Selvagem

7 Si - Destemor ao novo


Notas iniciais
hey Moços, eu tô apaixonada por esse capítulo. Então, espeo que gostem. ❤️ Boa leitura ❤️

Ela não precisa conferir no calendário para saber que é o dia pelo qual havia esperado tanto.

Levanta-se, e tem um leve susto ao perceber que está no sofá. De modo taciturno e imediato ela se levanta dele, indo até o banheiro de seu quarto. O relógio marca meio-dia, o que significa que em uma hora deve estar pronta para sair de casa.

Entra no chuveiro, sentindo a reconfortante água gelada sobre a pele. Alguns minutos depois ela sai, o rosto ligeiramente corado e vulnerável, uma coisa rara quando se trata de Mitra.
Mas ao se vestir e colocar uma camisa do Green Day velha e desgastada, calças jeans surradas e os tênis vermelhos antigos, a vulnerabilidade que existia em seu rosto evaporou em segundos. Entretanto, de algum modo, o rosto dela é iluminado por um sarcasmo divertido, coisa que havia adquirido depois de algum tempo na companhia de Nicolau, mesmo sem saber. Um tipo de provocação ao mundo.

Acha uma bolsa antiga e grande de sua avó no quarto dela, e coloca todas as suas roupas ali dentro, sem se preocupar se ficarão amassadas. Joga todos os objetos pessoais de que precisa ali dentro, tomando cuidado somente com o perfume, que embala em um lenço antigo e guarda na bolsa depois de usar.

Então, finalmente tranca a casa, que mal se lembra de ter passado sequer uma noite fora depois de chegar. Passa por entre as folhagens verdes, alcançando o portão.
Pega um ônibus que para perto de Little Italy in the Bronx, onde desce e anda com passos decididos até a frente do restaurante.

Sabia que ele estaria lá.

E ele está. Uma blusa azul marinho que lhe acentua o rosto, calças jeans simples e tênis pretos. Tem uma mochila nas costas, segurando uma das alças casualmente. Assim que a avista, um sorriso brilha em seu rosto.

— Dormiu bem, Tigresa? — ele pergunta, gentil, quando ela se aproxima e eles começam a andar juntos até o ponto de taxi.

Mitra olha mais uma vez para a bolsa estilo carteiro que pesa, as luvas grandes protuberantes diferente das outras que também levou, de couro que mais pareciam uma segunda pele. Nicolau pega a bolsa dela em um movimento rápido, carregando ambos os pesos sem dificuldade alguma. Os olhos sãocuriosos e atenciosos, voltados para ela com um encantamento divertido.

— Você sempre aceita viagens de estranhos? — ela olha para ele com certa frieza calculada, que tem certo sarcasmo, desviando da pergunta inicial, o tentando a responder.

— Na verdade, nisso você foi uma pioneira. — ele sorri discretamente. — Mas desde que não incomodasse o estranho em questão, eu aceitaria de bom grado. — ele continuou olhando para o chão, esbarrando sem querer numa senhora que passava. — Desculpe-me, madame. — a senhora o olha de forma encantada e afetuosa voltando a andar. — Mas já que perguntou, isso me fez refletir sobre uma coisa: eu estou prestes a viajar com uma estranha e não sei o nome dela.

— Mitra. Mitra Dunkelheit. — ela diz, sem formalidades e cerimônias, indo direto ao ponto.

— Belo nome. — ele sorri discreto de novo. Ela se pergunta porque de algum modo ele parece querer esconder o sorriso nas vezes que o faz, como se fosse mais uma de suas gentilezas.

— Obrigada. — diz, ligeiramente indiferente. De uma forma ligeiramente fingida, que Nicolau identifica mas não aponta de modo algum.

O táxi se aproxima e eles fazem sinal, Mitra entra no carro enquanto ele coloca os pertences dos dois no porta-malas, dando a volta em seguida e entrando na porta direita do carro, ambos nos extremos deste. Como se tivessem medo de ficar perto demais.

Mitra continua escutando música, até o pensamento lhe atingir. As portas do restaurante ainda estavam fechadas, mas sabia que estavam se preparando para abrir. Se o restaurante estivesse aberto tal pensamento teria lhe ocorrido antes, ela percebe.

Tira um dos fones. Alex Turner canta "Do I Wanna Know" de forma deliciosa e envolvente.

— Eles não... não te demitiram, certo? — ele olha para a janela oposta, mergulhado na paisagem. Depois de explicar para o motorista que irão ao aeroporto de Miami ele não falara nada.

Nicolau ri, uma risada realmente boa de se ouvir. É leve, e aconchegante.

— Não. O restaurante é um comércio familiar. E Nora, a cozinheira e dona do restaurante me trata como um filho. De vez em quando até a chamo de mãe, ela realmente parece ter assumido esse posto depois de que saí da Holanda. — ele desvia os olhos dos dela por um instante, sombrios. Mas depois voltam gentis, castanho se encontrando com dourado hipnotizante. — Lech e eu dividimos um apartamento que fica em cima do restaurante. Lembra dele? — Mitra faz que sim com um meneio de cabeça. — O conheço faz alguns anos, desde que saí decidi voltar pra cá, voltando da minha terra natal...

— Holanda? — ela sussurra, a curiosidade é palpável em suas palavras, mesmo ela tentando conter o fato.

— Também não. Stratford-upon-avon, Inglaterra. A maioria dos turistas conhece lá porque foi a terra natal de Shakespeare. Meus pais se conheceram lá, num show de Yo-Yo Ma. — ele parece se lembrar de algo, sorrindo minimamente com nostalgia. — Mas meu pai é holandês, e então quando eu completei um ano eles resolveram se estabelecer na Holanda. Cresci lá. De algum modo é como se fosse uma parte minha, depois de tanto tempo. É uma cidade realmente... Encantadora. Água por todos os lados. — Seu tio já havia estado em todos aqueles lugares, ela reconhece. Mas não diz nada sobre isso. — Você é daqui, Mitra? — ela concorda com um meneio de cabeça, séria e duramente. — E o que te leva até o Brasil? Desculpe-me se estou sendo indelicado.

— Meu tio, Cal. — “garoto educado, esse”, Mitra pensa, enquanto brinca com os fios do fone de ouvido, tão antigo quanto o aparelho conectado à ele. — Nunca pensei que o veria novamente. — ela sussurra, de forma baixa, esperando que Nicolau não escutasse.

Mas ele escuta, não faz menção de querer saber mais por saber que se trata de um assunto delicado. E, além do mais, Mitra o cortaria em alguns instantes se quisesse realmente saber, pensar em revê-lo a deixa nervosa e assustada demais. Por isso tenta a todo custo não pensar no que acontecerá quando chegarem.

Nicolau volta os olhos gentis e meticulosos até a paisagem, depois de esperar que ela dissesse algo, em vão. O carro fica em silêncio, e nem a respiração do motorista é audível.

O chacoalhar do veículo despenca a parte racional do cérebro de Mitra, um castelo de cartas que vai o chão, embaralhando os pensamentos enquanto o silêncio do carro a envolve.

•••

— Tigresa. — ela o escuta chamando, acordando de forma automática. No outro extremo do carro Nicolau a espera com sua mochila e a bolsa da garota, do lado da porta aberta.

Mitra sai do carro, rápida e desajeitada, e tenta pegar a bolsa.

Nicolau não faz sua vontade.

— Damas não carregam bolsas pesadas como esta. — diz, galante. O pigmento vermelho sobe até o rosto de Mitra, que tem um olhar feroz neste instante.

— Há pessoas que dizem que damas também não praticam Muay Thai, e mesmo assim o faço. — ele lhe lança um olhar de surpresa e encantamento. Ela continua a lhe olhar de forma raivosa, as mãos em punhos.

— Então que sua ordem seja cumprida, my lady. — ele lhe dá a bolsa e eles andam em silêncio até o terminal indicado. Muitas pessoas os olhando estranhamente.

Uma família de italianos passa ao lado deles, e quando riem, ele ri junto, como se entendesse o que falam.

— Fala italiano? — ela pergunta com descaso, a raiva deixando seu corpo. Não consegue sentir raiva dele. É um fato, mesmo que novo e oculto demais para Mitra o perceber.

— Tirando o neerlandês e o inglês, falo italiano, francês, arranho espanhol e português. Minha avó paterna me ensinava desde pequeno o português. Não falo fluentemente, mas ela me ensinou bastante coisa. — ele fala como se fosse uma algo sucinto, normal. Mitra percebe pelo seu tom que se trata de alguém humilde, que corre atrás do conhecimento e por isso sabe tanto. Não se gaba disso, ela percebe, e é uma grande qualidade. — E você?

— Um pouco de mandarim. E... alguma coisa de espanhol. Aprendi com o meu tio. — ela fala distraidamente, a bolsa lhe machucando o ombro esquerdo. Seu acompanhante retira ela de lá assim que percebe que a incomoda.

— Disse que damas não carregam bolsas tão pesadas, Tigresa. — ele diz com um sorriso sacana. Mitra não se importa tanto. — Mas mandarim? Realmente...

— Cal já foi à muitos lugares. Mas quando acabou o curso de mandarim, antes de ir para a China, decidiu que queria me ensinar. Não tive como recusar. — ela fala, mas com um pé atrás, a hesitação vai aos poucos sumindo de sua voz. Faz tempo demais que não conversa de verdade com alguém, mas tendo a própria companhia constantemente, os pensamentos que jorram em milhões de palavras em sua cabeça, não parece tão difícil falar. Na verdade, a coisa mais difícil parece ser interagir com alguém depois de tanto tempo.

Chegam até a fila de bagagens, que está curta, já que chegaram com antecedência e faltam duas horas para o voo. Estas duas horas foram usadas para acabar de organizar a papelada para a concessão do voo. Como no país de Mitra ainda é menor de idade, tiveram de tirar uma licença especial para conseguir realizar a viagem.

Nicolau negocia com os funcionários do aeroporto e como são bagagens não muito grandes, eles podem levar para junto deles, guardando-as sobre os assentos no comparimento indicado. Mitra se senta perto da janela, ele fez o mesmo em seguida.

Logo o avião começa a decolar, chacoalhando de modo que ela fica com medo. Mas ele parece estar em transe, como se estivesse se divertindo com seus pensamentos enquanto um terremoto acontece sob seus pés. Está acostumado. Mas mesmo assim, Mitra continua desesperada.

Até que suas mãos roçam levemente.

Ela se assusta, se afastando como se ele fosse radioativo, como se fosse fogo e tivesse a queimado. Ele apenas sorri com gentileza e sagacidade misturadas. Naquele momento ele parece querer tentá-la a se aproximar, a provocar. Mas ele também é todo surpreso, encantando e assustado ao mesmo tempo, sentindo sua mão formigar assim como a dela, que desvia o rosto vermelho para a janela ao lado na tentativa de parecer invisível.

Ele ainda sorri sacana, discretamente, olhando para a frente enquanto Mitra contempla o céu, que nunca esteve tão perto.

Notas finais
O que acharam? ^^