Sem Direção
16 Desordem
16
A noite estava fria, Ben reclamava de dor no peito e na coluna, rapidamente precisávamos de um abrigo.
– Peter – disse Jessie. — estamos esquecendo de uma coisa. Precisamos procurar por Daniel. Ele ainda deve estar dentro do carro!
– Você está certa. Mas essa é uma boa hora para andarmos por aí?
– Nenhuma hora é boa por aqui – ela respondeu ironicamente. – não podemos deixa-lo sozinho esperando lá dentro, ele deve estar muito assustado.
– Concordo com Jessie. – disse Beatrice e Ben ao mesmo tempo. Ambos começaram a rir, foi um momento de descontração, a tensão diminuiu um pouco. Andamos até a rua que Daniel estava.
– Lá está o carro! – apontou Suzan.
Verifiquei se havia alguma pessoa por perto, as tampas dos bueiros estavam fechadas e o silêncio era perturbador.
– Certo. Eu e Suzan iremos resgatá-lo, vocês ficam aqui. Ben, cuide delas! – falei brincando.
– Pode deixar cara. – e apertou a minha mão.
– Peter, eu preciso falar umas coisas com você antes de ir. – Beatrice me levou para longe do grupo e começou a desabafar. – Aquilo que ocorreu dentro do carro antes... Foi um erro meu. Esqueça aquilo, eu não deveria ter feito.
Seu semblante era de tristeza, puxei o queixo dela para cima e falei:
– Não posso esquecer. Você teve uma postura que eu nunca teria, é por isso que gosto de você – ela deu um sorriso bobo. – no momento que seus olhos azuis encontraram os meus, eu conheci uma emoção diferente – peguei a mão dela e botei no meu peito – consegue sentir? Meu coração fica assim quando você está perto. Desculpas não são bem vindas agora Beatrice, não se culpe ou se rejeite por um ato que eu mesmo achei corajoso.
– Peter... – ela aproximou o rosto do meu e nos beijamos. Foi tão mágico e surreal que sinceramente pensei que ao abrir os olhos estaria de volta a minha vida, lembrando dos meus antigos amigos, da minha família. Aquilo poderia durar para sempre, mas foram segundos lentos que terminaram pela intrusão de Suzan.
– Eu pensei que vocês estavam conversando, mas pelo visto o bebê virá logo.
Rimos momentaneamente, fomos até a esquina, planejamos ligeiramente o plano e colocamos em prática.
– Boa sorte – falou Jessie. – voltem logo. – ela olhou para Suzan e logo desviou o olhar.
– Tudo bem baixinha, eu te odeio, mas a gente volta com certeza. – replicou Suzan abrindo um sorriso de canto. Jessie também sorriu.
Me direcionei ao carro, tentando não fazer barulho, foquei no automóvel que Daniel estava e caminhei alguns metros.
– Daniel? – sussurrei. Levantei a cabeça e olhei por dentro do carro, ele estava dormindo no banco de trás. Dei duas batidinhas de leve no vidro.
– Peter, ele está aí? – murmurou Suzan. Fiz um sinal positivo com o dedo.
Quando virei o rosto para olhar novamente, Daniel já estava acordado, me encarando desconfiado, tentei averiguar alguma marca de sangue ou mordida pelo corpo dele, mas estava tudo normal.
– Daniel, saia do carro! Viemos lhe resgatar.
– Vocês estão infectados? Por que demoraram? – perguntou desequilibrado.
– Por favor, não faça perguntas, vem. Não há ninguém na rua agora.
Ele abriu a porta com força e saiu meio desorientado, se agachou ao meu lado e seguimos em direção de Suzan. Dobramos a rua e nos juntamos ao grupo.
– Daniel! – Beatrice foi a primeira a abraçá-lo, o gesto foi meio exagerado, acho que eu estava sentindo uma pontinha de ciúmes pela primeira vez.
Ben apertou a mão dele e Jessie deu um grande abraço também.
– Por que vocês demoraram? – indagou novamente olhando diretamente para mim. – Seu lixo, eu esperava qualquer um menos você para vir me buscar.
– Que falta de educação cara, eu arrisquei minha vida pra te pegar naquele carro, e assim que você me agradece? Lixo é você – retruquei.
Ele estava a dois passos de distância de mim, me deu um soco na costela e cambaleie para trás, a dor me atingiu tão rápido quanto sua ação. O berreiro começou, Beatrice e Ben tentavam me segurar, porém parti pra cima de Daniel e lhe dei um chute na perna que ele dizia que estava quebrada. Gritou de agonia no mesmo momento, Suzan puxou forte meu braço e me botou no chão, subiu encima de mim e me deu um tapa na cara.
– Você pirou? Seus idiotas! – ela gritou.
Daniel se levantou e dessa vez chutou meu rosto. Joguei Suzan pro lado, corri com precisão e dei uma voadora no peito dele, botei ele no asfalto e soquei os dentes, o sangue que começou a ser expelido pela boca fez eu finalmente repensar em deixa-lo livre.
– Peter, seu otário. Nunca mais fale comigo! — anunciou Suzan virando as costas e partindo para qualquer direção.
– Vem aqui. – disse Beatrice passando a mão no meu rosto e mostrando o líquido vermelho escorrendo dali.
– Crianças. Só isso a dizer. Estúpidas crianças. – falava Jessie.
Me sentei na calçada, Beatrice rasgou um pedaço da minha camisa e começou a secar o sangue do meu rosto e cuidar do melhor jeito que podia. Ben ficou ao lado de Daniel tentando tranquilizá-lo, conversava com ele e o distraia.
– Temos que sair daqui! – chegou Suzan correndo, com a respiração alta. – Sarah está vindo pra cá com uma multidão de pessoas atrás dela. Estão perto. Vamos logo.
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