Segurança Privada
13 XII - Décimo Segundo.
Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.
—Madre Teresa de Calcutá
O ambiente mal iluminado deixara Sakura oscilada, de modo que seus pés andavam de um lado para o outro dentro da pequena sala. Sasuke acompanhava com o olhar cada movimento exercido pela mulher, que volta e meia batia os pés, inquieta.
Não adiantara falar nada para que a moça se aquietasse. Ainda que Sasuke já tivesse tentado começar um diálogo – o que não era nada normal vindo dele — Sakura não cooperava, deixando o clima tenso pairar no ar.
O pior havia sido de madrugada, quando já não mais aguentavam acordados e seus sentidos clamavam por descanso. Sakura, que permaneceu quieta após ser verbalmente ofendida, se rendeu ao cansaço e deitou-se sobre o sofá. Seu corpo coube perfeitamente no estofado. A única coisa incomoda fora o aconchego não presente, pois o sofá era de um acolchoado vetusto, com rasgados espalhados e a madeira pressionando seus membros.
Contorceu-se diversas vezes, bufando e expirando com certa rispidez.
Chegou a trocar de lado, mudando a posição sobre a almofada que Sasuke lhe deu.
De nada adiantara suas tentativas de se estabelecer ao menos um pouco confortável.
Desistindo, virou-se para o encosto do sofá e colocou o braço sobre a cabeça, fechando os olhos e deixando a escuridão lhe invadir.
Sasuke quis rir enquanto jazia sobre o colchonete ao chão.
Observou cada expressão de Sakura, o que foi meio engraçado quando ela se contorcia liberando ruídos vocais.
Assim que percebera que ela finalmente havia pegado no sono – depois de aproximadamente 2 horas — Sasuke virou-se de barriga para cima fitando o teto mofado.
Seu braço em cima da sua cabeça, enquanto o restante do corpo era coberto pelo fino lençol.
Perdurou por longos minutos na mesma posição esperando o sono finalmente lhe consumir, ou, ao menos, um breve cochilo. No entanto, acabara desistindo assim que passara das 03h00min.
Olhou para Sakura, que dormia tranquilamente sobre o estofado que horas antes a deixara extremamente irritada. A fraca iluminação no corpo feminino transluziu uma aura brilhante, e Sasuke apenas pôde admirar aquela imagem, ainda que sua visão fosse fosca devido à luz precária.
Os cantos dos lábios se repuxaram para cima num sorriso discreto.
Sakura não era de todo mal; era até engraçada quando queria.
Sem conseguir dormir, levantou-se assim que a mulher se encolheu mínima, e levou consigo o lençol verde que lhe cobrira. Usou o tecido para embalar o corpo da moça, deixando apenas a cabeça livre.
O tecido subia e descia em sincronia com a respiração serena de Sakura.
Sasuke permaneceu olhando-a por alguns segundos, vislumbrando a mulher que agora teria de proteger, o que não seria nada fácil visto que mal sabia o que estava acontecendo na cidade.
Suspirou, virando-se e voltando para seu colchonete nada confortável. Após se sentar, olhou uma última vez para Sakura. Seu coração – antes calmo – disparara em ligeira, saltando no peito de modo que Sasuke pôde sentir as batidas em sua cavidade torácica.
Em cima do lençol que cobria Sakura, um roedor andejava.
O camundongo fazia círculos sobre a região da barriga da jovem, e guinchava agudo.
Sasuke permaneceu olhando para o pequeno roedor sem quaisquer reações. Suas atitudes esvaeceram-se ao visualizar o ratinho bem em cima da mulher, e seus olhos prenderam-se àquela cena, sem saber o que fazer.
Ajoelhou-se no colchonete, mirando o roedor e focando total atenção as ações do bichinho.
Seus joelhos moveram-se espontâneo em direção ao sofá, até que parou há poucos centímetros do corpo da mulher, que estava relaxado em um sono profundo.
Com a mão direita, Sasuke tentou afastar o bichano, proferindo em sussurros “Shiu”, “Sai”, “Chispa”. No entanto, a tentativa foi em vão, visto que o roedor apenas se agitou, chiando ainda mais alto.
Era só o que faltava, pensou Sasuke. Além de o camundongo lhe fazer uma visita, ainda tinha que estar bem em cima da sua patroa. Logo ela.
— Sai daí. — ronronou em baixo tom. — Sai. Sai daí, rato. — Sasuke praguejou mentalmente por não conseguir afastar o roedor.
Aproximou-se ainda mais, olhando agora a direção em que o camundongo seguia, esta que era para a parte superior. A camada espessa de suor em sua testa o fez passar as costas da mão para secá-la.
Novamente, aproximou-se. Teria que retirar o roedor dali sem acordar a mulher, e isso seria bastante complicado.
Suspirou antes de erguer o braço em direção ao rosto de Sakura. O camundongo agora estava sobre a região torácica.
Sasuke, com todo o cuidado que não lhe provinha, abanou a mão na fútil tentativa de afastar o bichano.
No entanto, Sakura abriu um olho, mirando a mão de Sasuke próxima a seu rosto.
Assim que seus pensamentos se tornaram mais elaborados, suas bochechas pigmentaram num rubro ardente e, rapidamente, abriu o outro olho, pendendo a cabeça para o lado e vislumbrando o rosto de Sasuke próximo ao seu.
As batidas frenéticas do coração da mulher podiam ser ouvidas por todo o cômodo, e Sakura, consciente disso, tentou se aquietar em meio ao breu.
— Fique quieta. — fora tirada de seus pensamentos irracionais com a voz de Sasuke sussurrando a centímetros do seu rosto.
Engoliu a seco, deixando a boca minimamente aberta e os olhos semicerrados. Tentou focar no rosto másculo, definir cada linha de expressão enquanto ele se aproximava, mas sua visão fosca não lhe permitiu, fazendo do rosto angelical um repleto borrão.
Sakura pensou estar sonhando e, diante da própria conclusão, seus lábios se torceram em um sorriso amargo.
— Sh. — novamente Sasuke ganiu, e Sakura piscou os olhos freneticamente. Queria ter certeza que não estava sonhando, e soube disso após sentir o sopro cálido em seu rosto.
Agora, a jovem já não mais podia segurar as batidas alteradas do seu órgão central.
Ele se aproximara, mais e mais, e Sakura apenas esperou para sentir os suaves lábios aos seus. Fechou os olhos delirante naquele declive de sentimentos.
Sua testa se franziu ao constatar algo mover-se em sua barriga.
Ela então abriu os olhos mirando Sasuke, que agora estava mais concentrado em algum ponto abaixo de si.
— Não olhe. — ele sussurrou ao mesmo tempo em que as íris de Sakura baixaram, olhando o que se movera segundos antes.
O grito estridente invadiu o quarto, ecoando por todo o galpão abandonado.
Sakura se levantou num pulo, jogando o lençol para qualquer lado e correndo para cima da bancada que dividia a mini cozinha da sala/quarto. Demorou alguns segundos até conseguir finalmente subir no mármore. Seus gritos não cessaram em momento algum.
— Cala a boca, Sakura. Está espantando o rato! — Sasuke reclamou em alto tom, fuzilando-a com o olhar.
— Meu Deus, ele estava em cima de mim. — Sakura se tremia ao constatar o óbvio. Seu corpo arrepiara-se apenas com a simples lembrança do roedor. — Ele-Ele estava em cima de mim. — a jovem repetia diversas vezes.
Ignorando o resmungo irritante da mulher, Sasuke concentrou-se apenas em procurar o camundongo. Acendeu a luz no interruptor ao lado da porta, e olhou para o lugar em que Sakura dormira minutos atrás.
— Onde essa porcaria deve estar? — perguntou-se num murmuro.
Seus olhos percorreram os quatro cantos do cômodo, e num movimento rápido captou um vulto indo em direção à geladeira.
— Sasuke, ele correu pra lá. Ai meu Deus, ele é tão grande! — o moreno teve certeza que foi o rato, após as palavras de Sakura.
Não havia nada de grande no ratinho. Muito pelo contrário, era pequeno até de mais. E pensar nisso fez Sasuke revirar os olhos.
— Você está espantando ele, gritando desse jeito! — repreendeu-a, ignorando a queixa que Sakura rebateu.
Pegou a vassoura ao lado do batente da porta de entrada e, sorrateiramente, andou até a geladeira, abaixando-se de quatro. Encostou a cabeça no chão procurando pelo bichano, e não tardou em encontrá-lo encolhido num canto próximo a parede.
“O coitado devia estar com medo dos berros da Sakura!”, pensou Sasuke.
Usou a mão direita para chacoalhar a geladeira e, assim que o roedor correu acudido, usou à esquerda para pressionar a vassoura sobre o rato, que chiou na primeira pancada. Sasuke, rapidamente, bateu com a vassoura, uma, três vezes até o bicho finalmente dar as últimas tremuladas.
— Pronto. — disse assim que matou o ratinho.
Sakura, por sua vez, permaneceu pressionando as palmas das mãos nos olhos, não suportando ver a cena crucial.
— Tira ele daqui, Sasuke! — pediu ela, com a voz chorosa.
Sasuke a olhou por um breve período, arqueando uma sobrancelha e observando a mulher que estava em pânico. Pensou em zombá-la, entretanto optou pelo silêncio para não ter que ouvir novamente a voz da moça.
Com um suspiro pesado, Sasuke retirou o camundongo morto com a ajuda de uma bolsa plástica e jogou o cadáver fora do galpão, pois se o jogasse no lixo o cheiro pela manhã seria insuportável.
Quando voltou da rua, encontrou Sakura ainda em cima do mármore.
Parou, fitando-a até que ela percebera o olhar sobre si.
Retirando as mãos do rosto, Sakura olhou-o com a face lacrimosa.
— Você jogou ele fora? — perguntou ela. A voz nada mais que um sopro, trêmulo, e os olhos cintilando em deleite.
— Sim, lá fora. — afirmou Sasuke. — Já pode descer daí.
— Eu- Err... — Hesitante, com o corpo trêmulo, Sakura começou a descer do balcão, sendo ajudava por Sasuke, que a olhando se atrapalhar no trajeto usou as mãos para ajudá-la, a amparando pela cintura e pondo-a firme ao chão.
— Volte a dormir. — ele mandou. É claro, Sakura contestou, discordando e insistindo em permanecer acordada após o fatídico ocorrido.
Agora, olhando para o trajeto que Sakura fez até o banheiro e pensando na impaciência dela minutos antes, Sasuke percebera que isso era pouca coisa diante do acontecido na madrugada passada.
X
Tanto o homem quanto a mulher, estavam sentados no sofá, de modo que as pernas de Sakura faziam com que Sasuke se encolhesse no estofado, pois ela insistira em sentar-se de lado.
Assistiam na televisão uma programação local de um canal aberto.
O tédio era visível para ambos, principalmente Sakura, que não suportara estar sem checar seu e-mail.
Já haviam se passado dois dias desde o ocorrido no museu. Agora, depois de um dia e meio dentro daquele cubículo, Sakura apenas queria, ao menos, roupas limpas. Estava usando algumas camisas surradas do Sasuke, e isso era incomodo para ela, pois não se sentia inteiramente à vontade por usar trajes masculinos na frente dele, seu segurança.
— Sasuke. — Sakura chamou. Passando-se alguns segundos sem obter resposta, tornou a chamar. — Sasuke.
O moreno, que olhava fixamente para a televisão, ignorou os chamados da moça ao seu lado, controlando-se para não vociferar novamente.
— Sasuke, olha pra mim. — pediu ela, mordendo o lábio inferior.
— O que foi, Sakura? — ele perguntou após cerca de dois minutos ignorando.
Sasuke não estava de bom humor, o que tornava tudo inoportuno.
— Preciso de roupas novas.
E ela realmente precisava. Olhar para si própria naquelas condições deixava-a amuada, de certa forma irritadiça.
— Não dá. — fora a única coisa que disse.
Sasuke não tinha muito que dizer, afinal, estavam nas mesmas condições. Assim como ela não tinha roupas, ele não tinha cigarros, e isso o fazia atribuir um caso ao outro. Sucessivo.
— Sasuke, eu preciso de roupas. Isso é parte de uma higiene e eu não abro mão. — ela cruzou os braços no peito, olhando-o até obter sua resposta.
— Infelizmente, senhorita Haruno, terá que abrir mão! — rebateu num tom hirto.
— Isso não é nenhuma piada! — exclamou Sakura, soltando uma lufada de ar pelo nariz.
— E por acaso tem alguém rindo? — ele a olhou sério, indiferente, e Sakura bufou irritadiça.
— Eu não mereço isso. — Sakura, após dizer isso, se levantou do sofá andando até o armário de parede, onde abriu à porta, sustentando o olhar na parte interior do móvel.
Seus olhos percorreram por toda a prateleira vazia.
— Tudo bem, o que vamos comer? — perguntou, olhando, em seguida, para Sasuke, que observava inerte as ações da jovem.
— Veja você mesma.
Ela quis xingá-lo pela resposta dada, no entanto, calou-se, suspirando lentamente para alívio próprio.
— E então, senhor Watanabe, o que vai querer comer? — Sakura pegou na prateleira superior pão e geleia. — Pão com geleia ou... — ergueu os alimentos para Sasuke olhar. — Geleia com pão? — seus lábios se retorceram num biquinho irônico.
Sasuke sorriu, abanando a cabeça diante das palavras da mulher.
— Você não existe, Sakura. — completou.
X
Haviam quatro dias que estavam comendo pão com geleia. Na verdade, Sakura já havia desistido da geleia e optado apenas pelo pão puro.
As horas arrastavam-se naquele lugar, o que tornara tudo ainda mais exaustivo.
Sakura não tinha noticias de sua família, noivo, ou qualquer pessoa além de Sasuke, que omitia grande parte das respostas que ela queria ouvir.
O cheiro ranço já não mais lhe afetava as narinas, e os mosquitos lhe picando eram o menor dos seus problemas, visto que as baratas estavam sempre presentes fazendo-a gritar à noite toda. Literalmente.
Sasuke, por outro lado, na maioria das vezes tentava acalmá-la, ainda que suas tentativas fossem em vão. Ele, indiscretamente, sugerira para ela não gritar tanto ou o deixaria surdo. É claro, Sakura quis esganá-lo.
A convivência, em sua maioria, era branda, de modo que suas conversas resumiam-se em pequenos diálogos.
Hoje, quarta-feira, Sasuke finalmente havia dito que arrumaria mudas de roupas para ela, e cigarros para ele, além — é claro — de comida, porque comer o pão duro já não era mais opção.
— Você vai demorar? — perguntou ela. Sasuke acabara de sair do banheiro enrolado na toalha azul marinho que ambos vinham compartilhando.
Seu peitoral à mostra, e pequenas gotículas de água deslizavam de seus cabelos, trajando um percurso até sua cintura, onde se encontravam com o pano azul e desapareciam.
Sakura observava aquele trajeto por trás, onde a espeça gotícula percorria pelas largas costas. Uma corrida pecaminosa.
Mordendo os lábios e prendendo a respiração, ela aguardou pela resposta.
— Não. Vou apenas arrumar o necessário. — respondeu distraído, procurando no armário algumas peças confortáveis e limpas.
— Não queria ficar aqui sozinha... — murmurou Sakura, soltando a respiração numa rajada só.
Virando-se de costas, andou até o sofá para não ter que observar seu segurança, que era um pedaço de mau caminho.
— Não demorarei. — dito isso, Sakura escutou o barulho das cortinas do banheiro. Provavelmente ele fora se vestir lá.
Sakura se levantou, andando até o balcão divisor e encostando as costas no mármore. Com os braços cruzados ao peito ficou a observar o chão de concreto. Seus pensamentos longes daquele lugar, mais precisamente na sua casa, onde seus pais deveriam estar desesperados à sua procura. Ou talvez, eles estivessem agradecidos por seu sumiço.
Seus pensamentos irracionais foram interrompidos por Sasuke, que parou à sua frente, plenamente vestido — para seu alto controle.
— Estou indo. — anunciou. — Não abra a porta pra ninguém.
— Tudo bem. — respondeu. Todavia, Sasuke permanecera ali, parado diante de si, encarando-a com as sobrancelhas franzidas. — O que foi?
— Nada. — ele respondeu num sussurro. Ainda assim, permanecera ali encarando-a.
As batidas do coração de Sakura pulsaram freneticamente no peito da jovem assim que Sasuke se aproximou. O rosto a centímetros do dela.
Ela não soube proferir nenhuma palavra, apenas observava a face integra de Sasuke, que lhe devolvia o olhar. Uma troca de olhares mutua, e Sakura pôde observar o próprio reflexo nos olhos negrumes.
— Sasuke, o que- — sussurrou assim que Sasuke se aproximou ainda mais, porém interrompeu suas palavras quando o moreno desviou o caminho para o lado, próximo ao seu lóbulo.
— Preciso que decore esses números. — ciciou no ouvido de Sakura. A voz explicitamente afônica. Assim que disse, depositou nas mãos gélidas de Sakura um embrulho de papel.
— O que é isso? — ela perguntou, ainda que sua atenção estivesse voltada as sensações que a voz de Sasuke lhe causara ao sussurrar tão próxima de si. Apertou o papel na própria mão.
— Apenas decore e queime-o após. — novamente o ar cálido lhe bateu num sopro afetuoso.
Sakura fechou os olhos, respirando com o maior controle possível.
— Ok. — fora a única palavra que disse.
Sasuke permaneceu ali naquela posição, com a mão próxima a mão de Sakura, e o rosto absorvendo o aroma dos cabelos da mulher.
E assim como ele se aproximou, ele se afastou. Rapidamente. Sem olhar para trás, abriu a porta e saiu, deixando Sakura ali, estagnada, com o corpo trêmulo e o coração pulsante.
— O que foi isso? — perguntou a si mesma, depositando a mão ao peito e sentindo seu coração a mil.
Seus pensamentos voltaram-se ao pequeno embrulho em sua mão. Agilmente, Sakura abriu o papel lendo o conteúdo escrito a caneta azul.
Um número que Sakura constatou não ser do Reino Unido, junto com palavras que não faziam o menor sentido.
Senha: Drop
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