Todos da minha família me perguntam sobre a entrevista quando volto para casa. Eu não podia decepciona-los e dizer que tinha perdido tempo e dinheiro e feito toda aquela viagem até Hollywood pra nada, então, menti, o que estava fazendo vezes demais para uma só semana.

Disfarcei como pude, falando sobre o hotel, sobre a cidade, sobre o calor insano e falando sobre a entrevista bem superficialmente, como se isso não fosse tão importante perto do fato que, por exemplo, a Drew Barrymore estava atrás de mim na fila do Starbucks (precisei de um refil extra de cafeína depois que sai da entrevista — só então pude voltar pra rodoviária e choramingar um pouco no banheiro)

Então, continuei a viver minha vida como se eu nunca tivesse passado um calor do cão em Hollywood, como se Rick Robson nunca tivesse me olhado e dito “Olha senhorita Pinheiro...”, com aquele tom de voz de quem não quer te dar uma má notícia.

Nos primeiros dias passei algumas horas no site oficial da banda, imaginando como seria fazer parte daquilo, olhando a foto dos cinco meninos, sorrindo pra mim na foto promocional. Imaginei cada um deles dizendo “Anele, você não está preparada para nós”, com aquele sotaque inglês irresistível. Porém, imaginar aquilo com um sotaque fofo não fazia a frase soar menos amarga.

E pensar que poucos dias atrás eu estava ali, sentada, revirando tudo que eu encontrava sobre a banda. Me surpreendi com a quantidade de sites e reportagens que consegui achar na internet, vídeos no Youtube, tudo bem desenvolvido para uma banda que foi descoberta a menos de 6 meses em um programa de TV, desses bem famosos onde cantores, cantoras e bandas competem por uma chance de assinar um contrato e ficar famosos.

Os garotos não ganharam o primeiro lugar, mas, como é normal nesse tipo de competição, acabaram tirando a sorte grande e ficando famosos mais rápido que qualquer outro competidor.

Pesquisei muito sobre o mercado da música, sobre as últimas entrevistas da banda e até algumas fofoquinhas. Eu fiz minha lição de casa, mas isso não foi suficiente.

E no lugar de ficar pulando de um vídeo para outro, de um site de fã para outro como antes, passei horas imaginando o currículo das outras pessoas que se apresentaram para a vaga. Provavelmente muita gente que já trabalhou com gente famosa, gente com estágios em revistas e na televisão, gente recomendada, e, outra moeda que vale bastante nesse tipo de mercado, gente bonita. Quero dizer, garotas que vão para entrevista com Louboutins de salto altíssimo e que não precisam de um blazer para disfarçar o quadril, por que tem quadris do tamanho de um graveto.

–Anele?

Já era a quarta vez naquela semana que eu me perdia nos meus pensamentos e não reparava em alguém falando comigo. Eu estava na porta da igreja e um dos funcionários da floricultura segurava dois gigantes buquês de flores na minha frente. Mas quem me chamava era meu primo, através do fone de ouvido que eu usava.

–Oi, oi, desculpa Mark, eu estava distraída. O que você está dizendo? –Apertei o fone no ouvido e falei perto do microfoninho que todos nós da equipe usávamos.

–A floricultura vai ter que mudar o arranjo, por que uma das flores que a noiva 876 pediu está em falta. –Nos referíamos as noivas por um número. Não para manter segredo ou qualquer coisa do tipo, mas era apenas uma coisa nossa. Depois de um tempo, já tínhamos visto tantas Jennifers, Emmas e Hillarys que as coisas começaram a ficar confusas, então adotamos o sistema de números – Pegue os mostruários e voe pro Hotel Mercure, onde a noiva está hospedada. Ela está esperando para fazer a escolha.

–Mark! Não! Não quero ter que falar com a noiva!

–Você quis ficar na igreja, e as flores são assunto da igreja. Você vai.

Nós tentávamos evitar ao máximo o contato com a noiva, principalmente antes da festa começar. Você já viu uma noiva momentos antes de sua festa? Se nunca viu, sorte a sua.

–Alguém já avisou que as flores que ela quer estão em falta?

–Sim, falamos com a mãe dela à uma hora. Ela já deve estar calma.

Um dos nossos maiores truques: filtrar as más notícias através das mães ou madrinhas da noiva.

–Que seja – resmunguei. O florista me deu os dois modelos de arranjos e logo eu estava na van da B&G, em direção ao Hotel Mercure para aprovação da noiva. Como eu previa, ela detestou os dois modelos, chorou, a mãe teve que intervir, a sogra tentou resolver e levou uma bronca, a mãe acabou escolhendo um enquanto a noiva gritava que seu casamento estava arruinado, eu garanti que tudo estava ficando muito bonito e que tirando as flores, tudo estava exatamente como ela pediu e sai dali o mais rápido possível.

Assim que pisei novamente na igreja, indicando ao florista qual o arranjo a noiva havia escolhido, Thomas veio na minha direção.

Thomas trabalhava comigo, tínhamos basicamente a mesma função e por isso éramos muito próximos. Thomas era uma gracinha, um metro e oitenta, magro, sempre usando roupas legais (seu uniforme costumava ser calças daquelas um pouco curtas, tão charmosas, uma camisa de linho e gravata borboleta, mas agora ele variava, usando uma porção de camisetas de bandas bacanas, daquelas que ninguém nunca ouviu falar e suspensórios, uma combinação que só Thomas conseguia manter) e eu bem que investiria nele se ele não fosse gay e tivesse um namorado tão bonito quanto ele.

–E a entrevista?

Ah, a grande pergunta do momento.

–Foi legal. Estou aguardando a resposta. –Eu tentei fazer de conta que estava muito ocupada preenchendo alguma coisa na minha prancheta e olhando para os detalhes da igreja. Thomas percebeu que havia algo e mudou o assunto.

Um dos motivos que me fazem gostar ainda mais dele.

–E os garotos? Você viu eles? Eles são bonitos?

–Não vi a banda. Só vi o empresário deles, que foi quem me entrevistou e ele parecia o Danny Devito. Sabe, você também devia ter ido fazer a entrevista.

O negócio é que foi o namorado de Thomas, o Inácio, que mexe com música e trabalha em um estúdio de gravação que apareceu com a notícia da vaga de emprego. Primeiro, claro, ele falou com Thomas, que não se interessou muito por que “não gostava desse tipo de música” (pop, altamente comercial e no topo das paradas do mundo – ele é mais do tipo indie, totalmente desconhecidos e no topo das paradas de uma pequena cidade da Escócia).

Então, Thomas comentou sobre a vaga comigo enquanto nós três estávamos no restaurante japochinês que adoramos, em nosso jantar semanal de quarta-feira.

Eu não estava bem à procura de um novo emprego. Trabalhar para sempre na Bride&Groom não era o que eu queria para minha vida, mas nunca parei para pensar a fundo o que eu realmente queria fazer no futuro. Na verdade, acho que estava um pouco acomodada.

Então, quando o assunto apareceu, não levei muito a sério. Uma coisa é arrumar outro emprego, outra coisa é arrumar um emprego tão legal igual ser assistente de uma banda famosa. Você acha que não tem chance nenhuma e que essas coisas não acontecem com gente como você, normal, sem contatos.

Mas Inácio se empolgou com a idéia.

Disse que eu seria perfeita para a vaga, e começou a me contar todas aquelas histórias inacreditáveis sobre o mundo da fama. Quando eu vi, nós estávamos empolgados fazendo planos para ir nas festas e conhecer gente famosa com meu passe de assistente.

–Não custa nada tentar – Me lembro de Inácio falando comigo enquanto engolia metade de seu temaki em uma só dentada – além do mais, imagina se você arruma um emprego no showbiz? Shows, festas incríveis, acesso a todos programas de TV e rádio, se hospedar em hotéis maravilhosos, conhecer vários lugares... Vai ser muito melhor que qualquer casamento que você já tenha produzido.

Inácio que ficou me enfeitiçando, então eu culpo Inácio (e também culpo um pouco o saquê que tínhamos bebidos. Estávamos muito empolgados).

Eu nunca tinha pensado nisso, na fama e em toda essa parte glamorosa da coisa. Tudo parecia distante demais da minha vida tão sem graça.

Só que com tudo aquilo tão perto, com uma oportunidade daquela na minha frente, não tinha como não começar a desejar aquilo e até sonhar um pouco sobre como seria. E já que estava ali, por que não tentar?

Então, sem perceber, eu estava lá, suando naquele hotel, e o resto vocês já sabem.

E agora percebo que por mais que eu tente esconder, estou um pouco decepcionada. E que talvez seja melhor desabafar com alguém. E, se existe alguém com quem eu possa desabafar, essa pessoa está bem ali. De certa forma, eu devo a Thomas a verdade, afinal, ele estava ali desde o começo.

–A entrevista foi uma droga – eu digo de uma só vez, as palavras meio emboladas. Thomas para e me olha de um jeito estranho.

–Mas você disse que...

_Eu sei. Eu estava mentindo, o que aliás está ficando muito natural pra mim.

_Peraí. O que você quer dizer com “uma droga”?

–O tal do Rick Robson, o empresário deles, nem me entrevistou direito, só disse que eu tinha um currículo fraco, e que provavelmente precisava de alguém mais experiente. Ele quase não me perguntou nada, e logo me dispensou dizendo que depois eles ligariam, fazendo aquela cara de quem nunca vai me ligar.

–Ah puxa. – Thomas se aproximou e passou a mão pelo meu ombro para me confortar, mas tentei fazer de conta que aquilo não importava tanto e que eu estava feliz por pelo menos ter tentado.

–Sabe, isso me fez ver que eu realmente preciso trabalhar mais no meu currículo. Não precisa ser no showbiz, posso arrumar algum outro emprego, aprender outras coisas... não quero trabalhar para sempre no B&G.

– “B&G”? Estamos chamando assim agora?

Suspirei, pronta para contar a parte dois, todas as mentiras que contei na entrevista e como “Bride&Groom” se transformou em B&G, quando meu celular começou a tocar no meu bolso.

Como sempre podia ser alguém da equipe com algo sobre o casamento, atendi depressa.

–Anele.

A ligação do outro lado parecia distante, uma voz de mulher que eu não conseguia escutar muito bem.

–Anele? Aqui é a Greta, assistente do Sr. Robson.

E não é que eles realmente ligaram? Não que eu tenha muita experiência em empregos e entrevistas, mas sei que geralmente eles só ligam para quem importa. O resto, aqueles que não passam nas entrevistas, tem que amargar uma ansiedade eterna, até que finalmente aceitam o fato que ninguém nunca vai ligar para avisar que a vaga não é sua.

–Estou ligando por que você conseguiu a vaga.

Como é?

–Você poderia estar aqui na segunda feira de manhã?

E a montanha russa começa a andar a toda velocidade dentro do meu estômago.


Notas finais
No Próximo Capítulo:
Minha cabeça dá voltas e eu me sinto tonta. É muita coisa pra absorver e Greta fala comigo como se eu já tivesse muita experiência nisso tudo.
_Você está bem? Quer tomar uma água ou um suco?
_Eu... é só o calor de Hollywood. Não estou acostumada.
_Nem me fale. Os garotos também reclamam, afinal, na Inglaterra não faz esse calor. Só o Zayn que parece gostar. O Niall também não reclama. Na verdade é mais o Harry e o Louis, os dois são tão tipicamente britânicos que mesmo nesse calor pedem para eu arrumar chá para eles.
Eu tento sorrir, mas parece impossível.
_Então me conte, com quem mais você já trabalhou?
Nesse momento escutamos uma movimentação estranha. A porta do hotel se abre e dois homens de roupas pretas (o típico uniforme dos seguranças terno preto completo. Com esse calor, fico com dó dos coitados que parecem estar derretendo mas mantêm a pose. Eu devia aprender com eles) entraram no lobby com um pouco mais de estardalhaço do que deviam.
Há uma certa movimentação, as pessoas e alguns poucos hospedes que estão no salão param de fazer o que estão fazendo e ficam assistindo aquilo, curiosas. Até que eu os vejo.
Os cinco andando em um pequeno grupo, protegidos por outros dois seguranças, atravessando o saguão do hotel. Eles não notam nossa presença, apenas passam direto pelo saguão em direção aos elevadores. Um dos seguranças já abriu a porta do elevador, e aguarda os cinco passarem e entrarem. Em seguida a porta se fecha e tudo volta ao normal