Segurança Privada
3 II- Segundo
Notas iniciais
Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.
—Sócrates
Desde que saiu do cabeleireiro, sentia-se de bom humor. Chegou em casa quando à noite já caíra. Gaara, partira para sua viagem a negócios e isso a deixava extremamente feliz, pois teria o resto da semana livre para ir onde quisesse sem dar satisfações. Sua família lhe perguntava algumas vezes o que andava a fazer, porém era seu noivo que vigiava seus passos à espera de que fosse dar o bote a qualquer minuto.
Desde que se tornara adolescente, seus pais passaram a interferir em suas escolhas, tomando as decisões mais importantes para si. Tentava intervir, entretanto sua família discordava de suas decisões, deixando-a sem escolhas para usufruir.
Só aceitara esse casamento por motivos maiores, esses eram sua herança e sobrenome. Fora ameaçada assim que tentou contradizer a todos. Sua mãe, que sempre lhe pareceu tão singela, foi à primeira a discordar de suas vontades. Insistia em lhe jogar na cara tudo que fizera por si e o quanto estava sendo ingrata por não acatar seus pedidos.
Achava absolutamente ridículo toda essa cena que sua mãe fazia, tampouco pensava em segui-las, mas seu pai tomou as rédeas, partindo para o que ele sabia fazer de melhor: ameaças.
O costume de ter tudo onde e quando quisesse, fez com que Sakura aceitasse essa loucura de casamento. Fora ameaçada de perder seus bens no testamento. Um desatino, achava, entretanto aceitou depois de muito pensar.
O noivado fora anunciado um mês depois, até então não sabia quem era seu futuro marido. Pensar em ser obrigada a tal feito, a deixava complexa. Era irrisório que em pleno século XXI fora obrigada a casar-se por vontade de seus pais e não por sua própria.
Quando o dia do noivado chegara, Sakura pediu aos Deuses que seu noivo fosse algum galante. Agradável, bonito, simpático, esses eram adjetivos que Sakura imaginava que ele — Gaara, como havia lhe informado sua família — pudesse ser. Sua decepção veio logo que o indivíduo apareceu exalando arrogância. O homem tinha uma beleza exótica ao mesmo tempo em que sua prepotência assumia a vez. A aparência era ofuscada pela personalidade árida. Não adiantava tanta beleza se por dentro era mais um riquinho que se achava o dono do mundo.
Desde seu noivado, via-se presa a Gaara. Quem ele era? Um dono de inúmeras terras. Herdeiro mais novo dos Sabakus. Gaara, assumira o controle da empresa Sabaku assim que completou a maioridade. O cargo de CEO lhe trouxe grandes benefícios e reconhecimento. Seus pais morreram quando tinha apenas 15 anos e seus irmãos mais velhos, Temari e Kankurou, assumiram a empresa. Quando Gaara tornou-se CEO, a empresa estava à beira da falência. Sua eficácia levou prosperidade para a firma, subindo-a rapidamente e rompendo barreiras. Numa dessas investidas, Haruno Kizashi, pai de Sakura, tornou-se sócio de Gaara, e assim esse casamento foi arranjado, apenas para crescimento e benefício das empresas Sabaku e Haruno. Como tudo acaba sobrando para alguém, Sakura, filha unigênita, teve seu caminho traçado sem ao menos poder retroceder.
A semana se passou rapidamente. Sakura havia marcado com uma de suas amigas para se encontrarem e colocarem o papo em dia. Levantou cedo e tomou um longo banho. Saiu do banheiro e andou até o closet para escolher as peças de roupa; julgava fundamental estar sempre impecável. Com o tempo bom — estavam no verão — optou por um vestido verde xadrez, acima dos joelhos, com botões na altura dos bustos até o acabamento. Na cintura, um cinto vermelho marcava perfeitamente aquela região, um salto agulha nos pés para finalizar. Deixou os cabelos soltos, que agora tinham um tom exótico, caindo em cascatas sob os ombros, com a franja sempre presente tapando a testa que tanto odiava.
Saiu do quarto, encontrando o segurança ali, parado, com os braços para trás e tronco ereto. Suspirou em frustração. Odiava ter que aturar alguém o tempo todo atrás de si.
— Preciso que me leve até um restaurante do centro. — pediu ao passar. Não esperou obter resposta, apenas desfilou até a escadaria e desceu os degraus. O segurança a seguiu sem questionar. Passaram todo o trajeto em silêncio. Sakura, dessa vez, sentou-se no banco do carona. Depois de chegarem ao local indicado por ela, a mesma desceu do veículo deixando o segurança para trás. Sem esperar ser chamado, Sasuke correu na direção da mulher.
— Não quero que fique o tempo todo atrás de mim. — disse num tom firme.
— Esperarei aqui do lado de fora.
— Tudo bem. — virou-se e entrou no local, sendo atendida pelo garçom que lhe informou a mesa à qual reservara antes de sair de casa. Caminharam até um canto e lá, sua amiga a esperava com um sorriso cálido.
— Quanto tempo, Hinata.
— Digo o mesmo. Tive que viajar, sabe como são os negócios de família.
— Nem me fale, eu estou de saco cheio de tudo isso.
— Nossa vida. Sakura, você pintou os cabelos. — Hinata disse, surpreendida. Olhava atentamente as novas madeixas de Sakura, que apenas deu de ombros.
— Quis mudar.
— Gaara já viu?
— Não, ele saiu a negócios. — Sakura não gostou nada do tom que Hinata usara ao perguntar, parecia que Gaara era seu dono e que não tinha vontade própria.
— Ele vai surtar quando ver seu novo visual. — deixou uma risada singela escapar no final.
— Não preciso dá autorização dele para nada. — Hinata, franziu o cenho, parecia analisar as atitudes da amiga.
— Ele é seu noivo, você precisa comunicá-lo quando vai mudar desse jeito.
— Eu só pintei os cabelos de rosa. Que mal tem?! — perguntou, incrédula. — Olha, se for para ficarmos falando do Gaara, eu vou embora.
— Tudo bem, não está mais aqui quem disse. — levantou as mãos em defesa.
— Hum. — Sakura, desviou a atenção da amiga para o garçom que esperava o pedido das moças. Pediu Kimuchi e uma taça de vinho para acompanhar. Hinata pediu o mesmo. — Fale-me como anda as coisas com Kiba. — tentou mudar de assunto.
— Normal. — Sakura, percebeu que Hinata não estava nada contente. Quando ia perguntar o que seria normal, a morena voltou a falar. — Ele vive para o trabalho. Passamos pouco tempo juntos, mas ele sempre tenta me conquistar.
— Você o ama? — foi direta ao perguntar. Hinata hesitou um pouco antes de responder.
— Eu não sei...
— Não existe “não sei”. — fez aspas com os dedos. — Ou você ama, ou não.
— Ele é tão bom comigo...
— Hinata, o Gaara também tenta ser ótimo comigo, mas nem por isso eu o amo. Na verdade, eu o odeio!
— Sakura... — Hinata, percebeu que a amiga tinha um brilho diferente no olhar, um brilho que não se parecia nada com felicidade.
— Está tudo bem, Hinata, já me conformei com essa ideia de casamento. — afirmou, tentando convencer a si mesma. Ria internamente das próprias palavras.
— É melhor assim. Sua família faz muita questão dessa união entre os dois, não gostariam nada que algo atrapalhasse.
— Tem razão. Mudando de assunto, você não vai acreditar no que o Gaara fez dessa vez. Ele contratou um se- — fora interrompida pelo garçom que chegou com a refeição de ambas. Comeram em silêncio. A comida era ótima naquele restaurante, fazia tempo que Sakura não ia ao local, porém sentia tanta falta daqueles pratos deliciosos que só eles ofereciam. Hinata também estava encantada com o sabor refinado do prato. Pensou até em chamar seu noivo para comerem ali qualquer dia. Terminaram a refeição e Hinata foi a primeira a falar.
— Estava tudo ótimo.
— A comida daqui é divina. — Sakura, concordou.
— Mas então, me fale o que estava dizendo.
— Ah, o maluco do Gaara contratou um segurança para me vigiar vinte e quatro horas por dia.
Hinata pareceu surpresa com a notícia.
— Mas por que ele quer alguém na sua cola?
— Vai saber. Aquele cara não regula muito bem não, Hinata. Eu sempre falei isso, mas você desacredita. — Hinata, sorriu do exagero da amiga.
— Cadê ele?
— Ele quem? — perguntou confusa.
— Seu segurança privado, ora. — respondeu como se fosse óbvio.
— 'Tá do lado de fora me esperando. Eu tive que pedir que ele não entrasse e que me desse um espaço, pelo menos. — a morena concordou.
— E como ele é? — perguntou, interessada.
— Quem? O segurança?
— Quem mais seria? Claro que é ele, né!
— Normal. Sabe que eu nunca reparei muito nele, sempre está de óculos escuros e quase não fala. Acho até melhor assim, porque vou tentar me livrar dele o quanto antes.
— Boa sorte, minha amiga. — Sorriram travessas uma para a outra.
Continuaram jogando conversa fiada até que Hinata, educadamente, dissera que já estava na hora de ir. Sakura, acompanhou a amiga até o carro e se despediram, marcando de se encontrarem assim que pudessem.
Voltando para casa, dessa vez decidira ir no banco de trás. Sua cabeça apoiada no vidro da janela, enquanto seus olhos vagavam perdidos ao longo do caminho afora. Suas íris se desviaram para o espelho retrovisor que refletia o olhar do segurança sobre si.
Reparou que ele não mais usava os óculos pretos. Seus olhos, vez ou outra, a fitavam através do espelho. Um tom escuro, além do chocolate, como duas pedras ônix molduradas pelos grossos cílios. Desviou o olhar do dele, não aguentando sustentar aquelas duas pedras misteriosas. Permaneceu assim por longos segundos até que sua curiosidade falou mais alto e voltou a fitar o retrovisor, deparando-se com as íris negras sobre si.
— O que foi, hein? — perguntou, intrigada. Sasuke sorriu de canto diante da irritação da mulher. Ignorou a pergunta da mesma e voltou àtenção para a estrada. — Não vai me responder?
— O que deseja? — fora diferente ouvir o som da voz dele. Dessa vez, era calma, até mesmo divertida. Sentiu-se tola por questioná-lo por algo assim.
— Você estava me olhando estranho... — falou após alguns segundos. — Ah. Deixa pra lá. — Sakura, voltou a fitar pela janela, as pessoas se tornavam um borrão diante da velocidade em que passava por elas.
— Eu gostei. — ele diz. Sakura direciona o olhar até ele, o carro havia parado num sinal vermelho.
— Não entendi...
— Seu cabelo. Gostei da cor. — ele afirma, voltando a focar o olhar na estrada.
— Obrigada, devo dizer. — agradece um pouco intrigada.
— Hm. — Ela nada diz. Na verdade, não gostara nem um pouco do som que o moreno emitiu. Mal sabia Sakura que, dali para frente, escutaria com frequência aquele ruído.
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