústria do showbiz?
–Sei que meu currículo pode não ser recheado como de outras pessoas, mas estou pronta para assumir mais responsabilidades, conhecer um novo lado da indústria do entretenimento. Escute, eu posso estar começando nisso tudo, mas a banda também está. Parece uma boa combinação.
Rick olhava para mim com um olhar que eu não consegui entender bem. Ele então coçou a cabeça e falou com uma voz cansada.
–Olha senhorita Pinheiro, eu admiro sua vontade mas...
Ah, um “mas”. Eu sentia que ia sair dali e vomitar. Se eu perdesse aquela chance, eu ia sair daquele hotel tonta, como alguém que realmente acabou de descer de uma montanha russa.
Acho que minha cara era realmente de alguém que estava enjoada, por que Rick parou no meio da frase, e olhou para o outro lado, meio sem graça. Pelo visto, ele não era muito bom em mentir, o que significava que em alguma coisa eu podia ajuda-lo (já que eu tinha me descoberto uma exímia mentirosa), mas eu não podia dizer isso. Imagina? “Sua melhor qualidade? Ah, sei mentir que é uma beleza”
–Vamos entrar em contato com você, ok?
–Ah, tudo bem. Sem problemas – Sorri, soltando a última mentira do dia. Não podia chorar na frente do homem, mas parecia que meu passeio na montanha russa tinha acabado, e que não tinha sido nada divertido.
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