Sem Direção
4 Uma noite inesquecível
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A porta já estava aberta quando chegamos, Ben estava segurando firmemente sua mão que sangrava sem parar, do fundo podia se ver Daniel mancando pela rua, o rastro de sangue pelo asfalto era predominantemente assustador. Suzan entrou em disparada na casa e voltou com duas toalhas, Ben se jogou na calçada e gritava de dor, Jessie tentava o acalmar e as perguntas não paravam de surgir. Beatrice e Ryan ajudaram Daniel, que parecia estar com o pé quebrado, ajeitei o sofá e procurei por mais toalhas na cozinha para estancar o sangramento de Ben.
– Ai meu Deus, entrem e fechem a porta, por favor – berrava Daniel – aquelas criaturas não podem nos ver, não podem!
– Onde está David? O que aconteceu lá fora? – gritava Jessie.
As coisas ditas não faziam sentido, pusemos os dois deitados no tapete da sala e Beatrice trancou a porta. A luz refletia o vermelho escuro do sangue no chão, a aflição era enorme, só depois que Ben se desacanhou e deixou os panos de prato e as toalhas tocarem sua pele que percebi que sua mão não existia mais, como ele perdera eu não sei. Jessie estava avulsa, apavorada, o tumulto tomou conta do grupo em geral, foi aí que Suzan fez a melhor coisa desde que chegamos.
– Calem essa maldita boca seus vermes, essa bagunça não vai levar em nada! Ryan vá ao banheiro, abra a gaveta e pegue o estojo de primeiros socorros. Não discuta comigo! Beatrice, leve o Daniel para o quarto e tente fazer um curativo ou algo que tente deixar a perna dele imóvel, se precisar de ajuda em relação ao osso quebrado me chame. Peter me ajude a enfaixar o.. – fez uma pequena pausa – o pulso do Ben.
Ninguém falou mais nada, apenas agiram como explicado, Ryan trouxe o kit, e dentro havia tudo aquilo que realmente precisávamos no momento, os gritos de ambos eram ensurdecedores, Daniel deve ter tido uma infância sem traumas, uma coisa que ainda era fresca na minha memória eram as lesões do passado, a juventude de qualquer criança foi divertida junto com as quedas e os machucados. Entretanto as coisas ainda não fluíam de modo correto, lembro das feridas, mas não do local e de quem poderia estar por perto para me ajudar.
Jessie pegou uma panela com água para limpar os ferimentos e a sujeira do membro perdido de Ben, ajudei Suzan a enfaixar do pulso até o ombro dele, as lágrimas escorriam pelo rosto, o sofrimento era inevitável.
Beatrice voltou para a sala pedindo a ajuda de Ryan e correu de volta para o quarto, só agora que tinha caído minha ficha de que ela e Daniel estavam sozinhos o tempo todo no cômodo, não é questão de ciúmes, mas foi bobeira não ter passado pela minha mente em ajudá-la de qualquer maneira possível. Jessie agarrou Ben pela barriga e repetia várias vezes que tudo iria ficar bem, finalmente tinha cansado de fazer tantos questionamentos. Suzan assentiu com a cabeça em um gesto indireto, estava sentindo minha preocupação, mas foi de imediato que percebi sua vontade de viver, como se estivesse falado que iria lutar até o fim para sair daquele lugar.
Me levantei para ver como estava a perna quebrada de Daniel, soluçava como um bebê no quarto, mas quando cheguei ele segurou as lágrimas e os gritos, tentava demonstrar masculinidade nas atitudes e rosnava como um cão feroz, seu olhar induzia raiva e desespero.
– Por favor, tirem esse babaca do quarto – bufou – não quero olhar pra cara desse imbecil!
Ryan olhou para mim estranhamente.
– Tudo bem Daniel, eu saio, mas eu não entendo seu ódio por mim. – falei num tom casual.
Beatrice logo disse.
– Ryan fique aqui com ele.
– Não, não me deixe sozinho, princesa – disse Daniel quase pulando da cama – você vai sair pra ver o Ben ou pra conversar com esse – me olhou furiosamente – idiota?
– Meu nome é Peter – apontei o dedo pro rosto dele – e se me xingar mais uma vez...
– Você vai fazer o que? Vai bater em um homem machucado? – seu semblante era de deboche.
– Chega, eu não aguento mais! – gritou Beatrice.
Saiu do quarto batendo os pés, estressada com os acontecimentos, deveria estar sendo difícil para ela aturar e conviver com essa nova vida, com pessoas desconhecidas e situações extremas.
Ben estava sentado no sofá, mais calmo, com Jessie ao seu lado, Suzan me chamou num canto da casa pra conversar.
– A gente precisa saber o que aconteceu, estou curiosa e aposto que você está também. – me lançou um olhar desafiante.
– Queres conversar com ele agora? Não é melhor ele descansar primeiro?
– Óbvio que não. Não vamos fazer as coisas amanhã se podemos fazê-las hoje – ela segurou a gola da minha camisa e continuou falando – dentre todos esses vermes eu to começando a confiar em você, somente em você. Se der uma bola fora eu saio dessa casa e sumo desse inferno sozinha.
O seu hálito embrulhou meu estômago, ela falava muito perto do meu rosto, não tínhamos escova de dentes para difarçar o mal odor, mas, assenti positivamente virando o rosto de relance. Beatrice apareceu com os braços cruzados, desgostando da ação de Suzan.
– Onde você acha que está? Em um tatame? Olha aqui garota, você precisa aprender a respeitar mais o pessoal, ninguém está gostando das suas atitudes. – e antes que terminasse, Suzan deu um soco no rosto dela. Beatrice cambaleou até o corredor, protegendo a face de mais algum golpe que poderia vir, olhou sem graça para mim e se trancou dentro do banheiro.
– Que fique avisado, não gosto que mandem em mim, esse é meu jeito, aceitem se quiser. – virou as costas e foi para o quarto.
Jessie revirou os olhos desprezando a atitude de Suzan, me chamou para ficar fazendo companhia a Ben. Ele estava quase cochilando, mas quando me viu fez a honra de abrir um sorriso forçado, sem humor algum, esticou a mão esquerda que ainda tinha e retribui com um grande aperto.
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