Selvagem

3 Mi - Sabedoria


Notas iniciais
HEEEY FELIZ ANO NOVO ❤️ Último capítulo do ano, ma gente. Boa leitura ❤️

Ela se levanta taciturnamente, fitando o calendário e descobrindo, surpresa, que o dia em questão é seu aniversário.

Esperaria a carta do tio, que ele costuma mandar todos os anos juntamente com um cartão-postal do lugar em que ele está. Ano passado, o cartão-postal constatou que passou suas férias no México. Mas ele nunca mandou alguma foto que ele próprio tirou, sempre as mesmas fotos prontas, como aqueles backgrounds que já vem prontos para a tela inicial de um computador.

Um dia ela resolveu escrever para ele, muito tempo atrás, e o perguntou porque nunca manda alguma foto que tirou. E a resposta foi uma um tanto inesperada, e dentro da carta havia uma foto de uma criança sobre os ombros do pai, os olhos irradiando alegria enquanto ambos riam e apontavam para alguma coisa, ao longe.

"Não tiro fotos dos lugares que vou, porque gosto de tirar fotos da vida. Os lugares nunca mudam, a cor do mar sempre vai continuar a mesma. Prefiro dar valor a algo momentâneo que posso nunca mais ver do que algo que sempre vai estar ali, preso na monotonia eterna de não ser vivo e ter um coração batente no peito."

Inevitavelmente ela sorriu com a resposta. Porque afinal de contas, era Cal. E Cal, ela sabia, era sólido como uma pedra e sábio como um velho centenário. Se pudesse trocar o apelido de Cal o chamaria de pai, porque foi exatamente um pai para ela. Podia se lembrar como se fosse ontem do dia em que a ensinou Muay Thai, o primeiro golpe. E no dia de seu aniversário, quando a presenteou com tantas coisas relacionadas ao esporte que poderia ser capaz de montar uma academia em casa. Estranhamente, a avó apenas sorria bobamente para os dois.

E neste momento, se lembrando de todas as boas memórias, ela foi quase capaz de ser feliz novamente.

Mas balança a cabeça, como se para afastar os pensamentos e não ser capaz de pensar. Coisa que sabe que nunca acontecerá. "Pessoas caladas têm mentes barulhentas." Ela se lembra de ter lido em algum lugar; tal frase não poderia estar mais correta.

Vai até a cozinha e prepara seu café, que normalmente sua avó fazia questão de preparar. Quando estava viva.

Panquecas, ovos e café. Todos os dias a mesma coisa, e ela nunca se cansa. Bebe uma xícara de café e então sua energia sobe a níveis elevados, está pronta para tudo.

Pega sua bolsa e decide sair sem rumo pela cidade. Está procurando um emprego faz um tempo, algo que gosta de fazer. Mas não é tanto por necessidade, sabendo que a poupança de sua avó estava toda guardada dentro de sua casa. Dentro de um cofre caindo aos pedaços mas que ainda exercia suas funções com perfeição.

No entanto, ela não está tão animada para sair à procura de um emprego neste dia. Na verdade, ela quer comer algo que não é o que ela própria cozinha, que quase sempre são desastres gastronômicos. Achará um restaurante bom para almoçar, ou mesmo lanchar, decidiu. Mas antes fará uma de suas boas caminhadas sem destino certo, vagando pela cidade como estivesse perdida, conhecendo novos lugares e observando pessoas que jamais havia visto e que quase sempre jamais verá novamente. Dessa vez apenas sai para caminhar, não correr, o que faz nas raras vezes em que sai de casa. Caminhar naquele dia parece o certo, de algum modo. Afinal, ela não gostaria de frequentar um restaurante estando suada e fedendo, obviamente. Mas não é a única coisa no dia que sente como algo certo.

Veste suas roupas de forma desleixada, como se realmente não ligasse para a aparência. O que é uma verdade. Percebendo o calor que faz e flagrando o belo dia de sol, ela põe shorts carmesim desgastados, colocando os tênis all-star em seguida. O cabelo castanho, curto e repicado, é todo selvagem com as madeixas rebeldes e o cabelo volumoso, uma bagunça de fios emaranhados. Mas ela não liga ao se conferir no espelho e perceber o modo como está. Apenas pega um perfume de vidro roxo e obscuro, com detalhes dourados, e espirra sobre suas roupas, saboreando o aroma. Ainda pode se lembrar do dia em que a avó ainda lhe presenteara com ele, quando ainda estava lúcida, antes da doença consumir-lhe por inteiro e transformar sua lucidez em algo irracional e constante, frases que se repetiam, gritos e surtos.

Mitra fecha a porta, a madeira antiga descascando e as dobradiças velhas, enferrujadas e por pouco não rompidas rangendo ao fechar a porta. Atravessa a conhecida trilha até o portão de ferro, também caindo aos pedaços. A única coisa visível através do matagal que toma o quintal da casa, cujo o mato cresceu tanto que chega a ser maior que a altura do telhado. Mais parece abandonada, a velha casa branca manchada pelo tempo.

Mas ela não se importa. Ninguém na escola costuma mexer com ela — talvez por medo de ser atingido por algum golpe, sabem muito bem do que Mitra é capaz depois da briga com Henry, um garoto irritante que parece não ser lúcido o suficiente para saber das consequências de mexer com a Lutadora (apelido que recebeu depois que todos perceberam que pratica Muay Thai, e que, admite isso apenas por pensamento, gosta), e mesmo fora da escola, ninguém ousa dizer nada de sua casa. Primeiro porque ela não sai de casa, ou seja, nada de contato humano além da sala de aula. E nem animal. Depois que Sebastian morreu, o gato preto que lhe fazia companhia quando criança, nem esse tipo de companhia foi capaz de ter.

No fundo, ela sabe que é como um fantasma. Por mais que suas roupas se destaquem.

E segue rumo a um paradeiro desconhecido, zanzando de rua em rua, os olhos selvagens se destacando, como um tigre dentre a mata, que no caso é seu cabelo, apesar de não cobrir-lhe rosto. É o contorno de uma arte exótica, e seus olhos brilham como ouro recém descoberto, como suas íris sempre foram. Mas têm um brilho ignorante e ao mesmo tempo grosseiro, o de sempre, além do reluzir do ouro mais luminoso que possuía um efeito quase 3D, hipnotizante de uma forma única.
Seus passos são desleixados, mas ao mesmo tempo leves como pena. O andar de uma ignorante, pensa. E têm a precisão e a determinação de uma lutadora. O olhar divaga, até ela perceber uma praça ao longe, onde famílias sorridentes brincam com crianças, casais se beijam sobre os cobertores de pique-nique, as mãos dadas e sorrisos bobos.

Mitra desvia o olhar quase que automaticamente.

Se concentra, então, em duas crianças que pulam corda, a outra dupla segurando e cantando com sorrisos no rosto. Por um instante, almeja estar no lugar delas.
Se senta sobre um dos bancos de madeira, tirando o iPod caindo aos pedaços de sua bolsa — que se dane o estado do aparelho, só quer escutar música, e desde que ele continue fazendo isso com perfeição, ela pouco se lixa — e colocando os fones nos ouvidos, onde imediatamente ouve a voz de Alex Turner começou a sussurrar em seus ouvidos.

"i'm going back to 505

If it's a 7 hour flight or a 45 minute drive,

In my imagination..."

Inevitavelmente ela sorri. Definitivamente, não há meio melhor de sentir as possibilidades sob seus pés, perto, tão perto. E ela pode sentir o mundo de uma extraordinária, como em qualquer boa música. Sente-se capaz de mudar seu destino, capaz de qualquer coisa. E esse líquido quente que parece ser jorrado naquele instante sobre seu coração. É sua anestesia diária, algo que a desliga do mundo mesmo sentindo-o de uma forma diferente. É muito em pouco. E isso a vicia nas melodias, e nas vozes inebriantes, e na sensação extraordinária que elas causam.

Fita o céu, e ele parece a quantidade de possibilidades possíveis em cada segundo. A quantidade acasos, perdas e ganhos. Fecha os olhos, é inevitável. E nesses segundos, se sentindo tão bem, ela sente o cansaço a atacar.
Adormece alguns minutos depois, de forma discreta e silenciosa, de forma que se tivesse usando os óculos ninguém perceberia que dorme.

Então a garrafa de vidro é arremessada, na esquina ali perto, uma casa puramente de cimento, suja e desgastada. Um estrondo é ouvido, e nesse momento, todos ficam em silêncio, aturdidos. As crianças param de brincar e correm. Percebe que já está anoitecendo e se levanta de supetão, fazendo um dos fones cair e a voz de Eddie Vedder se tornar menos presente, semi-coberta dos ruídos urbanos. Apesar de não estarem passando tantos carros.

Há um pessoal dançando hip-hop sobre um papelão realmente grande, roupas coloridas e largas, pingando personalidade. E a maioria dos restaurantes daquela rua resolvem que é um bom momento para ligarem as caixas de som de seus estabelecimentos.

O mesmo bêbado que atirou a garrafa na parede a puxa pelo braço, a mão suja de uma substância preta que não identifica. Tem tanto cabelo que seu rosto se tornava invisível, apesar de ele não parecer falar na mesma língua que ela, pode reconhecer seu tom, e é o de ofensa. Ela o olha como se dissesse, apenas com seus olhos de tigre selvagem "solte, ou vai se arrepender", mas ele não escuta, apenas aperta a mão em seu braço com mais força, a puxando.

Calmamente, ela volta a olhar para a frente, os olhos gélidos, grosseiros. E o chuta sem piedade na barriga, tão forte que ele parece voar de um modo sobrenatural quando o estalo dos ossos na parede de cimento, como se o tivesse quebrado ao meio.
E não vira para trás, nem mesmo para ter o prazer de vê-lo inconsciente. Apenas volta a andar, recebendo olhares tortos de muitas pessoas. Dane-se. Ela não se importa.
Limpa o braço, nem o nojo é capaz de ser visto através de sua expressão neutra, uma muralha na frente das sensações que podem lhe causar.
Até que os olhos se arregalam levemente, ouvindo uma voz masculina.

— Ei, Tigresa? — ele sorri, o cabelo cacheado volumoso como um capacete, envolvendo seus traços. Sardas pintam suas bochechas, e os olhos amendoados, de um âmbar surpreendentemente irresistível e adorável, e um sorriso lhe enfeita a boca quando distribui um panfleto para a garota, os últimos raios de sol iluminando o rosto dele. — O que acha de uma boa refeição italiana? Little Italy in the Bronx tem de tudo um pouco, dentro da comida típica italiana, claro. — ele riu levemente. — Ter uma clientela do seu tipo seria um honra, vamos lá?

Ele a hipnotiza de um modo estranho, ela reconhece. Mas apenas balança os ombros e segue até a mesa, se perguntando o porquê do apelido mesmo que não tenha a resposta.
A conduz até a mesa, onde ela se senta e ele retira um bloquinho do avental vermelho, o sorriso ainda lhe enfeitando o rosto.

— O que vai querer? — o tom dele é dócil, e ela se surpreende quando sente uma sensação diferente das demais, lembrando-se que fazia tempo desde a última vez que alguém falou assim com ela. Ou mesmo que falou com ela.

Dá de ombros.

— Pode escolher por mim. — e estas são as únicas palavras delas até o prato chegar. Ou devem ser até o final da noite.

— Come carne crua? — ela faz que sim e ele move os dedos finos, se mexendo com maestria para anotar o pedido no bloco e seguir até a cozinha, segundos depois.
A fitancom expectativa vendo-a mastigar um pouco da carne crua, com o molho que acompanha o prato.

— Este é o Carpaccio de carne. Um prato realmente delicioso que é composto por um filete fino de contra filé, alcaparras, azeite de oliva como um toque suave e divino, queijo parmesão e mostarda. — ele parece entretido, pronunciando aquelas palavras como se gostasse e tivesse gosto por gastronomia, coisa que Mitra nunca teve. — Carpaccio foi criado na cidade de Veneza. A história diz que foi feito a pedido de uma cliente, que só poderia comer carne crua de acordo com seu médico. Pelo tom que ficou, acharam bem parecido com as obras do pintor Vittore Carpaccio, daí a origem do nome.

"Não parece uma obra de arte apenas pela aparência, o gosto é como dedos angelicais lhe tocando o paladar", ela pensa. E se concentra na aparência do restaurante, que é todo enfeitado com objetos que remetem à Itália, de modo que há prateleiras e cômodas de vidro espalhadas pelo local, que é iluminado por castiçais suspensos e mesas. É encantador de um modo que mal parecia que estão numa rua estranha. No Bronx, ou a área onde os dançarinos de hip-hop vão se divertir.

Olhando para o uniforme do garoto, ela percebe o nome "Nicolau" faiscando. E ele sorri ao perceber que ele a olha, levemente. Se pergunta como alguém pode sorrir tanto sem ter motivos aparentes. Mas se lembra do que o tio lhe dissera uma vez:

"Algumas pessoas já nascem como um sorriso no rosto e a felicidade queimando. É impressionante como parecem sorrir até ao sentir o vento, como se fosse tão banal quanto respirar."

— Nicolau Henk. Sabe como é, minha mãe é devota de São Nicolau. E ainda é holandesa. Então deve ter pensado que seria legal pôr o nome do filho como o de um santo. — ele sorride lado, como se dissesse que apesar do nome, não é tão santo. — Mas eu não gostaria de ser o cara que passa distribuindo presentes na época do Sinterklaas. Deve ser cansativo. — ele ri levemente, Mitra faz cara de confusão. — É um festival no país de minha mãe. SinterKlaas é uma tradição holandesa que “parece mas não é”. Então, tecnicamente, São Nicolau não é Papai Noel, mas se veste bem parecido com um. Ele se veste de vermelho, tem barba branca, cajado, traz presentes. Sinterklaas e a sua tradição vem desde o Século XIV e é celebrada em 5 de Dezembro, véspera da data da morte do Santo. — ele brinca com a caneta e o bloquinho, tamborilando o objeto contra o papel. — Nicolau foi um bispo na Turquia, na cidade de Mytra, que foi santificado no século IX. Segundo a história era um bispo muito bondoso que ajudava a pobres e desamparados. A história foi-se modificando e a lenda foi sendo criada. Hoje, para as crianças, ele é um bispo que vive na Espanha e todo ano pega o seu barco a vapor, em companhia dos seus ajudantes e seu cavalo e vem até a Holanda distribuir presentes para os meninos e meninas bem-comportados. — ele sorri, abobado. — É uma das melhores épocas do ano.

Se levanta, deixando a quantia exata sobre a mesa e uma gorjeta para Nicolau.

E sai do restaurante sem nem menos olhar para trás ou conferir se uma das xícaras "I ❤️ Italy" está sobre a prateleira.

Mytra. O subconciente repetia. Era seu nome, pelo menos na sonoridade, ela pensa.

— Ei! — ela ouve alguém gritar. — Volte sempre e boa noite, senhorita. — e ele está sorrindo, mesmo ofegante e com as mãos nos joelhos. Parado. Ali. Como se a conhecesse desde de que nascera.

Está aturdida, de modo que até para a Rainha do Gelo é impossível esconder os olhos arregalados e o pigmento vermelho que lhe escala o pescoço.

E vai para a casa.

Notas finais
E aí? O que acharam?