Segurança Privada
4 III - Terceiro
Notas iniciais
Geralmente aqueles que sabem pouco falam muito e aqueles que sabem muito falam pouco.
—Jean-Jacques Rousseau
Naquela mesma tarde, Sasuke deixou a patroa em casa e, após se certificar de que estava tudo em ordem, saiu para informar tudo que ouviu ou percebeu desde que começara a trabalhar naquela mansão. Evitou usar o carro de propriedade particular da família Haruno. Chamou um táxi e estendeu um papel, pedindo que o taxista lhe deixasse no lugar escrito.
Chegou ao local cerca de quarenta minutos depois, caminhou mais dez minutos até parar de frente para um galpão abandonado. O lugar era isolado, não havia casas ao redor. A rua ainda era de barro; havia muito lixo espalhado pelo chão, à porta da frente estava trancada com uma grande corrente e cadeado. Sasuke ignorou a entrada principal e caminhou até os fundos por um beco estreito ao lado do prédio. Lá, um homem alto de pele clara e cabelos espetados, lhe aguardava.
— Pensei que não viria mais. — disse. Sasuke ignorou as palavras e caminhou até uma escadaria na lateral, subindo em seguida. O homem o acompanhou em silêncio. Chegaram ao terraço e Sasuke tirou do bolso um pen drive.
— Pegue. Aí tem todas as informações que sei até agora. — estendeu o pequeno objeto para o homem pegar.
— Espero que sejam coisas úteis. — respondeu, estendeu a mão. Pegou o objeto, guardando-o, em seguida, no bolso da calça jeans.
— Foi tudo que consegui descobrir. Eles são bem reservados. Tentei tirar algumas fotos, mas fiquei receoso de haver câmeras no local.
— Todo cuidado é pouco com aquela gente. Precisamos ser o mais discretos possíveis. — disse. Aproximou-se de Sasuke, que mantinha o olhar longe, refletindo. — Não pode desistir agora, meu sobrinho. Caminhamos juntos todo esse tempo. Não podemos desperdiçar nossa chance.
— No voy rendirme. (Não vou desistir) — respondeu seco. O sotaque Espanhol perfeitamente pronunciado, digno de sua essência.
— Así es como hablamos. (É assim que se fala)
— Quero logo terminar com isso e voltar para a Espanha. Estoy con saudade.(Estou com saudade)
— A paciência é a principal virtude de um homem, meu jovem. — diz o homem mais velho esbanjando sabedoria. Sasuke dá de ombros.
— ¿Donde esta Karin?(Onde está a Karin?)
— Aquela traidora deve estar bem longe nesse momento. — respondeu com raiva. Sasuke percebeu os punhos cerrados do tio e tentou acalmá-lo.— Mas tudo bem, depois a caçamos e damos um fim.
— Faremos. — Sasuke assenti, firme.
— Tenho que ir, podem notar minha ausência e não quero causar suspeitas.
Sasuke, olhou para o tio e assentiu antes de descer as escadas e caminhar até chegar às ruas movimentadas. Pegou um táxi de volta para a mansão. Sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos. Não suportava ter que passar por todo esse teatro antes de conseguir o que queria. Não suportava mais pisar em solo britânico. Queria voltar para sua terra, para sua casa. Nasceu e foi criado na Espanha. Aprendera inglês ainda novo por ordens de seu severo pai.
Nunca imaginou que precisaria ir tão longe e ficar tanto tempo fora de seu lar. Não que tivesse abandonado muitas coisas. Na verdade, deixou para trás apenas as propriedades que herdara de sua família.
Perdeu seus pais ainda novo, com 14 anos para ser mais exato. Um trágico acidente de avião tirou suas vidas, fazendo com que Sasuke tivesse que amadurecer mais rápido. Seu irmão mais velho, que também era seu segundo pai, fora quem o ajudou a superar a perda. No começo, foi tudo muito intenso, entretanto, é como as pessoas dizem, o tempo cicatriza. Jamais seria curado. Uma parte de si se foi com seus pais naquele dia, porém a ferida cicatrizou e grande parte da ajuda que teve, foi de seu amado irmão.
Com 16 anos, mudou-se para Ibiza, onde conheceu Karin. A paixão atingiu-o em cheio, inundando toda a experiência do primeiro amor. Um ano depois as coisas começaram a tomar rumos diferentes do qual havia previsto. Sonhos despedaçados, desejos sucumbidos por males, vontades encobertas pelas desgraças de um passado sombrio. Tudo veio muito rápido, explorando cada canto de seu ser, deixando-o sem direção e para completar, seu irmão fora brutalmente assassinado.
A dor que parecera adormecer dentro de si, despertou com força total. Foi então que seu tio lhe estendeu a mão. Perdido e com sede de vingança, apertou com força àquela oportunidade. Ergueu-se, ignorando toda a dor em seu peito. Decidido a deixar Ibiza, partiu sem olhar para trás.
Chegou à Inglaterra com quase 19 anos. Hoje, com 21 anos, estava mais que preparado para tudo que veio elaborando ao longo dos tempos. Com a ajuda de seu tio e companheiro, conseguirá completar seus planos.
Chegou à mansão dos Haruno e, após entrar, encontrou Gaara que aparentava nervosismo.
— Onde você esteve? — questionou o ruivo.
— Fui resolver uns problemas particulares.
— Quem lhe deu ordens para deixar essa casa? — perguntou alterado. Sasuke manteve-se a todo o momento, pacato.
— Perdoe-me, Senhor- — Gaara o interrompeu.
— Não diga mais nada! Se retire, por favor. — Sasuke deixou o Hall sem titubear.
Gaara, agora sozinho no cômodo, levou as mãos até os cabelos ruivos, enlaçando os dedos no mesmo. Suspirou pesado, em seguida. Seus olhos, inconcebível, vagavam pelo amplo espaço, esperando avistar a mulher que tirara sua paz de espírito.
"Como ela pôde fazer algo assim? Logo agora que as coisas com Kizashi pareciam estar melhores."
Sakura queria provocá-lo, só pode.
Nunca imaginara que, deixando-a por alguns dias, aconteceria algo dessa proporção. Confiou e acreditou em sua noiva. Deu-lhe seu voto de confiança e agora a mulher havia feito-o de otário. Exatamente isso.
Otário era a palavra que denotava perfeitamente sua atual situação. Como explicaria isso para Kizashi? Ou melhor, como explicaria isso para a inconveniente da sua sogra? Não tinha nada em mente. A única coisa que conseguia definir em si era a raiva. Sim, a raiva estava transcendendo seu ser.
Como se para aliviar sua tensão, Gaara massageou as têmporas. Os olhos verdes agora estavam fechados enquanto sua expressão pareceu suavizar após alguns minutos. Escutou barulhos de salto chocando-se ao chão. Abriu os olhos rapidamente, deparando-se com sua noiva a poucos metros de si.
— Quero explicações. — tentou soar o mais calmo possível. Sakura deveria agradecer aos Deuses por sua paciência para com ela. Tinha que admitir, aquela mulher ganhara não somente sua mente, mas também seu coração.
— Não tenho o que explicar...
— Como não? Olhe para isto. — aproximou-se dela, pegando uma mecha dos cabelos que agora estavam num tom rosado. — Meu amor, você tem ideia do que seus pais irão dizer?
— Eu não me importo com o que eles digam. Não tenho medo deles. — respondeu Sakura, firmemente.
— Mas não é o que eles farão com você, sua ingrata! Eles vão me encher o saco. Sua mãe dirá que a culpa de sua rebeldia é minha. Não estou em posição de lidar com aqueles dois por sua infantilidade.
— Isso não tem nada a ver com minha “infantilidade.” — rebateu Sakura, dando ênfase à última palavra. — Deixe as coisas comigo. Eu não sou mais criança, Gaara. Eu sou maior de idade, sei o que faço e não preciso que olhem por mim o tempo todo. Estou farta de tudo isso.
Após as palavras, Sakura jogou as mãos para o alto. Andava de um lado para o outro, ignorando o olhar de seu noivo sobre si.
— Por que fez isso? Apenas me responda.
— Eu quis mudar. Nunca gostei daquela cor. — respondeu, sincera. Gaara, assentiu, tentando buscar toda a paciência que há tempos não tinha.
— Tudo bem, vou dar um jeito nisso. — ele se aproximou de Sakura, fazendo-a olhar em seus olhos. Sua mão direita tocou o rosto sereno da mulher, alisando o local com as costas da mão. — O que não faço para você, meu amor? Sakura, minha ninfa, por que não abre seu coração para mim? Deixe-me entrar e nada, absolutamente nada, lhe faltará.
Sakura fechou os olhos. Por um momento, Gaara acreditou que aquele ato foi mediante ao seu toque, porém os pensamentos da mulher eram outros.
Não podia ver-se dando a este homem o que ele tanto lhe pedira. Não era opção. Não era egoísmo. Basicamente, classificava sua falta de afeto por não haver amor. Nunca fora uma pessoa que acreditasse em amor à primeira vista, tampouco em contos de fadas.
Sempre soube que a realidade era como física moderna, composta de várias camadas, cada qual com seus princípios e leis. Isso vai contra o reducionismo mais radical, que diz que tudo pode ser compreendido partindo do comportamento das entidades fundamentais da matéria. Irônico uma mulher pensar assim. Basear-se em complexos e crenças que reluzem o certo e o errado.
Segundos se passaram e Gaara olhava atento para o rosto alvo de sua noiva. Ela não demonstrara nada ao toque de suas mãos em sua pele.
— Diga-me o que tanto pensas. — pediu ele. Sakura abriu os olhos lentamente.
— Eu não te amo. — respondeu quase pausadamente. Não desviara um segundo sequer do olhar de seu noivo. Gaara, afastou-se lentamente, ficando de costas para a mulher. Suas mãos na cintura demonstravam o quanto ele estava decepcionado com o que ouvira segundos antes.
— Tudo bem. Tenho o tempo a meu favor, não preciso apressar nada. Deixarei que seu coração se abra naturalmente. — disse mais para si mesmo, ainda de costas.
— Se não tem mais nada para falar comigo, irei para o meu quarto. — disse ela. Sakura subiu os degraus. Parou no meio da escadaria após ouvir seu nome ser chamado. Virou-se para olhar seu noivo que lhe encarava com a sobrancelha erguida.
— Prefiro seu tom natural.
— Eu não. — respondeu sincera, lembrando-se, por um segundo, que seu segurança privado havia achado exatamente ao contrário. Sem esperar pelas palavras do ruivo, terminou de subir às escadas e caminhou até seu quarto, passando o resto do dia no local.
X
Durante a semana, saiu para compras ao lado de sua amiga Hinata. A morena, incrivelmente atraente, era um modelo de elegância e bons modos. Sakura, jamais invejou isso, tampouco soube os motivos de sua amiga ser tão fina e acatada. Não compreendia como pessoas poderiam viver como ela. Aprisionadas. Sem livre arbítrio.
Jurou para si mesma jamais pensar igual a Hyuuga. Um dia seria livre. Teria escolhas e realizaria seus sonhos ou, pelo menos, parte deles. O resto da semana fora sossegado. Seus pais ainda não haviam retornado da viagem e Gaara estava bastante ausente. Não que estivesse reclamando disso, muito pelo contrário, a ausência de seu noivo era melodia para seus ouvidos.
A Noite fria convidara a refletir sobre a vida e seus ciclos. Sakura encontrava-se de bruços sobre a cama. Suas mãos juntas uma à outra servindo-lhe de travesseiro. Os sonhos de criança e adolescente preenchendo seus pensamentos com um turbilhão de emoções que julgava promíscuo. Um vento superficialmente frio, batia-lhe o rosto, lembrando quem ela era e que o frio não era somente o vento, mas o que ela estava se tornando.
Ignorou o sentimento de nostalgia florescer em si e fechou os olhos, respirando profundamente em seguida.
Queria ter coragem de fugir de tudo o que lhe prendia. Não era egoísmo, tampouco ingratidão. Amava seus pais, nunca duvidara disso, porém a corrente que eles lhe colocavam a fazia sufocar. Viveu diante de tudo que seus pais julgavam bom e melhor. Londres, capital da Inglaterra, fora onde nasceu e cresceu. Nunca teve muitos amigos, Hinata foi à única quem já recebeu esse tratamento de si. Estudou sua vida inteira com professores particulares. Devido a isso, nunca teve oportunidade de conhecer muitas pessoas e sair com a galera. Coisas assim via somente em filmes.
Abriu os olhos, levantando-se da cama em seguida. Parou em frente à janela, vislumbrando à noite. Lá fora, a escuridão ofuscava o brilho da lua. O pio da coruja ou o farfalhar das folhas brincando com o vento eram os únicos sons audíveis. Algo a mais lhe chamou atenção, fazendo-a ponderar em descer até àquela figura. Sem muito pensar, caminhou até a porta, saindo pela mesma.
Chegou ao jardim, que tinha somente o brilho da lua como iluminação. Seus olhos procuraram pela figura que minutos antes havia visto. Ele estava de costas para si. Seus braços caindo sob a cintura e sua cabeça ligeiramente arqueada. Sakura deu um passo a frente, ficando a alguns metros do moreno que parecia não perceber sua presença.
— O que faz aqui? — perguntou ela, seus braços cruzados no peito deixava claro que estava sendo afetada pelo sereno da noite.
— Não deveria estar aqui fora uma hora dessas, senhorita Haruno. — respondeu ainda de costas. Sakura deu mais alguns passos, agora parando quase ao lado do homem.
— Estou sem sono.
— Se ficar aqui, pode pegar um resfriado. — somente agora ele a olhou. Seus olhos cruzaram-se por alguns segundos, porém, Sasuke voltou a fitar o céu.
— Tudo bem, mas e você? Pode pegar um resfriado também, senhor Watanabe.
— Não se preocupe comigo.
Sakura revirou os olhos. Julgava típico dos homens falarem assim. Independente da classe social, todos eram iguais, meros machistas.
— Não está com sono?
— Não. — seu tom deixou claro que não estava a fim de conversas. Sakura, não somente percebeu, como respeitou isso, calando-se em seguida.
O silêncio perdurou por longos minutos. Sakura, não se sentia tediosa por este, ao contrário, sentia-se incrivelmente pacífica. A calmaria que lhe invadia era plena, fazendo-a esquecer dos conflitos internos que a pouco, tanto lutava. Agradeceu mentalmente por ter avistado o homem no jardim.
Uma rajada gélida sobrou na direção do corpo de Sakura, fazendo-a tremer levemente, não passando despercebido por Sasuke, que retirou o blazer e sem sequer perguntar, depositou-o sobre os ombros dela. Sakura o olhou, surpreendida, repuxando levemente os lábios num pequeno sorriso em agradecimento.
— Obrigada. — murmurou quase inaudível. Se não fosse o silêncio daquela fria noite, Sasuke jamais teria ouvido aquele agradecimento.
— Hm. — Ele voltou a fitar o céu, perdendo-se sob a escuridão do luar.
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