15

Meu único amigo, morrendo na minha frente, eu não podia deixar aquilo acontecer. Beatrice se apressou em ajudar assim como solicitado, fui na geladeira e procurei por qualquer alimento que fosse apropriado para ele.
— Depressa gente! Eu não sei o que está acontecendo. – chorava Jessie, apoiando suas mãos no pescoço de Ben.
Trouxe uma maçã da fruteira encima da mesa, estava um pouco estragada, contudo, tirei a parte podre e esdrúxula dela e a levei até a sala. Eu não tinha percebido ainda como ele se apresentava, portanto foi uma das piores imagens que eu registrei desde minha chegada. Seus olhos perderam a cor, sua boca branca assustava até os mais experientes exorcistas, supondo que aquilo fosse uma possessão. O osso da coluna vertebral se contorcia, sua feição era inexplicável, e a saliva verde sempre á mostra naquele que possuía a doença.
— Não posso te perder, eu juro que eu vou fazer o possível pra te manter aqui, Ben. – soluçava Jessie aos prantos logo ao lado do corpo dele.
— Vem aqui minha linda, acho que não podemos fazer muita coisa. – cochichou Beatrice.
Suzan pegou toalhas e ajudou pondo-as sobre a testa dele, que ardia de febre. Suas pernas eram inquietas, se debatiam e lutavam contra a própria vontade. Segurei-o com força para tentar parar a tremedeira, Beatrice levou Jessie para o quarto tentando acalmá-la.
— Você acha que ele tem chances? – me perguntou Suzan.
— Mesmo se não tiver faremos o ter.
Enquanto cuidávamos de Ben, lembrei-me do homem que nos atacou naquela mesma casa, virei o rosto de relance para o canto da sala e não localizei seu corpo.
— Suzan, cadê o cara que prendemos aqui dentro? – eu disse num tom preocupado.
— Eu não sei – replicou ela olhando em volta do cômodo. – talvez tenha fugido. Quando chegamos aqui só tivemos tempo de ver a situação de Ben e ajudá-lo, então vocês apareceram.
— Certo certo. Mas isso é muito estranho. Ele estava ferido, e provavelmente era cego.
— Sim, é esquisito pensar dessa maneira, mas não temos certeza se ele realmente não enxergava.
Ben tinha parado de se mexer, relaxou, se esticou e seus olhos começaram a criar tonalidade. Seus pés que estavam contorcidos ficaram retos, assim como sua coluna, a respiração voltou ao normal e também seus sentidos.
— Onde eu estou? – disse Ben sussurrando. — Me desculpem. O que eu fiz?
Jessie correu do quarto para a sala como uma atleta profissional.
— Ben? – gritou alucinadamente. – Ben, você está ótimo! Eu sabia, eu disse pra eles, eu confiava na sua recuperação, eu sabia!
— Minha linda... – deram um selinho rápido e logo se abraçaram. – Me desculpem, seja lá o que eu cometi, não era eu.
A última frase passou despercebida por mim, o que me intrigou foi o leve beijo que deram segundos antes. A transmissão da doença era por contato salival, se aquilo realmente fosse o motivo, Jessie estaria infectada. Minha mente começou a me fazer pensar coisas, criar esquemas e soluções para que minha intuição estivesse errada.
— Sarah? Onde está aquela pirada? – perguntou Ben.
— Não sabemos direito, ela se tornou mais agressiva do que o normal. Enquanto corríamos juntos, você se lembra de uma daquelas criaturas se agarrando ao pé dela? – falou Jessie.
— Sim, eu me lembro. Foi nesse momento que nos separamos, corri para essa rua e entrei na casa sentindo muita dor no peito, fechei a porta e tentei achar o homem que deixamos trancado aqui, e é só isso que me recordo.
— Muito bem, enquanto você se afastava eu a vi sendo mordida pela canela, de reação imediata ela cortou a cabeça da criatura.
— Que loucura. – me manifestei.
— Gente, o que é aquilo na janela? – indagou Beatrice.
As cortinas foram abertas, um fio capilar ruivo entrou voando pela abertura e caiu sobre meus pés.
— Sarah! – alertei.
Ela pulou pela janela, seu olhar despertava raiva, sua calça tinha uma mancha grande de sangue, e foi ali que tive a prova concreta para saber que estava infectada. Ben tentou se erguer do chão e Jessie o ajudou.
— Olá cabaços! – disse Sarah batendo palmas. – Parabéns, vocês merecem, são tão idiotas quanto eu pensava. Sim, eu estou plenamente bem, aliás, excelente.
— Você está com a doença, se afaste de nós, tudo o que mais temia está dentro de você agora. – disse Suzan a enfrentando.
— Ora, ora, ora... Não nego, claro que eu não nego. Estou infectada, devo ter em média um ou dois dias para que eu perca a total percepção de quem sou eu. Admito que estou assustada ao ver Ben assim, já deveria estar morto ou se tornado um deles.
— Não ouse criticar ou insinuar suas palavras sujas pra cima dele, sua imbecil. – se impôs Jessie com ódio.
Sarah arrancou a espada das costas, andou sorrateiramente pela sala, ria sozinha, expressava sinais coerentes de que já estava perdendo a noção de tempo e espaço, demonstrava tolice, estava fora de si.
— O que você vai fazer? Nos matar? – debochou Suzan. – Não há nada a ser feito, apenas aceitar que agora você é uma deles, uma escrota, uma doente.
— Cala essa boca! – Sarah correu e tentou enfiar a arma no peito de Suzan, desviamos o golpe todos juntos, Beatrice chegou na porta e abriu-a.
— Venham! Vamos embora!
Suzan deu um soco no rosto de Sarah e depois um chuta na barriga, a garota ruiva se deitou no chão rolando e resmungando. Saímos e trancamos a porta levando a chave. Sabíamos que a única saída da casa agora era pela janela, o rápido ataque nos deu algum tempo para pensarmos em arranjar um novo local para ficar.