Selvagem
11 Fá - Viver novas histórias
Notas iniciais
No carro, estão todos em silêncio.
— Mas Cal, e se ela foi sequestrada ou alguma coisa do tipo? — Nina aperta um pouco mais os braços cruzados, fazendo a expressão doce parecer mais vulnerável. — Sinceramente, Floretta parece nunca aprender a avisar para onde vai.
— Justamente por isso que você tem que respirar um pouco e se acalmar, entende? — o sinal vermelho se acende e o carro automaticamente para, um suspiro escapa pela boca do tio de Mitra. — Não é a primeira vez que ela faz isso e provavelmente não será a última. Ela pode estar se divertindo por aí. Tenta não ficar tão preocupada. — um sorriso carinhoso começa a brotar nos olhos do esposo, e enquanto um bugre vermelho tocando música alto demais estáao lado deles, a mão de Cal repousa sobre o braço de Nina. E quando aqueles olhares se fundem... É impossível a faísca de sorriso não brotar. — Ela está bem. E no fundo você sabe disso. Uma hora ela vai ter que voltar pra casa, de qualquer maneira. Certo? Quero ver esse sorriso. Ande, vamos lá. Não o comprima. — e ele não precisa pedir duas vezes, pois o sorriso que se abre no rosto de Nina é grandioso, e impossível de se conter.
— Você sempre consegue o que quer, não é? — diz a loira, a voz divertida e suave.
— O que quero muitas vezes é o que precisa de um empurrãozinho para acontecer. O que está planejado. — os pés de galinha no exterior de seus olhos são felizes, e o sorriso é, sem dúvidas, iluminador.
Mitra apoia um braço na porta do carro, o queixo apoiado sobre este. Há casais andando nas calçadas, e muitas pessoas caminhando tranquilamente, com um sorriso transbordando do rosto enquanto conversam. Há algumas pessoas andando de bicicleta e outras correndo juntas, com fones de ouvidos. Nada ali parece dramático. Nunca. É sempre como um sonho de verão eterno, um sopro doce de poesia. E a morena está se apaixonando por essa essência.
— Vocês deveriam ligar para ela. Ela nunca larga aquele celular. — Mitra murmura, e todos ouvem com atenção. A música ambiente que toca inunda o ar por alguns instantes.
— Deixamos os celulares em casa. — anuncia Cal, e o carro começa a andar novamente. — Acho que deixei o meu na biblioteca. — os olhos castanhos se encontram com os de Mitra através do retrovisor, a morena agora olha para o encosto de cabeça do motorista.
Sabe exatamente o que ele quer dizer.
— Sim. — a loira suspira. — Irei ligar para ela assim que chegar. Mas... Tem alguém aí com fome? Acho que vou fazer pizza hoje. — Nina sorri, puxando mais uma vez a canga para mais perto de si.
— Está aí uma informação que traria Floretta para casa em dois segundos. — Cal ri. — A pizza de Nina é tão boa quanto o café. Vocês vão adorar. Não sei como ainda não fiquei acima do peso sendo casado com uma cozinheira de mão cheia. — ele sorri novamente, e a aura tão solene e mágica permanece nele enquanto ele ultrapassa um carro preto.
— Hmmm, posso tentar. Se isso for trazê-la de volta a tempo do jantar... — a de cabelos cacheados dá um sorriso travesso.
A Tigresa múltiplas vezes mal consegue desviar os olhos desses sorrisos. São sorrisos de paz, de liberdade, e de felicidade. Ela almeja esses sorrisos mesmo sem notar. Por mais distantes que durante sua vida eles pareça, estar, de certa forma, eles sempre estão lá.
Seja no rosto de sua avó, na expressão cansada de quem já havia vivido muito, de quando soltava os cabelos e cantava para lua entre os cabelos grisalhos, os olhos castanho-claros sendo iluminados pela noite. Ela se lembra ainda de quando Cal a buscara na delegacia, o rosto tão melancólico que havia lhe oferecido um sorriso caloroso tanto quanto o abraço que lhe dera, gestos esses que lhe parecem agora como o de um homem solidário que desenrola um pão quentinho, que acabou de sair do forn, de um lenço, o oferencendo a um mendigo que não tem de comer. E este gesto estará impregnado em sua memória eternamente, porque são essas migalhas os detalhes importantes da vida.
São esses sorrisos que ela gostaria de colecionar. Talvez seja por isso que sorrisos lhe fascinam tanto: sempre está visível o fato de que sorrisos são compartilhados.
Mitra só parece acordar de seus devaneios quando sene os dedos de Nicolau a tocando na palma, muito levemente. Este único toque havia transforma seus pensamentos em nada, ao mesmo tempo em que tudo mergulha na escuridão da inexistência. Ela não consegue pensar, e se racionalidade fosse labirinto estaria perdida. A respiração torna-se rarefeita enquanto o indicador do moreno arrasta com a mesma leveza sobre sua palma. Mal sabe ela que ele está amando aquela sensação. E então seus dedos brincam com os dela, movimentando-os. São dedos de penas, dedos carinhosos que deixam arrepios por suas mãos. Sem se conter os olhos da de cabelos curtos se fecham, e no instante ela só consegue ouvir seus batimentos cardíacos acelerarem enquanto ao mesmo tempo seu corpo relaxa.
Ponto fraco ou não, Nicolau está ganhando esse round.
Faltam poucos metros para casa e Mitra está dividida entre dormência e íons elétricos correndo por seu sangue. E então olhapara os dedos do moreno, distraindo-se com seus formatos, dedos longos e retos, pálidos, dedos de um pianista. Dedos de um escultor. Dedos do mais talentoso pintor. Nicolau tem dedos de artista.
Os segundos passam tão lenta e rapidamente quanto as batidas da dupla de corações. E logo, erguem-se os olhos, que se esbarraram mesmo a distância.
No instante, o olhar que Nina e Cal compartilham não pode ter sido mais secreto quanto a verdade que os jovems não enxerga,.
E então, o carro para. E realidade os acorda, fazendo as fibras de seus músculos dormentes se movimentarem.
— Cal, você acha que temos todos os ingredientes? — Nina pergunta, seguindo até a entrada e parando por um único instante para olhá-lo.
— Acho que sim, é só olhar na dispensa. — ele diz de forma doce, seguindo até o chuveiro na lateral da casa, no lado direito. Um espaço cúbico que destoa da grama verde. A porta esquerda do carro é fechada com um pequeno barulho por Nicolau, e logo Mitra está perto da entrada junto dele. A grama molhada grudando em seus pés enquanto seguram os chinelos, que mesmo limpos, no momento não sãp necessários.
Sentam-se à mesa, na varanda, e ao longe podem ver o sol se pondo. Uma brisa de repente surge, e Mitra sente sua pele gélida toda vez que o vento sopra. O barulho do chuveiro cessa, Cal agora pega uma toalha, e seca os seus cabelos com a mesma. Ao fim, a coloca sobre os ombros.
— Ei, crianças, tem uma bola de futebol americano por aí. Por que não brincam? É divertido, eu garanto. — um sorriso brincalhão inunda seu rosto, e Nicolau olha do tio para Mitra com um sorriso divertido. Mitra apenas permanece com uma expressão taciturna, os olhos expressivos indecifráveis. E então simplesmente dá de ombros, com hesitação.
— Costumava brincar da mesma forma com meu pai quando era pequeno. E não vejo porquê não. Portanto... — o cacheado se levanta.
— Vou me trocar. A bola está no armário de madeira, do lado de vocês. — ele adentra a casa, e então, instantes depois, dirige um de seus olhares cheios de vida para os dois. — Divirtam-se. — e pisca, no mesmo instante em que Nicolau abre o pequeno armário de madeira, de aparência antiga. Há um cheiro de carvalho dentro dele que de tão forte é sentido por Mitra. O moreno acha a bola, na terceira prateleira, do lado de uma bola de vôlei.
— Ei, vamos? — ele volta-se para Mitra, e esta se levanta com uma expressão quase indiferente, apesar de ter um visível afeto escondido sob seus atos.
— Tá. — e então eles seguem para a grama, de um verde vívido que em alguns pontos parece amarelo por conta dos últimos raios solares. — Mas eu... Eu não sei como brincar disso.
— É simples, eu jogo pra você, você joga pra mim de volta. Não tem segredo. Depois de algum tempo você pega o jeito. Aposto que você vai gostar. — ele sorri. — Mesmo que não seja tão interessante quanto Muay Thai.
•••
— A pizza está pronta? — Mitra pergunta para Nicolau, que acaba de entrar na sala.
— Não. Você tá com fome, não é?
— Tô.
— Eu também. — diz ele, se sentando.
O sol já havia se retirado, e as estrelas aos poucos enfeitam os céus enquanto a lua torna-se cada vez mais brilhante. Os dois brincaram até escurecer, e sorrisos apareciam no rosto do moreno todas as vezes em que Mitra deixava a bola escapar por suas mãos.
Mas a garota aprende rápido, e na terceira tentativa já podia-se dizer que é tão habilidosa naquilo quanto ele. São aqueles momentos, que mesmo simples, impregnam nos pensamentos de Mitra. Pois, nesses instantes, ela se sente capaz de sorrir como se nada de ruim lhe tivesse acontecido. Esses segundos dissipam o mundo das sombras que vive durante todo tempo e transforma tudo em luz. E ela é desesperada por essa luz. Sem ela, as flores em seu coração não cresceriam. É dependente desse contraste em seu âmago. Do que nunca teve.
Ele está provando que ela pode ter o que tanto almeja.
— Tá cansada? — ele sorri.
— Não. Mas você parece cansado. — ela observa-o com o canto dos olhos, um sorriso sarcástico ameaçando brotar de seus lábios da mesma forma que antes, quando o sol ainda enfeitava o dia, havia forçado seus lábios a ponto de finalmente ter nascido. Mitra não o comprimiu, e Nicolau sente-se a pessoa mais feliz do mundo por ter sido a pessoa capaz de fazê-lo.
— Ah, é impressão sua. — ele pousa os olhos novamente na televisão, onde um homem fala em português sobre a previsão do tempo. Mitra não entende nada. — Ou não. — e ri levemente.
— Floretta, volte já aqui! — ambos escutam a voz de Nina, a morena abaixa o volume da televisão. — Você não pode sair sem dar notícias ou explicações e surgir aqui desse jeito. Onde você arrumou essas roupas? Não são roupas de uma dama que se preze! — os olhos de Mitra se arregalam levemente, o mesmo acontece com os olhos de Nicolau.
— Ei... Nina... — escutaram a voz de Cal, que parece apreensiva no instante. E então ambos estão sussurrando enquanto o barulho dos saltos tilintando no chão seguido de uma batida na porta introduz a casa ao silêncio.
— Problemas. — murmura Mitra. — Ela só causa problemas. — os olhos voltam a atenção para a televisão, e então, depois de alguns minutos, novamente ela sente os dedos de Nicolau brincando com os seus.
Ele havia escutado suas palavras, e também reconhece que é um fato, mas se estão ali, é para deixar tudo para trás. Assim como ele deixou seu passado na Inglaterra, e outra parte dele na Holanda, Mitra havia deixado seu passado nos Estados Unidos. O passado havia ficado junto com seus problemas.
— Gosta de quando faço isso? — o moreno pergunta, um sorriso cheio de afeto nos lábios.
"Sim", ela gostaria de ter dito, mas apenas concorda com a cabeça e troca de canal mais uma vez. Reconhece que o canal é americano, e apenas está legendado em português, então é capaz de entender o que diziam.
O indicador do moreno desliza por sua palma, e novamente ela sentiu um arrepio cortando sua espinha.
— Ei, crianças. A pizza está pronta. — ambos escutam a voz de Cal, algum tempo depois. Levantam-se e seguem até a cozinha, onde uma pizza grande e de boa aparência os aguarda, sobre a mesa.
— A melhor marguerita de toda a Itália! E agora, de todo o Brasil. — diz Cal, beijando a bochecha de Nina, que está vermelha de vergonha. — Sentem-se.
Ambos sentam-se, lado a lado, enquanto Nina coloca fatias de pizza em cada um dos pratos. Ela tem um lenço vermelho na cabeça, como Mitra já havia visto algum tempo atrás; o tecido vermelho evita que o cabelo caia sobre seu rosto, e veste o mesmo avental verde de sempre.
No entanto, seu rosto parece um tanto melancólico, de forma que até Nicolau pode perceber. E em toda sua preocupação refletida nos olhos quase infantis, não pode se conter.
— Nina... Está tudo bem? — ele pergunta, os olhos exprimindo certa preocupação.
— Ah... Acho que sim. — diz a loira, dando de ombros.
Cal percebeu a cena, caminhando até eles com alguns talheres que havia pegado na cozinha. Mitra observa a cena com os olhos atentos, uma percepção felina.
Se aproxima, e então a circunda pela cintura, os braços fortes, ajudando-a a cortar a pizza, e a colocar sobre os respectivos pratos. E então ele sussurra algo em seu ouvido que a faz sorrir, separando-se logo em seguida e indo até o assento à frente de Mitra, onde senta-se, e Nina segue até o lado do marido.
— Buon appetito.* — diz ela, e todos começam a comer.
Volta e meia conversam, estabelecendo um clima agradável durante a refeição. Enquanto Cal e Nina fazem perguntar a Nicolau, Mitra sente-se cada vez mais distraída pelas palavras.
— Tem 21 anos? — Cal pergunta. Um sorriso brincalhão, um pouco surpreso. — Tinha essa idade quando conheci Nina.
— Ei, não comece a contar essa história agora. Se não vamos ficar até tarde e não vamos conseguir sair. — diz ela, um sorriso luminoso em seu rosto.
— Certo, certo. — diz o mais velho. — Mas na próxima ninguém escapa.
•••
Mitra está vestida com uma bermuda jeans e uma camisa vinho, os tênis de cano longo nos pés. Há uma multidão de pessoas e vozes perto deles, uma multidão de vidas e sentidos, caminhos que deveriam tomar. Há pessoas. Adultos, adolescentes e crianças de mãos dadas com os pais indo para a orla, todos aparentemente já acostumados com as pedras que têm sob seus pés, que diferem dos paralelepípedos por conta do tamanho e do formato. São grandes, e às vezes tanto a morena quanto Nicolau tropeçam. No começo mal conseguiam olhar para frente, mas agora já estavam relaxados o suficiente para reconhecer onde devem e não devem pisar.
A noite é completamente luminosa, quase um sonho. Há lanchonetes tocando músicas baixas, e alguns lugares que aumentam o volume. Os sons se misturam tanto quanto as pessoas. A morena olha para todos os lados, fascinada, e o mais alto não parece tão diferente. É uma utopia completamente diferente do que já haviam visto.
A brisa marítima banha a todos, gélida, a lutadora sente frio. Nicolau esta com uma blusa xadrez, verde com azul, e vestia uma bermuda jeans até o joelho, além de um all star de cano curto azul marinho.
— Para onde estamos indo? — o moreno pergunta para Cal, curioso.
— Estamos indo para a orla. Orla Bardot. — ele especifica para o mais novo. Nina parece dispersa, olhando para as vitrines das lojas.
Um grupo de rapazes passa ao lado deles, e o mais alto sorri para Mitra, piscando. Por um momento ela se sente divida entre retrucar com um olhar que especifica que não quer nada, o olhar de lutadora que mata, no entanto mais suave, ou se render à indiferença. Mas mesmo que não fosse admitir, suas bochechas estão coradas. Mas escolhe a indiferença, olhando para frente enquanto o grupo continua seu caminho.
O sardento põe a mão direita sobre o ombro de Mitra, um sorriso encantador nos lábios. A de cabelos curtos se encolhe levemente, mas não se opõe.
O mais velho sussurra para Nina, e ambos conversam com atenção sobre algo, mas as palavras permanecem somente com eles.
É quase como se tivessem escrito "estrangeiros" na testa, porque praticamente todos que passam ao lado deles os olhavam com certa dose de "eu sei e você não". Mas eles estão enganados sobre isso.
— Você percebe? Tem muita música americana por aqui, e britânica também. — o mais alto comenta com Mitra, que concorda com um meneio de cabeça.
Há um estabelecimento pelo qual haviam passado chamado The House of rock & roll, e todas as músicas ou, ao menos quase todas, não eram brasileiras. Além disso, a de cabelos curtos também percebe a presença de sua língua no lugar.
Chegando no píer, há jovens distribuindo panfletos, três mulheres com roupas curtas e coladas demais ao corpo. Também há, como sempre, cor e vida. E muita música. É uma massa colorida de roupas, pessoas e canções. Acordes de violão invadindo o espaço. No panfleto tem anúncios de festas e as mais famosas boates do lugar, música eletrônica, o preço dos ingressos, shows e tudo mais. A loira que dá um dos panfletos para o sardento lhe pisca, um sorriso malicioso nos lábios.
Então Mitra puxa a mão dele, sobre seu ombro direito, com seu melhor sorriso cínico. Todos voltam a andar novamente, e a loira havia sido deixada para trás. Nicolau, percebendo o que havia acontecido, sorri.
— Então você não gosta disso, é? — ele pergunta, travesso. — Isso me dá total direito de... Hm... — e ele puxa a mão dela, encaixando-a na sua.
Por um instante, a mais baixa fica totalmente sem reação. As bochechas coram novamente, o ar se tornando mais rarefeito. A lutadora está perdendo o fôlego, os pensamentos se dispersando. Há tanto tempo que ela vê tudo com indiferença, tanto tempo que sente tudo com indiferença. E ele é capaz de reacender a chama que tinha em seu coração desde a primeira palavra, com aquela aura que gerou a primeira faísca, e então, tudo queima.
Finalmente, estão na orla. A morena aperta a mão do mais alto, sentindo o sangue que corre por suas veias, sentindo algo vivo. Algo vivo que a ressuscita. E ambos sentem ali, no agora, que estão conhecendo algo novo, e que além de novos lugares, novas lembranças e novos momentos estão nascendo.
É uma nova história.
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