Segurança Privada
18 XVII - Décimo Sétimo.
Notas iniciais
Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
—Fernando Pessoa.
Estávamos dentro do táxi rumo à casa do Sasuke. É claro, sentamo-nos no banco traseiro, Sasuke ao lado direito e eu ao esquerdo.
Meus olhos ardiam, ainda que eu tentasse mantê-los abertos apreciando a bela visão exterior, eles insistiam em se fechar. Eu estava numa batalha constante entre mantê-los abertos e fechados. A segunda estava ganhando em disparado.
Desistindo de tentar mantê-los abertos, encostei a cabeça na janela, porém, à medida que o veículo avançava, minha testa ia batendo contra o vidro.
Suspirei, bocejando em seguida.
Sasuke, contudo, reparou em minha batalha interna, pois tratou de se aproximar, usando a mão esquerda em meu queixo para me fazer deitar sobre seu ombro. O toque gélido fez-me arrepiar, mas logo que senti minha bochecha contra a blusa aquecida pela temperatura corporal, relaxei.
Deixei meus olhos se fecharem, novamente bocejando antes de me perder no mundo utópico.
X
O som da porta se abrindo me tirou do sono, atraindo minha atenção. Abri os olhos lentamente, sentindo a ardência ao focar na luz que vinha da varanda. Minha cabeça ainda estava apoiada no ombro do Sasuke, e tive que piscar algumas vezes até conseguir enxergar com nitidez, sem o desfoque anterior.
— A bela adormecida acordou. — o tal Kakashi disse. Pisquei freneticamente, encarando-o. Ele estava com a máscara somente sobre a boca, deixando a maior parte do rosto descoberto.
— Chegamos. — sussurrou Sasuke, ao pé do meu ouvido, fazendo com que meus pelos eriçassem com o sopro de sua voz em meu lóbulo.
Sentei-me ereta ao banco. — Quanto tempo dormi? — levei as costas da mão direita aos olhos, esfregando-os freneticamente.
— Não se preocupe. Venha, temos acomodações suficientes, senhorita. — Kakashi deu a volta, abrindo a porta esquerda para mim.
Agradeci com um murmuro rápido.
Sasuke ficou alguns segundos conversando com o taxista. Após, andou até o lance de escadas.
— Peço que permaneça calmo, Sasuke. — Kakashi alertou, e estranhei o fato dele estar falando em inglês.
No instante seguinte, à porta da casa se abriu num rompante, revelando uma figura feminina, que correu na direção do Sasuke, envolvendo-o num abraço de urso. Pude sentir o sopro bater-me ao rosto assim que ela passou por mim, fazendo com que minha franja, antes cobrindo toda a fronte, se emaranhasse.
Segui com os olhos os braços esguios enlaçar o pescoço do Sasuke. Os peitos femininos apertarem a região torácica dele, de modo que os pés dela ficaram suspensos no ar.
Meus lábios se separaram instantaneamente num perfeito “o”.
— Senti tanto su falta. — ela falou. O timbre agudo se instalou em meus ouvidos e não pude deixar de fazer uma careta assim que ela afrouxou o abraço para alisar o rosto másculo. — ¿Dónde has estado? ¿Por qué no venir a mí? (Por onde esteve? Por que não me procurou?).
— Karin, deje Sa-
No entanto, Kakashi fora interrompido pelo dito cujo, que pegou os braços femininos pelo pulso, afastando-os do rosto.
— Mais que caralhos, Karin! — ele soltou os pulsos, afastando-os de si. — Que haces aqui? (O que você faz aqui?)
Porém, era para Kakashi que Sasuke olhava. Pelo tom usado, pude deduzir ser um questionamento. Ele esperava a resposta olhando para ambos, sucessivamente.
Passei a batucar o chão com meu pé direito, impaciente.
A mulher era, desgraçadamente, bonita. Pele clara, olhos castanhos claro opacos e cabelos rubros, sem contar o corpo curvilíneo, proporcional aos 1,70 de altura.
— ¿No sentir nostalgia...? (Não sentiu saudades...?). — ela o olhou com a testa franzida. Seus lábios repuxaram-se para baixo assim que Sasuke bufou. — ¿Por qué...?
— Esto es un ultraje, Kakashi! (Isso é um ultraje). — Sasuke explodiu, jogando ambas as mãos para o alto, afastando-se de ambos até a soleira da porta. — No estou a la escucha de este! (Não tenho que ficar ouvindo isso).
— Permítanme explicarlo...
— No. Vamos, Sakura. — assim que Sasuke pôs a mão sobre a maçaneta, à porta se abriu novamente, revelando o tio. Se não me falha a memória, Obito.
Sasuke gargalhou, tornando a olhar para a mulher, que estava paralisada. Pode-se dizer, em choque.
— Você também?
— Ela está morando aqui. — Obito pronunciou cada palavra num inglês perfeito. — Kakashi não te comunicou, sobrinho?
A expressão do Sasuke era clara como a água. Ele estava indignado, tão quanto eu, senão mais.
— É verdade? — sua pergunta fora direcionada a Kakashi, que apenas anuiu, tranquilo. Bufando, Sasuke passou a mão pelo rosto, um gesto claro de nervosismo. — Não posso acreditar que permitiram isso...
— Eu tentei avisar. — Obito tentou se justificar, o sorriso cínico nunca deixando sua face. — Bom, tenho que ir. Tenho certeza que Kakashi resolverá esse pequeno problema. — deu ênfase a palavra, olhando para a ruiva antes de se retirar.
O silêncio se impregnou, de modo que Sasuke respirava em arfadas curtas. Suas largas costas tensionadas e rígidas fazia-o parecer uns anos mais velho.
Karin e Kakashi se entreolharam, e o mais velho fora o que tomou a iniciativa, andando até Sasuke.
— Tenemos que charlar. (Temos que conversar).
— Estoy sen-
— Sasuke, tiene muchas cosas que usted necesita saber. (tem muitas coisas que precisa saber). — Oh, eu estava ficando irritada por não entender uma palavra pronunciada por eles. Karin se tornara atenta ao diálogo Espanhol.
— No quiero saber nada. (Eu não quero saber de nada).
— Basta con escuchar a Karin, ¿Ok? (Só escute a Karin, tudo bem?) — Dito isso, Kakashi apalpou três vezes as costas de Sasuke.
Com um aceno rápido de cabeça, Sasuke adentrou a casa.
— Vamos, Sakura.
Ainda desnorteada pelo ocorrido, apenas o segui rapidamente, subindo o pequeno lance de escadas até passar pela soleira da porta.
A parte interior da residência era confortável e bem cuidada. Os móveis eram claros, carvalho prata, compatibilizando harmonicamente com o chão de madeira.
Percorri os olhos nos quatro cantos da sala, dando-me conta apenas da presença de Sasuke assim que ele pigarrou para me chamar atenção.
— É bonito aqui dentro... — ele apenas concordou. — Diferente das casas da Inglaterra.
Passei a mão sobre o encosto do estofado aveludado enquanto caminhava até Sasuke, que estava parado no primeiro degrau da escadaria.
— Vou te mostrar a casa. — disse, subindo os degraus. Olhei por suas costas, seus passos, torcendo o pescoço para tornar a olhar a sala, que tinha uma enorme janela com vista para a piscina. À noite, o luar iluminava a parte inferior da casa, e o brilho gracioso adentrava a sala tornando-a impecavelmente atraente.
Subi as escadas em passos lentos, ouvindo o estalar da porta se fechando. Logo, o som das vozes de Kakashi e da moça abrangeu o local.
Deixei as vozes para trás, acompanhando Sasuke, que parou de frente para a primeira porta à esquerda.
— Esse é o banheiro. Tem outro no andar debaixo, caso prefira.
Assenti, e Sasuke se dirigiu até a última porta.
— Este é o meu quarto. Não há muitos cômodos, apenas os necessários. — ele destrancou a porta, dando espaço para que eu entrasse.
— Dormirei aqui com você...? — acho que minha voz saiu mais desesperada do que eu quis transparecer. Internamente, cogitar a possibilidade de dormir no mesmo quarto, mesma cama, que Sasuke, era abrasador e apavorante, em medidas proporcionais.
Tratando de corrigir o mal entendido, Sasuke tornou a falar. — Você que sabe. Quero dizer, temos um quarto de hospedes... Não é lá grande coisa, mas talvez você quei-
— Eu fico aqui. — o interrompi, engolindo a seco em seguida. Ainda que minha mente estivesse ofuscada pela possibilidade de dormir com Sasuke, tentei manter a calma.
Eu não queria causar problemas. Não queria dar trabalho mais do que já estava dando. Ele certamente convidou-me para dormir em seu quarto, que mal há?
— Então... pode ficar a vontade.
Assim que ele pronunciou as palavras, caminhei até próxima à cama, observando o quarto masculino. Os moveis e suas composições eram escuras, de uma madeira tabaco. Não havia muitas coisas. Um computador empilhado sobre uma escrivaninha lateral. Um armário com portas de correr, conjunto da cama de casal. A persiana cinza impossibilitava observar para onde dava a vista da janela.
Um pouco sem jeito, esfreguei ambas as mãos, me virando para olhá-lo.
— A cama é grande, cabemos ambos.
— Se quiser, eu posso ficar no sofá. — Sasuke apontou para o sofá de dois lugares ao canto direito. Neguei rapidamente.
— Não. Quer dizer... está tudo bem. — garanti. — Agora, eu só preciso de roupas.
— Ah. — Sasuke pareceu lembrar-se. — Venha.
Ele saiu pela porta, deixando-a aberta para eu segui-lo. Cruzamos o corredor à direita, em outro estreito corredor composto por três portas.
Sasuke entrou na segunda. Segui seus passos, parando no batente, observando o interior do cômodo. Claramente era um cômodo habitado frequentemente, pois havia algumas peças de roupas jogadas pela cama, sem contar na quantidade de papel espalhado nos móveis laterais quase ocultando o notebook.
— Mais que porra! — grunhiu, chutando uma pilha de roupas que ele próprio havia jogado no chão. Sem dizer mais nada, Sasuke passou por mim em disparado. Pude ouvir seus pés chocando-se ao descer as escadas rapidamente.
Um pouco confusa, só me movi quando escutei o primeiro grito. Apressada, parei no topo da escadaria, observando a gritaria no primeiro andar.
— Dime, ¿con qué derecho usted ocupa esa habitación? (Me diz, com que direito você ocupa aquele quarto?).
— Sasuke no es el momento para que esto... (Não é o momento para isso).
— Mierda, kakashi. Maldita Sea!
— ¡Cálmese. (Acalme-se). — Assim que Kakashi disse as palavras desconhecidas por mim, Sasuke olhou-me no topo da escada. Ele permaneceu me encarando por longos segundos, e tenho certeza que compreendeu a confusão, acompanha do pânico, em meu olhar.
— Não posso... — ele apenas sussurrou, crispando as mãos. Com um longo suspiro, Sasuke subiu as escadas de duas em duas. Tornando a olhar para baixo, ele falou .— Obtener otra habitación para dormir. (Arranje outro quarto para dormir).
Sem esperar por mais palavras do Kakashi ou da mulher, que estava usando o corpo de Kakashi como escudo enquanto olhava assustada para Sasuke, o moreno seguiu caminho para o quarto onde estávamos há pouco.
Eu estava em um intenso frenesi.
Haviam acontecido muitas coisas em pouco tempo. Assim que abri os olhos naquele táxi, o ar mudou drasticamente, de modo que o humor de Sasuke passou de agradável, para insuportável.
Obrigando meus pés a moverem-se, tratei de seguir até o quarto onde Sasuke já saía com algumas peças de roupas na mão. Andamos até o corredor anterior ao quarto de Sasuke, onde ele nos trancou.
— Tome. — me estendeu as mudas de roupas. Peguei-as trêmulas, observando os tecidos em minhas mãos.
Após, jogou-se na cama, de barriga para cima.
— De quem são?
— Karin. — ele disse, olhando-me. Bastou aquele olhar para eu entender o quão exausto Sasuke estava.
Mordi o lábio inferior relutante em perguntar. Contudo, resolvi despejar minhas duvidas.
— Ela não vai se importar? — ergui as peças ao questioná-lo.
Sasuke apenas negou com a cabeça. Fechou os olhos, colocando o braço direito sobre a testa.
— Quem é ela, Sasuke? — finalmente consegui perguntar, apertando algumas peças em minha mão. Permaneci longos minutos esperando pela resposta. Realmente achei que não as fosse receber, no entanto, Sasuke respondeu ainda na exata posição posterior.
— Minha ex—namorada. — a resposta não me surpreendeu tanto, pois imaginei algo assim desde que a vi se atirar nos braços dele.
— Ela mora aqui?
Ele sorriu de canto, cáustico, abrindo os olhos para me fitar.
— Acho que sim. Estou tão surpreso quanto você. — ele respondeu ironicamente, se sentando na borda da cama. — Ali tem um banheiro, pode usá-lo. — ele apontou para a porta próxima ao sofá.
Entendi que ele não queria mais tocar naquele assunto, e respeitei sua privacidade, seguindo para o banheiro.
X
No dia seguinte, o clima não estava dos melhores. Sasuke já havia conversado com o Kakashi, e chegado a um bom senso, pelo o que pude perceber; tratando da figura de Karin como invisível.
Não posso dizer que estou satisfeita com isso. Veja bem, eu não a conheço, tampouco os motivos do término do relacionamento deles. Porém, ao que pude perceber, a presença dela o incomodava tanto quanto a mim.
E eu não sabia explicar o porquê. Somente sentir.
Irônico é me incomodar com a presença de Karin, quando ela nada me fez. Ainda assim, não pude sentir-me a vontade. Não quando ela olhava descaradamente para Sasuke. Não quando ela deixava explícito os sentimentos para com ele.
Suspirei.
Não estava ajudando nada usar as roupas dela.
Fui interrompida de meus devaneios com a presença de Kakashi.
— Está gostando da Espanha? — ele se aproximou, parando ao meu lado, observando através da janela da sala.
— Não tenho do que reclamar. — respondi. Em momento algum deixei de olhar para o lado de fora.
O tempo era agradável, e a piscina ondulava minimamente. O céu cerúleo era refletido pela água, deixando-a ainda mais atrativa.
— Sasuke disse que você precisa de roupas novas. Se quiser, podemos ir compra-las.
Segurei a borda da blusa que estava vestindo, crispando as mãos.
Aceitei suas palavras ao tempo em que o olhava. Kakashi sorriu por trás da máscara.
— É uma bela moça, Sasuke tem sorte de tê-la.
— Sasuke e eu somos apenas amigos. — respondi num sopro, sentindo minhas bochechas esquentarem aos olhos do mais velho.
— Você gosta dele. — não fora uma pergunta. Ele afirmou, somente.
Tentando justificar suas palavras, embolando-me em minhas próprias, tratei de tomar fôlego para investir em meus motivos para negar as palavras dele.
— Sasuke me ajudou muito, sou bastante grata a ele. — fora o mais plausível para me justificar, mas, ainda assim, Kakashi pareceu relevar os fatos, o que me deixou encabulada.
— E vocês se aproximaram após isso... — ele deduziu. O que, de fato, não era mentira.
Todavia, não era bem uma aproximação do modo como Kakashi pensava. Sasuke e eu realmente nos aproximamos, mas era tudo profissional. Ele era meu segurança, oras, e nada mais justo e correto do que salvar-me quando precisei.
E eu... Sei que não posso afirmar veemente o que sinto quando estou perto dele. Fora ele quem esteve cuidando de mim nas últimas semanas. Ele quem me protegeu, quem arriscou a própria vida, e confesso que os sentimentos diferem quando se trata de Sasuke e Gaara.
Ainda assim, eu não posso afirmar algo assim.
Gostar do Sasuke? Sentir algo a mais que gratidão?
Não, realmente não tenho certeza quanto a isso, ainda que a atração que sinto por ele seja clara.
Não precisei respondê-lo. Kakashi era um homem sábio, vivido, e ele próprio tirou suas conclusões quanto a Sasuke e eu. Quem sou eu para fazê-lo mudar de ideia?
No fundo, bem no fundo da minha alma, sei que meu silêncio respondeu tanto para ele, quanto para mim.
Permanecemos mais alguns minutos em silêncio até que Kakashi tirou do bolso da calça a chave do carro. Então seria ele a me levar para comprar algumas poucas peças de roupas, e não Sasuke.
A decepção era nítida em minha face. Entretanto, tratei de ocultá-la da melhor forma, sorrindo.
Durante todo o trajeto, enquanto o silêncio permanecia no interior do veículo, minha mente me levava até aquela primeira noite em Ibiza. Para todos os cantos que eu olhasse, inclusive o meu reflexo fajuto no vidro da porta do carro, trazia-me lembranças do quão constrangedor fora partilhar a mesma cama que Sasuke.
— Você pode usar esse cobertor. — disse Sasuke, jogando sobre a cama a manta clara com estampas floridas. Anuí apenas, correndo para debaixo da manta, envolvendo cada parte do meu corpo, de modo que meus pés roçavam-se um no outro.
Sasuke usava calça moletom cinza e blusa preta regata, a última fora tirada de seu corpo enquanto ele andava até o seu lado da cama.
Eu devia parecer a mulher mais patética da face da terra, porque cobri metade do rosto, deixando apenas meus olhos seguirem a figura do homem.
Ele contornou a cama, deitando-se de barriga para cima. Antes, é claro, olhou-me com a sobrancelha levemente arqueada. Corei absurdamente sob seu olhar, agradecendo por estar com o cobertor escondendo parte do meu rosto.
Após estar deitado, Sasuke pareceu incomodado com algo, remexendo-se por diversas vezes até finalmente abrir a boca. — Tem algo de errado, Sakura?
Neguei rapidamente, balançando a cabeça mais rápido do que o necessário.
Sou tão patética.
Ainda que estivéssemos separados pelos grossos cobertores, meu corpo pôde sentir a quentura corporal de Sasuke. Ainda que eu fechasse os olhos, apertando-os fortemente, minha mente insistia em me fazer abrir os olhos e espiar o homem que dormia tranquilamente, o peito subindo e descendo em sincronia.
Suspirei dentro do carro, fazendo com que Kakashi me espreitasse de canto.
— O que foi? — perguntou, mantendo o olhar na estrada. Garanti que estava apenas com uma leve dor de cabeça. Kakashi disse que passaríamos numa farmácia para comprar alguns analgésicos antes de irmos a algum shopping local.
X
Bom, cá estou eu dobrando algumas peças de roupas numa gaveta do guarda-roupa de Sasuke.
Confesso que é plenamente estranho estar aqui. Plenamente estranho respirar esse ar, e ainda mais saber que me encontro tão distante do Reino Unido.
Se tenho saudades? Bom... Saudades é uma palavra um tanto forte. Eu não a usaria para qualificar meus sentimentos atuais. No entanto, não posso dizer que não sinto nada.
Tudo ainda é tão esquisito. Quero dizer, uma hora eu estava olhando pelas ruas inglesas, admirando as pessoas, as lojas, o ambiente num todo. Eu estava focada num quadro, contemplando a arte moderna, contemplando as cores que compunham aquele quadro, e, no outro, eu estava desesperada em busca de auxílio, em busca do Sasuke para me auxiliar, me proteger e me tirar daquele alvoroço.
Desde então, desde aquele fatídico ocorrido, eu venho tentando formular minha mente o mais clara possível. E fazer isso está me saindo mais difícil do que imaginei.
O pior era as palavras da noite anterior. Lembro com clareza Sasuke afirmar que Gaara tinha a ver com tudo isso. Eu só não consigo imaginá-lo metido nisso.
Gaara sempre foi um maldito presunçoso que insistia em ter-me para si, como um troféu. Contudo, imaginá-lo sendo o mandante pelo atentado a mim, era, até mesmo, surreal.
Não que eu duvidasse das insanidades do Gaara. Ele, desde sempre, deixou claro o quão insano pode ser, quando quer. Apesar de achar essa história um tanto quanto mal contada, eu, no fundo, confio no Sasuke. Por mais que minhas mãos estejam trêmulas enquanto dobro meticulosamente as roupas e ponho-as dentro da gaveta, e em minha face eu sinta meus lábios trêmulos e meus olhos marejados, não consigo retroceder, tampouco desistir de tudo. Basta olhar para Watanabe para que meus questionamentos se esvaeçam e tudo pareça exatamente como deve parecer.
Engraçado, não? Porque, há um mês eu diria estar internamente compelida a me afastar de Sasuke e os efeitos que ele causava em mim. E agora, cá estou eu em uma luta interna onde o lado vencedor é aquele que me empurra para meu segurança, mais e mais, e eu não posso interferir. Não quando eu só consigo me aproximar, como um imã, dele.
Sou despertada dos meus pensamentos com a porta se abrindo.
Paro imediatamente de dobrar as roupas, olhando para a figura de Sasuke que acaba de entrar no quarto.
Ele caminha até a cama, sentando-se na borda, as mãos cruzadas no colo.
— Kakashi te auxiliou nas compras? — percebo que a pergunta saiu um tanto quanto hesitante, e apenas anuo diante da sua presença.
Desde que saí com Kakashi, Sasuke e eu não nos falamos. A verdade era que eu havia o questionado sobre algumas coisas, estas que ele não quis me responder. É claro, nos desentendemos e ele acabou mandando Kakashi ir comigo.
Ele sorriu, parecia estar travando perguntas internas, e eu quis saber o que era tão engraçado para ele estar com aqueles lábios repuxados para cima. Antes que eu pudesse perguntar, Sasuke tornar a falar.
— Ele disse que teve que parar na farmácia pra comprar alguns remédios. Você está bem, Sakura?
— Sim, estou ótima. — afirmei. — Forte como um touro.
Ele analisou minhas palavras, deixando o sorriso sumir da face.
— Eu sei que ficou chateada por eu não querer falar certas coisas. Peço que entenda que eu não posso falar, — ele despejou tudo de uma vez, completando num sussurro. — por enquanto...
Levantei-me do chão limpando as mãos uma na outra, e andei até próxima dele, me agachando na sua frente.
— Eu só quero que possa confiar em mim. Eu estou aqui, Sasuke, e eu realmente preciso que você confie em mim. — olhei firmemente em seus olhos tentando passar toda a confiança que eu sabia, Sasuke precisava. — Não quero que haja mentiras entre nós, então se você tem algo pra me falar, fale agora! Eu estou sendo o mais transparente possível, e eu até estou em outro país porque eu acredito em você, porque eu sei que você só quis me proteger e é isso que está fazendo. Mas eu sinto que você está escondendo muitas coisas de mim, e está ficando quase insuportável lidar com isso.
Acho que nunca falei tantas palavras em uma só frase para Sasuke. Porém, ele absorveu cada palavrinha por mais insignificante que possa ter sido, e analisou-as com cautela. Agradeci mentalmente por ele não estourar, acusando-me de ser intrometida.
— Eu- — ele hesitou, fechando os olhos brevemente antes de tornar a abri-los. Naquele momento, pude perceber o quanto ele se sentia tentado a se abrir, e não sei qual fora a razão que o fez desistir, mas no último segundo, ele desistiu, desviando o olhar ao tornar a falar. — Eu não tenho nada a dizer. — completou.
Não posso dizer que não me senti angustiada por ele ter desistido no último segundo. É claro que eu sabia que Sasuke escondia certas coisas, a começar por essa casa que, deveras, uma pessoa que trabalhava de segurança nunca conseguiria manter.
E depois tem o jatinho, e Ibiza, e Kakashi e Obito e Karin...
E engolir tudo isso era, de fato, algo complicado. Mas acho que estou lidando bem com isso, na medida do possível.
Assim que Sasuke afirmou não ter nada a dizer, só pude colocar o melhor sorriso em meu rosto, assentindo mais para mim mesma enquanto me levantava e me afastava, tornando a dobrar as peças de roupas. Não me dei ao luxo de olhar para trás uma vez sequer, apenas ouvi a porta se fechar e soube que estava sozinha no cômodo. Tratei de soltar a respiração que há pouco prendia, sentindo um vazio no estômago.
X
O restante do dia se passou rapidamente, de modo que logo o comecinho da tarde já estava chegando.
Em Ibiza, o sol, que há poucas horas estava a pino, já deixava o céu num pôr-do-sol estonteante.
Eu havia passado a maior parte do tempo, desde que cheguei da rua com Kakashi, dentro do quarto. E agora que os últimos raios solares deixavam o céu de Eivissa, eu estava admirando o belíssimo pôr-do-sol em pé próxima da piscina que tinha uma vista incrível para o mar.
A casa do Sasuke era deslumbrante. Tudo era em perfeita harmonia, e podia-se ouvir o som das ondas se chocando a areia. O atrito era confortável, e por diversas vezes enquanto estava no quarto, fechei os olhos suspirando profundamente enquanto ouvia o marulho. Podia-se sentir até mesmo a maresia, o que era plenamente agradável.
A minha sombra projetada pela luz que provinha do céu já começava a se apagar, e num reflexo rápido, avistei outra sombra se aproximando.
Abracei a mim mesma, não virando para olhar o homem que eu sabia estar ali parado próximo a mim. O perfume era inconfundível.
Ele permaneceu em silêncio por longos minutos, e eu soube que ele apreciava aquela imagem tanto quanto eu.
— Lembra que eu disse que te levaria a um lugar? — ciciou, num sopro.
— El camiño para cruzar la Frontera. — Falei, com um pouco de dificuldade, confesso, mas consegui pronunciar palavra por palavra e, ao final, sorri por me lembrar perfeitamente.
A verdade era que desde que Sasuke havia me dito aquele nome, minha mente vinha reproduzindo as palavras com grande frequência.
— Sim. — ele se aproximou, parando ao meu lado. — Você quer ir até lá? — senti certa hesitação em sua voz, mas dei de ombros.
— Quero. — soltei meus próprios braços, deixando-os cair eretos em cada lado da minha cintura, e olhei Sasuke. — Você vai me levar hoje?
Ele anuiu, sorrindo graciosamente. Suas constantes mudanças de humor iriam me levar à loucura, eu tinha certeza. Mas, por enquanto, ignorei esse fato, agradecendo por ele tirar-me do inferno particular ao qual eu vinha vivendo nos últimos tempos.
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