Selvagem
5 Sol - Intensidade
Notas iniciais
Mitra poderia esperar tudo. Qualquer coisa. Uma confirmação de que unicórnios existem seria até mais plausível que isso.
Mas o que ela não imaginava é que, na carta, dois passaportes estariam esperando por ela. E dois? O que o tio dela tem na cabeça para lhe dar dois passaportes?
A carta é específica, passaria um bocado de dias na companhia dele e de sua esposa, e ela poderia levar algum amigo, ou amiga. Ou o namorado, se Mitra tivesse um.
Ri amargamente ao acabar de ler tal parágrafo. Cal parece pensar que ela é o tipo de garota feliz, que frequenta baladas, usa vestidos curtos na escola e está sempre cercada de garotos.
Não, ela não é. É o oposto disso. Talvez seja algo hereditário, ela não sabe.
Na família Dunkelheit, existiram mulheres tão belas que poderiam ser chamadas de sereias, só poderiam ser imaginadas emergindo do oceano. Mitra só pode ser imaginada emergindo das sombras, com um brilho de selvageria nos olhos cintilantes.
Se ela puxa pessoas para a escuridão, não existe quem queira se afogar nela. Se eles desvia,msempre seus olhos dos dela, que os queimam vivos na chama do medo com seu olhar, não sabe como conhecerá alguém.
Talvez ela só não queira ser machucada de novo, afinal de contas. Já tem peso demais em suas costas, peso que envergaria as costas de qualquer um em segundos.
Mas ela não é qualquer uma.
Todos sabem disso. Basta olhá-la, está escrito nela. Em seus passos, em suas roupas, em sua voz, em seu cheiro, em seus olhos, na sensação de seu olhar.
Sortudo seria quem um dia teria o olhar dela grudado em si, sem a expressão de ódio, sarcasmo, raiva ou selvageria. Mas um olhar carinhoso, envolvente, caloroso. Que mancha, que rasga, mata com destreza como seus golpes e suas estratégias. Mitra não sabe, mas um dia alguém virá.
As pessoas sempre vêm, afinal de contas. Se não for nesse segundo, nessa hora, nesse dia, nesse ano, será num futuro próximo, ou não. Distante ou não. Sempre existirá alguém. E principalmente, um motivo pelo qual lutar. Mesmo que o único motivo seja estar vivo. Ter a chance de viver, como milhares de pessoas gostariam de ter.
Viajar parece algo distante, dentro da casa velha, caindo aos pedaços, o mundo à sua volta parece estar a quilômetros de distância.
Ao ler a carta e ver que existiam milhares de lugares, possibilidades, pessoas, e perceber que está ali, solitária, presa entre quatro paredes manchadas, ela sente-se tola. E sente a solidão pesar mais, de um modo estranho. É como se ela soubesse que no fundo é uma escolha mas temesse escolher o errado. Ou ter a mente limitada, presa neste mundo particular nada feliz, nada interessante, mas ruim demais. A casa sempre erma, os ventos sempre calmos e gélidos sobre sua pele a lembrando do passado. Uma vida que não deseja a ninguém, mas que nunca ninguém que a olha mexe um músculo para ajudar.
Entretanto, Mitra não quer ajuda. Não quer pena, ou piedade. Uma Dunkelheit não precisa disso. Uma Dunkelheit não tem medo do próprio destino. Vai à luta, sem se importar com a disputa. A irracional competição que muitos fazem de quem mais ganha, perde, vence na vida. Não precisam e nunca precisaram daquilo. Talvez isso as torne ainda mais diferentes. Não a falta de ambições, mas a forma diferente de ver o mundo. Sem pensar nas mais fúteis coisas, nessa perda de tempo tão absurda. Sem se preocupar com o tocável, mas com o valioso que é invisível aos olhos.
É uma cidade praiana, um nome esquisito está escrito do passaporte. "Cabo Frio." Apesar de saber que a cidade onde o tio está hospedado se chamava "Armação dos Búzios." Mitra tenta pronunciar ambos os nomes mas não consegue. Reconhece que é português, mas sabe tão pouco da língua que acha que o tio terá de explicar o básico quando chegar lá apenas para não se meter em encrenca ou cometer gafes terríveis. Sabe como é desconcertante o olhar que as pessoas distribuem ao perceber que se é um estrangeiro, também sabe que é inevitável, mas não quer ser motivo de piada. Assim como pessoas grosseiras fazem com visitantes onde morava.
A visão se torna turva, mais turva, até que os pensamentos se embaraça, e ela dorme. Ali mesmo. No sofá, com a carta nas mãos.
Quando acorda, a carta está sob si, o pensamento de perdê-la a preocupando demais para alguém que parecia não estar animada para ir. Quando a acha, o alívio a preenche e ela se prepara para sair de casa.
O estômago ronca, e ela está fraca. No momento não parece estar preocupada em ter que dividir o tio com a esposa, ou o que fará com o segundo passaporte. Apenas quer comer alguma coisa, já que o café parece ter evaporado de seu estômago.
São sete horas da noite, ela percebe, se assustando levemente. O relógio de seu quarto, sempre tiquetaqueando, é um lembrete constante do tempo, que martela sua consciência, fazendo-a se lembrar, também, de que deveria viver cada segundo, de sua existêmcia. Ele passa sem parar, sem esperar por ela.
Fecha a casa, atravessa o matagal que não mais parece um quintal e sai, fechando a porta sem se preocupar com a força que faz. A porta range, Mitra suspira e ajeita a bolsa, continuando a andar. A blusa é vermelha, justa e com os dizeres “I’m not in the clear” em preto, sendo justa, marca-lhe as curvas. A calça jeans escura se destoa do tom de vermelho, mas combina assim como os tênis pretos de cano longo. Pensa no que Nicolau escolherá nesta noite.
Antes que possa sequer pensar que está chegando, já está lá. O sarcasmo no olhar brilha toda vez que alguém olha da blusa para ela, como se realmente fosse uma ladra. É tão divertido que ela tem vontade de rir daquele tipo de reação. Mas é tão novo que ela não o faz, talvez por medo. Medo do que um sorriso pode causar no rosto sempre desafiador, visivelmente superior.
— Tigresa! — Nicolau sauda assim que chega, um sorriso brilhando nos lábios rosados. — Bom te ver por aqui! — desvia os olhos dos dele, levemente envergonhada. O sorriso gentil se alarga ainda mais quando ele percebeu isso, a conduzindo até a mesa de sempre.
— Minha sugestão de hoje é spaghetti à moda da casa. O que acha? — ela concorda com um meneio de cabeça, sempre sem dizer uma única palavra. Ele anota o pedido, uma de suas mãos esguias, fortes, hábeis e ao mesmo tempo delicadas, escreve o pedido rapidamente no bloco.
Põe a bolsa jeans sobre o colo e conferiu os pertences. Ou melhor, “o” pertence. A carta lhe roubou a sanidade.
Alguns instantes depois ele traz o prato até sua mesa, e ela come o saboreando. Ele lhe explica os ingrediente e o modo de preparo, mas tem de se retirar para atender um casal que acaba de chegar. Quase o mesmo sorriso gentil que dá para ela, apesar de perceber que há certo sarcasmo em algumas coisas que diz. Talvez ele escolha a dedo em quem deposita toda a sua gentileza, com quem gasta suas palavras descrevendo os pratos e contando suas histórias.
O clima está um pouco frio, de modo que é de forma quase automática que Mitra decide pôr o casaco que traz na bolsa não muito grande.
Nicolau acaba de atender os clientes, e segue até sua mesa, onde o prato está vazio. Mitra tenta evitar o olhar da mulher, loira, olhos escuros, que ele acabou de atender. O olhar dela sobre ele era malicioso demais, assim como toda aquela confiança de que o fisgaria.
Ele não percebe. Na verdade, se percebe sabe esconder muito bem o fato. A tratou da forma mais gélida possível enquanto o namorado da mesma fitava o cardápio com expectativa.
Tão bobo, Mitra pensa. Mas ao mesmo tempo um ódio crescente da mulher a consume, fazendo seu rosto arder. Não entende o porquê daquilo. A única coisa que sabe é que quer lhe deferir um golpe bem-dado, manchar aquele rostinho bonito de roxo.
Quando ele volta, seu sorriso sem-dentes é meigo. Assim como seus olhos quando olham pra ela, sempre com um encantamento escondido, apesar de nem tão bem escondido assim.
— Aqui está. — ele lhe entrega a comanda, a deixando sobre a mesa, e retira o prato, colocando em uma bandeja de prata e levando até a cozinha novamente.
Logo está de volta. Ela deixa a quantia do prato sobre a mesa junto com a gorjeta e se levanta.
Mas não vai embora.
Retira da bolsa um dos passaportes e o oferece. Simplesmente. Uma proposta bem diante dele.
A lutadora sempre tem a estratégia perfeita, muito bem elaborada antes do primeiro golpe.
Ele a olha confuso, olhando para o passaporte antes de o fazê-lo. Ela o encoraja a pegá-lo mais uma vez.
— Não posso, Tigresa. Tenho trabalho a fazer.
— Mentira. Podemos muito bem tomar conta de tudo por um tempo. Certo, Melissa? — Mitra lê o nome “Lech” no crachá. Ele parece ter alguns anos a mais que o garçom à sua frente. É moreno, tem os olhos pouco mais claros que Nicolau, mas a pele é pouco mais clara que cor de canela. Percebe pela piscadela que ele deu à Nicolau que eram amigos de longa data. A tal Melissa confirma, oferecendo um sorriso radiante de apoio para Lech.
O rapaz se apressa, continuando o caminho no corredor ao lado e indo atender uma mesa, onde clientes fazem seus pedidos com indiferença, sem perceber o que acontece.
Ele olha de Mitra para o passaporte, olhando para Mitra de novo. Solta um suspiro longo antes de finalmente pegar o passaporte. Ela escuta Melissa batendo palmas ao longe, pode sentir que a senhora que aparentava ter cinquenta e poucos anos carrega um sorriso bobo. Mas apenas ignora.
Ela vê os olhos dele se mexendo sobre o papel, num vai-e-vem meticuloso. Quando olha para a a garota de novo, seus olhos têm um brilho divertido. Então dá de ombros.
— Acho que vai precisar de um guia. Então, tudo bem. — ela arregala os olhos levemente quando ele a olha de forma afetuosa, mas mesmo sentindo o rosto ardendo, sai do restaurante.
Vira no beco ao lado, que mesmo escuro não parece tão assustador para ela.
— Tigresa. — ele chama, dessa vez calmo. Ela se vira no exato instante.
— Por que Tigresa? — ela pergunta e vê os olhos dele se arregalarem levemente com a pergunta, as bochechas adquirindo cor enquanto o ar se condens, saindo de sua boca de um rosa perfeito. Lábios perfeitamente delineados, ela pensa, mas afasta os pensamentos em seguida.
— Porque tem os olhos de um tigre. E também o olhar e o andar de um. É selvagem de um jeito excepcionalmente intrigante. — ele desvia os olhos dos dela, para depois voltar a fitá-la, sem medo ou receio. — Mas acho que eu também tenho uma pergunta a lhe fazer. Por que eu?
Os olhos de Mitra arregala, de forma doce, mas seu tom de voz é gélido e calculista ao responder o que ele indagou.
— É a única pessoa com quem falo ultimamente. E eu acho que confio em você. — nesse momento ele parece ter a expectativa quebrada. Ela tenta não se preocupar com isso. – Além disso... Disse que eu poderia contar com você pra tudo.
Ela vira o rosto novamente, continuando a andar. Olha para trás e percebe que o garoto dos olhos gentis não está mais lá. Mas reconhece a voz que vem do fundo do beco. É a loira.
Está conversando ao celular, e carrega o mesmo sorriso malicioso. Mitra continua a andar calmamente até parar na frente dela.
— Ah, tenho que desligar. — ela desliga, olhando para a garota com confusão. Mitra não entende porquê, mas assim que um brilho de reconhecimento brilha em seus olhos um sorriso de escárnio brilha nos lábios perfeitamente pintados em carmesim. — O que você quer, garota?
Mitra se descontrola, e como um tigre abocanhando a presa a prensa contra a parede, o antebraço em seu pescoço, enquanto a mulher tenta se desvencilhar de seu aperto colocando a mão em seu braço debilmente, os olhos revirando, a boca aberta sentindo a dor lancinante. Olha mais uma vez para onde o garoto estaria, e volta a concentrar os olhos frios na mulher à sua frente.
— Quero que fique longe do Nicolau. — sua voz ameaçadora se faz forte. A loira ainda tenta fugir, sem sucesso. — diga que não vai mais o perturbar que eu a solto. – ela aproxima sua boca de seu ouvido. — E não te machuco... muito. — diz, num sussurro.
A outra faz que sim com a cabeça, com muita dificuldade mas inteligível. Mitra a solta, e ela cai, as mãos na garganta enquanto o celular está caído ao chão, a tela estilhaçada. O vestido preto e curto é tão repugnante que ela não se dá ao trabalho de olhar para avaliar o estado da garota.
E se põe a andar, sem sequer olhar para trás.
Antes de dormir, é inevitável não pensar naquelas mãos... Pareciam tão macias.
Ela se pergunta sobre como seria seu toque, se suas mãos eram gélidas.
Mas tenta se desfazer de tais pensamentos rapidamente, enterrando o rosto corado em seus lençóis.
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