Outro dia:

Kat estava indo para o refeitório. Estava serena, prevendo um dia com relativa tranqüilidade: Jenny resolveu dormir mais e assim, faltaria a primeira aula; também não teria aula com Dechamps. Isso lhe dava motivos de sobra para ficar contente: chances nulas de se estressar, e de alguém ficar reparando em seu café.

Ao pegar o que queria foi procurar uma mesa. Bastou olhar ao seu redor para descobrir que não havia lugar disponível.

-- Ei, Katherine! – gritou uma voz masculina. Kat procurou-o por um tempo que julgou ser longo demais, mas encontrou Gabriel no canto oposto.

Viu-o indicar uma cadeira vazia ao seu lado. Então atravessou o grande refeitório e para chegar até lá.

-- Senta aí.

-- Puxa... – disse, puxando a cadeira. – Isso aqui tá um formigueiro humano...! Obrigada.

-- Imagina... – tomou um gole de suco – Como está hoje?

-- Estou bem.

-- Dores?

-- Não. – balançou a cabeça, negativamente – Sem dores, e você?

-- Estou ótimo, nenhuma dor. – brincou.

-- Isso ficou mesmo na sua cabeça... acho que todos os dias vou ouvir essa pergunta.

-- Convenhamos que não é muito comum. Você me deixou preocupado naquele dia... você se incomoda com isso?

-- As vezes... depende da forma com que perguntam. Tem dias que ouço várias vezes a mesma coisa... minha alimentação por exemplo. Ultimamente isso tem sido assunto pra todo mundo.

Gabriel olhou para o lanche dela: suco, uma barra de cereais, uma maçã pequena. Pouca coisa, quantia talvez insuficiente para o tipo de esforço que fazia.

-- Com tudo isso que você come não me admira que fiquem no seu pé. Você sabe que precisa de mais, não sabe?

-- Não estou com fome pra comer mais que isso.

-- Pouco apetite ou muito stress?

-- Que tal os dois?

-- Uau... – disse, acompanhado por um assobio – Assim fica difícil.

-- Eu que o diga.

-- Tudo bem – bateu a mão na mesa, apenas para um efeito teatral, de quem encerra um assunto – Já que não gosta que se preocupem com você, vamos falar de outra coisa...

-- Não é que eu não goste, mas... – fez uma pausa, respirou fundo – As vezes cansa... eu não preciso de babá... preciso de amigos. Tem gente que me trata como se eu fosse uma coitadinha. – brincou com o copo de suco como se estivesse pensando se deveria beber ou não – Não estou nos meus melhores momentos, eu sei disso... mas a última coisa que eu estou precisando é da piedade dos outros.

Tomou um gole do suco, abaixou a cabeça e ficou assim por alguns poucos segundos. Suspirou, e quando levantou os olhos encontrou os de Gabriel, olhando-a diretamente, sem barreiras, como se procurasse alguma coisa.

Repentinamente, Kat sentiu-se envergonhada.

-- Desculpa. Você não tem nada a ver com o assunto. Não tem que ficar ouvindo meus problemas... ainda mais a essa hora da manhã.

-- Não esquenta... se quiser falar eu não me importo. Não me importo mesmo.

-- Obrigada, Gabriel. Você é um cara legal. – sorriu para ele, de forma tímida – Mas prefiro não falar disso agora. O meu dia promete ser bom e eu não quero estraga-lo. Nem o seu.

-- Hummm... – entusiasmado – Estou percebendo um certo otimismo na sua voz?

-- É, talvez. Um pouco de tranqüilidade ajuda.

Sorriram um para o outro, de forma marota. Pareciam tranqüilos. Quem os visse pensaria que estavam conversando amenidades.

-- Bom, eu queria te agradecer por ter sido minha partner ontem.

-- Ih, sou eu quem preciso agradecer. Estava chateada com a idéia de ter que fazer aula com o professor. Você salvou a minha vida.

-- Ah... não diz isso... faz a sua vida parecer uma coisa pequena.

-- É só um modo de falar! – respondeu-lhe,como se protestasse, em tom de brincadeira.

-- Mesmo assim. Parece que resumiu sua vida a um ... – procurou as palavras certas – Mínimo!

-- Tudo bem. – disse, resignada – Você me salvou de um constrangimento.

-- Assim ficou melhor. – sorriu, descontraído e tentando aliviar o tom de correção – É bom saber que ajudei em alguma coisa.

-- Síndrome do cavalheirismo?

-- Droga, Katherine... acabou de descobrir meu segredo! Eu não resisto a uma dama precisando de ajuda.

Kat riu, imaginando se aquilo era verdade ou simplesmente uma brincadeira, lembrando das ocasiões em que se viram, onde sempre havia um pretexto para ele lhe fazer uma gentileza.

-- Isso é um defeito? – perguntou para ela.

-- Hummm... – fez uma expressão pensativa – Sei lá, acho que não. – olhou para o relógio no pulso – Puxa, preciso ir... minha aula já vai começar.

-- Certo, obrigado pela companhia, Katherine.

-- Obrigada pela conversa. Foi ótimo estar com você. – ela sorriu, sem jeito, talvez envergonhada – Só tem uma coisa.

-- O que? – perguntou curioso.

-- Me chama de Kat. É meio esquisita ficar ouvindo meu nome todo... nem meus pais me chamam assim.

-- Tudo bem... Kat.

A voz soou como se estivesse experimentando a sonoridade daquele nome, e como se tivesse gostado do resultado, sorriu

-- Acho que posso fazer isso. – completou.

Sorrisos e poucos segundos de silêncio. Durou até que Kat pegasse sua bolsa e olhasse de novo para o relógio.

-- Agora eu realmente preciso ir, ou a Biangee vai me dar uma bronca.

-- Por minha causa é que não vai ser. Não vou te prender aqui por mais tempo, fique tranqüila.

-- Eu não me importaria. – disse, como se pensasse alto e acabasse se arrependendo depois. Gabriel percebeu o rosto dela corar. – A gente se vê.

Kat levantou e se afastou depressa, talvez envergonhada. Ainda ouviu-o dizer um “Até mais”, mas fingiu não perceber. Já sabia que seu rosto estava vermelho... mas Gabriel não precisava saber disso.

Mas o que ela não sabia era que sua saída foi acompanhada pelos olhos rápidos de Gabriel, e por seus lábios que, em voz praticamente inaudível, continuavam pronunciando o seu nome.

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Noite, alojamentos.

-- Aconteceu alguma coisa, Kat?

-- Hã?

-- Estou perguntando se aconteceu alguma coisa.

-- E porquê essa pergunta agora? Tá tão visível assim?

Jenny riu. Desde que Kat chegou ao quarto, parecia ansiosa: mexia em qualquer objeto ao alcance de suas mãos e também pensativa, como se ensaiasse dizer alguma coisa mas acabasse perdendo a coragem.

-- Com quase cinco meses de convivência acho que a gente acaba pegando a manha. E então? Aconteceu?

-- Não aconteceu nada.

-- Ihhh... já vi tudo.. tem homem no meio...

-- Homem? Que homem? Tá louca? – parecia surpresa com a suposição – Não tem ninguém, Jenny. De onde tirou uma maluquice dessas?

-- Não é maluquice... mas não vamos entrar no mérito da questão. Você perguntou de onde eu tirei isso, então vou responder. – disse, interrompendo sua leitura e olhando para Kat com ar de quem era praticamente uma professora. – Ansiedade é um dos sintomas clássicos.

-- Eu poderia ter tido um dia ruim, ou esperando que acontecesse alguma coisa.

-- Não foi um dia ruim, senão estaria triste, ou irritada. É a lei da lógica: não que funcione sempre, mas não importa. – fez uma pausa para respirar – Se quer me despistar, eu diria que a segunda alternativa seria cabível... mas não adianta negar: tenho certeza absoluta do que estou dizendo.

-- E porque tanta certeza? – fez tipo, como se já estivesse cansada de falar no assunto.

-- Porque da última vez que fiquei assim foi por causa disso.

-- Ah... não! Nem vem... nós somos completamente diferentes.

-- Tem razão. Somos completamente diferentes... mas quando se trata de homens, os sintomas são universais.

Kat riu. Enquanto se preparava para dormir tentava se desligar do assunto, embora soubesse que seria em vão. Sempre que estava arrependida de alguma coisa ou com a consciência pesada, poderia considerar sua noite perdida. Não esperava que pudesse ser diferente agora... mas em compensação não estava triste e nem aborrecida. Pelo contrário: sentia-se leve.

Notas finais
Aceito Reviews...