Sem Direção
3 Novatos - Parte 2
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Suzan bateu na porta e pediu licença para entrar.
– Me desculpa, mas o papo lá dentro está insuportável.
Ela tinha uma personalidade forte, expressava sinceridade e não tinha medo de mostrar sua presença.
– Tudo bem entra aí.
Subiu para o andar de cima da cama, se ajeitou e começamos a conversar. Jogamos papo fora, porém estava divertido, vi o sol se pôr, fechei meus olhos por alguns minutos e dormi.
Vozes e burburinhos me fizeram acordar de um sono aconchegante, me levantei e fui para a cozinha, tinha uma menina loira, linda, alta, mostrava ser jovem e atlética, ela parou o que estava fazendo e disse:
– Oi.
– Oi. – respondi.
Jessie chegou e fez as honras de nos apresentar.
– Peter, essa é Beatrice. – me deu um empurrão para que eu pudesse cumprimentá-la. Dispus minha mão direta para a mais bela garota que eu já vira, os olhos azuis chamaram minha atenção e seu perfume de rosas também.
– Você estava dormindo quando cheguei, não queríamos incomodar – fez uma pausa, abaixou o rosto e esfregou os pés um no outro – não sei o que está acontecendo por aqui, mas precisamos fazer algo rápido.
Realmente gostei do jeito dela.
Jessie me levou para o corredor e sussurrou ao pé do meu ouvido:
– Fique tranquilo, enquanto você descansava chegou ela e mais dois garotos, parecem ser legais, vamos lá.
Fui pra sala e tinha dois rapazes rindo com as pernas cruzadas.
– Opa, veja quem chegou – disse Ben empolgado – esse aqui é o grande Peter.
O primeiro era um tanto quanto desengonçado, falava alto, usava óculos, seu tamanho era anormal e sua postura não era ereta, entretanto, transmitia confiança.
– E ai cara, meu nome é Ryan.
O segundo parecia ter a idade de Jessie, tinha covinhas nas bochechas ao sorrir, magro como bambu e pinta de “bad boy”.
– Eu sou David. – focou em Beatrice que estava na cozinha.
– Ora, ora, quem acordou – veio Daniel, sem camisa, saindo do banho. – Já conheceu os novos amiguinhos, Peter?
Irritante, esse era o adjetivo perfeito para ele. Preferi não responder, voltei para o quarto e Ryan me seguiu.
– Ele é sempre assim? — perguntou o novo visitante da casa.
– Pelo menos comigo sim. E então, chegaram há muito tempo?
– Na verdade não, acho que estamos por aqui faz uma hora. Acordei dentro de uma lata de lixo, desculpe o fedor.
Comecei a rir, falei que tinha acordado jogado na calçada como um mendigo. Ben adentrou na conversa.
– Aí estão meus garotos – falou de um jeito banal — estou indo procurar por comida com Daniel e David, acho que deve haver algum supermercado nessa cidade, as meninas estão na cozinha. Sim, todos estão preocupados e aflitos sobre nossa estadia nesse inferno, e por não nos lembrarmos de nada, mas ser for pra ficar remoendo essa situação, acho melhor pararmos por aqui e nos matar.
Jessie chegou e escutou tudo.
– Como é que é? Ninguém vai sair pra lugar algum, você não sabe o que tem lá fora, Ben você não vai.
Ele abriu um sorriso largo, no fundo estava gostando de ser tratado daquele jeito, como um bebê indefeso, queria ser protegido.
– A gente vai morrer de fome? – disse Ryan.
– Tem comida na geladeira! – ela sorriu amargamente virando as costas e olhou para Ben. — Se você for eu vou ficar muito zangada – ela tocou em suas mãos e encostou a cabeça no ombro dele – por favor.
– Está tudo bem, a gente só vai dar uma volta – alisou os cabelos dela – prometo que se não encontrarmos nenhuma pista voltaremos depressa.
Jessie não estava contente, Daniel e David já estavam na porta esperando por Ben, pegaram três facas da gaveta e levaram consigo toda a coragem que podiam ter. Não faziam ideia do que esperar lá fora, apenas obtiveram aqueles objetos por legítima defesa. Me apressei para falar com eles.
– Ei, esperem, me deixa ir com vocês!
– Claro que não seu maluco, quem vai proteger as meninas? – murmurou Daniel zombando do pedido.
– Ryan pode ficar com elas. – respondi.
– Nem pensar – interrompeu David – você é grandão mas não é dois, aqui já tem macho o suficiente, cuide das princesinhas. – soltou uma risada sarcástica.
Cerrei os punhos, ele era muito pequeno pra achar que mandava em algo.
– Algum problema? – chegou Ben, colocando a faca no bolso traseiro.
– Não, na verdade nenhum. Vamos? – Daniel estava com o semblante arqueado, indiretamente estava me provocando, ele sabia fazer isso muito bem.
Beatrice deu alguns passos e abraçou David e Ryan, desejando-lhes boa sorte. Ela olhou pra mim e foi pro quarto. Senti uma frieza por parte dela, passou pela minha cabeça que talvez ninguém ali estivesse sendo sincero ou sentindo emoções verdadeiras. Encostei a porta, embora não fizesse diferença com as janelas quebradas, fechei as cortinas e sentei no sofá. Suzan se mostrava carente, estava com uma ameixa na mão, andava de um lado para o outro, sem emitir um único som nos passos.
– Peter? – interrogou Jessie.
– Sim?
– Cara, você está viajando, te chamei umas cinco vezes. Me acompanha até o quarto?
Sentados na cama de baixo estavam Ryan e Beatrice, Jessie subiu rapidamente para a parte de cima e bateu palmas como uma foca.
– Vamos conversar! Vamos tentar pensar em algo – parecia contente, não mostrava apreensão ou agonia.
– David estava dentro da lata também? – direcionei a pergunta para Ryan.
– Hãn? – peguei-o de surpresa com a questão – Ah, não. Ele estava junto com Beatrice quando os encontrei.
Olhei pra ela, impulsionando a cabeça para que continuasse as explicações.
– Bom, eu acordei perto do David. Ele estava jogado num beco escuro e eu estava na boca desse beco. Andamos juntos para procurar ajuda e ouvimos vozes vindas daqui, o resto você já sabe Peter.
Ela tinha um olhar muito penetrante e ameaçador, desviei minha atenção dela por medo de ser congelado por suas vistas. Jessie se mostrava inquieta, balançava a estrutura do beliche com sua impaciência.
– Ta bom galera, como viemos pra cá não importa, precisamos fugir daqui. Eu estou nervosa e preocupada, não devíamos ter deixado eles partirem sozinhos!
Suzan entrou no quarto, se encostou na parede comigo e logo lançou uma pergunta:
– Do que você tem tanto medo lá fora Jessie? O que você viu?
Ela ficou parada, perplexa e com medo de falar sobre aquilo, se encolheu e juntou as pernas.
– O que há de errado com você garota? Eu já falei pra todo mundo que esse assunto eu não quero mais discutir. – replicou bravamente, me deixando assustado, e aos outros do quarto sem reação.
Suzan a focou, e disse em alto e bom tom:
– Não me chame de garota, sua pirralha, você sabe o que aconteceu da última vez!
Fiquei confuso, puxei da memória se as duas já tiveram alguma outra briga, mas não consegui lembrar, Ryan tentou intervir.
– Ok, já chega, certo? – ele olhou ligeiramente para mim e depois para Beatrice.
Suzan saiu do quarto, fui atrás dela para tentar amenizar o clima tenso provocado.
– Está tudo bem, não precisa me perseguir toda hora. Volte pro quarto e fique com eles – respondeu friamente.
Ela era reclusa, senti que na verdade eu estava incomodando ao invés de conseguir arrumar os fatos. Abaixei a cabeça e voltei pro quarto como ela recomendou, fechei a porta e olhei fixamente para Jessie.
– Você não deveria agir desse modo, por que falou assim com ela?
– Eu não tenho culpa, eu já tinha avisado a todos sobre esse assunto, tente me entender. – seus olhos começaram a encher de água.
Gritos, foi somente isso que comecei a escutar vindos de fora da casa, gritos alucinantes, como um pai perdendo a filha e desabando em horror, gritos por socorro.
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