Sem Direção

22 Sobrevivência


22

Beatrice ficou do meu lado, pegou minha mão e a apertou firmemente. O homem tirou do bolso uma arma, apontou para cada um de nós lentamente com o intuito de atirar, e pausou a mira na minha direção.
— Olá jovens – ele abriu um sorriso sarcástico, imundo, falso. Sua pele branca poderia ser comparada com a cor de um leite, seus cabelos escuros e sua magreza me davam arrepios, seu rosto era esquisito, se assemelhava á um psicopata. — Sinceramente eu esperava menos de vocês. Foi tão rápido que não tive a oportunidade de conhecê-los direito, mas vejo que já estão bem próximos.
Continuávamos sem falar, apenas ouvíamos as declarações do homem de paletó.
— Meu nome é Josh. Sobre mim, é apenas isso que devem saber – desta vez, apontou a arma para Daniel. Dobrou a cabeça, examinou-o e deu uma piscadela rápida.
Josh andou, chegou perto de mim, tirou a ficha da minha mão e o mesmo fez com os outros que a carregavam. Jessie era a última, após arrancar a folha das suas mãos ele se aproximou e cheirou sua nuca, cochichou algumas palavras que eu não entendi e se afastou.
— Por que você fez isso? – aquele foi o momento mais tenso da situação. Daniel questionou de um jeito arrogante um homem que poderia nos matar a qualquer instante.
— Eu? – o homem de paletó ficou parado de costas para a gente, moveu o pescoço para o lado e indagou de novo. – Eu? Você está falando comigo?
— Sim, é com você mesmo.
Josh não pensou duas vezes e deu um tiro no pé de Daniel, o susto foi grande, abaixei a cabeça e tentei não demonstrar medo ou nervosismo.
— Seu desgraçado, eu vou acabar com você! – Daniel se jogou no chão e apertava a ponta do seu pé.
Beatrice soltou minha mão no momento do tiro, ela chorava baixinho ao meu lado. Não pude ver as feições de Jessie ou Ben, mas com certeza estavam apavorados.
— Eu realmente pensei que pelo menos vocês fossem educados – ele pegou as fichas e foi chamando nome por nome. – Peter, Beatrice, Jessie, Ben e Daniel. Todos aqui?
Ninguém respondeu. Apenas se ouvia o choro baixinho de alguns.
— Tudo bem, deixe-me ver – ele olhou para mim e me chamou, depois fitou Beatrice e a chamou também. – Sigam-me, os dois.
Ele nos levou através da porta, tranco-a e ficou de pé em frente dela. O local parecia um ambiente médico, havia uma maca, caixas, freezers e equipamentos odontológicos.
— Qual seu nome garoto? – perguntou Josh.
— Peter – respondi com a voz fraca, pigarreie um pouco e repeti novamente. – Peter.
— Muito bem, e você menina linda?
— Beatrice.
— Belo nome. O que vamos fazer aqui vai ser nosso segredinho, certo? – ele apontou a arma em nossa direção e continuou. – Peter, eu quero que você tire a blusa dela.
Engoli em seco, fingi não ter escutado, fechei os olhos e esperei alguma reação vinda dele. Além de ser um pedido constrangedor e inútil, eu estava disposto a não cumpri-lo.
— Você está surdo? Tire a blusa dela... Ou eu mesmo farei isso. – seu olhar pedófilo agonizou minha mente. Beatrice assentiu a cabeça com um gesto positivo, afirmando que o ato poderia ser feito.
— Tudo bem, é apenas um joguinho – murmurava Josh, parecendo hipnotizado pela cena.
Beatrice ergueu os braços e tirei sua peça de roupa, meio envergonhada, ela tapou o sutiã com as duas mãos.
— Pronto, ele já fez o que você pediu, por favor, nos deixe. – ela pedia choramingando.
— Cale-se. O jogo ainda não terminou. Peter visualize as costas dela, há algum símbolo?
Me posicionei na traseira de Beatrice e percebi uma espécie de tatuagem, era o número dois com uma letra cursiva.
— Sim. Há um número. Número dois. – respondi tremendo.
— Ótimo. Agora é a sua vez Beatrice, tire a camisa de Peter. – e sorriu por fim.
— Por que ele não pode tirar por si próprio? Você quer algum showzinho particular entre dois adolescentes? – disse ela impondo coragem.
Josh mudou seu semblante no mesmo momento, de prazer proporcional se tornou amargura e rancor. Sua boca mexia sozinha, ele rangia os dentes e a arma em sua mão parecia agitada.
— Me responda mais uma vez mocinha, e você conhecerá o inferno. Me entendeu? – falou gritando. – Hein? Sua cadela.
Meu coração disparou, se as palavras expelidas fossem ditas por Daniel naquele mesmo segundo, com certeza ele já estaria á sete palmos abaixo da terra. Cerrei os punhos e tentei não me levar pelo ódio, Josh se aproximou de mim e me encarou.
— Faça o que eu mandei garoto – fez uma pausa, ficou me observando e comecei a me despir. Nunca tive medo ou timidez em relação ao meu corpo, mas aquilo continha algum tipo de abuso. – Muito bem, deixe-me ver suas costas.
Não precisei me virar, Beatrice falou em voz alta o meu número.
— Um.
— Hm... – o homem de paletó demonstrou rigorosidade, estudou a situação com cautela e botou a mão no queixo nos impressionando com sua surpresa. – Você é o líder Peter, parabéns. Aquele grupo de trouxas que está lhe acompanhando deve seguir suas ordens, suas opiniões e ideias. Um bom líder não impõe escolhas, ele as faz. Ficarei de olho em cada passo que você e seus amiguinhos derem, fique pronto para qualquer coisa, fique atento, não confie em ninguém, siga suas instruções, e as regras, é você quem faz.
Internamente eu estava destruído com tanta informação e bobagem que Josh acabara falando, fitei Beatrice que relançou um olhar desesperador, ela então questionou:
— Posso me vestir agora?
— Claro. Número dois. – ele respondeu.
O comentário foi meramente desnecessário, ele sabia o nome dela, apenas a chamou pelo número por alguma razão, só esperava que daqui pra frente ele não se acomodasse em nos chamar assim. Josh abriu a porta, falou os nomes de Ben e Jessie que rapidamente adentraram no local. Quanto á mim e Beatrice, saímos e ficamos ao lado de Daniel.
— O que aconteceu lá dentro? Por que demoraram tanto? Esse desgraçado fez alguma coisa pra vocês? Acho que vou ser o próximo, vamos pensar em um plano, o que acham...
Antes que ele pudesse continuar as perguntas, Beatrice o interrompeu.
— Fique quieto! Sim, morri de medo lá dentro. Ele pediu que nos despíssemos, foi tudo muito tenso.
— Tá de brincadeira comigo? Esse cabaço é um psicótico. Chega! Não falem mais nada. Quando ele sair, irei acertá-lo com aquela cadeira, mais precisamente na sua cabeça. Peter, você pegará a arma enquanto eu tento pressioná-lo no chão, tudo bem?
— Certo. – respondi, mesmo achando a ideia um pouco mirabolante.
A porta se abriu subitamente, era Josh com um sorriso largo.
— Falaram alguma coisa?
Fiquei imóvel, gaguejei, mas repliquei assim que pude.
— Na, na... Na verdade estávamos apenas conversando, trocando ideias.
— Calados. Ou eu atiro nos miolos daquela cadela. – fitou Beatrice, rangendo os dentes. Bateu a porta com força e o silêncio se alastrou no lugar.
— Eu realmente não acredito que ele te chamou daquilo, esse escroto precisa morrer. – Daniel permanecia alterado, sua reação parecia estar daquele jeito por saber que talvez Beatrice fosse sua irmã, ele precisava fazer alguma coisa para defendê-la.
— Tudo bem, estou tranquila quanto a isso. Ele vai ter o troco e as consequências necessárias em breve, deixe a vingança por minha conta Daniel, cada um gerencia seus negócios, ok? – Beatrice esperou por uma resposta, mas ficou sem. Me posicionei no canto da entrada esperando para o ataque, Daniel estava com a cadeira erguida para o alto.
— Não, por favor, você não precisa fazer isso, eu imploro! Socorro! – era Jessie gritando lá dentro, tínhamos que fazer alguma coisa, foi então que chutei a porta e pulei encima de Josh e o tiro veio em seguida.