Sem Ensaios para a Vida
7 Danças lentas
Quando a aula terminou, logo trocaram de roupa. Todas pareciam felizes em ir embora e Kat não era uma exceção. Se antes parecia encantada com a possibilidade de ser aluna de Yelena Dechamps, uma das mais respeitadas bailarinas do mundo, hoje ficaria feliz em se livrar dela. Antes de sair, percebeu-a olhando de forma recriminadora. Kat preferiu não encara-la. Não sabia qual era o motivo daquilo.
Ao chegarem no corredor, encontraram Gabriel encostado na parede.
-- Ué, ainda aqui? – Kat perguntou – Não tem aula agora?
-- Nós fomos liberados mais cedo, eu estava esperando uma pessoa... aproveitei e dei uma espiada na aula de vocês. Acho que a Dechamps não gosta muito de platéia.
-- Não nos ensaios... isso dispersa os bailarinos... e não podemos errar... e isso e aquilo...
-- Nem nos ensaios? – riu – Puxa... ela está mais amarga do que nunca...
-- Aff... – Kat suspirou. – Bastante...
Riram. Jenny também riu, ainda estava junto a eles mas não pronunciara nenhuma palavra. Limitou-se a observa-los. Aquilo não parecia ser um assunto qualquer entre pessoas que normalmente mal trocavam palavras...
-- E então? Sente-se melhor?
-- Sim, estou melhor.
-- Ótimo. – olhou para o relógio – Bom, agora eu preciso ir. Até mais.
Ele foi se afastando, de início ás cegas sem lhe dar as costas. Então ela deu um breve aceno. Gabriel retribuiu, e só depois virou-se para a porta, com uma rápida hesitação, mas que passou despercebida para Kat.
Definitivamente não era uma conversa casual. Não mesmo.
-- Hummm... mas que intimidade... – Jenny gracejou, prolongando algumas sílabas em uma expressão irônica.
-- Do que está falando, Jen?
-- Sou eu quem te pergunto. Vocês estavam conversando com tanta intimidade...! Nem achei que se conhecessem. Nós sempre andamos juntas, e o Sobiesky nunca falou com a gente...
Estavam atravessando o corredor, tentando adequar o passo ao ritmo ao redor, que começava a ser efervescente.
-- Até o sábado passado eu conhecia Gabriel tanto quanto você.
-- Pelo jeito vocês se conheceram beeeem meeeesmoooo... já está chamando o rapaz pelo primeiro nome. – riu – E como foi isso?
Explicou a Jenny mais ou menos o que havia acontecido: o ensaio, a crise,a a interrupção, a dor de estômago...
-- Pelo jeito ele salvou o seu dia. Você voltou com uma cara tão contente...
A esta altura já estavam no refeitório. Pratos já arrumados, apenas procuravam uma mesa.
-- Meu dia estava sendo realmente um horror. Ele foi ótimo comigo.
-- Todo cuidadoso também. – olhava para o lado, procurando uma mesa vaga, apontou para uma chamando a amiga para segui-la -- Quase nenhum homem resiste a uma mulher com dor.
-- Jenny...
-- O que foi? – disse, ajeitando-se na cadeira.
-- Não começa.
-- Ué? E eu disse alguma coisa errada? O cara que for realmente educado dificilmente resiste.
-- Ele só foi gentil comigo.
-- Eu sei, acredito em você... mas eu não sou um cara, muito menos um cara gentil. Portanto quer colocar alguma coisa nesse prato? Por favor?
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Ainda demorou mais um dia para Kat e Gabriel se encontrarem de novo. Aula de pas de deux. Kat não estava muito bem, um problema a parte: seu partner pedira afastamento da academia e não havia ninguém para substituí-lo. Já ensaiara com o próprio professor durante duas semanas. Uma situação constrangedora e que a deixava completamente exposta.
Como era de costume, foi direto para o canto e lá deixou sua bolsa. Colocou as sapatilhas e começou um alongamento simples: suficiente para aquecer-lhe os músculos e dar vazão ao nervosismo. Estava tão distraída que não viu Gabriel entrar, deixar sua bolsa num lugar qualquer e olhar ao seu redor como se procurasse alguém.
A procura terminou quando ele reconheceu a garota loira e vestida de preto bem no canto oposto. Claro que alguém com essa descrição era absolutamente comum naquela academia, mas algo a diferenciava daquelas meninas insossas e alheias. Ela parecia ter uma aura capaz de destaca-la em uma multidão.
Aproximou-se:
-- Olá, Katherine.
-- Olá, Gabriel. – respondeu num tom de voz estranho, mas sorrindo.
-- Te assustei? Incomodo?
-- Não, não... eu estava distraída, só isso...
-- Pensando na vida?
-- É, de certa forma.
Um bater de palmas e o professor interrompeu-os.
-- O intervalo terminou, crianças... – olhou ao seu redor – Sobiesky, onde está a srta. Presscott?
Gabriel respondeu levantando os ombros como quem quer dizer que não tem idéia.
-- Então, poderia fazer a aula de hoje com a srta. Hillard...
Ambos viraram-se para Kat, a espera de uma resposta que veio num simples menear de cabeça, num gesto de concordância silenciosa. Então Gabriel foi para o seu lado, também concordando.
-- Ótimo... vamos começar o trabalho...
Alongamento, aquecimento, exercícios de preparação para depois Ethan Kulik começar, pedindo a outro casal que fizessem uma demonstração dos passos para a turma. Em uma situação normal, Gabriel estaria fazendo aquela demonstração, mas não achou que aquele fosse o momento. Sua parceira não parecia estar a vontade, e a última coisa que queria era constrange-la. Então limitou-se a colocar sua atenção naqueles movimentos. Olhando rapidamente para Kat, percebeu-a fazendo a mesma coisa.
Ao fim da demonstração era a hora de assumirem seus lugares. Ambos se olharam sem jeito: toque e pegada era elementos óbvios e inevitáveis, mas tinham acabado de se conhecer, afinal era a primeira vez que dançavam juntos. Ambos decidiram ignorar, já que não eram mais iniciantes para deixar coisas tão banais interferirem.
Começaram assim que soaram as primeiras notas do piano. Apesar da resolução silenciosa tomada por Kat em não se constranger, Gabriel pôde sentir sua tensão. Sabia que não era pelo toque, e sim por algo que não conseguiria identificar, mas que ela disfarçava, procurando compensar buscando concentração absoluta para aquela dança, levando braços e pernas para o ar lentamente, sem deixar que o esforço para mostrar tal elasticidade fosse expresso em seu rosto, que agora estava sério, como se quisesse mostrar que aquilo era a coisa mais fácil do mundo.
E foi assim a cada vez que repetiram os exercícios: várias e várias vezes. A cada repetição Kat permanecia com o mesmo jeito compenetrado a despeito de seu nervosismo.
-- Ótimo, pessoal... já terminamos por hoje... – acenou para o pianista para que parasse a música. -- Muito bom. – disse, ao passar por Kat e Gabriel.
Logo que se afastaram um pouco, cada um foi em direção a sua bolsa. Kat vestiu uma jardineira por cima do letoard e tomou um gole d´água. Logo viu Jenny do seu lado fazendo o mesmo, com um sorrisinho sarcástico, mas não perguntou o que era. Afinal era uma daquelas únicas ocasiões em que moças e rapazes se encontravam por mais que alguns poucos segundos. Portanto aquela gozação poderia ser dirigida a qualquer um, mas soube mais ou menos o que era quando viu Gabriel olhar para ela e sorrir.
-- Hummm... – começou Jenny
-- O que foi agora? – perguntou com jeito de quem parecia entediada ou impaciente.
-- Nada... imagina...
Levantaram-se com bolsas nos ombros, indo em direção a porta. Antes de saírem Jenny a cutucou para que olhasse para trás: Gabriel estava acenando em despedida. Kat fez o mesmo, saindo em seguida. E bastou colocarem o pé para fora para que o riso sarcástico de Jenny começasse a se manifestar.
-- Melhor você me dizer logo qual é a piada. Eu quero rir também.
-- Não foi nenhuma piada. Estou rindo de algo concreto.
-- E o que é esse algo concreto?
-- De você e Gabriel... do seu nervosismo.
-- Nervosismo?
-- Ele estava cheio de dedos pra te tocar, como se você fosse uma bonequinha de cristal... e você parecia que ia desmanchar.
-- Eu não estava... – quis completar a frase mas acabou desistindo. Sabia que não ia dar certo. – Foi tão visível assim?
Jeny sorriu, satisfeita por ter feito Kat ceder. Ela dificilmente cedia, mas o sendo de humor parecia estar aflorando.
-- Não sei.. pra mim que fico perto de você o dia todo foi fácil de perceber.
-- E quanto aos outros?
-- A Gabriel, você quer dizer.
-- Você quem está dizendo isso...
-- Ai, tá bom... quanto aos “outros” talvez não tenham percebido. Não ficou vermelha nem nada...
-- Nossa, que avanço... – suspirou – Mas que droga, por que eu fiquei daquele jeito?
-- Acho que isso é fácil de responder...
-- Fácil? – pareceu impressionada – Eu não consigo encontrar uma explicação tão fácil assim.
-- Tudo bem, eu vou partilhar toda a minha sabedoria com você. Que tal pelo fato de já ter algum tempo que não é tocada desse jeito?
-- Jenny! – a voz demonstrava espanto – Já danço pas de deux há um tempão, e agora pelo menos dois dias da semana...
-- Não é disso que estou falando... nem dá pra comparar com o que estou pensando.
-- E o que está se passando nessa cabecinha fértil?
-- Minha mente brilhante e perspicácia sem igual pensaram em outra coisa. Eu sei que temos aulas com os rapazes uma boa parte do nosso precioso tempo, mas o seu ex partner não entra no processo.
Um riso começou a se insinuar em Jenny e Kat entendeu imediatamente o que ela queria dizer.
-- Não. – arregalou os olhos e balançou a cabeça como se estivesse veementemente chocada. – Não, você não quer dizer o que estou pensando...
-- Estou falando sério. Erick era gay. Dançar com um partner gay e um outro hetero não tem nem comparação...
-- Ai meu Deus... eu não acredito que estou ouvindo isso...
-- É claro que está... e é a verdade. A pegada é outra... um negócio totalmente diferente... e bota diferença nisso...
Entraram no quarto, rindo. Kat parecia a ponto da gargalhada, mas reprimia a todo custo.
-- Eu não acredito que está reduzindo o meu problema a falta de... – gesticulou querendo completar a frase mas achou melhor ficar quieta.—Aff...
-- Eu não disse nada. Agora foi por sua conta. Só estou dizendo que a pegada é diferente... ainda por cima com um cara que acabou de conhecer.
-- Não sei não... acho que está lendo livrinhos demais.
-- Leitura nunca é demais. Você também deveria lê-los, sabia? Eles são pura diversão.
-- Pura outra coisa também.
-- Não todos, apenas alguns... não fica generalizando. – riu, jogando a bolsa para o outro lado – Não é minha literatura preferida, mas não se vive apenas de água com açúcar, se é que você me entende...
-- Sua tarada! – jogou-lhe um travesseiro.
-- Ai! – agarrou o travesseiro – Sua psicopata! Tarada, não: entusiasta de relações corpóreas.
-- Tarada!!
Começaram uma guerra de almofadas e travesseiros. Risos e gritos afetados que reavivaram em ambas um pedaço da infância e proporcionou um saudável momento de distração da atmosfera pesada daquela academia.
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