Segurança Privada
6 V - Quinto
Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.
—Albert Camus
Sentado no sofá branco de três lugares, Gaara encontrava-se alheio a quaisquer atividades ao seu redor. Segurava na mão direita, balançando levemente, um copo com Whisky Chivas. Seus olhos fixos em um ponto qualquer do cômodo.
Lembrava vagamente de tudo o que fez até chegar onde estava. Muita das coisas não se orgulhava, entretanto, não retrocederia em suas decisões passadas caso houvesse a chance. Nesses últimos sete anos, desde que completou a maioridade, não havia sequer cogitado a possibilidade de estar noivo da única herdeira dos Haruno. Era bom. Na verdade, era magnífico tal feito.
Sakura era perfeita aos seus olhos. Pele alva, lábios rosados, olhos incrivelmente sedutores e brilhantes. O que mais lhe encantava era, sem sombra de dúvida, o sorriso. Desde que a mulher lhe sorrira pela primeira vez, nunca mais pôde esquecer aqueles lábios curvados, minimamente perfeitos. Mesmo que Sakura insistisse em se afastar, não conseguia deixar de pensar nela. Era um vício, uma brincadeira perigosa tentar conquistá-la e dominá-la.
Apoiou a cabeça no encosto do sofá e olhou para o teto, perdido em seus próprios devaneios. Levou o copo até a boca, bebericando o Whisky em seguida. O barulho de salto chocando-se ao chão lhe chamou àtenção, fazendo-o desviar o olhar, do teto, para sua futura mulher. Ela estava radiante, perfeitamente esculpida dentro daquele vestido verde musgo, e olhava para si um pouco hesitante. Sem esperar, Gaara depositou o copo sobre a mesa de centro e levantou-se, caminhando, em seguida, para próximo à ela. Ergueu as mãos de Sakura junto às suas e beijou as costas delicadamente, olhando fixamente para os olhos verdes.
— Está magnífica. — falou, estupefato. Sakura, suspirou suavemente antes de responder sem um pingo de vontade.
— Vamos, ou não? — foi direta. Não queria assunto com ele e deixaria isso claro. Era até cômico achar que Gaara pudesse realmente pensar que já não estava mais irritada. Na verdade, estava profundamente irritadiça. Como esse homem ousava fingir que nada aconteceu momentos antes? Como ele conseguia agir tão naturalmente após ter a agredido no rosto?
Antes de responder, Gaara alisou sua bochecha com o polegar. Lenta e calmamente, ele passava o dedo pela face da moça, enquanto seus lábios permaneciam numa linha reta.
— Vejo que fez um bom trabalho com a maquiagem. — o sarcasmo presente em sua voz fez com que Sakura lutasse internamente para não socar o rostinho sem vergonha dele.
— Onde estão meus pais? — perguntou. Tentava ao máximo manter o controle. Gaara, por outro lado, estava se divertindo às custas de suas próprias provocações para com sua noiva.
— Eles já devem estar no coquetel. Temos que nos apressar, pedi para Yamato nos levar.
Sakura arqueou a sobrancelha esquerda, desentendida. Jurava que quem os levaria seria Watanabe, porém Gaara sequer citou o nome de seu segurança. Percorreu com os olhos, disfarçadamente, pelos quatro cantos do cômodo, enquanto fingia andar até o sofá. Gaara, percebendo os olhares de sua noiva, estreitou os olhos, olhando desconfiado em sua direção.
— O que foi? — perguntou.
— Achei que quem nos levaria seria Watanabe. — respondeu sincera, recebendo em troca o olhar de reprovação de seu noivo.
— Watanabe está de folga hoje. — mentiu. A verdade era que Gaara havia dispensado os serviços de Sasuke por hoje. Estava irritado, e olhar para seu empregado o deixava ainda mais enfurecido.
Sakura, no mesmo instante, sentiu-se desapontada. Estava gostando de interagir com seu segurança e realmente pensou que Sasuke pudesse ir a esse coquetel. Queria livrar-se de sua família e Sasuke seria a solução perfeita para sua distração naquele lugar que estava prestes a ir.
— Podemos ir? — perguntou Sakura. Ela olhou para o ruivo, que anuiu.
Andou, tentando se afastar de Gaara, até o carro. Todavia seu noivo enlaçou o braço ao seu. Caminharam assim até o carro, onde Yamato os esperava. O caminhou foi em repleto silêncio, cujo Sakura agradeceu mentalmente. Não aguentaria ter que socializar com seu noivo durante o percurso. Vez ou outra, Gaara e Yamato trocavam palavras de total desinteresse para ela, coisas sobre trabalhos e futuras ações.
Chegaram cerca de quarenta minutos depois. Gaara foi o primeiro a descer do veículo, andando a passos largos até o lado esquerdo e abrindo à porta, em seguida, para que Sakura saísse. Tomou o braço da mulher, entrelaçando ao seu, e assim rumaram ao coquetel.
Uma escadaria de frente para a entrada que era composta por duas portas duplas. Logo no hall, um lustre de cristal com diamantes pendurados, contrastando perfeitamente com o teto marfim. Bem próximas ao centro, algumas mesas e cadeiras para os convidados, entretanto a maioria estava de pé, espalhados pela enorme sala, conversando com seus acompanhantes e bebericando suas taças de champagne caro. O chão estava coberto com algum tipo de tecido, não escorregadio, na cor preta.
Uma melodia clássica, Fur Elise do Beethoven, tocava, deixando o ambiente ainda mais afetuoso. Sakura, que passeava com os olhos por todo o salão, não deixou de suspirar ao perceber a melancolia do local. Não era adepta a música clássica, porém conhecia perfeitamente aquele som, pois em tantas outras ocasiões o escutara.
Gaara, a guiou para próximo dos seus familiares, deixando de cumprimentar formalmente aos convidados e dando-lhes apenas acenos rápidos com a cabeça. Pararam de frente ao grupo, onde Sakura reconheceu rapidamente serem alguns amigos íntimos de Gaara, e seus dois irmãos mais velhos. Quando os viram, todos parabenizaram Gaara e sua noiva, entretanto Sakura ignorou cada um deles, recebendo em troca um aperto desnecessário no braço.
— E como anda o noivado? — um deles perguntou. Sakura, nem sequer o olhou para reconhecer o individuo, somente escutou Gaara afirmar que as coisas estavam indo perfeitamente bem.
Não soube quantos minutos ficaram ali, porque para si pareceram horas, mas em algum momento, Gaara a guiou para outro canto. Deixava-se ser guiada como uma marionete, sendo Gaara o ventríloquo, e em momento algum tentou disfarçar o tédio que sentia interiormente.
— Que porra pensa que está fazendo? — Gaara perguntou, entredentes. Somente naquele momento, ao escutar a voz ameaçadora de Gaara, percebeu estar num cômodo diferente e sozinha com ele. Sentiu o coração pular uma batida, porém tentou manter-se calma para não demonstrar seu medo para com aquele homem.
— Estou sendo guiada por você. — era a única resposta que soube dar, porque era a mais pura verdade.
— Então trate de ser mais receptiva. — retrucou Gaara.
— Como? Fingindo estar interessada no tanto de baboseira que essas pessoas falam? — soltou um riso preso na garganta. — Não sou tão hipócrita a esse ponto, Gaara.
Ele a olhou dos pés a cabeça, parando exatamente quando seus olhos se encontraram. Aproximou-se de Sakura, que estreitou os olhos e com a mão direita — o indicador e o polegar, cada dedo em um lado — pressionou as bochechas de sua querida noiva que, no momento, estava fazendo-o perder a paciência.
— Não tente me fazer de palhaço na frente de toda a sociedade. Ouça o que estou te dizendo, Sakura, se tentar me envergonhar, eu acabo com você. — ameaçou-a verbalmente. Ainda segurando o rosto da mulher, depositou um selinho rápido nos lábios flexionados. Em momento algum desviou os olhos dos dela. Queria que ela sentisse medo, queria que ela temesse por suas palavras assim que ele as disparava em um tom claro.
Sakura, por outro lado, olhava cada movimento do ruivo, enojada, após ele encostar com aquela boca suja na sua. Não que antes ele já não tivesse lhe beijado, todavia eram situações diferentes e essa era inteiramente degradante.
Gaara a soltou, afastando-se dois passos e erguendo a mão direita para que ela pegasse. Sakura hesitou ao erguer a mão e entrelaçar a dele, porém sabia que ali era inútil qualquer ato que tomasse.
— Se você se comportar, eu posso fazer sua noite valer a pena. — sussurrou ironicamente, bem-humorado. Sakura, somente revirou os olhos enquanto seus pés acompanhavam Gaara, a contragosto.
Na sala, as pessoas conversaram e riam bem a vontade. Todas com poses; nariz empinado, tentando demonstrar umas as outras que eram superiores. Sakura sabia como era cada um ali naquele ambiente hostil, era uma guerra da sociedade soberba. Nenhum deles realmente estava feliz ou cumprimentavam os outros por gentileza, mas sim por obrigação e prazer de tentar aparentar superioridade.
Um bando de cobras fora do ninho, pensava Sakura, todavia apenas olhava martirizada cada gesto delicado e refinado das pessoas ao seu redor.
— Olhe quem está aqui, meu amor. — Gaara, lhe chamou atenção, fazendo-a desviar o olhar, de uma mulher acompanhada pelo prefeito da cidade, para seus pais.
— Oh. Minha querida filha está tão linda. — disse sua mãe, fingindo agrado. Não soube se retrucava aquela farsa ou se permanecia calada. Optou pela segunda opção, pois Gaara podia fazer algo para si se mostrasse desagrado.
— Parabéns pelo grande passo que tomou, Gaara. Minha mulher e eu estávamos comentando o quanto você se supera a cada dia. — Haruno Kizashi elogiou Gaara.
— Senhor Haruno, sabe o quanto me esforço para progredir. Isso são apenas frutos que estou colhendo. — o tom superior que o ruivo usava deixava claro que as palavras de Kizashi não haviam o surpreendido.
— Fico feliz em saber que minha filha está em boas mãos. — Sakura bufou, desviando o olhar com total descrença. Absurdo era pouco para definir aquele tipo de conversa. Estava exausta dessa vida e a cada dia parecia se comprimir mais e mais à ela.
— Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Eu amo sua filha, senhor Haruno. — Sakura sentiu sua mão ser erguida e, em seguida, os lábios frios de Gaara encostando-se em sua pele. Nem um segundo sequer olhou para o ruivo, apenas esperou que ele soltasse sua mão.
— Sakura deve estar muito feliz em saber que o casamento enfim está marcado. — agora era a voz de sua mãe.
— Tanto faz. — disse, seca. Envergonhados, seus pais deixaram os lábios levemente abertos em surpresa. As palavras de sua filha eram uma vergonha para ambos.
— Querida, sei que está nervosa com tudo isso, mas prometo te ajudar. — sua mãe se aproximou, acariciando seu rosto com leveza.
— Eu já falei, para mim tanto faz. — tornou a repetir. Estava de saco cheio de toda a hipocrisia do ambiente e mais ainda de seus pais e seu noivo.
Retirou o braço entrelaçado ao de Gaara e cruzou os braços no peito, ignorando o olhar de repreensão de seu pai e mãe.
— O que pensa que está fazendo, Sakura? — Mebuki perguntou num sussurro próximo ao seu ouvido.
— Estou farta de toda essa farsa entre vocês. — rebateu, olhando friamente para sua mãe, que suspirou em seguida.
— Sabe dos nossos problemas. Você quer acabar com a nossa família? É isso que você quer, Sakura?
Odiava quando sua mãe ousava impor esses dilemas sobre si. Ela tinha apenas 19 anos. Por Deus, não era justo carregar esse fardo sozinha.
— Tudo bem. — disse, por fim. — Desculpe-me.
E dali em diante, Sakura manteve seu olhar baixo, evitando cruzar com quaisquer pessoas. Vez ou outra, era inevitável não olhar para alguém já que Gaara apresentava seus sócios e amigos, fazendo-a ter que cumprimentar cada um deles com um sorriso no rosto.
Gaara é um homem de negócios, rico e bonito, no entanto essas qualidades de nada valiam perto de suas ações. Sakura estava com as pernas cansadas de tanto ficar em pé, e Gaara pareceu perceber isso, pois minutos depois a guiou até uma cadeira, sentando-se ao seu lado.
— Quer beber alguma coisa, amor? — perguntou depois de conversar com o noivo de Hinata.
Sakura conhecia Inuzuka Kiba. Era exatamente como Gaara, sua beleza e herança de nada valiam perto da pessoa extremamente soberba.
— Não.
— Tome. — insistiu ele, entregando uma taça com vinho para Sakura.
Ela aceitou a bebida, tomando tudo num gole só. Gaara riu da atitude da moça, franzindo o cenho e olhando descrente para ela.
— Não sabia que estava com tanta sede. — tentou fazer uma piada que não surtiu qualquer efeito.
— Nem eu.
O resto da noite foi assim. Conversas e risadas forçadas, pessoas se aproximando para lhe parabenizar pelo casamento, infeliz, que teria. Já passava das 23h00min quando não suportava mais aquele lugar. Queria correr dali e se atirar na frente do primeiro veículo que passasse só para não ter que passar por todo aquele drama de novo. Porque sabia, iria passar por aquilo outras e outras vezes, incansavelmente, e seu interior lhe gritava que não suportaria essa vida. Gaara, vez ou outra, lhe perguntava se queria algo, porém negou todas as tentativas de aproximação do ruivo.
Sua mãe estava sentada do outro lado da mesa, contando algumas histórias “engraçadas” sobre si, enquanto os outros convidados que estavam sentados consigo, cujo nome nem lembrava mais, riam e sorriam da desgraça alheia. Seus olhos, vez ou outra, desviavam-se para os outros cantos do salão e observavam com cautela as ações de cada pessoa. Num desses desvios, prendeu-se a cena cujo lembrava com precisão. Uma menina, mais ou menos oito anos, sentada à mesa com seus pais, agindo como uma marionete.
Sem vontade, sem vida, fazendo tudo exatamente como lhe era ordenado. Viu ali, naquela cena, a si mesma. Uma versão mais nova, é claro, de si mesma sendo manobrada por seus pais que em momento algum lhe deram opção de retrucar.
Por Deus, aquela menina deveria estar dormindo depois de um dia brincando com as amigas, todavia estava aqui numa festa para os melhores dos melhores, onde as pessoas conversavam sobre quem é mais rico que quem. Onde isso é certo? Onde isso é justo?
A criança desviou levemente o olhar, de soslaio, para si e diante daquele olhar, ela pôde ter certeza que tudo o que pensava estava certo. Essa criança jamais quis estar aqui, ela jamais quis se vestir assim, ou agir assim. Ela era si própria quando mais nova, e ela teria o mesmo futuro que si. Sentia pena da menina, queria poder levantar-se, agarrá-la pelos braços e fugir dali com ela no colo. Queria dar para essa criança o poder da escolha, do livre-arbítrio, entretanto como poderia salvar alguém se ela mesma não conseguia salvar-se?
Sentiu seus olhos arderem diante das lágrimas que insistiam em cair, porém lutou internamente para que não as derrubasse. Todo seu corpo tremia levemente com as expectativas que um dia tivera e hoje, eram sombras de um passado distante.
Seus olhos, mais uma vez, voltaram-se para as pessoas envoltas à mesa, olhando cautelosamente para sua mãe que ainda contava histórias para os convidados. Olhou para Gaara, que prestava atenção a sua mãe e viu-se num déjà-vu, presa a este homem pelo resto de sua vida. Sua respiração ficou um tanto descompassada. Forçou-se a tentar equilibrar-se, todavia no momento exato em que Gaara depositou a mão sobre a sua, que até então estava sobre seu colo, todo o seu autocontrole se esvaiu, fazendo-a levantar-se de supetão e sair daquele lugar sem ao menos olhar para trás.
Ouviu algumas pessoas chamarem por si, entre elas sua mãe, noivo e pai, entretanto ignorou cada som e correu. Correu até chegar ao estacionamento, onde Yamato provavelmente manobrou o carro. Yamato olhou-a confuso e saiu do veículo, perguntando o que aconteceu, mas Sakura apenas disse que Gaara estava procurando por ele e que era uma emergência. Após Yamato assentir e correr em direção à entrada principal, Sakura adentrou ao carro e girou a chave, dando marcha a ré, em seguida, e pisando no acelerador, saindo do local as pressas.
Olhou pelo espelho retrovisor e constatou que nem Gaara nem Yamato lhe observada. Dirigiu até sua casa, estacionando próximo à entrada e saindo do carro. Bateu a porta e correu para dentro do hall, subindo às escadas em seguida. Não se importou se alguém lhe observava, tampouco se lhe chamariam de doida por chegar sozinha em casa e correndo.
Entrou em seu quarto, sem se importar em trancar a porta e foi direto para a última gaveta da cômoda, retirando uma caixa-preta da gaveta e abrindo-a em seguida, revelando um revólver dourado Rossi Princess calibre 22, que Sakura não hesitou em pegar. Deixou a caixa aberta sobre a cômoda e tremendo compulsivamente, carregou-a com o cartucho que estava dentro da caixa, colocando-o dentro do cilindro giratório.
Seus olhos derramavam grossas gotas de lágrimas, manchando toda sua maquiagem. Seu rosto, antes como porcelana, agora estava levemente preto devido ao rímel que escorreu por suas bochechas, borrando-a. Os olhos inchados pelo choro que momentos atrás tentava a todo custo prender, agora já não importava mais, pois deixou-se chorar pela última vez em sua patética vida.
Não estava muito ciente dos fatos, tentava ao máximo não pensar e somente agir. Levou a arma até a fonte direita, enquanto tomava a coragem que precisava para apertar o gatilho. Em nenhum momento suas lágrimas cessaram, e por isso não soube quando enxergou seu segurança, embaçado, aproximando-se de si.
— Não se aproxime. — disse com a voz cortante entre soluços.
— Você não quer fazer isso. — afirmou Sasuke, dando pequenos passos, com cautela, na direção da moça.
— Eu mandei você não se aproximar! — gritou para ele, enquanto recuou um passo.
Sasuke levantou os braços, mostrando que não pretendia fazer nada contra a moça. Parou aproximadamente três metros de Sakura, e analisou a cena à frente. Sakura estava com o revólver apontado para a própria cabeça. Seu desespero era nítido para quem olhava a mulher. Percebeu isso pelos soluços devido ao choro em que ela se encontrava. A boca estava levemente aberta, respirando pelo local, e o rosto manchado pela maquiagem.
Pensou em se jogar sobre ela e desarmá-la, todavia ela podia ser mais rápida e tirar a própria vida diante de seus olhos, estragando todo o plano que ele veio elaborando durante anos. Ele teria que levá-la no papo, com um bom diálogo na tentativa de convencê-la a parar com esse absurdo. Diante desses pensamentos, Sasuke se afastou um passo, mostrando que colaboraria para a conversa que estava disposto a ter.
— Por que quer tirar a própria vida? — perguntou, tentando puxar assunto e entreter a mulher.
— Não te interessa. Apenas saia daqui e deixe-me terminar.
— Ainda não consigo encontrar um bom motivo para querer se matar, senhorita Haruno. — falou suavemente com os olhos semicerrados.
— E-Eu não tenho nada a perder. — hesitou, mas por fim, Sakura falou. Era claro que não tinha nada a perder, ao contrário, só seria livre quando finalmente estivesse a sete palmos do chão.
— Está errada, senhorita Haruno. Você tem seus pais, isso é algo grande.
Sakura riu, uma risada medonha e irônica.
— Tem noção do que está falando? Você não entende, Watanabe.
— É, tem razão. Não entendo porque não tenho os meus. — ele disse e no, instante seguinte, arrependeu-se de suas palavras. Não podia contar sobre sua vida para ela e acabara de dizer algo importante. No entanto às palavras saíram sem permissão, naturalmente.
— Isso não me importa. Eu... Eu só quero acabar logo com isso. — e, ao ouvir essas palavras, Sasuke soube que se não agisse logo, aconteceria o pior.
— Calma. — pediu, erguendo a mão num sinal de pare. — Você sabe o que pode te acontecer após a morte? Já ouvi dizer coisas absurdas... — ele disse e rezou para que ela o questionasse. Como previsto, ela franziu o cenho, enquanto seus lábios estavam numa linha reta. Sakura engoliu em seco antes de perguntar.
— Absurdas tipo o quê?
— Tipo, inferno. — e ela não pode deixar de sorrir em escarnio.
— Pare de falar absurdos, eu não acredito nisso.
— Não? Nossa, achei que uma pessoa como você deveria saber que cometer suicídio é pior do que uma sentença de morte. Dizem que as pessoas que cometem suicídio tem a alma presa, atormentada para toda a eternidade. Diga-me, senhorita Haruno, prefere ser atormentada pela eternidade, ou encarar seus problemas de frente?
Sakura, olhou-o por alguns segundos. Piscou freneticamente para afastar as lágrimas que formavam-se em seus olhos.
— Para de falar bobagens. — disse, balançando a cabeça freneticamente para ambos os lados. — Se eu morrer, eu e somente eu, me entendo com o Diabo.
Sasuke praguejou mentalmente. Essa mulher era teimosa e estava sendo difícil levar na lábia, pois ela parecia bem decidida a tirar a própria vida. Uma coisa que observou durante esses tempos que estava trabalhando próximo a ela, era que Sakura era uma mulher de personalidade forte. Tinha que usar isso a seu favor para fazê-la abandonar essa loucura.
Ele havia ouvido hoje cedo a discussão dela com o noivo. Ele ouviu o quanto ela o enfrentava e também ouviu quando ele a agrediu. No momento, sentiu vontade de adentrar ao quarto e esmurrar a cara do patrão, porém tentou se acalmar e abandonou o local, indo direto para seu quarto.
E agora, vendo a face de Sakura sem maquiagem, podia ver claramente que a agressão havia sido no rosto. A pele da mulher era incrivelmente alva e isso colaborou para a marca que ainda estava lá, e Sasuke, no mesmo instante, abaixou os braços apertando as mãos em punhos. Não soube por que, somente estava com ódio de tudo. De Gaara, por tê-la agredido, de Sakura, por tentar suicidar-se e de si mesmo por estar sentindo essa fúria por algo que não lhe interessava.
Tentou voltar a si assim que percebeu que sua pequena distração poderia levar Sakura a morte. Não tinha mais o que fazer. Ele tentou através de palavras e a mesma ignorou. Ou jogava na cara dela o quanto ela era fraca por fugir dos próprios problemas com a solução mais fácil, ou se atirava em cima dela e a desarmava, correndo o risco de levar um tiro ou de vê-la com um buraco na cabeça.
— Então tá. — disse, relaxando os ombros e erguendo a cabeça. — Se quer se matar, vá em frente.
— Ótimo. — e olhou-o uma última vez, mas quando estava prestes a apertar o gatilho, ouviu a voz de seu segurança mais uma vez.
— É decepcionante ver que uma mulher como você prefere buscar o meio mais fácil, fugindo de seus problemas covardemente. — bufou. — Sabe, senhorita Haruno, o que está fazendo não é exatamente heroico, muito pelo contrário, é trágico! — e aquelas palavras fizeram Sakura hesitar profundamente, olhando bem nos olhos dele, que pareciam lhe oferecer tudo que sempre buscou, uma saída.
Sua mão, automaticamente, baixou alguns centímetros, afastando a arma da cabeça enquanto sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos, e suas íris observavam seu segurança lhe encarar com a decepção estampada.
E o momento seguinte foi rápido para si, porque em um segundo estava olhando-o e no outro seu corpo estava prensado ao de Sasuke, na parede. O som do tiro ecoando e vidros se quebrando fizeram com que Sakura soltasse um grito estridente. Suas mãos estavam acima da cabeça, sendo seguradas por Sasuke, que ainda mantinha o corpo junto ao seu.
— Não foi nada, você está bem. — ele sussurrou em seu ouvido e só então ela se deu conta de que todo o seu corpo era sustentado por ele. Se aquele homem não estivesse ali, prensando-a na parede, seu corpo já estaria ao chão. Todos os seus músculos tremiam involuntariamente e seus olhos não piscavam, pois a falta de reação a deixou em choque.
— Está tudo bem. — Sasuke sussurrou novamente. E somente naquele momento Sakura o olhou de canto, observando o quão próximo ele estava de si. Sentiu uma onda de emoções transbordarem dentro de si, mas foi tirada de seus devaneios com as vozes de Gaara e Yamato.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Gaara, confuso pela situação.
Sasuke, afastou-se de Sakura, depositando o revólver sobre a cômoda. Não sabia o que falar e isso estava deixando-o irritado. Gaara, por outro lado, esperava uma explicação.
— Sakura, o que houve aqui? — perguntou novamente, agora especificamente para sua noiva, que tentou afastar ao máximo o que havia acontecido e obrigou-se a pensar em algo rápido.
— E-Eu estava me sentindo mal e revolvi vir para casa. Quando cheguei aqui no quarto, o senhor Watanabe me perguntou se estava tudo bem, mas, de repente, ouvimos um barulho do lado de fora da janela. — e olhou para a janela, tentando manter-se o mais calma, se é que era possível. — Ne-Nesse momento, Watanabe não hesitou em disparar, pensando que fosse algum... ladrão.
Sasuke olhou-a, até um pouco divertido pela explicação fajuta da mulher.
— E era um ladrão? — perguntou Gaara, preocupado.
— Não. Devia ser algum pássaro, acabei matando-o por acidente. — Sasuke disse, sua voz firme fez com que Sakura assentisse pela resposta dele.
— Menos mal. — e o ruivo se aproximou de Sakura, abraçando-a pelos ombros. — Vamos, meu amor, fique no meu quarto até que a empregada venha limpar essa bagunça.
Antes de sair, Sakura olhou de canto para Sasuke e ele pôde ver o quão ela lhe agradecia apenas com o olhar. Seus olhos ônix seguiram seus patrões até que ambos sumissem pela porta.
Yamato, por outro lado, estava observando a janela quebrada. Virou-se e caminhou até Sasuke.
— Estranho, não vi nenhum pássaro. — disse com sarcasmo. Sasuke o encarou, se controlando para não esmurrar a cara de Yamato.
— Devo ter errado o alvo. — Yamato bufou antes de se dirigir até a porta.
— Me pergunto... "como conseguiu ser tão rápido a ponto de pegar a arma que o senhor Gaara deu para sua noiva..." — disse, apontando para a pequena arma sobre a cômoda.
Sasuke nada respondeu, apenas passou por Yamato e rumou até seu quarto, enquanto Yamato observava com cautela toda aquela cena, jurando para si mesmo que alguma coisa estava errada e que iria descobrir, em breve.
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