Selvagem
6 Lá - Se permitir
Notas iniciais
A cama é toda desarrumada, e Mitra havia acabado de acordar. Seus olhos têm um pigmento dourado sobre as pálpebras, apesar de não usar maquiagem. E de algum modo, ela sente que dentro de si algo está diferente.
Fitando o teto branco com pedaços de capas de tinta penduradas, ela tenta ignorar o que há de novo dentro de si. Sua cabeça gira, seus pensamentos e sentimentos estão embaralhados, e ela tenta tirar a carta certa, saber o sentimento certo, o pensamento certo, de um modo que parece impossível. Mas nada parece certo. E sua existência se contorce de um modo que mais parece uma metamorfose. Não se entende, não se sente.
É bem mais do que estava disposta a se acostumar, bem mais do que está disposta a aguentar. E chora. Chora como se quisesse fazer o mar se esvair por seus olhos, como se fosse chuveiro, o maior o lago, como se quisesse se afogar. E grita, e grita de novo. E na escuridão seus olhos são a única coisa visível. Mas ela os fecha, e agora não existe nada. Não existe luz. E é a escuridão, e é o silencio, e é a loucura. E é a insanidade. Mas ela não consegue sorrir, e sua alma sofre em agonia, como se tivesse escolhido tal dia para chorar todas as mágoas, sentir todas as dores, chorar os oceanos. Não consegue se entender e está prestes a ruir em loucura, há algo a consumindo e ela quer acabar com isso. Pesa como chumbo, o sangue corre gélido por suas veias de um modo irreconhecível. Ela não consegue respirar, ela não consegue se mexer, ela não consegue pensar. E ela só sente. E é o sofrimento, e é o peso que carrega sozinha, e é raiva, é muito para se aguentar sozinho. Seu coração se contorce em seu peito, as lágrimas são intermináveis e ela sente como se a morte estivesse puxando seu pé, mesmo sabendo que teria fim em algum momento, que acha que será quase eterno.
Compreender-se é complicado demais. Construir um castelo com cinzas é estranho demais. Se proteger sem ter porquê é fútil demais. Viver sem ter ninguém é ruim demais. E ela se vê no escuro, descendo uma ladeira negra, seus batimentos são fortes, seus passos são precisos, mas quando sente o abraço da morte é como se a pertencesse.
Junta todas as suas forças, soluçando, e se levanta. Mas seus passos são falhos, e o primeiro deles a leva ao chão. Ela se levanta de novo e se apoia nas paredes, o rosto pingando, o corpo trêmulo. Apoia o rosto contra a parede de tinta escassa que é infinitamente mais velha que ela, que presenciou muitas histórias boas ruins, visto muitas coisas. Visto mortes, abraços e beijos. Visto momentos ruins e bons dos que moraram ali, viveram ali, sorriram e choraram ali. Seus pés tentam se movimentar com decência mas ela não consegue respirar e todo o seu ar pesa em seus pulmões. Sua garganta arde, e o sentimento agonizante a sufoca.
Apesar de tudo, fecha os olhos e se obriga a ficar calma o suficiente para descer até o sótão e vestir suas roupas de treino. Engole o sentimento que a permeia e põe suas roupas, jogando a camisa velha e larga que usava à esmo no chão e vestindo as roupas pretas, leves e justas apropriadas para o esporte. Põe as luvas e desce as escadas com passos decididos. Liga o rádio, a música invadindo a casa, fazendo-a criar vida em meio ao silêncio. Como se sua casa tivesse presenciado as músicas altas do rádio tantas vezes a ponto de tornar-se parte dela, algo que envolve a sonoridade que acalma Mitra, mas que ao mesmo tempo a energiza e a concentra em seus golpes. Solo de guitarra.
Os olhos fitam o saco de areia, ferozes. E Mitra dá o primeiro golpe, que é seguido por muitos outros até tarde do dia, quando a fome é tanta que ela para o treino para deliciar-se com um de seus lanches malfeitos. Toma duas xícaras de café, e quando se sente exausta, bebe mais algumas. Até a jarra térmica se tornar vazia, e ela uma garota que não se cansará tão cedo.
Os golpes são tão intermináveis quanto a energia de Mitra, golpe após golpe, ela se sente ainda mais sedenta. Os movimentos são infinitos e fluidos, e as mãos dentro das luvas tanto usadas são fortes, fechadas com força.
Se este saco de areia fosse uma pessoa, ele já não existiria mais. E Mitra sorri sagaz, o observando — o balanço suave e o tilintar da corrente — antes de subir as escadas de madeira e deitar no sofá. Descobrindo que já é noite, e que a manhã terrível já está distante dela.
Os olhos vão se fechando, e fechando, até ela perder a consciência e mergulhar no mundo dos sonhos.
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