Selvagem
12 Sol - Se render à vontade
Notas iniciais
Mitra já havia acordado antes mesmo que os primeiros raios solares se intensificassem, iluminando o quarto.
Observa o caderno com os rabiscos da fala do tio com certa curiosidade.
Haviam demorado apenas algumas poucas horas na rua das pedras. Mas havia sido o suficiente para que os estrangeiros se apaixonassem. Voltaram para casa, que era bem perto dali, caminhando calmamente e observando tudo à sua volta. Apesar de não parecer, todos estavam cansados, e quando chegaram cada um seguiu para seu respectivo quarto. A morena havia escutado um "boa noite, Tigresa" antes de fechar a porta, mas também havia captado seu olhar. Naquele gesto ele dizia que estaria a vigiando, e que não a deixaria. A de cabelos curtos sentiu algo quente em seu coração, algo que não estava acostumada a sentir. E quando se deitou sobre a cama, automaticamente dormiu.
No entanto, havia acordado por sentir frio, e o relógio ao lado de sua cama marca seis horas da manhã. Ela apenas sente que deve descobrir o que aquilo significa. Aquela frase, de uma língua desconhecida. Algo que se intensifica com o passar dos minutos. É como se tivesse um baú que está trancado, mas sem estar com a chave por perto. E aquilo se torna insurportável, ela quer abrir este cadeado. Mitra é tão curiosa quanto determinada.
Se levanta, sem aguentar mais um único segundo. Abre a porta cautelosamente, e a fecha, já fora do quarto, olhando para ambos os lados de forma calma. Os pés são leves e silenciosos contra a madeira envernizada, e ela é leve como uma pena e tão silenciosa quanto um tigre observando sua presa, envolvendo-a calmamente em sua estratégia. Desce as escadas do mesmo modo, e chegando na cozinha, parou por instante e pôs-se a pensar.
O iPod está em sua mala, e ela duvida que o aparelho conecte com a internet, sendo antigo, algumas funções deixam a desejar, ou simplesmente escangalham. E, bem, ela não gosta de celulares e aparelhos pequenos num geral. Aquelas letrinhas pequenas a irritam profundamente.
É uma saída rápida, no entanto. Mas ela não quer uma saída rápida, ela quer a chave de seu baú, mesmo que demore para consegui-la. Ela suspira, e andando sem emitir um único som, põe-se a procurar a biblioteca. O olhar de Cal foi mais do que significante naquele carro, foi esclarecedor.
Vaga pelo corredor que conduzia até a sala. É o último cômodo, ela tem certeza. A porta é de madeira envernizada, e têm retângulos de vidro que tornam o interior do lugar visível, mas não totalmente. Há uma cortina do que parece ser algodão natural. Os raios solares invadem o local, de forma que Mitra pode enxergar ainda mais através das cortinas.
Há livros, estantes e duas escrivaninhas. Nas paredes, algumas pinturas, e pilhas e mais pilhas de quadros. Na escrivaninha uma infinidade de porta-lápis repletos de lápis das mais variadas cores.
Mitra move-se, tentando abrir a maçaneta. Está trancada, como já esperava. Um suspiro curto atravessa seus lábios.
Vira-se, mas no ato sente algo rígido contra si. Morde o interior de sua bochecha comprimindo um xingamento.
— O que você está fazendo aqui, Tigresa? — ela reconhece a voz, que está mais suave que o de costume e ligeiramente rouca, os olhos passando da camisa preta para o rosto sardento.
— E-eu... — ela ri nervosamente, uma risada nasalada que também é de alívio. Algum tempo atrás, muito provavelmente ela não conseguiria dar risada, mesmo que mínima. — Preciso da chave. Preciso descobrir uma coisa. — ela sussurra.
— Hmmm. Mas tinha que fazer isso às seis horas da manhã? — diz ele, esfregando os olhos. Um sorriso mínimo nos lábios.
— Eu só queria fazer isso quando não tivesse ninguém por perto. Não funcionou. — sua voz é sussurrada. Um sorrisinho brota em seus lábios.
— Tem razão. — ele concorda, os olhos brilhando em divertimento. — Mas agora que estou aqui... — as bochechas coradas destoam da pele pálida. — posso ajudá-la.
— Certo. Assim vou conseguir mais rápido. — diz ela, mas as bochechas também coradas, os olhos se concentrando na camisa dele. Dourado encontra um vívido castanho-alaranjado segundos depois. — Bom dia.
— Bom dia. — ele sorri. E hesita um pouco, antes de puxá-la para um abraço caloroso. A respiração dela contra seu pescoço, os pés içados do chão. Um cheiro delicioso de perfume masculino preenchendo o olfato da menor. Ela se sente tão protegida... Como se nada no mundo pudesse alcançá-la. Mitra não é o tipo de pessoa que recebe muitos toques. Nos últimos meses até palavras que não fossem suas eram algo impensável. Sente todos os sentimentos pesados que existiram em seu coração se dissipando.
Nicolau a coloca no chão novamente, à contragosto, e a puxa pela mão a levando até a cozinha.
— Eu lembro de ter visto algumas chaves aqui. — diz ele, a levando até um pequeno armário na parede direita da cozinha. É um criado-mudo azul e rústico, não muito grande.
Mitra fica hipnotizada pela cena da mão dele na sua, a conduzindo. E fica em tal estado de forma inconsciente. As bochechas dela são minimamente coradas quando ele a fita novamente, os olhos focados buscando possibilidades.
— Por que não queria que ninguém soubesse? — pergunta Nicolau, a voz suave e divertida. Desvia os olhos dela, abrindo as gavetas. Na segunda, encontra um molho de chaves, pegando-o habilmente entre os dedos. Mostra-o para a menor, mexendo o objeto com leveza, um tilintar doce preenchendo o ambiente. — E aqui está. Pelo menos eu acho. — um risinho nasalado segue sua fala, e ele oferece o conjunto de chaves para a de cabelos curtos.
Ela engole em seco, mas tem um sorriso nos lábios enquanto tenta formular uma resposta.
— Às vezes eu esqueço que existem pessoas além de mim aqui. E, além do mais, não queria que Cal soubesse que eu estou tentando encontrar isso. Apenas quero que veja que eu descobri, se descobrir. Também gosto muito de... Métodos antigos. — ela sussurra. É como se estivesse tentando compensar todo o tempo que passou calada, nesse lugar.
— Mas... Se me permite perguntar, o que exatamente você está procurando? — ele indaga, os olhos de um castanho vívido a observando meticulosa e carinhosamente.
— Cal me disse uma coisa, outro dia. Era algo de outra língua. E eu acho que é uma espécie de enigma. Deve ser mandarim. Consegui identificar algumas coisas, mas preciso ter certeza. Mesmo que a tradução provavelmente seja uma incerteza. — ela segue até a porta da biblioteca, confessando tais fatos para o inglês ao seu lado. — Cal é um mágico.
— Como assim um mágico? — ele pergunta, confuso, enquanto ela testa cada uma das chaves na fechadura pacientemente.
— Ele sabe de coisas reais que para nós parecem ilusões. Ele é um ilusionista do real muito talentoso. Ele tem um dom com a vida, com o tempo. É algo estranho de se dizer, mas acho que você consegue entender. Essa é a essência dele. Esse é... Cal. — ela sorri de lado, minimamente. — Compreende?
— Sei exatamente do que está falando. Tem algo nele... Acho que a sabedoria, os olhos experientes que ele tem, que me lembra um centenário. Alguém que já viu e viveu muito. — ele concorda, encostado na parede.
Observa as mãos alvas manuseando cada chave, na tentativa de fazer desaparecer o obstáculo que a impede de ter conhecimento das palavras de seu tio.
— Posso fazer uma coisa? — Mitra para o que está fazendo, focando de forma hesitante seus olhos no moreno, pensando no que quer dizer com aquela pergunta. — Me dê as chaves. — ela estende a mão com certa hesitação. Ele pega o molho, sorrindo minimamente. — Agora, feche os olhos. — ele pede.
— Por quê? — a mais baixa franze o cenho.
— Você verá. Apenas faça. — ele tem olhos misteriosos quando disse tais palavras. Um pequeno sorriso, uma pequena estrela no céu homogêneo — tirando as sardas, pequenas colinas vistas de cima — de seu rosto. Mas nem tanto. O rosto de Nicolau é um mapa e um mundo. Em seus olhos pode-se viajar para qualquer lugar. Mitra sabe disso. Seus olhos são um portal. E seu sorriso é um convite para a insanidade. A morena fecha os olhos. — Certo. — ela escuta o sussurro. — Agora conte até dez e abra os olhos.
A de olhos dourados põe-se a contar, e nenhum som fora ouvido durante todo o tempo, ela em silêncio, o mundo a consumindo por inteiro. Não há guerra, no entanto. Não há passado, fantasmas sumiram, é como se estivesse nascendo a cada instante que passa com ele. Como se sua memória fosse resumida por coisas boas. O que não é a verdade absoluta. Mas Mitra não é o tipo de pessoa que guarda rancor de algo, ela preza o esquecimento por saber que a dor da lembrança é intensa demais para ser sentida.
Sussurros de sua contagem, números saindo por seus lábios num tom de hipnose, inundam a audição de Nicolau. Ao chegar no número dez, ela abre os olhos.
Não se arrependera, no entanto. Pois sua vista é incrível. Os olhos de Nicolau brilham como se chamas crepitassem em suas íris, e seu sorriso tem a capacidade derreter tudo. É um sorriso feliz, de lado.
Olha para a porta e percebe que está aberta. Mas a chave não está ali.
— Que... Raios... — diz, os olhos ligeiramente arregalados, impressionados. Nicolau estende suas duas mãos vazias de forma a fazer Mitra notar que o molho realmente não estava ali.
Percebendo as reações da mais baixa, seu sorriso admite uma forma que declara um segredo escondido.
— Me dê suas mãos. — ela o faz, ligeiramente desconfiada e com os olhos desfocados, está confusa. Ele cobre suas mãos com as dela com um ar de concentração divertida, como se soubesse que não precisa disso para obter algum tipo de resultado ainda desconhecido por Mitra.
No entanto, subitamente, sente algo em sua palma. Uma pressão suave de algo que parece metal. O moreno move suas mãos de forma a perceber que tal objeto é o molho de chaves.
Ele pisca para a de cabelos curtos.
— Às vezes as coisas acontecem assim, não acha? De repente, como se brotassem de suas mãos. Como uma chave que abre algo maior. — seu sorriso é mistério. E seus olhos são um vidro totalmente expressivo, mas, no entanto, de um âmbar escuro e indecifrável.
Os olhos de Mitra, dourados, refletem uma inocência vulnerável que tenta esconder de todos. No entanto, não tentara esconder dele. Nem tentaria. Ela sabe muito bem que ele consegue lê-la mesmo se erguesse mais de mil paredes em volta de si.
Desvia os olhos dele, mirando na parede, as bochechas coradas. O sorriso do mais alto ainda não morreu, e é repleto de carinho, ternura.
— Certo, agora vamos achar logo isso. Você não é a única curiosa aqui. — ele ri, puxando-a pela mão com gentileza.
Ao analisar o cômodo sem uma cortina limitando sua visão, parece que o filtro da imagem foi retirado. E é o que aconteceu, ou pelo menos o que parece ter acontecido. Agora já tem a liberdade de esticar as mãos e tocar o que quer. O ambiente é como esperava. Há quadros pendurados na parede, e a assinatura é inconfundível.
— Dunkelheit. — ela escuta a voz de Nicolau soando atrás de si, suave, numa pronúncia perfeita.
— Nina. — a mais baixa sussurra.
Há quadros sobrepostos, na vertical, encostados na parede. No primeiro deles, uma mulher dança, chuva escorrendo por seu corpo e o vestido vermelho se movimentando, como as pétalas de uma rosa a envolvendo. Tem um sorriso feliz e sereno, os olhos fechados.
O cenário é uma mistura de cinza e gotas d'água, o chão brilha como se fosse plasma. Parece tão real que Mitra acha possível que se algum deles tocasse sua superfície, será transportado para aquele mundo.
No canto direito, a assinatura de Nina Dunkelheit sobressai. É um nome forte, abandonado de suas raízes italianas. O significado de seu casamento é criar algo novo, construir uma nova vida e novas memórias. E seu nome atual reflete tal fato.
O coração de Mitra sussurra que Nina é uma Dunkelheit, mas que suas sombras estão apenas no passado. Não seriam seu fim.
Já não pode dizer o mesmo sobre si.
Desvia os olhos, ignorando outro quadro em que olhos a olham de forma tranquilizante, num tom violeta, tentando transmitir paz. Tentando parar o relógio, o tempo, por um instante. Mostrar que talvez nada tivesse um real significado a não ser se dar o luxo de simplesmente... ser.
Ela continua a andar e simplesmente para, analisando seções da estante. Há algumas etiquetas. Literatura estrangeira, arte, manuais, auto-ajuda e... línguas. Seus olhos param ali.
Se aproxima instantaneamente, quase de forma magnética.
Nicolau se põe a observá-la.
Acha o dicionário de mandarim, sentando-se com o mesmo, o caderno com a fala e uma caneta.
O mais alto gosta de observá-la. A forma como age, os movimentos tão leves. Mal parecem movimentos de uma lutadora. De alguém que golpeia, no mais abrangente sentido. Leve como uma pena. Mas talvez seja esse o sentido de suas lutas. O segredo não está na agressividade e sim no jeito. Confunde-se seu oponente, foca-se em seus próprios movimentos, na maestria de mover-se, de arquitetar um golpe, ter uma estratégia. E não em fazer seu oponente sentir dor.
Isso faz sentido, pensa.
Mas seus olhos estão focados nela, e na forma como o sol brilha e deixa sua pele luzente e com aparência de porcelana, na forma como os pelos espalhados por seu corpo brilham em dourado e em como seu tórax se movia, com o ato de respirar. Ela é uma galáxia, inteirinha. Há tantas estrelas, e o pó interestelar que a faz brilhar por completo. É tantos planetas. É tão... humana. Nicolau às vezes a compara com uma joaninha, e brinca com o café em sua xícara pensando que a cor parece-se com o pigmento de seus fios. Ele brinca com suas moedas holandesas pensando no metálico dos olhos dela, e na forma como cintilam.
Ela escreve com afinco, traduzindo, pensando, tão concentrada. Nicolau a observa com um fascínio crescente.
— Eu a tenho. — ela observa suas anotações como se fosse céu e estivesse nublada, o que não significa tristeza e sim que seus pensamentos estão nublados. Distantes. Mas ela está perto, e suas bochechas estão coradas. Ela simplesmente parece tão envergonhada quando ele se debruça sobre ela, as mãos na mesa e a cabeça logo acima da sua. — "Às vezes o que procuramos está bem abaixo de nosso nariz. Não nos damos conta. Mas ao fim, quando finalmente vemos, é ainda melhor do que havíamos pensado." — o silêncio predomina, e ambos absorvem as palavras. É como se abrissem seus poros e adentrassem ambos os corpos com intensidade, mas ao mesmo tempo é algo que ilumina, e preenche o ar de uma essência doce.
A mais baixa se levanta quando Nicolau se afasta, com calmaria, seus olhos brilham e ele olha para o assoalho de madeira. Mitra quer voltar, abrir e porta e sair como se ele não tivesse uma fragrância tão boa de carvalho que a faz querer se afogar na imensidão dele. É britânico mas parece-se muito mais com um holandês pois é tão mar quanto as redondezas de tal lugar. Quer voltar para seu quarto e não quer. Quer se afastar, mas não consegue. Ela odeia que alguém a tenha em mãos, mas ele a tem. Odeia que alguém tenha tanto controle sobre ela, mas ele a tem.
Para de frente para o moreno, e seus olhos são tímidos mas escondem algo. Nicolau sorri como se tal ato fosse tão sincero que queimasse. Se aproxima, o coração de Mitra explode aos seus ouvidos. Pode jurar que o sardento pode ver seus batimentos, jura que estão movendo o tecido de sua camisa com seu ritmo.
A mão dele se encontra em sua bochecha, tão leve e sedosa. Os olhos dourados são dúvida, os castanhos, certeza.
— Talvez ele esteja certo. — Seu tom é sussurrado e tão doce que as palavras derretem. Sorri de forma encantadora, um sorrisinho amável, leve e sedutor.
Sua mão escorre por sua pele e encontra sua nuca, Mitra treme. Ele a puxa, seu braço se entrelaçando em sua cintura. Estrelas explodem em suas íris.
Mas a maior explosão, foi a de quando os lábios se chocaram. A expressão serena no rosto de Nicolau, a surpresa de Mitra se afogando em suas sensações, as bochechas avermelhadas, os olhos se fechando. Um único e casto toque, pois não há pressa.
Ele a esperará, ela o esperará.
Cal está certo. Ele sempre está.
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