Selvagem
10 Mi - Viver intensamente
Notas iniciais
Nicolau sente quando Mitra se aconchega em seus braços. O sol nasce e o fim da madrugada aos poucos vai se tornando manhã, como a areia de uma ampulheta escorrendo para a repartição inferior. O tempo passa.
Ele olha meticulosamente para ela mais uma vez, vendo como os corpos parecem se encaixar. Ela parece ter 1,70 enquanto ele tem 1,87. Mas isso não impede o fato de parecerem duas partes de um quebra-cabeça feito sob medida. Ela parece sentir quando ele está pensando em se levantar, murmura sobre seu peito, o braço em sua cintura o apertando ainda mais contra si.
O moreno fora atingido por uma sensação boa, como a de ser o porto seguro de alguém. E ela demonstrar mesmo que inconscientemente, que quer que ele fique, o faz sentir importante, de certa forma. Ela parece o tipo de pessoa que havia perdido muito para querer ter algo, que futuramente se lamentaria por perder. Mas... independente de tudo, se essa é a verdade, ele está disposto a provar o contrário.
Ele percebe o abraço afetuoso... Quente, aconchegante. Que parece ferver seu sangue e aquecer sua alma. É uma sensação tão boa.
É como o abraço intenso de dois amantes.
As bochechas dele coram violentamente quando chega a esse pensamento. Mas ele não se move.
De alguma forma parece algo banal, como se acordassem juntos todos os dias. E mesmo que seus pensamentos o assustem, ele reconhece a verdade presente neles. É como aquela sensação de ter um segredo que nem você sabe: algo que tem como normal em alguma área de seu subconsciente e que não sabe que tinha até então.
Ele fica mesmo que anteriormente quisesse se levantar. Ela está confortável, e apesar de ele também estar, a única coisa que importa no momento é como ela se sente. E apesar de ter se passado muito tempo desde que ela deixou a cabeça sob seu braço, o fazendo sentir sua respiração calma, seu braço não está dormente. Ele gostaria de lhe dar não só conforto físico, mas confortar seu coração e dizimar os fantasmas que a assombram. Irracional, sem nexo. Mas ao mesmo tempo não pode ser mais coerente. Ele põe a mão direita em seu ombro esquerdo e a aperta contra si, imaginando quais seriam seus sonhos, seus pesadelos e seu passado. Sua respiração é calma e ela tem o rosto pacífico. As bochechas estão pálidas, e ela parece ter a inocência de uma criança. Parece vulnerável.
Não que ele não percebesse sua vulnerabilidade quando está acordada, apesar de pouca, já que é muito bem escondida sob sua independência estampada em cada ato. No rosto sério e em sua expressão intolerante, ameaçadora de certo modo.
A lutadora parece satisfeita. Os cheiros dos dois se misturam no ambiente, os perfumes cítricos tornando-se tão harmoniosos quanto duas músicas feitas para serem tocadas em grupo.
Ele não quer levantar. O perfume dela é envolvente. Ela é tão cheirosa, tem a pele tão macia... A respiração é ritmada, no mesmo ritmo que a dele.
Ele olha para seu rosto até cair no sono, como se ela fosse mais brilhante que lua na noite anterior.
•••
Quando o sol finalmente nasce, seu rosto é iluminado pelos raios solares vindos da janela. Fazendo com que ambos acordem. Nicolau olha para Mitra, os olhos enxergando num feixe. O cabelo está ligeiramente bagunçado, e ela parece ter se mexido muito pouco desde a noite anterior. Fecha os olhos novamente, sonolento e preguiçoso.
Poucos segundos depois Mitra abre os olhos, também num feixe. Observa o garoto e imagina se ele dorme, o braço dela ainda repousa na cintura dele e ela não faz menção de tirá-lo de lá. O braço dele, sob sua cabeça, é confortável. A mão dele está em seu ombro, como se a puxasse. Ela está quase de lado. Os batimentos do coração dele são ouvidos sem muito esforço, e ela os sente, deliciada, pulsando em si como se fossem dela. Ele é um estranho. Mas ela simplesmente não cosegue reconhecer estranheza nisso. É algo novo. E ao mesmo tempo maravilhoso. Ele é todo vida, todo batimentos cardíacos e sangue correndo pelas veias. É todo pulsação, uma vibração melodiosa. Neste instante é como se ela sentisse eletricidade correndo pelas veias, como se fosse condutora de tudo que há nele.
Seus cabelos cacheados estão desgrenhados, as bochechas eram minimamente rosadas. E ela percebe então como o rosto dele era como o de um boneco. É tão delicado e perfeito. Ele tem o queixo fino, as bochechas com algumas sardas espalhadas assim como o nariz. Carrega uma expressão calma que parece contagiá-la. Ela está calma. Mas algo em tê-lo tão perto faz as batidas de seu coração se tornarem rápidas, fortes. E a sintonia com que se misturam com as dele é arrebatadora.
E como se lesse pensamentos, os olhos dele se abrem. Pacíficos, carinhosos... Lindos. São olhos amendoados de forma doce. São constelações desenhadas em suas íris, é a forma como a boca dele se curva num sorriso que faz Mitra ter a sensação de que irá explodir. É a proximidade que faz o mundo parecer distante e o momento que parecer uma utopia.
E talvez... Talvez seja tudo por ele.
Tudo por causa dele.
— Bom dia, Tigresa. — ele murmura. As bochechas dela continuam da mesma forma, mas sua mão direita teima em subir até seu rosto, fazendo com que o dedão passe delicado por sua pele, distribuindo carícias. Ele sentie-se assustado com o ato, mas no instante seguinte há reconhecimento em seus olhos. Há algo maravilhoso cintilando ali.
Ela recobra o controle sobre sua mão e por instinto concentra-se em seu pescoço, alvo, que parece ter a pele tão macia. As batidas de seu coração apenas aumentam, e quando ela sente o rosto arder, está se repudiando por isso.
— Bom dia, Nicolau. — ela murmura quase no mesmo tom que ele. E enquanto ela tenta se concentrar em outro lugar, ele tenta captar seus olhos e desvendar seus mistérios. Ela solta um suspiro trêmulo, e ele tenta formular alguma frase... Ele quer oferecer ajuda. É estranho a forma como parece que poderia dizer tudo, mas tem medo que essas palavras de alguma forma a machuquem. Ele tem medo... Porque no fundo ele sabe que o que mais quer é que tudo aquilo tenha um fim.
Que todas as vezes em que parece ter algo marcado nela, evaporassem.
E talvez seja impossível. Mas ele está disposto a tentar.
E Nicolau, quando luta... Luta como se a segunda opção fosse a morte.
— Mitra. — é a primeira vez que ele a chama pelo primeiro nome. Não por qualquer apelido, ou com o tom de voz de sempre. Mas é um tom de voz, suave, sublime e ao mesmo tempo firme. Que declara que ela pode se apoiar nele se suas pernas fraquejarem e se seu coração queimar com o ardor de existir. Porque ele sabe, às vezes existir é um fardo. Parece que já temos nosso fado traçado. — Você quer falar sobre ontem à noite? Você pode confiar em mim. Você pode... Eu sei que... eu não sei de nada. Sobre seu passado, sobre tudo. Mas eu quero que você saiba... Que eu posso conhecer você faz pouco tempo. Mas parece que te conheço desde que nasci. E quero que saiba que você pode contar comigo... para tudo. — ele sussurra de forma tão sucinta e tão arrebatadora ao mesmo tempo que por um único segundo Mitra sente o coração batente simplesmente parar de bater. No instante é como se ele controlasse sua respiração. E ela não é uma garota fácil de se deixar à mercê. Ela só não sabe o que dizer. Ou o que fazer.
No entanto, quando suas mãos parecem circundá-lo com mais força e ela o está abraçando, ela sabe que pode confiar nele. Ele não parece um estranho. Na realidade, ele nunca pareceu um estranho. Ele parece algo íntimo, e faz o gelo que habita dentro dela derreter ao ponto de só chamas sobrarem.
Ele está surpreso, mas feliz, e a abraça como se não soubesse o tamanho de sua majestade. Como se não soubesse que Mitra é maior que um arranha-céu por dentro.
— Obrigada. Nicolau. — ela sussurra, se separando dele.
— Pode me chamar de Nico, Tigresa. Eu já lhe disse. — ele ri levemente. E ela se levanta. Ele faz o mesmo logo em seguida, se espreguiçando com leveza. Puxa sua mão direita, e deixa-a a milímetros de sua boca.
— Pode me acordar todas as noites. E todas as manhãs. Posso ser seu mordomo a partir de agora. — ele pisca, e beija suas mãos sem desgrudar dos olhos dela.
Para Nicolau é incrível a forma como ela parece inexperiente algumas vezes. Isso lembra a si mesmo, de alguma forma. E isso acorda uma parte de si que diz que deveria descobrir mais ao lado dela e lhe ensinar o que já sabe. Aprender com ela, também.
Mitra sorri timidamente, e anda até a porta.
— A-Até o café... Nico... Lau. — ela tenta chamá-lo pelo apelido, mas é, de alguma forma, tão estranho. É como se não conseguisse pronunciar as palavras como uma palavra. É como se no alfabeto existisse uma letra chamada Nicolau.
E não existe como abreviar letras.
Um suspiro curto atravessa seus lábios, e ela se pega pensando se dirá à ele, algum dia, sobre tudo o que vivera até então. As bochechas estão coradas, mas os passos continuam decididos.
Trinta minutos depois, Mitra evita o espelho ao escovar os dentes.
E encontra um pente sobre a pia. Com as mãos desajeitadas, ela segura o objeto com certa estranheza. Olha-se no espelho, dizendo que terá de enfrentar tudo aquilo que não faz por medo. Terá de derrubar seu oponente.
O objeto desliza por seus fios, e ela repete o processo até seu cabelo parecer ligeiramente mais arrumado. As pontas para dentro, como foram desde a infância.
Sentindo ainda o frescor do banho, o cheiro de limão siciliano impregnado no corpo e vestindo uma camisa marrom escura e shorts largos ela desce as escadas.
E como no dia anterior segue até a mesa do café. Sente o mundo abaixo de seus pés.
O que ela não esperava é que haveria uma garota ali. Uma garota que parece ter a mesma idade que ela e tem cabelos loiros, cacheados e bagunçados. Olhos penetrantes, mas no entanto, azuis. E ela parece um cópia mais nova de Nina, só que com olhos diferentes. Ela olha por um instante para Mitra e volta a conversar com Nicolau sobre algo. Ela tem um sorriso quase malicioso no rosto, mas imperceptível. A lutadora sente nojo. Ele responde suas perguntas e conversa com ela sem muitas animosidades, não parece muito interessado. Ele está ao seu lado e bebia uma xícara de café quando Mitra se senta de frente para ele.
— Bom dia. — sussurra quase de forma mal-humorada.
— Bom dia, Mitra. — o tio a cumprimenta com um sorriso, parando por um único instante de conversar com Nina.
— Bom dia, querida. — Nina sorri, olhando para ela. Depois sua visão volta-se para a garota loira, que parece quase cair dentro de Nicolau. E realmente cairia, se ele fosse um buraco, Mitra pensa. — Floretta, esta é Mitra. Mitra esta é Floretta, minha filha.
Então as suposições dela estavam certas.
Mas a morena simplesmente não consegue conter a sensação de que há algo de errado com essa garota.
O que é inquestionável quando ela olha dentro dos olhos âmbar, com ar de superioridade e zombaria.
Mitra faz um gesto de cabeça, se dirigindo a algo que está sobre a mesa.
— Oi. — a loira murmura depois de analisá-la por alguns segundos. Como se Mitra fosse um tipo de espécie recém-descoberta gosmenta.
Enquanto todos conversam e ela percebe a forma como Floretta parecia colocar-se numa bandeja e se oferecer para Nicolau, a garota se concentra na comida.
Porque nesse instante é a única coisa que não a tirará do sério.
•••
— Quando eu disse que existiam muitas mulheres bonitas aqui, quis dizer mulheres feito ela. Olhos claros, cabelos loiros, feminilidade fluindo pelos poros... Você devia estar acompanhado dela ao invés de mim. — o tom de Mitra tem certa raiva mal escondida. Provavelmente não percebeu que Nicolau pouco se importa com aquela garota.
E claro, ela não precisa dizer o nome dela para ele saber de quem se trata.
— Eu não me importo. — ele diz, arrancando um cacho de uva das vinhas e o colocando na cesta. Já ela, pega as cenouras e coloca dentro da cesta como se quisesse matá-las. — Mais uma vez eu digo que prefiro ficar em sua companhia. — ele fala com tanta calma e confiança, que algo dentro dela parece se encolher, e ela sente vergonha e ainda mais raiva de si mesma por mostrar mais uma de suas fraquezas.
— Mas eu me importo, merda. — o rosto dela parece pegar fogo nesse instante, e os olhos dourados cintilam. Ela fecha os olhos por alguns segundos, que logo se transformam em minutos. Nicolau se levanta e segue até ela, parando ereto no corredor de terra.
Ela murmura algo olhando para o chão, as pisadas fortes enquanto segue até ele. No instante seguinte, dá mais um passo com os olhos fixos na terra. Ela quer sair dali.
Mas não consegue, porque eles estão caídos, a blusa dele ficando suja de terra. Um riso fraco escapando dos lábios dele. Ela foca nos olhos dele e sente o rosto esquentar ainda mais de raiva por ele achar isso engraçado e de vergonha por tê-lo empurrado sem perceber. Principalmente por estar tão perto, sentindo o corpo dele logo abaixo de si...
— Tigresa. — ele sussurra, os rostos a milímetros de distância. As sobrancelhas dela levemente franzidas de irritação, os olhos raivosos de um tigre. Os dedos dele tocam seus cabelos, acariciando as madeixas de forma delicada. E quando ela tenta se levantar e caiu novamente em cima dele, é quando ela percebe que ele a faz perder as forças. — Olhe nos meus olhos. — olha-o. E seu olhar vai se suavizando, a mão dele, gélida e pálida, novamente em seus cabelos. — Eu não me importo com ela. Mas eu me importo com você. E se você acha que eu deveria estar com ela, você está errada. Porque a única pessoa com quem eu quero e deveria estar, está na minha frente. — ele sorri de forma delicada, vendo o rosto dela se tornar tão vermelho quanto os tomates da plantação.
Ele a ajuda a se levantar, e ambos seguem até seus respectivos quartos se aprontando para ir à praia.
Mas... há algo errado quando Nicolau abre a porta.
É Floretta. Vestindo um biquíni rosa claro fino. E deitada em sua cama.
— O... O que faz aqui? — ele pergunta, desviando os olhos dela e fechando a porta atrás de si. Eles teriam problemas, muitos problemas se alguém visse o que acontecia lá dentro.
A risada dela é doce, se espalhando pelo quarto. Essa garota realmente não presta.
— Posso te mostrar... — ela corre os dedos por seu corpo, virando-se. A cintura se acentuando ainda mais no corpo bronzeado. — sechegar mais perto. — ela sorri de forma maliciosa, mordendo o lábio inferior.
O estômago de Nicolau embrulha.
— Por favor, saia. — ele pede, sem nem ao menos olhar nos olhos dela.
Ela se senta, e solta um suspiro de falsa decepção. Abre as pernas propositalmente.
— Não seja bobo, venha, Nico. — ela fala de forma provocantemente exagerada. Ele sente um nojo profundo de suas palavras mansas e envenenadas. É como o ronronar do gato mais perverso.
— Por favor, Floretta, saia do quarto. — ele mantém os olhos fixos na parede.
Ela o olha aturdida, mas ao mesmo tempo convencida de que ele logo mudará de ideia. Mas o tempo passa e se condensa como silêncio no ambiente. E a pose de Nicolau, os olhos expressando asco, parece inquebrável. Um suspiro de impaciência atravessa seus lábios e ele maneia as mãos para a porta, indicando que é por ela que a loira deve passar.
Ela contamina o ambiente com sujeira a cada respiração.
Se levanta pouco tempo depois, quase como se fosse obrigada a isso. E segue até a porta com uma irritação explícita em seu rosto.
— É por causa dela, não é? Aquela garota estúpida... — sussurra quase como se cuspisse as palavras. Ele sente o rosto se esquentar até parecer ter entrado em combustão. O controle dele está se esvaindo.
Ninguém chama Mitra desse jeito.
— Não posso enxergar de que forma você tem a ver com isso. A única garota estúpida é você, Floretta. Que não consegue engolir a informação de que existe uma garota infinitamente melhor do que você apenas a alguns metros de distância. Você me enoja. — os olhos dele estão fechados enquanto ele tenta se conter todas as suas forças. É apenas o primeiro dia nesta casa e ela já conseguia ser suficientemente desagradável. Suficientemente absurda.
Ela passa pela porta com irritação e indignação tomando conta de cada ato.
Quando finalmente vai, o moreno fecha a porta e um suspiro pesaroso parte seus lábios.
Enquanto essa garota não saísse da casa, eles muito provavelmente não terão sossego.
•••
— Ah, vamos! A água nem está tão gelada assim. — diz Nina, vestindo um maiô azul-marinho que exibe seu corpo bonito e conservado. Ela tem sardas sobre os ombros, e um sorriso luminoso no rosto. Como se quisesse compartilhar paz, tranquilidade, amor, e felicidade. E ela consegue. Talvez seja apenas um dos fatores que a torna ainda mais diferente. Ainda mais amável, de certa forma.
Floretta não havia herdado isso. Na verdade, ela se parece pouco com a mãe. Tirando a aparência, ela não herdou um único traço da personalidade faiscante da loira mais velha.
Será que ela tem salvação? Ou está fadada a um caminho de superficialidade?
O celular está em suas mãos, e ela mexe no mesmo de forma descuidada, mas está totalmente compenetrada no que faz. Talvez conversando com alguém que considera importante. Mas essa é a pequena bolha particular da jovem loira, que não sabe enxergar com os olhos dos coração. E muito menos enxergar o significado por trás de cada cor que, em primeiro plano, lhe é visível.
Cal está no mar, mergulhando nas águas claras e chamando por todos. Ele parece satisfeito ali. Bronzeado, encharcado e de alguma forma... livre. É essa liberdade que o faz sorrir distraidamente quando olha para onde estão. Talvez não só a liberdade.
— Não mãe, vou ficar por aqui mesmo. — a garota diz, depois de murmurar algo.
— E você, Mitra? Você vem? — ela sorri de forma materna, doce.
A morena desvia seus olhos das águas, da paisagem e das pessoas. Agora ela observa uma criança pálida que brinca com o pai na areia. Ela vê sorrisos, risos e conversas. Vê pessoas encontrando seus caminhos. Construindo memórias. Lendo. Escutando música. Cochilando. Se bronzeando. Brincando. Nadando. Observando tudo e todos como ela.
Ás vezes incomoda o modo como o mundo parece distante.
E de como parece solitária.
Acredita que todos em algum momento se sentem assim.
Mas é uma sensação opressora.
No entanto, uma diversidade de vidas, causa uma diversidade de emoções.
Observando cada uma, ela pode tomá-las como se tivesse nascido com seus nomes. E isso a conforta, e a faz quase sorrir como uma boba. Porque esses sorrisos... São deliciosos. Você se sente quase na obrigação de se misturar com essa gente. E com suas conversas de palavras estranhas. E de abraços, mãos dadas, e olhares. De fraternidade, liberdade, de certa forma igualdade, e sensações. É isso o que torna cada uma dessas pessoas tão diferentes quanto sabores... E ao mesmo tempo tão iguais como uma cor vista em dois lugares diferentes. Como os grãos de areia...
Observar é fascinante. Sentir o mundo, vidas e sensações a sua volta é fascinante.
Tão fascinante de que ela esquece o fato de que existe. E de que não é um metamorfo que havia escolhido por ser vento, em sua transparência, instabilidade e liberdade.
— Vou. — ela solta um suspiro curto, tentando não se sentir envergonhada em tirar a camisa larga e os shorts jeans velhos. — Podem ir sem mim. Vou logo.
Nicolau sorri, sem-dentes, e maneoa a cabeça em concordância. Mitra havia tentado de todas as formas não se distrair com ele. Que usa calças de banho pretas, e tem um belo corpo delineado, liso e pálido. Os músculos definidos, mas não de forma tão absurda. Ele tem tudo na pedida certa, nos lugares certos. Ele parede desenhado de vez em quando, quase fictício. É estupendo.
E provavelmente, deve ser por isso que ele é tão observado quanto o sol.
Ele e Nina seguem até a água, conversando e rindo. Eles parecem mais íntimos a cada dia que passa.
A morena se levanta, observando a canga que cobre a areia, que é estampada por uma junção encantadora dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro.
Esse lugar parecia diferente de tudo o que acha possível. Todo o lugar, de alguma forma, parece estar envolto por uma quantidade exorbitante de um abraço caloroso. E cada pessoa que passa por ela parece ser parte de uma mesma família. É uma sensação nova e encantadora ao mesmo tempo.
Mas de alguma forma ela sabe que o lugar onde está, a cidade praiana que encanta milhares de turistas todos os anos — há uma placa no centro dizendo que são um dos lugares mais visitados do mundo — é irresistível. Doce, encantador, eletrizante. É calmaria, música e gente. Gente com coração batente no peito, com sede de vida. E o chão da cidade parece pulsar a cada passo. Os ventos enviam vibrações do mar, e isso preenche a todos que estão por ali. É inegável. Não há como negar o encanto deste lugar.
— Tira logo essa roupa. Quero ver se é tão boa quanto eu, como Nicolau diz. — ela sorri perversamente, desviando os olhos do celular e apoiando o peso nos cotovelos. Tem um olhar desafiador no rosto, uma sobrancelha erguida. — Aposto que deve ser uma desfigurada. Ou com um corpo másculo de lutadora. Muay Thai... Deve ser uma lésbica não assumida. — ela ri.
Mitra sente cada centímetro de seu corpo se esquentar. Ela quer usá-la como seu saco de areia naquele instante. E está, tão, tão tentada. Falta pouco para quebrar aquele rostinho lindo em pedaços.
Ela apenas mantém uma expressão indiferente.
Auto-controle de lutadora... Ela havia se esquecido de que lutadores não eram só o corpo proporcionado pela paixão que têm pelo esporte.
A frase que ela diz, sobre Nicolau, faz com que ela pense sobre o que deveria ter acontecido para ele ter falado isso para ela. Ou o que o fez pensar nisso.
Ela tira a camisa sem maiores esforços, e deixa o short cair na areia. Dobra suas roupas e as coloca sobre a canga. Mas existe um pouco de hesitação em seus atos.
Ela te, seios medianos, proporcionais ao corpo. A barriga é lisa, e os braços um pouco musculosos, mas nada exagerados. A perna é lisa, e ela é pálida em toda a sua extensão. Tem a cintura acentuada na medida certa, e glúteos redondos e perfeitos, assim como coxas grossas proporcionadas também pelo esporte. O maiô preto que Nina havia deixado em sua gaveta é perfeito para ela, e gostou do modelo e da cor. É discreto.
Mas Mitra não é nem um pouco discreta na praia. Pode-se dizer que tantas cabeças viram em sua direção quanto Nicolau.
Mitra, sem dúvidas, é uma das garotas mais bonitas da praia.
Não que ela saiba disso.
— Você não tem controle algum sobre mim. E eu não preciso ser muita coisa para ser melhor do que você. Minha sexualidade não lhe diz respeito. — ela diz, com certa indiferença. Os olhos vidrados num ponto ao longe. — Pelo menos não sou uma garota magrela que usa biquínis ridículos e pequenos para chamar a atenção. Uma fútil como você.
Ela continua andando como se uma bomba estivesse explodindo atrás dela. E é praticamente a reação que tem a garota quando ela havia mostrado, pela primeira vez, que pode mostrar seu corpo sem medo.
Um sorriso leve e sem dentes brilha nos lábios de Mitra, se afogando em escárnio. É ótimo ver pessoas provando do próprio veneno.
Ela é insegura quanto a si mesma. Mas jamais demonstrará suas fraquezas na frente de um oponente. Muito menos para uma tão baixa quanto Floretta.
Quando chega até a areia, sente a areia gélida e úmida entrando em contato com seus pés. Não se lembra de quando havia estado em uma praia, muito menos se sua mãe, alguma vez, a havia levado quando pequena para o mar. Mas sabe que seu tio tem uma relação forte com ele. Por conta de todas as suas viagens, proporcionadas por seu trabalho. Mitra não sabe muito sobre o trabalho dele. Mas sabe que ele é relacionado a geografia. No entanto, apenas isso e alguns detalhes. Respira fundo dando mais um passo para frente, a água gélida batendo em suas canelas. Ela sente pequenos pedaços de conchas abaixo de seus pés, e a cada passo sente a água mais densa ao seu redor. Envolvendo seu corpo, e a fazendo sentir como se estivesse desafiando a gravidade. Há casais abraçados dentro d'água, adolescentes conversando e alguns nadando. Há pais brincando com seus filhos, mães conversando com outras mães. Aos seus pés ela sente peixes, que vez ou outra roçam em sua perna.
O formato da praia é uma ferradura, e ao fundo há uma única abertura que leva ao mar aberto. Olhar para este horizonte fez o estômago de Mitra se revirar. Ela gosta da sensação de frio. Parece espantar muita coisa. Deixa seus membros dormentes ao mesmo tempo em que a deixa extasiada. Esta é a praia da Ferradura: águas claras, sol arrebatador e gente. Gente que enfeita a praia e dá vida ao lugar. Quanto mais fundo entra, mais gelada a água se torna. Quando chega até Nicolau, Cal e sua esposa, ela percebe como os sotaques se misturam. O italiano com o britânico, e o de Cal, americano como o dela.
— Mitra, o que acha de irmos pra casa depois, comermos e irmos para a Rua das Pedras de novo? Fica bem perto daqui. Não recuse, lutadora... — ele sorri, o braço ao redor da cintura de Nina. A loira sorri, materna e cuidadosa.
— Você vai adorar o lugar. Vocês dois na verdade. Os adolescentes se encontram lá toda noite. Acho que mais da metade da população daqui é formada por eles... — a loira ri, leves pés de galinha no exterior de seus olhos. Nina é impressionante. É jovial, e ao mesmo tempo majestosa em sua idade próxima da de Cal. Mitra a admira. Admira a aura dela, que deixa claro que não há como querer mal a ela.
— Ah. Eu... Eu gostaria, sim. — ela responde brincando com os dedos na água, formando pequenas ondinhas.
— Acho que eu também. — a voz do moreno invade sua audição, macia e toda hipnose. — Olha, isso aqui é mais divertido. — o tom dele é quase infantil quando com os dedos sobre o limite da água, move-o em círculos formando um pequeno redemoinho que desaparece poucos segundos depois de tirar a mão de perto, cessar os movimentos. — Vai, tenta. É bem legal. Meu primo me ensinou quando visitei a Holanda na última vez.
A morena fez o que ele ensinou com um pouco de dificuldade no início, mas depois conseguiu fazer um grande, que moldava a água com força. Como se tivesse eletricidade em seu movimento.
— Você também gosta do mar... Não é? — ela diz, um pouco baixo, de forma distraída. Os olhos estão focados no redemoinho que vai desaparecendo aos poucos. Os ouvidos captando os sussurros de seu tio e Nina. De tão baixos, mal se pode ouvir. E a morena não tem a intenção de invadir a privacidade deles.
— Sim. A Holanda é praticamente... Mar. — ele ri levemente. — Quando visitava o lugar eu sentia que pertencia a ele, mas também sentia que todas aquelas águas eram uma parte de mim. Tem sentido, né? — um sorriso um pouco tímido toma seu rosto. Mitra olha fundo nos olhos dele e teve total consciência de que todo esse achocolatado de suas orbes orbes, é mais doces que açúcar.
Nicolau... ele a deixa confusa e segura ao mesmo tempo. Talvez seja por isso que seu interior está ainda mais bagunçado do que o normal. Há coisas novas, mas nada parecia quebrado como antes. O vidro vai, lentamente, se reinventando ao invés de ser usado como arma.
Algum tempo depois, quando o sol está se pondo e todos na praia estão indo embora, o som das águas é a única coisa audível. Há pássaros, que pousam na areia e andam, engraçadinhos, em busca de algo que não se sabe sobre. O canto deles também é ouvido, sublime e suave, mas ao mesmo tempo forte. É como o barulho das pequenas ondas que se quebravam, na praia. Constantes e harmoniosas. Sons de veludo.
— Vamos. Temos um passeio ao paraíso mais tarde. — Cal diz, sorrindo. Pisca o olho direito para Mitra, que dá um sorrisinho quase imperceptível. Seu tio pega a toalha, secando-se. Ela pende em seus ombros enquanto ele ajuda Nina a arrumar as coisas, dobrando a canga e guardando todos os pertences.
— Eu vou... Lavar os chinelos. — Nicolau pega os chinelos, segurando-os de forma descuidada. — Me acompanha, Tigresa?
E ela vai, vestindo os shorts jeans desgastados, mas sem a camisa. Ela concorda com um meneio de cabeça, mas observa algumas pessoas ao longe. O que faz o moreno se preocupar, pensando que não quer que ela seja distante dele. Ele a quer próxima, incrivelmente próxima. Se ele pudesse, leria seus pensamentos.
Mas... Ele é só um mero humano, afinal.
Ela segue ao lado dele, as passadas no mesmo ritmo. As pequenas ondas de areia vão desmoronando, os pequenos montes se tornando depressões.
— Eu... Eu lavo alguns. — ela pega o seu chinelo e o dele de suas mãos, e coloca-os na água, retirando a areia. Elee para seus movimentos e a observa por alguns instantes, com um brilho aturdido nos olhos. Tem um sorriso sacana no rosto quando mergulha os chinelos na água, sacudindo-os e os retirando.
Quando ele volta-se para ela, a morena segura os chinelos na mão direita, que pingam. Os olhos são vidrados nos dele, como se as orbes castanhas que ficam ainda mais vívidas na luz do sol fossem uma parede que ela quer quebrar, saber o que existe por trás. Ele é pego de surpresa pela intensidade desses olhos, que fazseus pulmões se esvaziarem antes que possa se conter.
— O que foi, Tigresa? — o tom dele é doce, e ao mesmo tempo preocupado.
Ela abre a boca, e segundos depois a fecha, com hesitação. Fecha os olhos, e quando abriu a boca novamente, as palavras saem. E agora ela parece a tigresa impetuosa que sempre havia sido.
— O que... Você disse a Floretta que eu sou melhor que ela? Por quê? — ela observa os olhos dele com a mesma intensidade, esperando para uma resposta.
— Eu... Não queria te contar isso. Mas nós... Nós nos desentendemos. Ela queria algo que... Não é recíproco. — é perceptível o modo como ele estava nervoso ao se lembrar do que acontecera. — Mas não me arrependo do que disse. É verdade. Você mesma já deve ter percebido. Você é melhor do que qualquer garota que eu já vi. Não digo... Não digo de aparência. Mesmo que eu ache que você também é mais bonita. Mas pelo que tem aí dentro. — ele sorri, e a morena tinha total consciência de que esse sorriso ilumina mais que o sol. O coração está acelerado como se tivesse corrido uma maratona, e é inevitável não sentir as bochechas corando.
— Obrigada... Nicolau. — ela quer dizer alguma coisa, ela quer soar tão segura quanto ele. Mas as palavras param em sua garganta.
— E eu... Quero te conhecer melhor. — ele puxa a mão dela, e a de Mitra era ridiculamente pequena em relação a dele. Ao invés de sangue, eletricidade parece correr pelas veias dele. A mão de Mitra aperta a dele, e ela sente a mão dele se tornar ainda mais protetora em volta da dela, apertando-a como se dissesse que se tudo estivesse pesado demais para se aguentar sozinho, ele estaria ali para lutar e carregar o peso por ela. Como fez com sua bolsa, e mesmo sem perceber, nos dias em que queria não existir.
— Eu também. — o sussurro dela é fraco e desprotegido, quebradiço, afetado pela sensação arrebatadora que sente. Seu coração mais parece uma bola de fogo, e ela se sente tão... De alguma forma tão segura e feliz. Ela nunca havia experimentado isso.
Mas independente do que aconteça... Ela quer mais.
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