Selvagem

4 Fá - Força


Notas iniciais
Hey, tudo bem? Boa leitura ❤️

Nada da carta.

Ela suspira, fechando a caixa de correio enferrujada. Mas não perderá as esperanças, o tio tem muitos compromissos. E mesmo que de certa forma se sinta como a segunda opção no momento, ela tenta entender suas razões e motivos.

Ainda está de pijama, e a casa é toda silenciosa. Se apoia na janela de madeira do quarto, os olhos se fechando ao escutar o canto de pássaros e o barulho do vento de verão a balançar a mata. E os abre alguns instantes depois, andando até a cozinha e preparando o café, dessa vez com algumas frutas que estavam na geladeira semi-vazia — bem, não se considerara o eletrodoméstico cheio tendo apenas um pote de ketchup, uma caixa de ovos, leite, e alguns vegetais por pouco não estragados — e suspira sabendo que terá de ir ao supermercado, mesmo sem ter vontade alguma. E que também terá de limpar a casa, lavar o banheiro e realizar todas as tarefas chatas. Está acostumada com isso, o faz desde que a avó havia perdido a consciência.

Na verdade, ela é quem faz tudo naquela casa depois que a doença a tomou, obviamente. Mas não sente ânimo ao realizar a tarefa, e depois de passar a noite em companhia do saco de areia e escutando música enquanto treinava — expulsando o silêncio de casa, que a assombra — até tarde, se sente cansada, mesmo que não queira admitir tal fato. Seu corpo está acostumado com as longas horas de treino, mas seus músculos às vezes reclamam a cada movimento pela manhã. Depois passa, de qualquer modo. E se a dor é forte ou incômoda demais ela apenas inspira e expira o ar, até sentir que é quem controla o que sente e tornar a dor nada mais, nada menos, que algo transparente.

Mesmo que ador seja interna, e não um hematoma visível.

Talvez seja esse o significado da força. Não ser insensível, mas contornar a situação e abater aquilo que lhe incomoda, os seus problemas. Mesmo sentindo com intensidade. Saber que quem está no comando é você, e quem decide o que sente ou não é você, e quem faz seu destino é você. E que é uma escolha sua deixar-se cair ao chão e demonstrar fraqueza. E mesmo que Mitra as tenha, ela é forte. E não só fisicamente.

Quando toma o último gole de café, ela decide que passará o dia treinando. Não tem algo melhor para fazer. A não ser treinar e esperar a carta do dia, e em casa, ela poderia fazer os dois. Ou poderia ir até a academia algumas ruas depois da sua, onde assistiria as aulas de Muay Thai sentada num banco ali perto, que era possível graças à parede de vidro do local.

Tempos atrás, pensou em pedir para o tio pagar as aulas ali, mas ela sentia tanta vergonha que não foi capaz de pedir, e tentou parecer o mais indiferente possível quando tocava no assunto. Enquanto ainda dava aulas em casa para ela, todos os dias, isso não pareceu importar tanto.

O relógio marca oito e meia e Mitra finalmente sai da sala de treino. As roupas colam no corpo e dentro das luvas a sensação que tem é a de que colocou as mãos na sauna. Foi até o banheiro, tomou banho, trocou de roupa, e caiu no sofá, olhando para o teto. E antes que possa perceber, está dormindo, a blusa grande e confortável e os shorts de um tecido macio, parecem a envolver e a puxar para o mundo dos sonhos.

•••

Era tarde da noite quando a pequena garotinha escutou algo caindo.

Algo não, alguém. Ouviu um pequeno gemido antes de tudo se resumir a silêncio. Se levantou, os pequenos pezinhos descalços tocando no chão, um coelho de pelúcia apoiado contra si e a camisola infantil balançado a cada passo. Abriu a porta, e percebeu a do quarto da mãe aberta, de frente para sua porta, como sempre foi. Mas na cama, só haviam lençóis revirados.
Seguiu até a cozinha, chamando pela mãe com a voz doce de criança, mas não recebia resposta.
Foi então que se virou e viu, com os olhos arregalados. A mãe parecia dormir pacificamente, encostada contra a pia do banheiro. Estava sentada de um modo desleixado, e ao se aproximar, ela sacudiu a mãe, percebendo que saliva escorria de sua boca. Haviam alguns recipientes vazios, e o chão tinha muitos comprimidos espalhados, de modo que a garota, extremamente esperta, interligou os fatos, mesmo não sabendo que com uma quantidade excessiva deles as pessoas sofriam uma overdose. Aquilo foi o que a fez associá-los à morte. E nunca, definitivamente, ela colocaria algum deles na boca.

— Mamãe, mamãe! — a pequena garotinha chamava, mas de nada adiantou. Sentiu os olhos ficando marejados, fazendo com que sua visão ficasse embaçada. O tão jovem coração foi atingido por um desespero latente, que doía e rasgava tudo.
Correu até a porta da frente, pulando até conseguir empurrar a corrente para o lado e abrir a porta. Bateu na porta dos vizinhos, em busca de ajuda. E eles apareceram alguns minutos depois.
Depois disso, Mitra só lembrava de estar sentada em um banco de hospital, balançando os pezinhos e sussurrando palavras carinhosas e algumas perguntas para o coelho.

— Você acha que mamãe está melhor agora? — indagou ao objeto inanimado, e o abraçou, tentando fazer com que o que sentia evaporasse junto com aquele abraço.

Olhou para o lado e viu uma mulher de cadeira de rodas, ao longe pôde reconhecer que era sua mãe. Também sentiu quando alguém chegou e percebeu que era Jessamine, uma das amigas de sua mãe.
Viu quando ela olhou sua mãe com desaprovação. Mas mesmo assim, a levou até em casa, fingindo que estava tudo bem, por causa da pequena garota. Entretanto, sabia que se não estivesse ali, as circunstâncias seriam outras.

— Tentar matar-se por causa de um caso de uma semana? Você nem conhecia o cara! Tem uma filha pra criar e iria deixá-la aqui, solitária, sozinha no mundo, por causa de um caso de uma semana? Com o homem que você nem ao menos sabe onde mora? — escutou Jessamine gritando no quarto de sua mãe, onde estavam fazia alguns minutos. — Eu esperava mais de você, Adit. Você não é nenhuma Julieta e ele está longe de ser um Romeu. Se ele ao menos te amasse não faria o que faz com você. Você quer morrer? Morra. Mas não se esqueça de tomar o vidro inteiro da próxima vez para dar certo. E de estar bem longe de Mitra. — ela saiu, batendo a porta. — Vamos, meu amor. — ela abriu um pequeno sorriso forçado, tentando transmitir confiança para a garota que jazia encolhida no canto do quarto.

E quando acorda, está chorando.

De um modo desesperado, soluça e se debate, levantando-se de supetão, tonta, e tentando recuperar o ar que lhe falta. Vai até o banheiro e se olha no espelho, suspirando ao ver as olheiras e os olhos vermelhos e inchados, lava o rosto, e depois disso, evita olhar no espelho de novo. Chegando até o quarto ela decide que quer sair, põe os jeans escuros e uma blusa preta, com os dizeres em uma fonte de tinta, como se pingassem da camisa. Os dizeres "Brick by boring brick" em branco são luminosos, chamando atenção entre o preto. Põe os tênis de forma desleixada e pega o casaco jeans que tem faz algum tempo.

Confere a caixa de correio e suspira de novo, nada da carta ainda.

Tenta evitar a sensação que lhe queima a garganta, como se quisesse gritar e se rasgar no grito extremo. Mas apenas engole em seco, e passa as mãos sobre as lágrimas.

Anda sem saber para onde, e logo Little Italy in the Bronx está na sua frente, de modo que até para ela é uma surpresa.

— Olá, Tigresa! É ótimo ver você novamente! — é ele de novo, dessa vez a voz é cheia de reconhecimento. O rosto se ilumina assim que a vê, um sorriso brinca em seus lábios e suas bochechas são um pouco mais coradas. — Venha, vou arrumar um lugar pra você. — Ele tem cheiro de sabonete, e algum bom perfume cítrico, ela percebe. É viciante, aquele cheiro.

— Posso escolher de novo? — ele dá um sorriso sacana, ela faz que sim com um meneio de cabeça, olhando para a mesa de forma taciturna. — Algum problema, Tigresa? — sua boca está perto demais, perigosamente perto. Ele percebe que esteve chorando desde a primeira vez que olha para ela naquele dia. Se tem uma coisa com a qual Nicolau é bom, essa coisa são sentimentos.

Ela não responde, apenas dá um sorriso triste e deixa os olhos divagarem pela vista. Ela não diz nada até o final da noite, mas escuta tudo o que Nicolau fala com atenção, às vezes concordando aqui e ali, ou discordando, tudo com um meneio de cabeça. Ele lhe arranca sorrisos sinceros, e muitas vezes ela tem de morder a boca para se conter em um riso alto. O prato do dia é gnocchi, e ela concorda com ele quando pergunta se está bom.
Mas a noite está acabando, e assim como no dia anterior ela deixa o preço da comida e a gorjeta, sempre sem perguntar para ele — ela olha na placa escrita à giz com os nomes dos pratos, que ficava na calçada, exatamente no ângulo da mesa, a mesma que sentara no dia anterior — e ela percebe que os olhos dele sempre tem um brilho encantando, carregando divertimento.

— Hm, Tigresa? — ele chama, quando está descendo os degraus de madeira do restaurante, que a conduz até a rua. Ela vira-se, os olhos dizendo "diga" de forma não-verbal.

— Se precisar de ajuda, se quiser desabafar, eu vou estar sempre por aqui. Você é ainda mais linda quando sorri, e seu sorriso é lindo. Não deixe que ele se desmanche. — ele tenta se distrair com o bloquinho de pedidos, desviando os olhos dos dela, ela percebe quando suas bochechas coram.

Ela se vira e continua a andar até sua casa.

São as palavras mais gentis que já ouvira.

À noite, quando se olha no espelho, ela se surpreende ao ver um sorriso no rosto.

Notas finais
O que acharam?